quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

MUNDO HIGH TECH E VIDA REAL

Fui assistir no domingo à noite ao remake do Tron, um filme futurista realizado com o suporte tecnológico, que, na época, final da década de 80, era possível acessar. Assisti ao filme-matriz em VHS, não me lembro em que ano. Os críticos comentam que o Tron original não fez o sucesso esperado porque tinha uma linguagem nova, avant la lettre!

O remake do Tron é carregado de efeitos digitais, simulações visuais, movimentos geometrizados fantásticos, que deixariam um cientista do início do século XX eletrizado... O roteiro é interessante e pode ser alvo de uma leitura metafísico-sociopolítica. Os programas dos falecidos videogames da década de 80, encarnados em personagens, rebelam-se contra a tirania do usuário que os criou, o Criador.

Dá para compreender a engenhoca? É como se, na era da robótica, os robôs atingissem uma perfeição tal que pudessem questionar e se insurgir contra seus usuários. Mais longe ainda, é como se os obsoletos I-Pods (traduzindo: ‘os portáteis que todos nós, Eu/vocês, desejamos’) pudessem ter vida própria e criar um tipo de conflito civil contra os mentores/criadores dos celulares de alta tecnologia, equipamentos que os absorveram, os smarthphones e toda a geração hightech de comunicação digital dos noughties, a primeira década dos anos 2000, como os americanos a batizaram.

Muito interessante refletir sobre a ficção em que os personagens de programas de videogame, dos 80, revoltam-se contra seus ‘controladores’. É fácil e automático admirar-se com a ficção tecnológica. Difícil, mazela de nossos tempos, é espantar-se com a nossa própria realidade e reagir, coletivamente, contra ela.

Na vida real, que, não raras vezes, até parece ficção, uma Matrix, referindo-me ao primeiro longa da trilogia, de 1999, o que fazer quando o grupo dos Morpheus (do Mal) ministra instruções e logística aos ‘mocinhos’ liderados por Neo (do Bem)? Neste jogo de lasers, neons e espelhamentos, não sabemos mais quem é de cá e quem é de lá.

Que em 2011, fiquemos mais ligados na essência dos eventos e menos nas aparências!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O PRESENTE DE NATAL DOS PARLAMENTARES

Meu amigo e ex-aluno Fabiano Felten, que, como eu, também gerencia um blog, diga-se de passagem inteligente e atual, escreveu neste final de semana sobre o tema que eu já havia decidido para esta coluna: o aumento dos salários dos parlamentares.

A crônica do Fabiano intitula-se ‘presente de grego’, reportando-se ao cavalo de madeira que os aqueus ofertaram aos troianos, na epopeia de Homero. O episódio da diplomação da semana passada, das manifestações de alguns de nossos representantes, associadas à notícia do aumento de seus salários, deixou-me demasiadamente chocada que, confesso, escrevo estas linhas mais por obrigação formal que por prazer.

A realidade da política nacional lembra-me dos personagens e das observações astutas dos contos de Machado de Assis, especialmente os reunidos em “Histórias sem data”, “Papéis avulsos” e “Várias Histórias”. Um bom presente de Natal, leitor, para quem quer presentear alguém que, além de ler boa literatura, é perspicaz para compreender a profundidade e a atualidade da narrativa ficcional de Machado enquanto um inequívoco libelo contra, sobretudo, a mediocridade humana.

Deixo-lhe, leitor, de presente de Natal (não é um presente de grego, não!), uma singela recomendação de leitura, o conto ‘A Teoria do Medalhão’, que está no livro “Papéis avulsos”, de Machado de Assis, publicado em 1882.

O conto utiliza-se da engenhosa imagem do medalhão, que tem uma face que é opaca, suada e sem atrativos, colada à pele do usuário. A outra, entretanto, a que fica como alvo dos olhos dos outros, é brilhante, vistosa, constituída de atrativos como metais ou pedras.

Fica aí uma provocação para que, neste final de ano, todos reflitamos sobre os “medalhões” que nos representam e sobre aqueles, em particular, que cada cidadão referendou. Um Feliz Natal a todos, muita paz interior e muita saúde a todos os leitores do Diário Regional.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

AINDA SOBRE JOHN LENNON (PARTE II)

Então, contava eu na semana passada que estive em uma retrospectiva da obra artística da Yoko Ono em São Paulo, em dezembro de 2007. Fiquei tão perplexa com suas peças em bronze, em especial, com a camisa do John, que ela transformou em escultura e colocou nela um furo, na altura do peito, e uma lava de tinta vermelha, escorrendo até a bainha, que chorei... Chorei e tive de me recompor, sob o olhar do guardinha, que vigiava a sala de exposição. Eu já havia lido e visto fotografias de obras da Yoko, mas a retrospectiva já tinha itinerado pela Europa e tomava todo o prédio do Centro Cultural Banco do Brasil de SP. O que li e o que eu ouvi, desde menina, sobre a Yoko me trouxeram uma imagem distorcida de sua pessoa e eu não estava preparada para compreender tamanha sensibilidade estética, posicionamento político e amor plasmado em suas obras. Eu estava sozinha em SP e não tinha com quem conversar sobre as minhas sensações e emoções, excesso de interioridade... Daí, penso que compreendi o amor deles. O amor que John exaltava, publicamente, por ela, sete anos mais velha que ele, intitulada de ‘feia’ pelos estadunidenses, que acabara de algoz da dissolução dos Beatles. Ele manifestara, li em uma reportagem em inglês, que gostaria de morrer antes dela, porque não conseguiria sobreviver a ela. Um amor assim não cabia dentro de uma banda – a banda acabou; o amor, não, tampouco o sonho. Na semana que passou, as homenagens foram muitas: Bono Vox abriu o show do U2 em Brisbane, na Austrália, na noite de 8 de dezembro, cantando um trecho de uma canção dos Beatles (jornal de rock Whiplash). Nas noites de 4 e 5 de dezembro, a CNN levou ao ar mais um documentário, intitulado Losing Lennon. Na noite de 9 de dezembro, Paul participou do programa do comediante Jimmy Fallon e cantou com ele, em dueto, a versão original de Yesterday, que falava em ‘ovos mexidos’ (scrambled eggs), dando-lhe uma pista para lembrar da melodia e manter o timing das palavras. Mark Chapman, que já teria direito a sair em condicional, e não consegue que a Justiça americana o libere, um dia sairá às ruas novamente. Imaginem se o povo vai deixá-lo viver em paz, como sonhava o sonho de Lennon para todos? É viver e esperar...

domingo, 12 de dezembro de 2010

A FACE OCULTA DE MAURO ULLRICH

Ontem à noite, não fomos curtir o novo bar da cidade, o Legend Music Bar, mas, sim, ao jantar de despedida do Prof. Flavio Williges, meu ex-colega, amigo eterno e ex-colunista da Gazeta do Sul. A noite estava agradável, com lua e estrelas (a meteorologia errou novamente!). Saímos de lá pelas 2h30 da madruga. Eu poderia ter dormido mais hoje; no entanto, conforme contara para os meus amigos lá na despedida do Flávio, há um galo miserável e uma dúzia de galinhas no vizinho ao lado, em uma casa, em pleno perímetro urbano, que nos impede de dormir.O barulho é demasiado, sobretudo quando o galo está atrás das galinhas.
Nesses momentos, em que não posso desfrutar do sono sagrado, passam-me ideias mirabolantes pela mente - e até sinistras. Lembro-me, então, de que Schopenhuaer e Maquiavel ressaltavam em suas obras o fato de que o homem é um animal méchant (perverso) por natureza. Por enquanto, tenho tentado controlar a minha hybris e não corroborar a posição dos caras acima...
Levantei-me para escrever sobre Lennon? Não, para comentar uma face (que eu não conhecia) do Mauro Ullrich, marido da Josi, e jornalista da Gazeta do Sul. Sou colunista do Diário Regional, há meses; então, tenho evitado de falar com a Josi sobre as minhas crônicas, os comentários que rolam no blog e as vozes dissonantes que têm surgido nesta cidade, em relação às minhas ideias (acho que a Josi é uma "espiã", leitor). Que coisa maravilhosa quando pessoas discordam da gente e sabem como expressar-se diante do dissenso, da diferença, das pequenas tensões.
Só não consigo, em relação à Música, enquanto expressão estética universal, apreciar, por educação e amizade, um "sertanojo universitário (que não se forma nunca...diria o Rafael Trapp), funk, pagode ou bandinha. Estão aí elencados os gêneros que me causam síncope orgânica! Quando rolam, eu me retiro em silêncio! Respeito os gostos divergentes!
Mas ontem à noite, o Mauro Ullrich, roqueiro inveterado e também apreciador de um bom metal, estava cantarolando 'sambas de morro' e as clássicas da MPB. O Rafael Koehler, nosso aluno e professor de violão, estava se esforçando para dar alegrias ao Mauro, mas ele não conhecia as pérolas que o cara desfiava. Peguei o violão e tentei mostrar serviço; toquei a cult "Saudosa Maloca" e um sambinha do Chico Buarque. Pois o Mauro as cantou, cantou todas, e isso me impressionou. Como pode um roqueiro conhecer samba? Não só conhecer o gênero, mas cantá-lo e afinadamente!
Isso é a encarnação do dissenso, do qual falara antes. Também sou roqueira. Comecei a tocar violão nos final dos anos 60, interpretando Elis ou Nara Leão, mas também os Beatles e, alguns anos depois, os temas do rock progressivo inglês. O Mauro ama o Paul e trabalha na Gazeta. Eu amo o John e escrevo para o Diário Regional. Nem por isso, trocamos farpas ou deixamos de cantarolar juntos. Espero que alguns leitores desta cidade cheguem a esta crônica e entendam sua mensagem sub-reptícia. Josi, tu não tens pinta de mulher da ex-KGB ou da ex-Stasi. Vou conversar contigo sobre o que escrevo. Mauro, tu és uma figura, canta bem e és muito carinhoso! É muito bom encontrar o dissenso humanizado, na casa de amigos em comum, e poder confraternizar, como faziam os antigos gregos.
Leiam, pois, minha crônica na terça. Continuarei a falar do John, que imaginava todas as pessoas vivendo suas vidas em Paz, mesmo com sua natureza méchant! Have a nice Sunday!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

ONDE VOCÊ ESTAVA QUANDO LENNON MORREU? (PARTE I)

Na página da CNN, encontra-se um link destinado à pesquisa: “Where were you when Lennon died?”. A tradução está no título desta crônica, carregada de nostalgia. Eu estava em São Paulo, de férias, na casa de amigos, quando alguém comentou que John Lennon havia sido assassinado. Era dia 9 de dezembro de 1980, o dia subsequente ao crime, que ocorreu na noite de 8 de dezembro. Tivemos de esperar para checar os detalhes, que envolviam a morte de Lennon, em uma reportagem da TV.

Desde outubro, quando Lennon completaria 70 anos, homenagens e tributos estão ocorrendo, especialmente em Nova York e em Liverpool. No início desse mesmo mês, em uma lojinha de Manhattan de cultura pop, o FBI ficou sabendo que um documento com as digitais de Lennon, de 1976, quando ele solicitava a cidadania americana, estaria sendo leiloado naquele dia. Foi um tumulto e, após telefonemas dos proprietários da loja a seus advogados e um fax do FBI, solicitando a apreensão do tal documento, o mesmo desapareceu com um agente enviado para a missão.

Ninguém sabe como esse documento, que sumiu do escritório da Imigração, à época, foi parar nas mãos de comerciantes. O fato é que, até hoje, o FBI continua interessado no ‘caso Lennon’. Assisti a um documentário, em Porto Alegre, em pré-estreia no Festival Varilux, no mês de junho, muito sugestivo: “Os EUA contra John Lennon”, de David Leaf e John Scheinfield, 2006, 1h36min. O filme pode ser baixado com legendas em um sítio da WEB.

O documentário mostra Lennon bem menos como um troublemaker (um legítimo criador de problemas!) e muito mais como um verdadeiro pacifista, um militante incansável, sempre apoiado e acompanhado por Yoko em suas investidas. Ainda que muitos se refiram a ela, até hoje, como a uma “alien”, tive a oportunidade de conferir uma retrospectiva dos 50 anos de sua obra artística, não apenas pictórica, mas sobretudo de performances e instalações, no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, em dezembro de 2007, que me deixou emocionada. Encontrei, em uma sala especial da exposição, objetos em bronze. Lá estava uma camisa de John, embalsamada em bronze, com um furo paradigmático na altura do coração. Do furo, escorria uma mancha escarlate, que descia até a bainha...

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A VIOLÊNCIA NO RIO DE JANEIRO

Na semana que passou, fiquei muito preocupada com minha família, que vive no Rio de Janeiro. A cidade “maravilhosa” encanta aqueles que a veem apenas com os olhos, com fome estetizante, mas para aqueles que a encaram com a ‘alma’ – e refletem – há uma ordem de coisas que tem de mudar por lá há muito tempo.

Já estive no RJ em momentos de exceção, com tanques do Exército estacionados na esquina do Botafogo, antes de a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) conquistar o Morro de Santa Marta. Há um medo constante que paira sobre os residentes, sejam da zona Sul ou de áreas de confronto. Já senti isso, estando lá, e pude conversar com cariocas que são assolados por tiroteios entre facções do tráfico há anos.

O problema no Complexo do Alemão parece que foi resolvido. Não houve ações após o domingo à noite. Resgatei Maquiavel novamente, tema de minha reflexão na última coluna, no sentido de que um ‘príncipe’, mesmo que não possua todas as qualidades adequadas a quem governa, tem de parecer que as possui. Nessa dialética da essência/aparência, vimos o arsenal de guerra que foi colocado na rua, para gringo ver em jornais internacionais e se admirar.

Por que o Governo só age em situações-limite? E as medidas preventivas e permanentes que deveriam se instalar no corpo das comunidades cariocas? Sabe-se que eliminando as ‘cabeças graúdas’ do tráfico não se extirpará a rede de violência e criminalidade instituída na sociedade.

E o papel da mídia nisso tudo? Novamente, viu-se nas fotos da imprensa escrita e nas imagens das redes televisivas um ‘espetáculo’ trágico, que, a alguns, nem sensibiliza mais, tal a banalização da violência a que chegamos em nossa sociedade. O ‘coro’? Sempre presente...

O Rio de Janeiro deveria se orgulhar por abrigar intelectuais de peso, como o Ruben Cesar Fernandes, fundador da ONG Viva Rio, ou o Luiz Eduardo Soares, docente da UERJ e ex-Secretário Nacional de Segurança. Alguém os ouviu falar na TV ou leu alguma entrevista na imprensa na semana que passou sobre as ‘invasões’ previstas das comunidades do tráfico? Eu rastreei, mas não encontrei nada.

Nos estertores do governo estadual do RJ, fica-se a impressão – e trágica – de que não estamos assistindo ao avant première do Tropa de Elite III, mas ao preview de Avatar II: mexendo na ‘caixa de Pandora’!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

NEONAZISTAS DE SANTA CRUZ DO SUL PLANEJANDO ATAQUE!

Pessoal, li esta matéria do Jornal do Brasil hoje cedo, dia 24.11:

"Um grupo de defesa dos direitos dos travestis no Rio Grande do Sul recebeu, na segunda-feira, ameaças por telefone de um suposto neonazista, que disse preparar uma ação na 14ª Parada Livre, evento marcado para o próximo domingo no Parque da Redenção, em Porto Alegre. As informações são do jornal Zero Hora. De acordo com o jornal, o interlocutor procurou por Marcelly Malta, presidente do Igualdade - Associação de Travestis e Transexuais do Rio Grande do Sul e organizadora da Parada Livre, e afirmou que neonazistas de Santa Cruz do Sul, município do interior gaúcho, estavam se organizando para o evento. 'Vocês já se aprontem para domingo', teria dito o homem. Em edição anterior da Parada Livre, cartazes que pregavam a morte de homossexuais foram afixados no bairro Bom Fim, onde ocorre a passeata (...)".

Que coisa! Isso saiu em um jornal nacional, de matriz carioca, de respeito! Moro e trabalho em Santa Cruz do Sul. Na medida em que já fui Presidente do Movimento de Direitos Humanos da cidade e ativista da Anistia Internacional, durante dez anos, fico totalmente chocada com esse tipo de matéria e de repercussão!

Aguardo comentários neste blog! Abraço a todos!


terça-feira, 23 de novembro de 2010

A VERGONHA QUE TENHO DE NOSSOS POLÍTICOS!

Ontem, assistindo ao CQC, programa de teor cultural-político-social-econômico, carregado de humor inteligente, acompanhei a entrevista que a Mônica Iozes, a única repórter mulher da equipe, perguntando aos parlamentares o nome do Ministro da Educação. Apenas um deles respondeu à questão corretamente! Isso é um absurdo e eu morri de vergonha com o resultado da reportagem. Um deles sequer sabia o que era o "Enem"! Pode??????????
Alguém de vocês assistiu ao programa também? Algum comentário?
Não é por acaso que deixei de votar há oito anos...
Acompanhem na imprensa internacional o lançamento do livro com entrevistas concedidas pelo papa Bento XVI (que para mim é Benedito!), lançado hoje na Europa! Namaste!

OS ‘PRÍNCIPES’ DO PAPA E O PRÍNCIPE DE MAQUIAVEL


Na semana passada, acompanhamos pela imprensa que Dom Raymundo D. Assis, arcebispo de Aparecida (SP), foi nomeado cardeal pelo Papa Bento XVI (Benedito, originalmente). A América Latina, portanto, possui um enorme colegiado de “príncipes” nomeados pelo papado, contando com mais de 20 deles.

Além disso, dia 23 de novembro, está sendo lançado um livro na Europa intitulado “Light of the World: the Pope, the Church and the Signs of the Times”, algo como, em tradução para o Português, “Luz do mundo: o Papa, a Igreja e os sinais dos tempos”. Trata-se de um conjunto de entrevistas concedidas pelo Papa Bento XVI a um repórter europeu. Em uma delas, e deu o que falar neste final de semana, o Papa admite que o uso de preservativo pode ser importante na luta contra a disseminação de doenças, como a AIDS, no mundo.

Coincidência ou não, neste final de semana acabei de reler “O príncipe” de Maquiavel, por conta do ofício de docente. Publicado em 1532, que leitura maravilhosa e instigante ela é e quão atual! O cerne da análise de Maquiavel dá-se na tensão entre Fortuna (as circunstâncias, expressas pelas forças pagãs da Sorte e do Acaso) e a Virtù (a racionalidade instrumental, ditada pela necessidade e separada das virtudes que conhecemos através da tradição platônica-cristã).

Durante séculos, Maquiavel foi detratado e, poucas vezes, resgatado e reabilitado no meio erudito. A ideia de que o governante perverso, que não mede as consequências, em detrimento de determinados fins, configurando, com isso, um certo maquiavelismo é falaciosa! Prefiro comungar da posição de Norberto Bobbio, que, ainda no final do século XX, vai afirmar que “O Príncipe” apresenta magistralmente a propriedade específica da atividade política. Assim, difere-se do que é moral e religião.

Ler “O príncipe” de Maquiavel, certamente, é uma aventura diferente de assistir ao filminho do Harry Porter, lançamento em cartaz, que tem arrebatado multidões pelo mundo. Todavia, o empoderamento de suas lições nos dá condições de compreender a nossa própria realidade ideológico-política, com mais consistência, e perceber que há muitos mais ‘príncipes’ por aí governando, algo em que a nossa vã filosofia, raras vezes, é capaz de acreditar.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

VANUSA, VOCÊ CONHECE O HINO À PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA?

Não sou gaúcha, sou paulistana. Ao longo de minha educação formal, éramos obrigados a saber vários hinos de cor. Havia aulas de Educação Cívica e, em algumas ocasiões, todos nos reuníamos com o professor de música e cantávamos vários hinos, inclusive o da Proclamação da República e o da Bandeira.

Aqui no Sul, a galera não conhece esses hinos, mas eles existem. Aliás, o Dia da Bandeira é em 19 de novembro. Alguém se lembra disso? Vanusa, você sabe cantar o Hino à Bandeira?

Neste feriado, aproveitei para ler os jornais internacionais. Em Madrid, ocorreu no domingo uma iniciativa muito interessante: o bookcrossing. Trata-se de uma ação ímpar, através da qual 600 voluntários espalharam-se pela capital e colocaram, em pontos aleatórios, até sobre árvores, livros usados e doados para o happening.

Cada transeunte passaria e levaria um livro, de seu interesse, para casa. Ao final da leitura, aguardaria para o próximo evento, no sentido de devolver o livro desfrutado e pegar um outro título. O evento tem o propósito de incentivar a leitura dos madrilenhos e de estabelecer uma grande rede de leitura.

Obviamente, os coordenadores estão contando com o fato de que alguns volumes não serão devolvidos, mas poucos, tendo em vista a natureza humana. O importante é lê-los e, após um tempo, devolvê-los.

Imaginem uma iniciativa dessas em São Paulo ou em Porto Alegre mesmo. Haveria uma única edição do evento! A maior parte dos livros ficaria à disposição dos usuários e, na edição subsequente, não apareceriam mais!

Em um país em que quase não se lê, pouco se visita a rede de museus e pouco se prestigia as produções teatrais e cinematográficas, resta-me ‘rezar, acreditar e esperar’, alusão ao longa que está em cartaz em cinema da cidade (Rezar, Comer e Amar), o ano de 2011 e aguardar para ver se as coisas melhoram - e se a CPMF não volta, não!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

NÃO FUI AO PAUL...


Ontem, não fui ao show do Paul McCartney... Recebi dois torpedos de amigas que estavam no Beira-Rio e avisavam-me do momento exato em que ele entrou no palco.

Nunca gostei do Paul, mas amava o John. A relação entre um e outro me lembra um pouco a de Raul Seixas e Paulo Coelho. O que ficou vivo enriqueceu, fez fama e seguiu arrebatando multidões, cada um em seu segmento.

Toquei uma canção dos Beatles, pela primeira vez, em meu pequeno violão, aos sete anos de idade: “Yellow Submarine”. Até os meus alunos, do alto de seus vinte e poucos anos, conhecem-na. Que poder tem a música!

Se parte da renda do show fosse benemerente, já seriam alguns milhares de reais destinados a alguma nobre causa. Se o show fosse de um ativista de direitos humanos ou de um militante de alguma entidade ecológica relevante, certamente, eu teria pensado em me agilizar para comprar o ingresso.

Ver e ouvir Paul McCartney, no meu entendimento, hoje, 2010, seria pura veleidade, uma vez que sua música continua presa no tempo, não se atualizou e faz menção direta à veia poética e incomparável de John Lennon, que teria completado 70 anos no mês que passou.

O déficit no Reino Unido alcançou uma situação tão feroz, que uma turnê desta envergadura faz sentido para um britânico; todavia o valor do ingresso que a galera jovem pagou é um nonsense exagerado, porque, certamente, nunca comprou livros no valor aproximado de um único ingresso.

Ser brasileiro é viver, a cada dia, as contradições que a mídia escancara. É também cultivar uma boa saúde para suportar as mazelas e os imprevistos que o cenário nacional nos impõe.

Lembrei-me da canção “End of The End” para encerrar a minha crônica e usar o argumento da galerinha que foi ao show: esta talvez seja a última oportunidade para os brasileiros... Nós, em geral, ficamos com a última oportunidade...

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

VACAS E LIVROS EM PORTO ALEGRE!

Estive na 56ª Feira do Livro de Porto Alegre, neste feriadão de Finados. Chegando na capital, já na rodoviária, encontrava-se uma das vacas da coleção CowParade, a Vaxi, bem pertinho da parada de táxis do desembarque, concebida por vários artistas plásticos, e espalhadas por Porto Alegre com um tom de alegria e humor.

Já na Feira do Livro, evento declarado bem de natureza imaterial da cidade, não era possível se aproximar com tranquilidade das bancas de livros, muito menos procurar com calma algum saldo nos balaios das editoras e livrarias. Havia muita gente e, na medida em que a tarde caía, a atomização de pessoas – e o vento - aumentavam.

Aproveitei para entrar no Santander Cultural e acompanhar uma palestra sobre poesia polonesa. Após, dei uma checada rápida nas video portraits de Robert Wilson, dispostas no átrio do prédio, conhecido no cenário internacional com um dos grandes nomes do teatro experimental.

De volta à praça, fazendo os caminhos sugeridos pelas próprias bancas de livros, fui parar na área internacional, que, neste ano, estava encolhida. Deve ser caro um stand na Feira do Livro, mais caro ainda um espaço maior na ala internacional da feira! Ali, sim, era possível entrar, olhar, procurar e verificar os valores, porque havia menos pessoas circulando e assediando as prateleiras.

Mais adiante, fui até o setor infanto-juvenil, à beira do Rio Guaíba. Caminhei até o limite das bancas e fiquei sentada a namorar a vista do rio. Com o vento remanescente do ciclone sub-tropical, que acossava o Sul do país, desde o sábado, estava impraticável de se permanecer à margem do Guaíba.

Voltando lentamente, até o ponto de início da caminhada, dei-me conta de que a melhor parte desta feira é a festa que as crianças fazem e o happening, que deixa saudades quando a feira se vai!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A GERAÇÃO MULTITASK

Geração multitask é a expressão com a qual a imprensa denomina os jovens alunos, secundaristas ou acadêmicos, que passam as aulas com os seus notebooks e netbooks ligados e funcionando, operando inúmeras tarefas, ao mesmo tempo.

De um modo geral, os educadores são a favor de que os alunos mantenham suas máquinas ligadas em sala de aula, enquanto uma atividade se desenvolve. Todavia, isso ainda é algo a ser discutido, porque, embora seus usuários desempenhem tarefas múltiplas, há que se discutir se estão mesmo produzindo conhecimento e correlacionando as informações de modo coerente.

Não faço restrição ao uso de microprocessadores em sala de aula, mas, em dias de avaliação, não admito o uso, em função de que o acesso ao Google seria inevitável e quase que automático. Eu faço um acordo de cavalheiros, nas avaliações, e meus alunos são cumpridores.

O problema é que, em aulas semi-expositivas, em que a participação e a atenção dos alunos é fundamental para o andamento do conteúdo e para que os insights (compreensão súbita de algo) ocorram, a galera está teclando no MSN com amigos, com a página do Orkut minimizada, com o Facebook em outra janela... Isso derruba as teorias de aprendizagem clássicas e me deixa com um certo grau de ansiedade, devo admitir.

Não obstante as posições de vários psicólogos que veem positivamente a nova era de cognições, na medida em que percebem que os jovens raciocinam por hiperlinks, como se estivessem navegando na WEB, o fenômeno não pode ser generalizado para a totalidade de alunos e acadêmicos.

Os que têm dificuldades de aprendizagem, não leem nada além dos textos para as provas e apresentam uma produção textual deficiente não terão condições de evoluir, simulando uma cognição ágil e multifacetada por conta da interação e do acoplamento estrutural com suas máquinas.

Há que se discutir mais o tema, ler os resultados das pesquisas que estão sendo realizadas por centros de excelência e ouvir os educadores a respeito. Para mim, netbooks e notebooks são admissíveis em aulas em que o Google também é convidado. Fora isso, as máquinas podem ser “personas non gratas” em sala de aula!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

APOSENTADORIA ACIMA DOS 60? O QUE VEM POR AÍ?

É impressionante a ocorrência de protestos de trabalhadores e estudantes na França. Neste final de semana, milhares de estudantes, escolares e universitários, apoiaram trabalhadores franceses na pressão contra as reformas propostas pelo governo Sarkozy, através de projeto de lei que altera a idade mínima para o acesso às aposentadorias.

No Japão, para se obter uma aposentadoria integral é preciso trabalhar até os 65 anos, a partir de 2013, e, para as mulheres, a partir de 2018. Já na Alemanha, até 2029, a exigência de idade será 67 anos.

Na França, a idade mínima legal é ainda de 60 anos, desde 1983. O governo Sarkozy, no entanto, afirma que não aceitará concessões desta vez, referindo-se a 2006, em que, sob contínuos protestos no país, recuou e retirou o projeto de lei, que preconizava contratos de trabalhos para jovens. A proposta é de elevar a idade mínima, para o encaminhamento da aposentadoria, para os 62 anos, a partir de 2018, garantindo o valor integral da aposentadoria somente aos 67.

Isso significa, para os jovens, que, quanto mais tarde os trabalhadores se jubilarem, menos chances aqueles terão de encontrar um posto no mercado de trabalho. É isso que inúmeros jovens entrevistados pela imprensa internacional alegaram em sua marcha de protestos.

Vamos aguardar para ver o que vai acontecer hoje, dia 19 de outubro, em mais um dia de “não” na França, de parte de trabalhadores e estudantes. Se os professores franceses tivessem que contar com o fator previdenciário e a regra dos 95, como nós, professores brasileiros, consignariam um crédito para promover uma outra queda da Bastilha!

domingo, 10 de outubro de 2010

O OLVIDADO DIA DO PROFESSOR



Dia 15 de outubro lembra algo a vocês, leitores? Claro que não! Dia 12, sim, porque a maioria da população brasileira associa esse dia ao Dia da Criança. Todavia, o feriado justifica-se por conta da padroeira do Brasil, Nossa Senhora.
O Dia do Professor, comemorado anualmente no dia 15 de outubro, tem passado em brancas nuvens pelos alunos e acadêmicos, que fazem do professor o que ele é, verdadeiramente: um "facilitador" do conhecimento que se produz pelo próprio aluno ou acadêmico.
Tive bons professores de Filosofia, na época em que eu era acadêmica, mas tive, por felicidade, um Mestre, aquele do qual me lembro com frescor e com saudades, porque me emprestava seus livros, além de estar sempre à disposição de seus discípulos para ensinar, dentro e além do local de ensino.
Sinto que, às vezes, por desejo mimético, eu o reproduzo em algumas expressões e atitudes em sala de aula, já passados 25 anos de minha formação na graduação. Depois, tornei-me docente e me deparei com um aluno do qual jamais esqueci, porque aloprava as minhas aulas, com questões humoradas e muita poesia: o Dogival Duarte, Diretor do "Diário Regional".
Então estudande do curso de Letras, o Doge comparecia às aulas de Filosofia com seu jeito descontraído, brincalhão e avesso a qualquer forma obtusa de ser.... Aprendi com ele a ler os poemas do Patativa do Assaré, as contribuições à História da Cultura de Câmara Cascudo e, especialmente, a amar a poética de seu conterrâneo, Ferreira Gullar, que há pouco completou 80 anos.
Se vocês têm ainda contato com um ex-professor, que tenha sido verdadeiramente um Mestre para sua vida intelectual, cultural ou espiritual, façam contato com ele. Uma retomada dessas pode fazer a diferença na vida de um professor e revalidar os afetos construídos em tempos de sala de aula, além de retirá-lo do ostracismo e do terreno árido no qual jazem muitos professores, olvidados e precarizados, em um país em que, com Fies, Novo Fies ou Prouni, são poucos os que têm a chance de estudar e adentrar o maravilhoso mundo da leitura, da cultura e do conhecimento.
Parabéns aos professores, pela escolha magnânime que fizeram! Em tempos de bullying contra professores, no Brasil, ser professor pode abrir a porta da emergência traumatológica de uma vítima anônima.

A CIDADE ETERNA DE SANTO AGOSTINHO

Lembrei-me de Aurelius Augustinus (mais conhecido como Santo Agostinho) no domingo, dia de eleições. Que movimentação humana nos locais de votação e que diz-que-me-diz para lá e para cá! As manifestações de domingo não assustariam ao nosso santo, porque ele viveu sob os auspícios do final do Império Romano e presenciou muita barbárie, mortes, corrupção e, sobretudo, medo.

Agostinho foi claro em “A Cidade de Deus”: se o Estado não participasse do âmbito da Igreja, seus integrantes não gozariam da salvação. A Igreja ocidental conseguiu realizar uma parte de seu ideal de ‘cidade eterna’ junto aos monarcas, ao longo da Idade Média. Já a Igreja oriental frustrou-se nesse sentido, na medida em que teve de se submeter ao Estado.

A “Cidade de Deus” é uma obra em que Agostinho retoma algumas discussões de âmbito teológico, vigentes desde o período mais primitivo da Cristandade, mas quando se volta para a filosofia concede-nos belas páginas. Foi uma tentativa de resposta, na verdade, ao saque que Roma sofreu, por parte dos godos, em 410 d. C.

Uma vez que os godos eram cristianizados, eles pouparam todos os que se abrigaram nas igrejas cristãs da época; no entanto, não deixaram de cometer abusos e violências contra mulheres virgens. Sobre isso, Agostinho discorre longamente e sugere que Deus permitiu que tal violência ocorresse, porque as vítimas se apresentavam obstinadas por sua continência. Justificativa deveras interessante e coerente com seus postulados.

Quanto à filosofia platônica, toda a simpatia do autor, ao contrário da influência epicurista, cínica e estoica na Roma do século V, escolas que, na visão de Agostinho, eram todas materialistas e não lhe serviam de fundamento teológico. Platão, sim, percebeu que Deus é algo imutável e coube dentro de sua ‘cidade de Deus’.

Como somos todos viventes na cidade terrena, que está misturada à cidade de Deus, urge que os fiéis aguardem o dia do Juízo Final, conforme o que prescreve o nosso santo, para que as duas cidades se separem e se constituam em qualidades bem distintas.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Sobre os estoicos: Sêneca e Marco Aurélio

Neste final de semana, li um pequeno escrito de Sêneca (4 d. C.- 65d. C.), “Da tranquilidade da alma”, e as “Meditações “ de Marco Aurélio (121 d. C. - 180 d. C). De um modo geral, a ideia de que todas as coisas ruins são exteriores à alma e basta a virtude para o homem ser, verdadeiramente, feliz, tem sua origem na filosofia socrática. O estoicismo também herdou seu germe da moral socrática e preconizou que viver de acordo com a alma, o princípio universal ou a reta razão, é viver feliz.

Como esses homens citados viveram sob os auspícios do Império Romano, o estoicismo desenvolveu uma faceta diferenciada da dos gregos: criou uma doutrina política e interferiu, decisivamente, no curso do principado de Nero, que reinou de 54 d. C. até 68 d. C. A rigor, os historiadores da Roma Antiga são unânimes ao afirmar que a ascensão de Nero ao poder foi resultado de um jogo planejado pela nobreza senatorial, de orientação estoicista. Essa era a chance de colocarem no poder alguém que poderia realizar o ideário da concepção política dos estoicos romanos: um rei-filósofo, aos moldes da “República” de Platão.

Assim, Sêneca foi convocado por Agripina, a mãe ambiciosa de Nero, para ser seu preceptor. Durante seis anos, Sêneca orientou o espírito de Nero em busca da realização de uma determinada paideia(formação ético-política), de origem platônica. Após os “anos de ouro” iniciais de Nero no governo de Roma, os patrícios assistiriam aos maiores desmandos e infortúnios da história, culminando com o assassinato de Agripina pelo próprio filho, em 62 d. C.

Obcecado com a oposição de parte do Senado, perseguiu e obrigou a todos, do grupo dos estoicos, inclusive Sêneca, a cometerem suicídio. Foi assim que a utopia de Platão manifestou-se pela última vez no governo dos homens.

domingo, 26 de setembro de 2010

Muitos interesses, muita informação...

Eu poderia terminar a semana escrevendo sobre o que conheço da obra pictórica do Duke Lee, paulistano, quase um estadunidense, que faleceu neste mês, ou tratar da obra poética do Ferreira Gullar, que, além de ter chegado à casa dos 80, foi laureado com o Prêmio Camões 2010, ou comentar a cinematografia da Sophia Coppola (a aprecio muito!), que ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza deste ano e, fatalmente, acabar por lembrar que mais um grande diretor se foi desta existência, o Chabrol, que deve estar degustando um bom vinho com o Bergman e o Antonioni... Todavia, vou continuar refletindo sobre os antigos, porque é à luz dos antigos que podemos dar um tratamento aos nossos atos e, sobretudo, analisar a sociedade contemporânea. Aguardem, pois, nesta semana, publicarei sobre o Estoicismo, em especial Sêneca e Marco Aurélio. Não conheço quase nada de Epicteto! Até!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A natureza cívica e a herança cultural de Cícero

Lendo Cícero (106 a. C. – 43 a. C.), neste feriadão, imaginei-o nesta Semana Farroupilha montado a cavalo, desfilando cheio de garbo e com uma postura altaneira em uma das manifestações cívicas gauchescas.

Embora Cícero tenha estudado durante dois anos com mestres gregos, em Atenas (79 a. C. – 77. A. C), ele, ainda assim, estando na Cúria ou no Foro romanos, sempre exortava o civismo da elite republicana, coisa que, segundo ele, faltou aos povos da Hélade. Por isso, acabaram dominados pelos macedônios e, depois, pelos romanos.

Ao contrário do espírito epicureu e estoico, próprio dos gregos do período Helenístico, que preconizava a retirada e o afastamento da cidade, uma vez que a estrutura da pólis não mais existia - desde a campanha de Felipe da Macedônia e, depois, de Alexandre, o Grande -, Cícero apregoou uma ética ‘ativa’ em Roma. Mesmo no exílio compulsório, ele produziu intelectualmente de modo invejável. Foram quase 900 cartas e dezenas de discursos, além de alguns textos políticos em que se vê um estilo dialético no formato de ‘diálogos’, lembrando o gênero platônico.

Defendeu a República romana e criticou duramente as experiências tirânicas de seu tempo. Foi desafeto de Sila, de Júlio César e acabou nas mãos de Otávio Augusto, integrante do Segundo Triunvirato, que não lhe poupou a vida, por ser inimigo de Marco Antônio. Foi perseguido até uma cidadezinha da Grécia; morto, teve sua cabeça decapitada e uma das mãos decepadas. Otávio ordenou que seus restos ficassem exibidos, em exposição pública, no Rostrum, um local próximo ao Foro romano, no qual os oradores se reuniam e exibiam seus dotes retóricos.

Cícero, que não tinha ‘papas na língua’, afirma no início de “Da República”, Livro I, tópico I, que ”o homem veemente prefere arrostar as tempestades públicas entre suas ondas, até sucumbir decrépito, a viver no ócio prazenteiro e na tranquilidade”, remissão inequívoca ao epicurismo e ao estoicismo, reinantes em sua época.

domingo, 12 de setembro de 2010

A cidade justa de Platão e Aristóteles

Retomando meus estudos sobre a política em Platão e em Aristóteles, não pude me isentar de fazer uma aproximação com a sociedade contemporânea. Quando assisto ao horário político, quase tenho uma síncope com as estratégias mítico-imagéticas que alguns candidatos utilizam em seus poucos minutos, sem falar nos jingles, que apelam a canções gospel ou, ainda pior, nivelam "por baixo" e subestimam a lógica dos eleitores.
Segundo Platão, o conceito de Justiça que é explicitado no Livro IV de "A República", ser justo é exercer uma tarefa ou atividade para a qual somos afeitos, ou seja, desempenha-se algo de acordo com a natureza de cada um. Tem-se aí um tipo de justiça condizente com a inclinação natural de cada cidadão: os governantes que governem, os guerreiros que defendam a cidade, os outros que trabalhem e a mantenham (leia-se 'outros' por artesãos, comerciantes, etc. porque mulheres, escravos e estrangeiros estavam fora de qualquer possibilidade de participar da esfera pública).
Temos cidadãos-candidatos afeitos à vida política, de acordo com uma inclinação natural, como queria Platão? Segundo seu discípulo Aristóteles, que se afastou bastante de suas ideias ao longo de sua trajetória filosófica, a excelência ("areté"), fundamental para a constituição das qualidades daquele que pretende governar a cidade, é algo que não se recebe pela natureza, mas, sim, através do hábito, do exercício permanente ao longo de uma vida toda. Portanto, o que para Platão é por natureza, para Aristóteles se constrói pela ação prática.
A cidade justa para Aristóteles, então, seria aquela em que a justiça distributiva trataria igualmente aos iguais e com desigualdade aos desiguais. Se uma injustiça fosse cometida ou algum abuso praticado, a justiça comutativa, que funcionaria como remédio legal, faria as correções ou ajustes necessários para que a justiça voltasse a reinar na cidade.
Atualmente, excelência e natureza excelente são conceitos tão distantes de nossa cultura política e moral, que, se indagarmos um jovem sobre a semântica dessas expressões, excelência acabará sendo apenas um pronome de tratamento e excelente um predicado em desuso para avaliações e elogios ao caráter alheio!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Falta de educação está na moda?

Há duas semanas, venho refletindo, em minha coluna no Diário Regional, sobre a educação formal de nossos tempos e sobre o “ocupar-se de si mesmo”, tão caro ao homem antigo, porém rechaçado pela sociedade contemporânea.

O que tem me chamado mais a atenção, no dia-a-dia, é a falta de educação das pessoas, quanto aos seus modos, pela maneira de se manifestarem por e-mail ou pessoalmente, no comércio, em sala de aula, dentro do ônibus. Recebi um e-mail, na semana passada, que me chocou! Não obstante as idiossincrasias dos indivíduos, há que se manter um certo nível da linguagem coloquial e, ao menos, em se tratando de uma mensagem eletrônica, fazer uma saudação ao destinatário e assinar o nome próprio ao final. Isso seria o mínimo!

Em sala de aula, neste semestre, tem sido lamentável. Os alunos entram em aula com sanduíches e refris, cafés e assemelhados, fora o fato de que a maior parte chega sempre atrasada à sala. A aula inicia-se e lá estão eles devorando os seus lanches. Ao final, é raro o aluno que leva os seus resíduos para o lixo. Ao terminar minha aula, eu ajeito as mesas e cadeiras e recolho todo o lixo da sala. Não quero que associem a minha pessoa à sujeira acumulada sobre as mesas e sobre o chão. Invariavelmente, saio da sala e apago as luzes. No percurso, até a saída do prédio, vou apagando as luzes das outras salas, que foram deixadas com as lâmpadas acesas.

Voltando de Porto Alegre, dentro do ônibus intermunicipal, além de não conseguir acessar o meu assento, no início da viagem, em função de que os indivíduos dos assentos da frente sequer se sensibilizaram com o meu esforço para me sentar no lugar comprado, ao final da viagem, ligamos uma lâmpada bem acima de nosso assento para guardar alguns objetos na mochila. Qual não foi a minha surpresa quando o rapaz do assento da frente retorceu a sua mão para trás e tentou desligar a nossa lâmpada. Perdi a compostura: dei um ‘tapinha’ na mão dele e fiquei indignada! Essa experiência foi demais para mim e inspirou-me a escrever esta reflexão, porque só pode ser moda mesmo a falta de educação que acomete as pessoas, especialmente, os jovens!

domingo, 29 de agosto de 2010

O cuidado de si perdido!

De um modo geral, os filósofos gregos entendiam que o cuidado de si mesmo deve ocupar uma vida toda. Em Platão, encontramos uma passagem em que Sócrates aconselha Alcebíades a ocupar-se de si logo, quando jovem, porque aos 50 anos não haveria mais tempo. Epicuro, diferentemente, lá no século III a.C., recomenda que o cuidado de si deve estar presente na juventude e na velhice, porque nunca é tarde para iniciar o processo de "ocupar-se" de si. Mais do que cuidar do corpo e, consequentemente, da saúde, ter o dever de conhecer-se a si mesmo, ter zelo pela própria alma, tem uma função crítica e terapêutica. Foucault dedicou ao tema um curso completo, no início da década de 80, um pouco antes de falecer, e foi exemplar no resgate dessa velha e consagrada prática dos gregos. Com o ritmo desenfreado da vida, note-se que os trabalhadores, mais uma vez, ficaram alijados desse modo de existência, que, entre os antigos, indicava uma superioridade social. Paul Lafargue, notável teórico e militante marxista francês do final do século XIX, escreveu um pequeno livro que é atual e interessante: "O direito à preguiça". Nele, reflete, de um modo geral, sobre o direito que os trabalhadores têm ao lazer, alegoricamente denominado de 'preguiça'. Milhões de trabalhadores não têm acesso ao cuidado de si, ao autoconhecimento, uma vez que sequer têm acesso ao lazer de qualidade e a um tipo de descanso que poderia promover a 'ocupação de si mesmo'. Cuidar de si mesmo pode começar com uma caminhada, de manhã, de natureza reflexiva, que nos faça enxergar a Natureza que está ao nosso redor e os sinais de mudança da estação, por exemplo, ou pode se deflagrar com um simples olhar para o céu, da janela de nossa casa, saudando o dia. Ocupar-se de si mesmo requer vontade e exercício permanente. Cabe a cada um de nós priorizar o que nos importa nesta existência!

domingo, 22 de agosto de 2010

Os sete saberes da educação e o Budismo!

O ano de 2010 marca os dez anos da publicação do livro de Edgar Morin, intitulado “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, edição da Editora Cortez com a UNESCO. Em setembro, na capital cearense, o próprio Morin e algumas dezenas de educadores, sob a chancela da UNESCO, estarão discutindo, de modo avaliativo, o que foi possível implementar na educação, tendo em vista os ‘sete saberes’, ou, ao menos, o que se discutiu no horizonte pedagógico ao longo de uma década. Os ‘sete saberes da educação’ iniciam-se com a ideia fundamental de que o conhecimento é circular. A não-circularidade do conhecimento sobre o conhecimento gera erro. Somos ‘máquinas’ de respostas imediatas e, muitas vezes, respostas essas sem fundamento e densidade. A educação, nesse sentido, deveria se assentar no cânone das indagações e menos na busca de respostas fáceis, o que induz fatalmente ao erro. Tendo em vista que é possível aproximar ’os sete saberes’ da educação dos princípios da doutrina budista, há nessa também uma preocupação em evitar o erro do caminho daquele que pretende evoluir (erro, em sânscrito, akutishiki, ou seja, aquilo que nos desvia do caminho correto). O segundo saber diz respeito ao problema da fragmentação. O mundo continua sendo percebido e conhecido por boa parte dos indivíduos como algo “fora” de nós e totalmente fragmentado! A ideia de conjunto, de totalidade, é o segundo saber, que permite vislumbrar os saberes globais, no qual estão inseridos os saberes locais. A totalidade, em algumas culturas orientais, é representada pelo número quatro. Não é à toa que a doutrina budista preconiza suas quatro verdades, que são, sinteticamente, as seguintes: a existência implica sofrimento; o sofrimento é consequência da ignorância e do desejo; a superação do sofrimento dá-se com a supressão da ignorância e do desejo; e, finalmente, há passos para suprimir a dor e o sofrimento de nossas vidas. Uma delas é a meditação, porque Buda não dissociava a conquista do conhecimento de uma determinada prática de meditação. A unidade e a diversidade da condição humana é o terceiro saber, que deveriam ser internalizadas, dialeticamente, pelos sujeitos que constituem a educação do futuro. No dia-a-dia da sala de aula, pouco se sabe sobre o que é unidade/diversidade dos fenômenos e o quanto a diversidade, especialmente, deve ser respeitada e ‘praticada’, a partir do exercício de alteridade. Pensar o destino comum do planeta: eis o quarto saber para a educação do futuro. Enquanto o conceito de “cuidado” e do “cuidado de si”, perdido lá na antiguidade clássica, não for resgatado em sala de aula, o lixo, para falar em algo bem simples e acessível, continuará sendo jogado de modo indiscriminado no chão. O “cuidado de si” é uma forma de estar atento ao que está sendo pensado e ao que se passa em nosso entorno. Evocando-se o “cuidado de si”, garante-se o cuidado com o Outro, com o planeta. É preciso ensinar os educandos acerca das “incertezas”, o quinto saber. Abordar a questão das incertezas, no âmbito da educação, no horizonte teórico e prático, é preparar a percepção de todos para os imprevistos e o inesperado. A educação para a impermanência, para a transitoriedade, para a efemeridade dos fenômenos, conecta-nos com a doutrina budista, novamente, para a qual a anitya, a impermanência, dá-se diariamente, no exercício mental e na experiência sensível, no sentido de promover o “desapego” das coisas materiais, de nos colocar no centro do tempo presente e de aceitar a transformação permanente desta vida (em sânscrito, maya, ou seja, ilusão). A educação só poderá ser pacífica e solidária quando o exercício de ‘autoconhecimento’ (em sânscrito, atmabodha), tão caro ao budismo, fizer parte do processo da construção de conhecimento. Como ser solidário com o Outro, como aceitar a diversidade e as diferenças, se a educação não proporcionar a compreensão e a vivência dos elementos constitutivos da própria humanidade e não oferecer meios para a autorreflexão? A compreensão solidária apresenta-se como o sexto saber, para Morin. No budismo, ser solidário, alegre e benevolente com o Outro faz parte da felicidade ‘absoluta’, aquela que vem de dentro para fora e não tem relação com o patrimônio material que cada um acumula nesta existência. Por fim, introduzindo o sétimo saber para uma educação futura, é preciso de uma nova ética, que dê conta desse conjunto de saberes. A ética da humanidade, da autonomia e da participação humana tem de ser forjada “nas mentes” dos educandos do século XXI, como afirma Edgar Morin. Transcender a autonomia individual é emancipar-se de uma condição, muitas vezes, passiva e que sinaliza um déficit de racionalidade, própria da ação comunicativa entre os indivíduos de nossa sociedade. Todos temos de participar da construção de uma nova “excelência” moral para este século, para o aqui e o agora!

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Festival de Cinema de Gramado!

Todos os anos assisto à entrega dos Kikitos pela TVE do Estado, sempre em um sábado de agosto. Sou tarada por cinema! Quando posso, dou uma passada em Gramado, durante o festival. No ano passado, eu e Rafael estivemos defronte ao Palácio dos Festivais, desde cedo, na noite da premiação (não estava frio!), aguardando para ver de longe a tietagem da galera! Vimos o Marcos Palmeira de longe e vários jornalistas conhecidos. Tive o azar de aparecer, de relance, no Programa Pânico na TV, exatamente quando o Christian "Prior" (o pior deles!!!!) passou pela gente, com microfone na mão, à cata de uma celebridade. Várias pessoas de Santa Cruz assistiram ao programa com imagens editadas em Gramado! Sujei minha reputação para sempre (estou em pânico!). Parece que neste ano, fora o frisson que o longa de estreia "Bróder" causou, não percebi preferências ou destaques! O que eu gostaria mesmo de ter visto e ouvido é a entrega de um Kikito ao Pereio, pelo conjunto de seu trabalho como ator. Aquele cara é único: língua caústica, desaforado, já muito além do Bem e do Mal, do alto de seus 69 anos (idade afeita às suas peripécias!). Ele comentou sobre o filme "Eu te odeio", que já acumula horas de depoimentos dos desafetos de Pereio. Muita gente leu na imprensa e não entendeu se é verdade ou mentira o tal do filme, que parodia o "Eu te amo", do Jabor, da época em que eu era menina, entrante na universidade. Vamos aguardar para ver o que a premiação reservará de frases feitas, falas clichês, um sobe-e-desce recursivo de alguns premiados, desfile de peles anti-ecológicas, os mesmos agradecimentos de sempre aos escassos recursos destinados à criação cinematográfica no Brasil, etc. a mesmice de sempre. De qualquer modo, não pude assistir à cobertura da TVE ao vivo. O que resta esperar é ler o último número da revista de Cinema, "Teorema", da qual um de seus mentores e crítico de cinema é o nosso Marcus Mello, natural de Santa Cruz do Sul, o Marquinhos, cara inteligente, bem-articulado e que luta pela manutenção dessa revista entre cinéfilos e simpatizantes do cinema!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

domingo, 8 de agosto de 2010

Vírus!

Hoje, dia 8 de agosto, volto a postar em meu blog de minha máquina doméstica. Ela estava há cerca de 20 dias adoentada, por força da ação de vírus malignos que a contaminaram! Que coisa louca que são as novas tecnologias da comunicação! Vírus era, há anos atrás, uma abstração para mim. Após, no entanto, vários problemas causados pela ação nefasta de arquivos contaminados por vírus, não sei, confesso, como contaminaram meu micro (não abro mais arquivo algum, a não ser de amigos e com ressalva!). Um abraço a todos!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Rosana e Misha!!

Aproveitei que a minha mami está aqui em casa para invadir o cantinho dela e postar um LO de scrapbook que fiz em sua homenagem. Espero que gostem!! hehe
Créditos:
Kit It's Only Natural by Scrapybug
Template n. 58 by Tiggconn's Scrap Design

Beijos,
Mirelle
www.ascoresdaborboleta.blogspot.com

Os gatos da minha filha!

Os gatos da minha da minha filha são meus netos! Ter netos-gatos é uma tranquilidade: eu não preciso educá-los, nem gastar grana com sua manutenção, nem mesmo pegá-los no colo! O mais velho é um Himalaia lindo, com pelagem cinza e olhos azuis. O do meio é um gato de menor porte acinzentado, meio malhado, de olhos verdes. A gatinha menor é uma femeazinha linda, bem ruivinha, quase vermelha, de olhinhos cor de mel! Nunca gostei de gatos, cresci sem gatos em casa, nunca ganhamos sequer um gatinho. Embora eu não tenha familiaridade com eles, eles vêm ao meu encontro e sou obrigada a reagir. De qualquer modo, conviver com animais exóticos é algo sui generis em se tratando de gatos... e netos!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Torcer para a Espanha??????

Quem viaja bastante, tem reservas quando ocorre um evento como a Copa do Mundo e acaba tendo de tomar, vez ou outra, partido de uma seleção. Pensar que os "colonizadores", depois de dilapidarem a cultura azteca e a inca, não se contentaram em levar seis toneladas de ouro para a Espanha, extraídas do Peru! Machu Picchu é algo fascinante, ruínas cheia de energia ancestral e, inexoravelmente, degradadas! No próximo ano, o país comemorará os 100 anos da descoberta das ruínas de Machu Picchu pelo 'expropriador e destruidor de culturas', Hiram Bingham. Comprei, quando estive lá, um livrinho menor, que manifestava a visão de um historiador peruano sobre a descoberta da "Cidade Perdida"! É aviltante o que esses caras fizeram, sobretudo Pizarro. Quando a maior parte do ouro roubado, na forma de objetos sagrados e funcionais, chegou em Sevilha, o Rei Carlos V, tão ovacionado como mecenas e "protetor da artes", foi avisado de que havia peças lindas em ouro, recém-chegadas da América. Imediatamente, ele respondeu: "- Derretam!". Diante da insistência de alguns súditos, cedeu: "- Está bem! Deixem-nas durante um mês em exposição pública e depois as derretam!". Quanta estupidez, a qual temos de ler, temos de tentar contextualizar - e apenas nos resignar depois. Espanha ou Holanda? Pensando bem e sendo coerente com a minha formação, não fico com nenhuma!

terça-feira, 6 de julho de 2010

A Holanda na final!

Holanda, Netherlands, Holland! Terra de Rembrandt, de Spinoza, da Huizinga, de Van Gogh! Basta, né? Terra dos diques, da cerveja clara com um limãozinho no gargalo, dos moinhos, das tulipas, dos waffles, da Corte Internacional de Haia, dos coffees shops de grass, do bairro da Luz Vermelha! Nossa, com a saída dos hermanos cisplatinos, possivelmente termos na finalíssima Espanha e Holanda (ou Espanha e Alemanha). De qualquer forma, será uma final europeia hegemônica! Entre um e outro, não resta saída a não ser torcer para os espanhóis colonizadores! Teneme al tanto de sus eventos, Copa! Hasta la Vista, amigos!

sábado, 3 de julho de 2010

Festival de Música Erudita em Campos do Jordão!

Oi, galera, especialmente os meus alunos. Ouvimos nesta noite, ao vivo, pela TV Cultura, o concerto de abertura do 41º Festival de Inverno de Campos do Jordão, de Música Erudita, na serra paulista. Estive lá em julho de 2006 e não consegui assistir ao concerto que eu desejava, tal a muvuca que estava a cidade... Na hora de conseguir um táxi para nos deslocarmos a um auditório, a 14km de distância do centro da cidade, quem disse que havia????? Fiquei no desejo e não ouvi ao vivo ao recital do violoncelista Antônio Menezes, um de nossos virtuoses brasileiros com carreira internacional. Para quem quer se iniciar na música erudita (clássica, não, porque representa uma das escolas da música erudita, que é mais ampla), pode ouvir algum programa pela WEB. Há vários em rádios na frequência FM. A TV Cultura vai cobrir ao vivo vários espetáculos, concertos ou récitas, ao longo de julho. Entra no site da TV e checa a programação: TV Cultura.
Se vocês querem investir uma graninha nisso, comecem escutando os "Noturnos" de Chopin (pronuncia-se ChopÉn, não ChopÂn, como a maior parte das pessoas diz!). Ele era polonês, não francês, e 2010 é o bicentenário desse genial compositor, que teve um lindo caso de amor com uma mulher (Aurore Dudevant), que, na cena literária da época, assinava seus textos com um pseudônimo masculino: George Sand. Hasta la vista!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

E se foi o sonho do hexa!!!!!

Foi melhor assim! Em ano eleitoral, nada seria mais nojento que ver candidatos abraçados com os jogadores da seleção em carro aberto pelas ruas ou nos palanques! Fomos poupados disso! Depois, o técnico "Dunga" mais parecia o "Zangado", nesta Copa... Não o vi uma vez sorrindo, leve, com ar menos tenso. Ademais, parece que a linguagem do cara quase comprometeu a seleção brasileira junto à FIFA! Assisti ao jogo "Gana X Uruguai" hoje à tarde. Que bronca! Comecei torcendo para os hermanos cisplatinos, porque é país vizinho! Aprecio o Uruguai: mais Montevideo, com seu charme decadente, menos a 'côte d'azur', que é muito burguesa para o meu gosto... Passados 30 minutos, passei a torcer por Gana. Qual é o gentílico de Gana? Ganense? Tô cansada hoje, que é sexta, mas amanhã vou assistir ao jogo dos argentinos contra a Alemanha, porque vai ser uma verdadeira Batalha de 'Maratona', clássica!

terça-feira, 29 de junho de 2010

Copa do Mundo e Ditadura Militar

Há 40 anos atrás, eu cantava na escola e em casa o hit da Copa: "Todos juntos vamos, pra frente Brasil, Brasil, salve a seleção!" e o outro também: "Noventa milhões em ação, pra frente Brasil do meu coração...". Eu pequena, com oito anos de idade, lembro-me de alguns fatos marcantes: meu pai era jornalista gráfico do Jornal da Tarde, pertencente ao Estado de São Paulo, o Estadão! Estive umas duas vezes lá no jornal com o pai. Recordo-me da preocupação dele, naqueles idos que inspiravam desconfiança e tensão. Uma noite, meu pai demorou muito a voltar do jornal. Quando chegou muito tarde, o ouvi contar para minha mãe que havia explodido uma bomba em um segmento do jornal. O comentário, baixinho, de soslaio, deixou uma forte impressão em meu imaginário. A ditadura do medo tomava conta de todos, dos vizinhos, dos familiares, dos amigos próximos. O hit da Copa do Mundo de 70 era a trilha sonora para as mais memoráveis violações de direitos humanos contra cidadãos brasileiros. A perseguição aos espíritos livres e emancipados tomou proporção de Santo Ofício. Ditadura? O futebol é meio parecido com isso. Até os que não apreciam o esporte são obrigados a conviver com a sua manifestação e a de seus adeptos. A ditadura do futebol nivela por baixo e se esconde sob a mais inocente expressão de patriotismo. Vamos combinar que patriotismo exacerbado não é compatível com cultura da paz! Que o Brasil vença a Copa, então, mas que se garanta que os não-torcedores sejam apenas admoestados, não torturados! Allea jacta est!

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Minha coluna própria no Diário Regional

Amigos, o Doge (Dogival Duarte), diretor do Diário Regional, convidou-me para escrever em uma coluna, todas as terças, no jornal. Ele vai reproduzir amanhã, dia 22, a que escrevi sobre a Copa, na sexta passada, dia 18 de junho. Muito legal!

Dia 21 de junho

Hoje, meu falecido pai completaria 78 anos!

Que saudades, pai! Nossa, ontem assistindo ao jogo do Brasil na Copa, que foi emocinante, pensei tanto em ti e no quanto tu xingarias aqueles jogadores da Costa do Marfim, loucos para machucarem os nossos canarinhos! Se eu pudesse ir a Porto Alegre, eu iria na tarde de hoje, mas não dá. Tu deves estar achando o teu túmulo feio, sujo e meio abandonado, mas estamos quase todas longe de Porto Alegre e, cuidar de túmulo, no caso, seria uma mera formalidade! O importante é que tu estás sempre entre nós, teu melhor fã clube, o melhor de ti que ficou entre nós quatro, as filhas, e mais os netos - por tabela! Um grande beijo 'mental' em ti, pai, neste teu aniversário! Te amamos!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Adeus, Saramago!

Eu não poderia deixar de comentar algo, nesta sexta-feira, quando os jornais nacionais e internacionais estão comentando, há horas, a perda de Saramago - do alto de seus 87 anos. Sábio, ateu, austero e polêmico, seu livro "O evangelho segundo Jesus Cristo" foi uma leitura que marcou profundamente o meu espírito! De que forma o livro me deixou impressões, prefiro não comentar aqui... Embora os jornais façam referência à morte do autor de "Ensaio sobre a cegueira", no meu entender, esse não é superior ao "Evangelho...". Desceste de teus píncaros, aos 80 anos, quando rompeste com Fidel e o 'socialismo' da ilha! Finalmente, te curaste da tua cegueira!!!!
Para terminar, uma pérola que encontrei em um blog hoje: "É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar – bons cachês em moeda forte; ausência de censura e consumismo burguês. Trata-se dos filhos de Marx, numa transa adúltera com a Coca-Cola...” (Roberto Campos apud Rodrigo Constantino). Os dogmáticos, ontem, tiveram os seus "15 minutos" de sucesso na mídia!

Cultura futebolística zero...

Assisti à estreia do Brasil na Copa do Mundo, na terça,às 15h30. Eu estava indo para a Medicina, dar uma aula sobre artigo científico. Meus alunos me esperavam na entrada do prédio para negociar a suspensão da aula e a forma de recuperá-la depois. Acabei indo para um boteco com eles assistir, então, ao jogo. Não consegui prestar muita atenção às jogadas, porque a conversa era acalorada entre meus alunos, mas deu para sacar que era um jogo com pouca emoção. Depois, liguei a TV, em uma passada em casa na quarta à tarde, quando a seleção uruguaia enfrentava a seleção dos anfitriões. Olha, se eu não sacasse nada de futebol, vendo uns caras correndo de verde-e-amarelo, eu imaginaria que era a nossa seleção em cena. Depois, no cantinho da tela, vi o Parreira e poderia ter associado, equivocadamente, Parreira-Uruguai. No entanto, de ouvir meu taxista falar de futebol, o Gigi, eu já sabia que o Parreira é o técnico da seleção da África do Sul. Na tarde de ontem, quinta, novamente passei em casa no final da tarde e assisti ao finzinho de México e França. Que bolão! O México venceu de 2x0 e estava exultante! Os 'mariachis' mexicanos estavam lá na arquibancada, vestidos de astecas, a caráter, fazendo um ritual mágico entre os torcedores. Os franceses, sem surpresas, estavam com cara feia e gestos obscenos para os jogadores mexicanos e técnico. Que feio! A 'crista napoleônica' não caiu nunca! Deve ser atávico! A Irlanda ficou fora por causa deles. Eles que se cuidem, porque poderão embarcar antes da festa final da Copa...
Pois é, em tempos de Copa, abrir a boca sem fundamento sobre futebol, é pedir para ser alvo de chacota ou, pior, ser tirado para 'analfabeto em futebol', o que, no Brasil, na condição de mulher, pode ser motivo de dor-de-cabeça e discriminação!