segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A GERAÇÃO MULTITASK

Geração multitask é a expressão com a qual a imprensa denomina os jovens alunos, secundaristas ou acadêmicos, que passam as aulas com os seus notebooks e netbooks ligados e funcionando, operando inúmeras tarefas, ao mesmo tempo.

De um modo geral, os educadores são a favor de que os alunos mantenham suas máquinas ligadas em sala de aula, enquanto uma atividade se desenvolve. Todavia, isso ainda é algo a ser discutido, porque, embora seus usuários desempenhem tarefas múltiplas, há que se discutir se estão mesmo produzindo conhecimento e correlacionando as informações de modo coerente.

Não faço restrição ao uso de microprocessadores em sala de aula, mas, em dias de avaliação, não admito o uso, em função de que o acesso ao Google seria inevitável e quase que automático. Eu faço um acordo de cavalheiros, nas avaliações, e meus alunos são cumpridores.

O problema é que, em aulas semi-expositivas, em que a participação e a atenção dos alunos é fundamental para o andamento do conteúdo e para que os insights (compreensão súbita de algo) ocorram, a galera está teclando no MSN com amigos, com a página do Orkut minimizada, com o Facebook em outra janela... Isso derruba as teorias de aprendizagem clássicas e me deixa com um certo grau de ansiedade, devo admitir.

Não obstante as posições de vários psicólogos que veem positivamente a nova era de cognições, na medida em que percebem que os jovens raciocinam por hiperlinks, como se estivessem navegando na WEB, o fenômeno não pode ser generalizado para a totalidade de alunos e acadêmicos.

Os que têm dificuldades de aprendizagem, não leem nada além dos textos para as provas e apresentam uma produção textual deficiente não terão condições de evoluir, simulando uma cognição ágil e multifacetada por conta da interação e do acoplamento estrutural com suas máquinas.

Há que se discutir mais o tema, ler os resultados das pesquisas que estão sendo realizadas por centros de excelência e ouvir os educadores a respeito. Para mim, netbooks e notebooks são admissíveis em aulas em que o Google também é convidado. Fora isso, as máquinas podem ser “personas non gratas” em sala de aula!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

APOSENTADORIA ACIMA DOS 60? O QUE VEM POR AÍ?

É impressionante a ocorrência de protestos de trabalhadores e estudantes na França. Neste final de semana, milhares de estudantes, escolares e universitários, apoiaram trabalhadores franceses na pressão contra as reformas propostas pelo governo Sarkozy, através de projeto de lei que altera a idade mínima para o acesso às aposentadorias.

No Japão, para se obter uma aposentadoria integral é preciso trabalhar até os 65 anos, a partir de 2013, e, para as mulheres, a partir de 2018. Já na Alemanha, até 2029, a exigência de idade será 67 anos.

Na França, a idade mínima legal é ainda de 60 anos, desde 1983. O governo Sarkozy, no entanto, afirma que não aceitará concessões desta vez, referindo-se a 2006, em que, sob contínuos protestos no país, recuou e retirou o projeto de lei, que preconizava contratos de trabalhos para jovens. A proposta é de elevar a idade mínima, para o encaminhamento da aposentadoria, para os 62 anos, a partir de 2018, garantindo o valor integral da aposentadoria somente aos 67.

Isso significa, para os jovens, que, quanto mais tarde os trabalhadores se jubilarem, menos chances aqueles terão de encontrar um posto no mercado de trabalho. É isso que inúmeros jovens entrevistados pela imprensa internacional alegaram em sua marcha de protestos.

Vamos aguardar para ver o que vai acontecer hoje, dia 19 de outubro, em mais um dia de “não” na França, de parte de trabalhadores e estudantes. Se os professores franceses tivessem que contar com o fator previdenciário e a regra dos 95, como nós, professores brasileiros, consignariam um crédito para promover uma outra queda da Bastilha!

domingo, 10 de outubro de 2010

O OLVIDADO DIA DO PROFESSOR



Dia 15 de outubro lembra algo a vocês, leitores? Claro que não! Dia 12, sim, porque a maioria da população brasileira associa esse dia ao Dia da Criança. Todavia, o feriado justifica-se por conta da padroeira do Brasil, Nossa Senhora.
O Dia do Professor, comemorado anualmente no dia 15 de outubro, tem passado em brancas nuvens pelos alunos e acadêmicos, que fazem do professor o que ele é, verdadeiramente: um "facilitador" do conhecimento que se produz pelo próprio aluno ou acadêmico.
Tive bons professores de Filosofia, na época em que eu era acadêmica, mas tive, por felicidade, um Mestre, aquele do qual me lembro com frescor e com saudades, porque me emprestava seus livros, além de estar sempre à disposição de seus discípulos para ensinar, dentro e além do local de ensino.
Sinto que, às vezes, por desejo mimético, eu o reproduzo em algumas expressões e atitudes em sala de aula, já passados 25 anos de minha formação na graduação. Depois, tornei-me docente e me deparei com um aluno do qual jamais esqueci, porque aloprava as minhas aulas, com questões humoradas e muita poesia: o Dogival Duarte, Diretor do "Diário Regional".
Então estudande do curso de Letras, o Doge comparecia às aulas de Filosofia com seu jeito descontraído, brincalhão e avesso a qualquer forma obtusa de ser.... Aprendi com ele a ler os poemas do Patativa do Assaré, as contribuições à História da Cultura de Câmara Cascudo e, especialmente, a amar a poética de seu conterrâneo, Ferreira Gullar, que há pouco completou 80 anos.
Se vocês têm ainda contato com um ex-professor, que tenha sido verdadeiramente um Mestre para sua vida intelectual, cultural ou espiritual, façam contato com ele. Uma retomada dessas pode fazer a diferença na vida de um professor e revalidar os afetos construídos em tempos de sala de aula, além de retirá-lo do ostracismo e do terreno árido no qual jazem muitos professores, olvidados e precarizados, em um país em que, com Fies, Novo Fies ou Prouni, são poucos os que têm a chance de estudar e adentrar o maravilhoso mundo da leitura, da cultura e do conhecimento.
Parabéns aos professores, pela escolha magnânime que fizeram! Em tempos de bullying contra professores, no Brasil, ser professor pode abrir a porta da emergência traumatológica de uma vítima anônima.

A CIDADE ETERNA DE SANTO AGOSTINHO

Lembrei-me de Aurelius Augustinus (mais conhecido como Santo Agostinho) no domingo, dia de eleições. Que movimentação humana nos locais de votação e que diz-que-me-diz para lá e para cá! As manifestações de domingo não assustariam ao nosso santo, porque ele viveu sob os auspícios do final do Império Romano e presenciou muita barbárie, mortes, corrupção e, sobretudo, medo.

Agostinho foi claro em “A Cidade de Deus”: se o Estado não participasse do âmbito da Igreja, seus integrantes não gozariam da salvação. A Igreja ocidental conseguiu realizar uma parte de seu ideal de ‘cidade eterna’ junto aos monarcas, ao longo da Idade Média. Já a Igreja oriental frustrou-se nesse sentido, na medida em que teve de se submeter ao Estado.

A “Cidade de Deus” é uma obra em que Agostinho retoma algumas discussões de âmbito teológico, vigentes desde o período mais primitivo da Cristandade, mas quando se volta para a filosofia concede-nos belas páginas. Foi uma tentativa de resposta, na verdade, ao saque que Roma sofreu, por parte dos godos, em 410 d. C.

Uma vez que os godos eram cristianizados, eles pouparam todos os que se abrigaram nas igrejas cristãs da época; no entanto, não deixaram de cometer abusos e violências contra mulheres virgens. Sobre isso, Agostinho discorre longamente e sugere que Deus permitiu que tal violência ocorresse, porque as vítimas se apresentavam obstinadas por sua continência. Justificativa deveras interessante e coerente com seus postulados.

Quanto à filosofia platônica, toda a simpatia do autor, ao contrário da influência epicurista, cínica e estoica na Roma do século V, escolas que, na visão de Agostinho, eram todas materialistas e não lhe serviam de fundamento teológico. Platão, sim, percebeu que Deus é algo imutável e coube dentro de sua ‘cidade de Deus’.

Como somos todos viventes na cidade terrena, que está misturada à cidade de Deus, urge que os fiéis aguardem o dia do Juízo Final, conforme o que prescreve o nosso santo, para que as duas cidades se separem e se constituam em qualidades bem distintas.