domingo, 10 de outubro de 2010

A CIDADE ETERNA DE SANTO AGOSTINHO

Lembrei-me de Aurelius Augustinus (mais conhecido como Santo Agostinho) no domingo, dia de eleições. Que movimentação humana nos locais de votação e que diz-que-me-diz para lá e para cá! As manifestações de domingo não assustariam ao nosso santo, porque ele viveu sob os auspícios do final do Império Romano e presenciou muita barbárie, mortes, corrupção e, sobretudo, medo.

Agostinho foi claro em “A Cidade de Deus”: se o Estado não participasse do âmbito da Igreja, seus integrantes não gozariam da salvação. A Igreja ocidental conseguiu realizar uma parte de seu ideal de ‘cidade eterna’ junto aos monarcas, ao longo da Idade Média. Já a Igreja oriental frustrou-se nesse sentido, na medida em que teve de se submeter ao Estado.

A “Cidade de Deus” é uma obra em que Agostinho retoma algumas discussões de âmbito teológico, vigentes desde o período mais primitivo da Cristandade, mas quando se volta para a filosofia concede-nos belas páginas. Foi uma tentativa de resposta, na verdade, ao saque que Roma sofreu, por parte dos godos, em 410 d. C.

Uma vez que os godos eram cristianizados, eles pouparam todos os que se abrigaram nas igrejas cristãs da época; no entanto, não deixaram de cometer abusos e violências contra mulheres virgens. Sobre isso, Agostinho discorre longamente e sugere que Deus permitiu que tal violência ocorresse, porque as vítimas se apresentavam obstinadas por sua continência. Justificativa deveras interessante e coerente com seus postulados.

Quanto à filosofia platônica, toda a simpatia do autor, ao contrário da influência epicurista, cínica e estoica na Roma do século V, escolas que, na visão de Agostinho, eram todas materialistas e não lhe serviam de fundamento teológico. Platão, sim, percebeu que Deus é algo imutável e coube dentro de sua ‘cidade de Deus’.

Como somos todos viventes na cidade terrena, que está misturada à cidade de Deus, urge que os fiéis aguardem o dia do Juízo Final, conforme o que prescreve o nosso santo, para que as duas cidades se separem e se constituam em qualidades bem distintas.

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