quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

MUNDO HIGH TECH E VIDA REAL

Fui assistir no domingo à noite ao remake do Tron, um filme futurista realizado com o suporte tecnológico, que, na época, final da década de 80, era possível acessar. Assisti ao filme-matriz em VHS, não me lembro em que ano. Os críticos comentam que o Tron original não fez o sucesso esperado porque tinha uma linguagem nova, avant la lettre!

O remake do Tron é carregado de efeitos digitais, simulações visuais, movimentos geometrizados fantásticos, que deixariam um cientista do início do século XX eletrizado... O roteiro é interessante e pode ser alvo de uma leitura metafísico-sociopolítica. Os programas dos falecidos videogames da década de 80, encarnados em personagens, rebelam-se contra a tirania do usuário que os criou, o Criador.

Dá para compreender a engenhoca? É como se, na era da robótica, os robôs atingissem uma perfeição tal que pudessem questionar e se insurgir contra seus usuários. Mais longe ainda, é como se os obsoletos I-Pods (traduzindo: ‘os portáteis que todos nós, Eu/vocês, desejamos’) pudessem ter vida própria e criar um tipo de conflito civil contra os mentores/criadores dos celulares de alta tecnologia, equipamentos que os absorveram, os smarthphones e toda a geração hightech de comunicação digital dos noughties, a primeira década dos anos 2000, como os americanos a batizaram.

Muito interessante refletir sobre a ficção em que os personagens de programas de videogame, dos 80, revoltam-se contra seus ‘controladores’. É fácil e automático admirar-se com a ficção tecnológica. Difícil, mazela de nossos tempos, é espantar-se com a nossa própria realidade e reagir, coletivamente, contra ela.

Na vida real, que, não raras vezes, até parece ficção, uma Matrix, referindo-me ao primeiro longa da trilogia, de 1999, o que fazer quando o grupo dos Morpheus (do Mal) ministra instruções e logística aos ‘mocinhos’ liderados por Neo (do Bem)? Neste jogo de lasers, neons e espelhamentos, não sabemos mais quem é de cá e quem é de lá.

Que em 2011, fiquemos mais ligados na essência dos eventos e menos nas aparências!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O PRESENTE DE NATAL DOS PARLAMENTARES

Meu amigo e ex-aluno Fabiano Felten, que, como eu, também gerencia um blog, diga-se de passagem inteligente e atual, escreveu neste final de semana sobre o tema que eu já havia decidido para esta coluna: o aumento dos salários dos parlamentares.

A crônica do Fabiano intitula-se ‘presente de grego’, reportando-se ao cavalo de madeira que os aqueus ofertaram aos troianos, na epopeia de Homero. O episódio da diplomação da semana passada, das manifestações de alguns de nossos representantes, associadas à notícia do aumento de seus salários, deixou-me demasiadamente chocada que, confesso, escrevo estas linhas mais por obrigação formal que por prazer.

A realidade da política nacional lembra-me dos personagens e das observações astutas dos contos de Machado de Assis, especialmente os reunidos em “Histórias sem data”, “Papéis avulsos” e “Várias Histórias”. Um bom presente de Natal, leitor, para quem quer presentear alguém que, além de ler boa literatura, é perspicaz para compreender a profundidade e a atualidade da narrativa ficcional de Machado enquanto um inequívoco libelo contra, sobretudo, a mediocridade humana.

Deixo-lhe, leitor, de presente de Natal (não é um presente de grego, não!), uma singela recomendação de leitura, o conto ‘A Teoria do Medalhão’, que está no livro “Papéis avulsos”, de Machado de Assis, publicado em 1882.

O conto utiliza-se da engenhosa imagem do medalhão, que tem uma face que é opaca, suada e sem atrativos, colada à pele do usuário. A outra, entretanto, a que fica como alvo dos olhos dos outros, é brilhante, vistosa, constituída de atrativos como metais ou pedras.

Fica aí uma provocação para que, neste final de ano, todos reflitamos sobre os “medalhões” que nos representam e sobre aqueles, em particular, que cada cidadão referendou. Um Feliz Natal a todos, muita paz interior e muita saúde a todos os leitores do Diário Regional.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

AINDA SOBRE JOHN LENNON (PARTE II)

Então, contava eu na semana passada que estive em uma retrospectiva da obra artística da Yoko Ono em São Paulo, em dezembro de 2007. Fiquei tão perplexa com suas peças em bronze, em especial, com a camisa do John, que ela transformou em escultura e colocou nela um furo, na altura do peito, e uma lava de tinta vermelha, escorrendo até a bainha, que chorei... Chorei e tive de me recompor, sob o olhar do guardinha, que vigiava a sala de exposição. Eu já havia lido e visto fotografias de obras da Yoko, mas a retrospectiva já tinha itinerado pela Europa e tomava todo o prédio do Centro Cultural Banco do Brasil de SP. O que li e o que eu ouvi, desde menina, sobre a Yoko me trouxeram uma imagem distorcida de sua pessoa e eu não estava preparada para compreender tamanha sensibilidade estética, posicionamento político e amor plasmado em suas obras. Eu estava sozinha em SP e não tinha com quem conversar sobre as minhas sensações e emoções, excesso de interioridade... Daí, penso que compreendi o amor deles. O amor que John exaltava, publicamente, por ela, sete anos mais velha que ele, intitulada de ‘feia’ pelos estadunidenses, que acabara de algoz da dissolução dos Beatles. Ele manifestara, li em uma reportagem em inglês, que gostaria de morrer antes dela, porque não conseguiria sobreviver a ela. Um amor assim não cabia dentro de uma banda – a banda acabou; o amor, não, tampouco o sonho. Na semana que passou, as homenagens foram muitas: Bono Vox abriu o show do U2 em Brisbane, na Austrália, na noite de 8 de dezembro, cantando um trecho de uma canção dos Beatles (jornal de rock Whiplash). Nas noites de 4 e 5 de dezembro, a CNN levou ao ar mais um documentário, intitulado Losing Lennon. Na noite de 9 de dezembro, Paul participou do programa do comediante Jimmy Fallon e cantou com ele, em dueto, a versão original de Yesterday, que falava em ‘ovos mexidos’ (scrambled eggs), dando-lhe uma pista para lembrar da melodia e manter o timing das palavras. Mark Chapman, que já teria direito a sair em condicional, e não consegue que a Justiça americana o libere, um dia sairá às ruas novamente. Imaginem se o povo vai deixá-lo viver em paz, como sonhava o sonho de Lennon para todos? É viver e esperar...

domingo, 12 de dezembro de 2010

A FACE OCULTA DE MAURO ULLRICH

Ontem à noite, não fomos curtir o novo bar da cidade, o Legend Music Bar, mas, sim, ao jantar de despedida do Prof. Flavio Williges, meu ex-colega, amigo eterno e ex-colunista da Gazeta do Sul. A noite estava agradável, com lua e estrelas (a meteorologia errou novamente!). Saímos de lá pelas 2h30 da madruga. Eu poderia ter dormido mais hoje; no entanto, conforme contara para os meus amigos lá na despedida do Flávio, há um galo miserável e uma dúzia de galinhas no vizinho ao lado, em uma casa, em pleno perímetro urbano, que nos impede de dormir.O barulho é demasiado, sobretudo quando o galo está atrás das galinhas.
Nesses momentos, em que não posso desfrutar do sono sagrado, passam-me ideias mirabolantes pela mente - e até sinistras. Lembro-me, então, de que Schopenhuaer e Maquiavel ressaltavam em suas obras o fato de que o homem é um animal méchant (perverso) por natureza. Por enquanto, tenho tentado controlar a minha hybris e não corroborar a posição dos caras acima...
Levantei-me para escrever sobre Lennon? Não, para comentar uma face (que eu não conhecia) do Mauro Ullrich, marido da Josi, e jornalista da Gazeta do Sul. Sou colunista do Diário Regional, há meses; então, tenho evitado de falar com a Josi sobre as minhas crônicas, os comentários que rolam no blog e as vozes dissonantes que têm surgido nesta cidade, em relação às minhas ideias (acho que a Josi é uma "espiã", leitor). Que coisa maravilhosa quando pessoas discordam da gente e sabem como expressar-se diante do dissenso, da diferença, das pequenas tensões.
Só não consigo, em relação à Música, enquanto expressão estética universal, apreciar, por educação e amizade, um "sertanojo universitário (que não se forma nunca...diria o Rafael Trapp), funk, pagode ou bandinha. Estão aí elencados os gêneros que me causam síncope orgânica! Quando rolam, eu me retiro em silêncio! Respeito os gostos divergentes!
Mas ontem à noite, o Mauro Ullrich, roqueiro inveterado e também apreciador de um bom metal, estava cantarolando 'sambas de morro' e as clássicas da MPB. O Rafael Koehler, nosso aluno e professor de violão, estava se esforçando para dar alegrias ao Mauro, mas ele não conhecia as pérolas que o cara desfiava. Peguei o violão e tentei mostrar serviço; toquei a cult "Saudosa Maloca" e um sambinha do Chico Buarque. Pois o Mauro as cantou, cantou todas, e isso me impressionou. Como pode um roqueiro conhecer samba? Não só conhecer o gênero, mas cantá-lo e afinadamente!
Isso é a encarnação do dissenso, do qual falara antes. Também sou roqueira. Comecei a tocar violão nos final dos anos 60, interpretando Elis ou Nara Leão, mas também os Beatles e, alguns anos depois, os temas do rock progressivo inglês. O Mauro ama o Paul e trabalha na Gazeta. Eu amo o John e escrevo para o Diário Regional. Nem por isso, trocamos farpas ou deixamos de cantarolar juntos. Espero que alguns leitores desta cidade cheguem a esta crônica e entendam sua mensagem sub-reptícia. Josi, tu não tens pinta de mulher da ex-KGB ou da ex-Stasi. Vou conversar contigo sobre o que escrevo. Mauro, tu és uma figura, canta bem e és muito carinhoso! É muito bom encontrar o dissenso humanizado, na casa de amigos em comum, e poder confraternizar, como faziam os antigos gregos.
Leiam, pois, minha crônica na terça. Continuarei a falar do John, que imaginava todas as pessoas vivendo suas vidas em Paz, mesmo com sua natureza méchant! Have a nice Sunday!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

ONDE VOCÊ ESTAVA QUANDO LENNON MORREU? (PARTE I)

Na página da CNN, encontra-se um link destinado à pesquisa: “Where were you when Lennon died?”. A tradução está no título desta crônica, carregada de nostalgia. Eu estava em São Paulo, de férias, na casa de amigos, quando alguém comentou que John Lennon havia sido assassinado. Era dia 9 de dezembro de 1980, o dia subsequente ao crime, que ocorreu na noite de 8 de dezembro. Tivemos de esperar para checar os detalhes, que envolviam a morte de Lennon, em uma reportagem da TV.

Desde outubro, quando Lennon completaria 70 anos, homenagens e tributos estão ocorrendo, especialmente em Nova York e em Liverpool. No início desse mesmo mês, em uma lojinha de Manhattan de cultura pop, o FBI ficou sabendo que um documento com as digitais de Lennon, de 1976, quando ele solicitava a cidadania americana, estaria sendo leiloado naquele dia. Foi um tumulto e, após telefonemas dos proprietários da loja a seus advogados e um fax do FBI, solicitando a apreensão do tal documento, o mesmo desapareceu com um agente enviado para a missão.

Ninguém sabe como esse documento, que sumiu do escritório da Imigração, à época, foi parar nas mãos de comerciantes. O fato é que, até hoje, o FBI continua interessado no ‘caso Lennon’. Assisti a um documentário, em Porto Alegre, em pré-estreia no Festival Varilux, no mês de junho, muito sugestivo: “Os EUA contra John Lennon”, de David Leaf e John Scheinfield, 2006, 1h36min. O filme pode ser baixado com legendas em um sítio da WEB.

O documentário mostra Lennon bem menos como um troublemaker (um legítimo criador de problemas!) e muito mais como um verdadeiro pacifista, um militante incansável, sempre apoiado e acompanhado por Yoko em suas investidas. Ainda que muitos se refiram a ela, até hoje, como a uma “alien”, tive a oportunidade de conferir uma retrospectiva dos 50 anos de sua obra artística, não apenas pictórica, mas sobretudo de performances e instalações, no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, em dezembro de 2007, que me deixou emocionada. Encontrei, em uma sala especial da exposição, objetos em bronze. Lá estava uma camisa de John, embalsamada em bronze, com um furo paradigmático na altura do coração. Do furo, escorria uma mancha escarlate, que descia até a bainha...