segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Sobre os estoicos: Sêneca e Marco Aurélio

Neste final de semana, li um pequeno escrito de Sêneca (4 d. C.- 65d. C.), “Da tranquilidade da alma”, e as “Meditações “ de Marco Aurélio (121 d. C. - 180 d. C). De um modo geral, a ideia de que todas as coisas ruins são exteriores à alma e basta a virtude para o homem ser, verdadeiramente, feliz, tem sua origem na filosofia socrática. O estoicismo também herdou seu germe da moral socrática e preconizou que viver de acordo com a alma, o princípio universal ou a reta razão, é viver feliz.

Como esses homens citados viveram sob os auspícios do Império Romano, o estoicismo desenvolveu uma faceta diferenciada da dos gregos: criou uma doutrina política e interferiu, decisivamente, no curso do principado de Nero, que reinou de 54 d. C. até 68 d. C. A rigor, os historiadores da Roma Antiga são unânimes ao afirmar que a ascensão de Nero ao poder foi resultado de um jogo planejado pela nobreza senatorial, de orientação estoicista. Essa era a chance de colocarem no poder alguém que poderia realizar o ideário da concepção política dos estoicos romanos: um rei-filósofo, aos moldes da “República” de Platão.

Assim, Sêneca foi convocado por Agripina, a mãe ambiciosa de Nero, para ser seu preceptor. Durante seis anos, Sêneca orientou o espírito de Nero em busca da realização de uma determinada paideia(formação ético-política), de origem platônica. Após os “anos de ouro” iniciais de Nero no governo de Roma, os patrícios assistiriam aos maiores desmandos e infortúnios da história, culminando com o assassinato de Agripina pelo próprio filho, em 62 d. C.

Obcecado com a oposição de parte do Senado, perseguiu e obrigou a todos, do grupo dos estoicos, inclusive Sêneca, a cometerem suicídio. Foi assim que a utopia de Platão manifestou-se pela última vez no governo dos homens.

domingo, 26 de setembro de 2010

Muitos interesses, muita informação...

Eu poderia terminar a semana escrevendo sobre o que conheço da obra pictórica do Duke Lee, paulistano, quase um estadunidense, que faleceu neste mês, ou tratar da obra poética do Ferreira Gullar, que, além de ter chegado à casa dos 80, foi laureado com o Prêmio Camões 2010, ou comentar a cinematografia da Sophia Coppola (a aprecio muito!), que ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza deste ano e, fatalmente, acabar por lembrar que mais um grande diretor se foi desta existência, o Chabrol, que deve estar degustando um bom vinho com o Bergman e o Antonioni... Todavia, vou continuar refletindo sobre os antigos, porque é à luz dos antigos que podemos dar um tratamento aos nossos atos e, sobretudo, analisar a sociedade contemporânea. Aguardem, pois, nesta semana, publicarei sobre o Estoicismo, em especial Sêneca e Marco Aurélio. Não conheço quase nada de Epicteto! Até!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A natureza cívica e a herança cultural de Cícero

Lendo Cícero (106 a. C. – 43 a. C.), neste feriadão, imaginei-o nesta Semana Farroupilha montado a cavalo, desfilando cheio de garbo e com uma postura altaneira em uma das manifestações cívicas gauchescas.

Embora Cícero tenha estudado durante dois anos com mestres gregos, em Atenas (79 a. C. – 77. A. C), ele, ainda assim, estando na Cúria ou no Foro romanos, sempre exortava o civismo da elite republicana, coisa que, segundo ele, faltou aos povos da Hélade. Por isso, acabaram dominados pelos macedônios e, depois, pelos romanos.

Ao contrário do espírito epicureu e estoico, próprio dos gregos do período Helenístico, que preconizava a retirada e o afastamento da cidade, uma vez que a estrutura da pólis não mais existia - desde a campanha de Felipe da Macedônia e, depois, de Alexandre, o Grande -, Cícero apregoou uma ética ‘ativa’ em Roma. Mesmo no exílio compulsório, ele produziu intelectualmente de modo invejável. Foram quase 900 cartas e dezenas de discursos, além de alguns textos políticos em que se vê um estilo dialético no formato de ‘diálogos’, lembrando o gênero platônico.

Defendeu a República romana e criticou duramente as experiências tirânicas de seu tempo. Foi desafeto de Sila, de Júlio César e acabou nas mãos de Otávio Augusto, integrante do Segundo Triunvirato, que não lhe poupou a vida, por ser inimigo de Marco Antônio. Foi perseguido até uma cidadezinha da Grécia; morto, teve sua cabeça decapitada e uma das mãos decepadas. Otávio ordenou que seus restos ficassem exibidos, em exposição pública, no Rostrum, um local próximo ao Foro romano, no qual os oradores se reuniam e exibiam seus dotes retóricos.

Cícero, que não tinha ‘papas na língua’, afirma no início de “Da República”, Livro I, tópico I, que ”o homem veemente prefere arrostar as tempestades públicas entre suas ondas, até sucumbir decrépito, a viver no ócio prazenteiro e na tranquilidade”, remissão inequívoca ao epicurismo e ao estoicismo, reinantes em sua época.

domingo, 12 de setembro de 2010

A cidade justa de Platão e Aristóteles

Retomando meus estudos sobre a política em Platão e em Aristóteles, não pude me isentar de fazer uma aproximação com a sociedade contemporânea. Quando assisto ao horário político, quase tenho uma síncope com as estratégias mítico-imagéticas que alguns candidatos utilizam em seus poucos minutos, sem falar nos jingles, que apelam a canções gospel ou, ainda pior, nivelam "por baixo" e subestimam a lógica dos eleitores.
Segundo Platão, o conceito de Justiça que é explicitado no Livro IV de "A República", ser justo é exercer uma tarefa ou atividade para a qual somos afeitos, ou seja, desempenha-se algo de acordo com a natureza de cada um. Tem-se aí um tipo de justiça condizente com a inclinação natural de cada cidadão: os governantes que governem, os guerreiros que defendam a cidade, os outros que trabalhem e a mantenham (leia-se 'outros' por artesãos, comerciantes, etc. porque mulheres, escravos e estrangeiros estavam fora de qualquer possibilidade de participar da esfera pública).
Temos cidadãos-candidatos afeitos à vida política, de acordo com uma inclinação natural, como queria Platão? Segundo seu discípulo Aristóteles, que se afastou bastante de suas ideias ao longo de sua trajetória filosófica, a excelência ("areté"), fundamental para a constituição das qualidades daquele que pretende governar a cidade, é algo que não se recebe pela natureza, mas, sim, através do hábito, do exercício permanente ao longo de uma vida toda. Portanto, o que para Platão é por natureza, para Aristóteles se constrói pela ação prática.
A cidade justa para Aristóteles, então, seria aquela em que a justiça distributiva trataria igualmente aos iguais e com desigualdade aos desiguais. Se uma injustiça fosse cometida ou algum abuso praticado, a justiça comutativa, que funcionaria como remédio legal, faria as correções ou ajustes necessários para que a justiça voltasse a reinar na cidade.
Atualmente, excelência e natureza excelente são conceitos tão distantes de nossa cultura política e moral, que, se indagarmos um jovem sobre a semântica dessas expressões, excelência acabará sendo apenas um pronome de tratamento e excelente um predicado em desuso para avaliações e elogios ao caráter alheio!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Falta de educação está na moda?

Há duas semanas, venho refletindo, em minha coluna no Diário Regional, sobre a educação formal de nossos tempos e sobre o “ocupar-se de si mesmo”, tão caro ao homem antigo, porém rechaçado pela sociedade contemporânea.

O que tem me chamado mais a atenção, no dia-a-dia, é a falta de educação das pessoas, quanto aos seus modos, pela maneira de se manifestarem por e-mail ou pessoalmente, no comércio, em sala de aula, dentro do ônibus. Recebi um e-mail, na semana passada, que me chocou! Não obstante as idiossincrasias dos indivíduos, há que se manter um certo nível da linguagem coloquial e, ao menos, em se tratando de uma mensagem eletrônica, fazer uma saudação ao destinatário e assinar o nome próprio ao final. Isso seria o mínimo!

Em sala de aula, neste semestre, tem sido lamentável. Os alunos entram em aula com sanduíches e refris, cafés e assemelhados, fora o fato de que a maior parte chega sempre atrasada à sala. A aula inicia-se e lá estão eles devorando os seus lanches. Ao final, é raro o aluno que leva os seus resíduos para o lixo. Ao terminar minha aula, eu ajeito as mesas e cadeiras e recolho todo o lixo da sala. Não quero que associem a minha pessoa à sujeira acumulada sobre as mesas e sobre o chão. Invariavelmente, saio da sala e apago as luzes. No percurso, até a saída do prédio, vou apagando as luzes das outras salas, que foram deixadas com as lâmpadas acesas.

Voltando de Porto Alegre, dentro do ônibus intermunicipal, além de não conseguir acessar o meu assento, no início da viagem, em função de que os indivíduos dos assentos da frente sequer se sensibilizaram com o meu esforço para me sentar no lugar comprado, ao final da viagem, ligamos uma lâmpada bem acima de nosso assento para guardar alguns objetos na mochila. Qual não foi a minha surpresa quando o rapaz do assento da frente retorceu a sua mão para trás e tentou desligar a nossa lâmpada. Perdi a compostura: dei um ‘tapinha’ na mão dele e fiquei indignada! Essa experiência foi demais para mim e inspirou-me a escrever esta reflexão, porque só pode ser moda mesmo a falta de educação que acomete as pessoas, especialmente, os jovens!