domingo, 12 de setembro de 2010

A cidade justa de Platão e Aristóteles

Retomando meus estudos sobre a política em Platão e em Aristóteles, não pude me isentar de fazer uma aproximação com a sociedade contemporânea. Quando assisto ao horário político, quase tenho uma síncope com as estratégias mítico-imagéticas que alguns candidatos utilizam em seus poucos minutos, sem falar nos jingles, que apelam a canções gospel ou, ainda pior, nivelam "por baixo" e subestimam a lógica dos eleitores.
Segundo Platão, o conceito de Justiça que é explicitado no Livro IV de "A República", ser justo é exercer uma tarefa ou atividade para a qual somos afeitos, ou seja, desempenha-se algo de acordo com a natureza de cada um. Tem-se aí um tipo de justiça condizente com a inclinação natural de cada cidadão: os governantes que governem, os guerreiros que defendam a cidade, os outros que trabalhem e a mantenham (leia-se 'outros' por artesãos, comerciantes, etc. porque mulheres, escravos e estrangeiros estavam fora de qualquer possibilidade de participar da esfera pública).
Temos cidadãos-candidatos afeitos à vida política, de acordo com uma inclinação natural, como queria Platão? Segundo seu discípulo Aristóteles, que se afastou bastante de suas ideias ao longo de sua trajetória filosófica, a excelência ("areté"), fundamental para a constituição das qualidades daquele que pretende governar a cidade, é algo que não se recebe pela natureza, mas, sim, através do hábito, do exercício permanente ao longo de uma vida toda. Portanto, o que para Platão é por natureza, para Aristóteles se constrói pela ação prática.
A cidade justa para Aristóteles, então, seria aquela em que a justiça distributiva trataria igualmente aos iguais e com desigualdade aos desiguais. Se uma injustiça fosse cometida ou algum abuso praticado, a justiça comutativa, que funcionaria como remédio legal, faria as correções ou ajustes necessários para que a justiça voltasse a reinar na cidade.
Atualmente, excelência e natureza excelente são conceitos tão distantes de nossa cultura política e moral, que, se indagarmos um jovem sobre a semântica dessas expressões, excelência acabará sendo apenas um pronome de tratamento e excelente um predicado em desuso para avaliações e elogios ao caráter alheio!

Um comentário:

  1. Oi Rô!

    Há algum tempo que estou te devendo uma visita aqui no blog, mas as coisas este semestre estão acumulando de forma absurda. Provas, trabalhos e matérias para rever que se sobrepõem de forma a sufocar os alunos com a falta de tempo para si.
    Suas postagens, como sempre, estão muito gostosas de se ler e cheias de um conteúdo cultural que, ao que parece, está cada dia mais démodé.

    Beijos e Parabéns pela qualidade do blog.

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