sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

"HAMLET", DE RON DANIELS, COM THIAGO LACERDA NO PAPEL PRINCIPAL, NO TEATRO TUCA, EM SP - 5ª PARTE

(Meu blog alcançou a marca das 15 mil leituras aos meus posts! Muito bom!)

No domingo à noite, ainda em São Paulo, por fim, fomos ao Teatro Tuca, da PUC/SP, para especular se conseguiríamos ingressos para assistir à montagem "Hamlet", de Shakespeare, com a direção de Ron Daniels e Thiago Lacerda no papel principal. Sim, conseguimos assentos separados, mas havia ainda. O teatro estava lotado na vesperal de domingo às 19h. A peça seguirá em cartaz a partir de janeiro, até fevereiro de 2013, em SP. Depois, viajará pelo Brasil. Bem, para quem assistiu como eu a grandes espetáculos em 2012, priorizando o teatro em detrimento do cinema e da arte, elencarei as peças que conferi: "Comédia do fim do mundo", com a galera do Terça Insana, em maio; em julho, de férias no RJ e na companhia de Dany Horta, assistimos ao monólogo que recria a personagem de Theo Van Gogh, "O outro Van Gogh", protagonizado por Fernando Eiras, no auge de sua capacidade dramática. Apreciei muito esse monólogo, inspirado nas cartas trocadas entre Theo e Vincent, no período de 1872 a 1890; "Hécuba", de Eurípedes, com a direção de Gabriel Villela; em junho; "Mãe Coragem e seus filhos", de Brecht, com o grupo Berliner Ensemble, fundado por Brecht, em Berlim, em 1949, em setembro, no Porto Alegre em Cena;  "Macbeth", de Shakespeare, com a direção de Gabriel Villela e Marcello Antony no papel principal, no final de novembro, e "Hamlet" na noite de 9 de dezembro. A concepção da peça é de Rui Cortez e a tradução do texto, de Marcos Daud e do próprio diretor. A cenografia é de André Cortez e o figurino de Cássio Brasil. "Hamlet" marca o retorno de Daniels aos palcos brasileiros, porque  dirigiu no Brasil, pela última vez, Raul Cortez, na pele de "Rei Lear", também de Shakespeare, que eu tive a honra de assistir em setembro de 2000, em SP, bem antes da morte de Cortez. Ron Daniels é um dos diretores associados ao Royal Shakespeare Company e, atualmente, reside em NY. Com certeza, essa montagem virá para o Theatro São Pedro, de Porto Alegre, em 2013. Fiquem atentos, amigos!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

GRAVURAS DE GOELDI NO ACERVO DA PINACOTECA DO ESTADO DE SP- 4ª PARTE

Fui conferir a coleção de 56 gravuras de Oswald Goeldi (1895-1961) incorporadas ao acervo da Pinacoteca de São Paulo, no domingo lá pelas 17h, depois de sair do MASP. É a primeira vez que a Pinacoteca apresenta esse conjunto de gravuras de Goeldi. Por isso, eu não poderia deixar de visitar a mostra.  Várias impressões póstumas das matrizes, que sobreviveram ao artista, puderam ser feitas, autorizadas pelos depositários do legado do artista. Aí reside o problema de não ser possível sistematizar sua obra gráfica, além do fato de que Goeldi não datava nunca suas cópias. A gravuras mais escuras são belas, mas há um fascínio singular no modo como o gravador usou a cor em suas ilustrações, como, por exemplo, para a obra de Raul Bopp,"Cobra Norato". Goeldi também ilustrou, além de obras de Graça Aranha e Jorge Amado, três títulos de Dostoiésvski ("Recordações da casa dos mortos", "O idiota" e "Humilhados e ofendidos"), todos publicados pela José Olympio. Muito linda a exposição com a curadoria de Carlos Martins!

"LUZES DO NORTE", NO MASP (O RENASCIMENTO ALEMÃO) - 3ª PARTE

Saindo do Ibirapuera (ler os outros dois comentários anteriores), fui para a Paulista. Visitei apenas a exposição 'Luzes do Norte', sobre o Renascimento Alemão, dentro do MASP, representado por expoentes da Coleção do Barão Edmont de Rothschild (doada ao Louvre), com a curadoria de Pascal Torres Guardida. Na primeira sala, os antecessores de Albrecht Dürer, Cranach, o Velho, e Hans Holbein, tomaram conta do espaço, séculos XV e XVI. Depois, conferi as primeiras obras realizadas com buril, como "A prisão de Jesus Cristo", uma das mais antigas gravuras de que se tem notícia. A seguir, observei as gravuras de Martin Schongauer, Mestre Frans van Brugge,  Jean de Cologne e Mestre Mair von Landhust (de 1500), esse de Frankfurt. O terceiro conjunto de gravuras era aquele pelo qual eu esperara para ver: a obra de Albrecht Dürer, que aprendi a amar desde pequena, uma vez que tive a sorte de ter um pai jornalista, artista gráfico e apaixonado por Arte. Desde cedo, crescemos com reproduções de grandes clássicos nas paredes de nosso quarto de meninas e meu pai, de acordo com os nossos pedidos e possibilidades técnicas, repassava as gravuras de Escher, Vasarely e Dürer para camisetas, em serigrafia. Vi "O retrato de rapaz", em pedra negra lavada; "Retrato de homem, em pedra negra e realce em pastel branco; "Retrato de Ulrich Varnbüler", em xilo sobre papel estendido em tela; "A leoa" (1521), uma aquarela, com tinta preta e guache; "Apolo e Diana", em buril; "Apóstolo em pé", em lápis de prata sobre papel preparado em verde; e, finalmente, o que eu sempre quis ver ao vivo, porque o tinha reproduzido em uma camiseta (que usei até puir), o famoso e pequenino "Rhinoceros", em xilo, com uma impressão tardia, em 1520, em verde monocromático. Magnífico! Sempre amei a obra de Dürer e a conheço de vários museus europeus, além de possuir duas reproduções dele em minha sala: uma xilo e uma guache.
Próximo comentário, sobre as gravuras de nosso brasileiro Oswaldo Goeldi (1895-1961), que visitei na Estação Pinacoteca de SP, recentemente incorporados ao acervo dessa instituição.

ADRIANA VAREJÃO NO MAM - 2ª PARTE

Após a 30ª Bienal de SP (ler comentário anterior), fui a mais três espaços sozinha. Percorri rapidamente a panorâmica de Adriana Varejão, que expõe no MAM até a metade de dezembro. Como eu já conhecia uma parte das peças que lá estavam, uma vez que um conjunto de instalações sobre o charque (o charque saindo vermelho para fora dos vãos das paredes de azulejos. Bem chocante!) esteve presente na V Bienal do Mercosul de Porto Alegre, em 2005, fiquei mais atenta à sua produção mais atual.  A artista Adriana Varejão é uma garota de cabelos longos acaju de 47 ou 48 anos. Também carioca, é uma das artistas brasileiras mais reconhecidas no exterior, além de ter suas obras muito bem-cotadas no mercado de arte. Sua mostra no MAM, intitulada de "Histórias às margens", é constituída de telas tridimensionais em gesso com cores muito fortes, em especial, a escarlate. São carnes expostas, vísceras putrefatas, saindo dos quadros... Uma festa sensorial que, certamente, deixaria Francis Bacon fascinado! Fiquem ligados!

30ª BIENAL DE ARTE DE SP - 1ª PARTE

Estive pela quarta vez em São Paulo, em 2012, neste final de semana. Não confirmei minha ida aos meus amigos.  Minha Sony está avariada; portanto, não tenho fotos para postar. A Bienal de Arte de São Paulo, em sua 30ª edição, fechou suas portas no domingo, dia 8 de dezembro, antes do horário protocolar, por falta de energia elétrica. Estivemos lá entre 11h e 14h. Inclusive, almoçamos no Restaurante Gi, dentro do complexo. Estive na Bienal de Arte de SP, pela última vez, em 2006. Assim, fiquei sem visitar duas edições, sendo que a última, de 2010, foi extremamente comentada pela imprensa, em função de sua conotação política. Esta 30ª edição teve como tema "A iminência das Poéticas", com a curadoria do venezuelano Luis Pérez-Oramas. O título pareceu-me questionável, porque se as poéticas são iminentes, elas não vingaram ainda. Então, o que havia representado nesta Bienal? Projetos de poéticas? Conversamos, no break para o almoço, com três estudantes que faziam as ações educativas da mostra. Eles me perguntaram o que eu destacaria da visita. Então, respondi-lhes: nada no térreo. No segundo andar, adorei a arte sobre papel do argentino Eduardo Stupia, nascido em 1951, cuja obra eu já conhecia de um museu de Buenos Aires. Adorei suas peças "Paisagem" e "Nocturnos", em pastel e lápis, respectivamente. Na sequência, Andreas Eriksson, sueco nascido em 1975, preparou especialmente para a Bienal de SP uma sequência de acrílicas sobre madeira com c-print sobre MDF e gesso. Compôs, então, "Primeira neve no Ibirapuera", de 2012. Muito lindo o conjunto todo em uma única sala, em quatro paredes. Após, fui visitar a sala de nosso carioca, que eu adoro, o Eduardo Berliner, nascido em 1978. O trabalho dele é mítico e animista!  Ele joga com o binômio essência/aparência de um modo inovador. Uma das epígrafes de Berliner, na parede, fazia remissão a um trecho de "No caminho de Swan", de Proust, exatamente à página 70, em que uma lenda céltica conta que as almas daqueles que amamos se acham cativas em algum ser inferior, como um animal ou um vegetal. Eduardo Berliner foi o primeiro brasileiro a fazer parte da coleção de um grande e notório colecionador britânico, Charles Saatchi. Isso foi noticiado na imprensa e nas revistas de arte. Berliner faz de seu entorno um forte elemento constitutivo de sua obra pictórica. Por isso, a violência implícita e o grotesco. Adorei também a obra de Odires Mlászho, nascida em SP em 1960, especialmente "Retratos possuídos". Essa artista eu não conhecia ainda. Por fim, as telas em acrílico e óleo da nossa carioca Lúcia Laguna, que eu também adoro. Ela preparou para sua sala da Bienal de Arte uma composição pictórica, dividida em várias telas, que retratavam seu próprio ateliê, as telas comprimidas no espaço de criação, a janela de seu apartamento e a comunidade da Mangueira, a qual Lúcia Laguna enxerga quando está trabalhando. Há uma exuberância de sobreposições de formas, linhas e cores - e cores insólitas, como a púrpura e um tom de marron!!!! Muito lindo, vivo e impactante! Visitei algumas salas de fotografias, mas eu quis fruir a pintura, bem como a arte sobre papel, que, surpreendentemente, retornaram a essa Bienal, sempre tão marcada por instalações, vídeos, performances - o que já me enjoou demasiadamente.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

SÃO PAULO - quarta vez em 2012

Amigos, estaremos visitando neste finde a 30ª Bienal de Arte de SP, a panorâmica de Adriana Varejão, no MAM, e a expo "Luzes do Norte", gravuras da coleção particular dos Rothschild, no MASP. Na volta, escreverei meus comentários críticos.  No sábado à noite, irei ao pub "Jazz nos Fundos". Abraços e aguardem!

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

"MACBETH" NO THEATRO SÃO PEDRO E ROMARIA À PROCURA DE UM RESTAURANTE

No domingo, fui a Porto Alegre novamente. Os ingressos estavam comprados há dois meses para a montagem de "Macbeth", de William Shakespeare, direção do Gabriel Villela, figurino do próprio Villela em parceria com o inventivo Shicó do Mamulengo (assisti à montagem de "Hécuba", de Eurípides, dessa mesma dupla, no TSP neste ano, e o figurino era muito interessante: econômico e muito criativo!), e cenografia do Márcio Vinicius. No elenco, Marcello Antony, como "Macbeth", e Cláudio Fontana, como Lady Macbeth, integrando um grupo exclusivamente masculino no palco.  "Macbeth", no cinema, de 1948, com Orson Welles no papel principal, e direção dele mesmo, é um arraso! Certamente, todos os outros Macbeths que surgiram no cinema e no teatro tentaram mimetizar a representação singular de Welles. O texto original dessa peça é relativamente curto e foi escrito no início do século XVII, cuja estreia ocorreu em 1606. Segundo A. W. Schlegel, um dos teóricos do Romantismo Alemão, não há nada mais grandioso, nem mais terrível que "Macbeth", depois de Ésquilo e sua "Orestíada". A tragédia  é ambientada na Escócia e trata da ambição humana, do livre arbítrio e do destino, ao passo que "Hamlet" trata da dúvida; "Othello", dos ciúmes. A montagem de Gabriel Villela tem pontos altos como o enxugamento de mais de três horas de montagem, na versão clássica, para exatos 90 minutos, com várias cenas distintas construídas no mesmo espaço cênico. Além do figurino econômico, constituído de coletes, véus, bordados a mão, e tecelagens - que lembram muito a obra de Arthur Bispo do Rosário, com seus estandartes, seu jogo lúdico nos bordados e seus assemblages -, o cenário contém um painel transparente com uma imagem de Duncan, o Rei da Escócia, uma escada, algumas cadeiras de madeira, tipo assentos antigos de cinema desativado, e uma espécie de tapume de construção civil, alto e cheio de objetos pendurados na parte interna, representando a fortaleza de Macbeth, após o assassinato de Duncan. Para mim, as Três Moiras ou Fúrias, vaticinando o futuro de Macbeth e de Banquo, também um militar, representadas por três atores na pele de três 'bibas', totalmente afetadas, rindo alto e em coro, tecendo o destino dos mortais com antenas de televisão nas mãos, como se tecessem um fio, foi demais! Muito bom e hilário, momentos únicos de riso na tragédia. O folder com a ficha técnica da montagem também é de alto nível, com textos seletos sobre a peça, mais um mosaico de depoimentos da imprensa. Ao final do espetáculo, após o suicídio de Lady Macbeth e do assassinato de Macbeth, ouve-se The Doors, "The End"! Lembrei-me muito do "Apocalypse Now", do F. F. Coppola. Na saída do Theatro São Pedro, fomos procurar um restaurante aberto no domingo às 20h30. Missão quase impossível em uma capital que sediará jogos da Copa do Mundo, em 2014. Encontramos fechados o Lola e o Lorita, ambos na Castro Alves, o Sharin, na Felipe Néri, o Bar da Mata, na Matta Bacellar, o Bar do Nitto, na Lucas de Oliveira, e o La Villa Amalfi, na Dona Leonor. Só encontramos abertos os bares e restaurantes da 'calçada da fama', da Padre Chagas e da Dinarte Ribeiro. Então, optamos por voltar ao Press, da Hilário Ribeiro, no qual estivemos em 7 de outubro.

domingo, 18 de novembro de 2012

CROSSOVER DE MÚSICA ERUDITA E ROCK: ORQUESTRA DA UCS E A HARD ROCKERS BAND, DE CAXIAS DO SUL

Estivemos agora à noite no auditório da Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC para prestigiar um concerto comemorativo aos 50 anos de sua mantenedora, a APESC, com a Orquestra Sinfônica da Universidade de Caxias do Sul - UCS -, sob a regência do simpático maestro Manfredo Schmiedt, acompanhada de uma banda de rock, a 'Hard Rockers', com cinco componentes da mesma cidade. Os arranjos, que compatibilizaram o rock com a música erudita, foram obra de estirpe do musicista e arranjador Alexandre Ostrovski Jr. O repertório era composto de temas do rock progressivo da década de 70 mesclados a alguns outros dos anos 80 e 90, mais ao estilo do hard rock, nacionais e internacionais. O casamento do erudito e do rock não é algo novo. No início da década de 80, eu apreciava muito ouvir as composições da banda holandesa "Focus", fundada em 1969, pelo tecladista e flautista  Thijs van Leer. Eles sofriam influência de uma outra banda, a "Traffic", que eu também ouvia e amava, mas acabaram se inclinando pela forte referência à música erudita, ao barroco, em especial, e às improvisações instrumentais, que marcaram uma geração posterior, que enfatizou a fusion entre rock, funk e jazz. Poucos anos depois da aparição da "Focus", surge no cenário do rock progressivo o "Queen", banda britânica fundada em 1971 com Freddie Mercury à frente. O álbum "A Night at the Opera", que saiu em 1975, o white album, para os fãs de carteirinha, continha um tema inclassificável do ponto de vista do gênero musical: a  Bohemian Rhapsody. Dali para a frente, nunca mais deixei de cantar os versos: "Is this te real life?/ Is this just fantasy?/ Caught in a landslide/ No escape from reality (...)". Por fim, eu não poderia deixar de mencionar a 'Scorpions', uma de minhas bandas prediletas, que o regente da orquestra da UCS destacou, porque era o tema da finaleira do setlist. A 'Scorpions' é uma banda de origem alemã e desenvolveu um álbum com a Orquestra Sinfônica de Berlim, uma das mais prestigiosas do mundo. Subiram ao palco na cidade natal da banda, Hannover, em 2000, em um show magistral, "Moment of Glory, uma década após a queda do Muro de Berlim, do qual se tem como registro um DVD. Procurem temas no You Tube, porque são demais: Still Loving You ou Wind of Change. Hey, Ho, rock'n roll.

UM POEMA


CONTAS A PAGAR


Estou em dívida com meu ‘mestre’,
Que de minha vida não cuidou,
Superficialmente participou
Até transbordá-la de desamor.

Aquilo que não quis ser,
Que não pude acolher,
Recusei-me a entender,
Ainda assim, em meu ‘mestre’, me abasteci.

Lembrei-me das viagens,
Dos passeios culturais
Dos poemas que sem ele eu sorvi.

Para além do que ficou para trás
Para aquém do que me está reservado
Devo muito a quem foi meu 'mestre'!

Que de minha vida
Não mais participou.

Anuncio aqui,
Há pouco instalado,
Meu desafeto e, de devedor, meu extrato!

Rô Candeloro - out. 2012 (do livro inédito, "Viagem abissal")

terça-feira, 13 de novembro de 2012

FEIRA DO LIVRO, MÚSICA NO ODEON, LITERATURA E CHINA NOVAMENTE...

(post re-revisado. Meu blog está atingindo hoje 14 mil acessos aos posts!)

Neste finde, voltei à Feira do Livro de Porto Alegre. No sábado à tarde, havia filas longas em direção ao estande dos autógrafos, sob um imenso calorão! Fotografei um grupo de umas 15 pessoas, do Comitê Popular Memória, Verdade e Justiça, que faziam uma manifestação com cartazes nas mãos, denunciando a impunidade de um militar torturador, ainda vivo. Antes de ir à Feira, estive no cinema. Fui ao Cine Guion assistir à produção franco-libanesa, "Aonde vamos agora?" (Et Maintenaint, On Va Où?, de 2011), da diretora libanesa Nadine Labaki,  conhecida pelo longa "Caramel", de 2007. O filme retrata uma aldeia distante no interior do Líbano, cujas mães e esposas, de luto pelos filhos e esposos mortos nos conflitos religiosos entre muçulmanos e cristãos, visitam o cemitério na cena inicial. Algumas delas, lideradas pelas mais maduras, resolvem boicotar as notícias sobre os conflitos na única TV pública  do povoado e em um  impresso, que lhes chega de moto, diariamente, de uma cidade maior, nas proximidades. O modo pelo qual as líderes deliberam, no sentido de distrair seus maridos em relação ao que ocorre no país e ao seu inexorável destino, dá uma atmosfera de fábula à narrativa e um tom  surreal ao desenrolar do filme, sem contar que se trata de um semi-musical, cantado em libanês, claro! Não comentarei o desfecho aqui! Muito bom! Recomendo-o! No domingo, optei pelo Irã, na visão hollywoodiana de Ben Affleck, o incensado "Argo", de 2012, com o próprio diretor como protagonista (que também é produtor com George Clooney, além de roteirista! Uau!), o caricato John Goodman e um bom elenco. Apreciei o ritmo, o suspense, a ação, o roteiro, as imagens documentais, a construção de época, a fotografia, com imagens de Teerã. No entanto, considerei-o nacionalista demasiado, americanófilo de doer. Foi difícil de suportar, fora o fato de que há uma cena que mostra o reflexo do tórax do Affleck em um espelho de hotel, vestindo uma camisa! Totalmente dispensável! De qualquer modo, penso que todos têm de conferir, independente de meu ponto de vista. O episódio retratado pelo longa é verídico, foi realmente uma perigosa missão da CIA, protagonizando a produção de um filme 'fake', o "Argo", ficção científica, que deu certo e salvou a vida de seis funcionários da Embaixada dos EUA, em Teerã. À noite, no sábado, fomos ao Odeon, um bar no centro de Porto Alegre, fundado há 27 anos, na Andrade Neves. Aos sábados à noite, às 21h30, com couvert a módicos 10 reais, o notável guitarrista James Liberato toca com seu power trio, o Mig Trio, constituído pelo Fernando Petry, um baixista animal, bom pra caramba, e o Jua Ferreira na batera (esse batera eu não conhecia). O som deles é uma fusão de rock,  jazz e umas pegadas de funk. Ora lembrou-me o Pat Metheny brincando na guita com o baixo de Charlie Haden; ora o som da banda do virtuoso Jeff Beck. O Odeon mantém um cardápio enxuto: chopp, fritas e maravilhosos (e verdadeiros, pasmem!) bolinhos de bacalhau! Faltou no cardápio o "rim ao óleo e alho", mas o garçon-patrimônio-da-casa estava à procura de um doador para superar  a carência.  Quanto à literatura, neste finde, li as preliminares do romance que minha filha está escrevendo, no gênero chick lit. Mais uma vez, discutimos sobre a trilogia fanfic "50 tons de cinza", da Erika James. Eu fazendo a crítica; minha filha, a defesa (ela explica que a James apenas ressignificou o universo do vampirismo e o dignificou como sadismo nos '50 tons de cinza')! Ela (a filha) aprecia o gênero representado atualmente pelas obras da Lauren Weisenberg, da Sophie Kinsella e da Marian Keyes. Para terminar, comprei na Cultura Os Analectos,  de Confúcio, relançados há pouco, e a segunda edição do belo volume de poemas chineses clássicos, traduzidos pelo Haroldo de Campos, e ampliados pelo Trajano Vieira, em uma edição belíssima da Ateliê Editorial. Atrevi-me a fotocopiar uma das odes, do "Livro das Odes", compiladas pelo próprio Confúcio, no século VI a. C., e levei-a para a aula de "Filosofia e Cultura Oriental"  de hoje, para meus alunos sentirem a musicalidade da transcriação pilotada pelo saudoso e querido Haroldo de Campos, que nos deixou há quase uma década. Continuo parada na China (ou avant la lettre?)....

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

WALLERSTEIN, CHINA, CONFÚCIO E TUDO O MAIS QUE ME INTERESSA!

(alcançando hoje quase 13 mil e 500 leituras de meus posts!)
(Re-revisado em 4 de novembro!)

Para quem é transdisciplinar como eu, é difícil de os outros imaginarem como faço para internalizar as leituras que realizo de áreas diversas e literatura de gêneros distintos! Leio poesia todos os dias (desde a semana passada, poemas franceses e ensaios sobre Arte, de Rilke, e uma coletânea da Estação Liberdade da poeta polonesa, Nobel de Literatura, que faleceu neste ano, a Szymborska (pronuncia-se algo como Schemborska!). Também estou terminando o livro "Arriscar o impossível", do Zizek (pronuncia-se Jijek!). Neste momento, estou finalizando o esquema de uma aula sobre a phronesis (o justo meio), na ética de Aristóteles, para hoje à noite, e deixei há pouco de lado uma leitura in progress para a aula de Filosofia e Cultura Oriental, no dia 5 de novembro, no curso de Relações Internacionais, sobre o Taoísmo e o Confucionismo na China, do Marcel Graner (da editora Contraponto). Ganhei um livro da Oxford University Press, Indian Philosophy in English, comprado dentro do aeroporto internacional de Cingapura por um querido aluno meu dessa disciplina, de RI, que é inteligente, interessado e resolveu me brindar com uma pequena preciosidade, além de ter-me emprestado dois volumes sobre a China e sua expansão marítima no século XV. Ele é o executivo Ericson Fensterseifer. Aí inicia-se a narrativa do insight que tive há pouco. Li alguns trechos dos livros emprestados sobre a China e ontem à noite assisti, no Canal Futura, por acaso (que não é bem por acaso, né?), a um documentário sobre os mapas de navegações do século XV e a expansão marítima protagonizada pela China e, depois, pela Europa. Fiquei pasmada com os mapas com os quais a China, há mais de 600 anos, já singrava os mares com centenas de naus. Sempre apreciei a História, mas não para estudá-la sistematicamente. Assim, já conhecia as aventuras de Marco Polo  desde menina e as contribuições do império de Gengis Khan. No entanto, não sabia nada sobre o famoso navegador Zheng Ke (1371-1433), que, durante 28 anos, desbravou os mares a serviço dos imperadores da dinastia Ming. Subitamente, quando a China decidiu não investir mais na expansão marítima, a Europa começa a ser proeminente no ramo. Alguns estudiosos afirmam que os confucionistas dão ênfase ao 'interior' e, por isso, em um determinado momento do século XV, dependendo de quem estava no poder, os chineses voltaram-se para o próprio império; houve um tipo de "contração" e, então,  deixaram de lado o impulso pela conquista de terras exóticas e incógnitas. Dizem que Colombo teria chegado à América 87 anos após Zheng Ke já ter aportado por lá. Os portugueses eram misteriosos em relação às suas conquistas, porque insistiram muito para que o Tratado de Tordesilhas tivesse sua linha imaginária deslocada para o Oeste, o máximo possível. Já sabiam de algo, certamente, talvez,  pelos chineses. Associado a isso tudo, lembrei-me que, conversando com o Airton Mueller (conhecido em Berlim como "Érton"!), doutorando em Ciências Sociais na Freie Universität Berlin e orientando do eminente sociólogo brasileiro Sérgio Costa, diretor do Latinamerika-Institut dessa instituição, o mesmo indicou-me um tal de Immanuel Wallerstein e sua Teoria dos Sistemas-Mundo. Não deu outra! Desde aquele sábado, dia 20 de outubro, em que conversamos, entre almoço e cafés durante quatro horas, fui atrás do Wallerstein. Esse cientista político, da geração de Apel, Habermas e Bauman, é norteamericano e deu aula na Columbia University até 1971. Desde 2000, é pesquisador sênior na Yale University e expert em pós-colonialismo na África. Esse pensador tem apenas um livro traduzido para o Português, de 2001, "Capitalismo histórico e civilização capitalista", da Contraponto. O Airton contou-me que Sérgio Costa e seu grupo estão estudando o modelo de Wallerstein, que se inscreve na seara dos escritos críticos pós-marxistas e faz uma crítica mordaz aos teóricos da globalização, aqueles que defendem que o atual sistema não tem precedentes na história (sic). Foi uma descoberta para mim, porque a Teoria dos Sistemas-Mundo - que pretende oferecer uma via intermediária entre as narrativas singulares e as diretivas universais do campo social, dialogizando a matéria idiográfica da História  e o domínio nomotético da sociedade (isso é dos comentadores do Wallerstein) -, é utilizada por várias ciências, inclusive pela Arqueologia e fiquei imaginando-a nos domínios da Filosofia, como no Idealismo Alemão ou, antes, na Nova História de Vico. Se a Teoria dos Sistemas-Mundo explica os longos ciclos que determinam a configuração socioeconômica atual dos países altamente industrializados, uma vez a China fora de cena, no século XV, vê-se que ela está voltando com toda a força ao palco principal. E os países periféricos e semiperiféricos, em decorrência, deveriam ser agregados à Teoria dos Sistemas-Mundo, suponho,  por dedução. Assim, continuarei a estudar a China e suas filosofias. Quem sabe, ainda estudarei, daqui a alguns anos, Mandarim? A China está com tudo...

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

PORTO ALEGRE: FEIRA DO LIVRO, AMIGOS, CAFÉ, GASTRONOMIA E CINEMA, CLARO!

Estive em Porto Alegre neste finde, novamente. Fui de carro com uma grande amiga, parceira de viagens: a Jana Previdi. Carro zero, confortável, música de peso e papo inesgotável! Chegamos em Porto Alegre por volta das 14h e fomos direto para o óbvio: o Mercado Público! Filas, como sempre, no Seninha e nos dois Japescas. Acabamos subindo para o Sayuri. Pedimos uma porção de sushi Filadélfia, meu preferido, e uma Yaksoba de camarão. Para os vegetarianos e veganos, eu menos radical, a Jana, muito radical, Porto Alegre oferece algumas opções de qualidade! Adoro a comida do Mantra, do Súpren e do Ocidente, nesta ordem de preferência. Ontem, domingo, ao meio-dia, acabamos almoçando no "Al Nur", que também disponibiliza em seu cardápio uma rodada de comida árabe "sem carne"! Portanto, boa pedida para quem é vegetariano! Na tarde de sábado, fomos à Feira do Livro e a uma exposição no MARGS. Tomamos um café com amigos e fomos todos, por volta das 19h30, para uma casa de "tapas" espanhóis, na Rua Castro Alves, 422. O bar de 'tapas' é o Lola, uma casa com um ambiente agradável e  decoração temática. Pedimos uma "sangria" típica e uma bandeja de "tapas", como pastinhas, pães, camarões ao molho e bolinhos de bacalhau. Estava muito legal o papo, a companhia dos amigos e a vibe! Estavam conosco amigos queridos, como a Marília Ramos, docente de Sociologia da UFRGS, e o Airton Mueller, doutorando nessa área na Universidade Livre de Berlim, passando férias no Brasil. Na madrugada de domingo, estivemos no nosso pub cativo, o Dirty Old Man. A Jana pediu um coquetel tipicamente italiano, uma bebida que associa Aperol e vinho frisante. Interessante o sabor cítrico! Pena que o Zé Eckert não pôde estar conosco!  Ele seria mais um historiador no grupo! Em contrapartida, apareceu para me rever minha ex-aluna, a Nândria Oliveira, natural de Rio Pardo, bacharel em Comunicação Social pela UNISC, vivente de Porto Alegre. Desde março não nos víamos pessoalmente e esse encontro já estava prometido há meses! No domingo à tarde, antes de voltarmos para Santa Cruz do Sul, fomos ao Parcão dar uma caminhada e, após, seguimos para o Instituto NT, nos altos da Marquês do Pombal, para quem ainda não o conhece. A Jana ainda não o visitara e apreciou o point. Escolhemos assistir ao filme franco-germânico-filipino "Captive" (2012), com direção de Brillante Mendoza (com a extraordinária Isabelle Huppert, que eu amo, no elenco!), que narra uma história real, ocorrida nas Filipinas, em 2001, meses antes dos atentados nos EUA, protagonizados por Bin Laden. Um grupo de missionários e turistas é sequestrado por uma milícia muçulmana ligada àquele terrorista. Ao longo do filme, muitas contradições revelam-se - a dicotomia entre cristãos e muçulmanos, entre os militares do governo filipino e as milícias antagônicas entre si -, além de um problema imperioso, que nos reporta à Antígona: a urgência de um enterro de uma vítima cristã sob os auspícios de devotos de Allah. O filme foi exibido no Berlinale de 2012 e vale a pena ser conferido! Por hoje é isso, amigos e leitores! Namaste!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

SOBRE A AMIZADE: "AMICUS ANIMAE DIMIDIUM" (AGOSTINHO, NAS "CONFISSÕES", 4, CAP. 6)

A tradução da citação do título é "Um amigo é metade da alma".  Inicio a semana, dia 22 de outubro de 2012, sob o novo horário de verão, com sono e cansada: trabalhei bastante no micro, li um pouco e fui ao ensaio dos meninos da banda "Flores de Saturno", grupo de novos amigos com quem tocarei, fazendo uma participação especial, na noite de sexta, dia 26, no Pub Sunset. Resolvi escrever sobre a amizade, especialmente, aos meus amigos, porque eles, realmente, merecem uma singela homenagem de minha parte. Estou em uma fase difícil de minha vida. Hoje, faz um ano que me separei e ainda não superei o sofrimento que esse tipo de experiência implica. Não tenho estado bem de saúde e justamente na semana que passou tive um quadro de hipertensão. Em decorrência disso, minha imunidade baixou. Destaco aqui a dedicação da Tania Fleig, do Nataniel Piva e do Maurício Grassel; a atenção do Samuel Machado e do Evandro Rohden (virtual, de SP);  a companhia da Ana Claúdia Waechter, da Lilian Pilger, da Camila Deufel, do Leonardo Oliveira e do Taisson Machado, seja no bilhar, no estúdio ou mesmo aqui em casa, tocando um violão e cantando. Amigos são o nosso "princípio de realidade", usando uma categoria freudiana; ajudam-nos a nos confortar nos momentos tristes, fazem algumas mediações importantes entre os nossos juízos e os fatos em si; ponderam a nossa revolta, quando nos sentimos prejudicados por uma situação pontual; trazem luz às lembranças obscuras; e, sobretudo, cada um a seu modo,  concede-nos Amor. Aristóteles é um filósofo clássico, que abordou o fenômeno da amizade. Em sua obra "Ética a Nicômaco", lê-se: (...) "Tais amizades são, de fato, raras, porque são poucos os homens desta estirpe. Além do mais, é preciso tempo e cumplicidade, pois, tal como diz o provérbio, não é possível que duas pessoas se conheçam uma a outra sem antes terem comido juntas a mesma quantidade de sal. Nem se pode reconhecer alguém como amigo antes de cada um ter-se mostrado ao outro digno de amizade e merecedor de confiança. Pessoas que depressa produzem provas (exteriores) de amizade entre si querem ser amigos, mas não podem sê-lo logo. É preciso primeiro que se tornem dignos de amizade e se possa reconhecer neles essa mesma dignidade. O desejo de amizade nasce depressa, mas a amizade não". Para Aristóteles, a amizade verdadeira é fruto da vontade e do hábito e só se constitui entre iguais, ou seja, entre agentes que deliberem racionalmente sobre escolha de um Outro, que possua as mesmas excelências, com quem se estabelecerá uma relação de alteridade. O filósofo não aceita relações desiguais como amizade, quando, por exemplo, há interesses econômicos envolvidos, relações unilaterais em que só um se dedica; o outro, não; ou quando há desigualdades de outras ordens. Enfim, Amizade, para ele, é uma virtude e, portanto, imprescindível para a felicidade humana. Um abraço aos meus antigos amigos, de muitos anos, e aos mais recentes, que se comunicam com frequência, que cantam e tocam violão comigo, que almoçam comigo, que leem poesia comigo, que jantam comigo, que tomam um café comigo todas as semanas, perfazendo rotinas de trocas, de entregas, de acolhimento e de produção de conhecimento. Isso não poderia faltar, na visão aristotélica.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

ZIZEK, PARALAXE E MEDITAÇÃO

Ontem, foi quarta-feira! Como todas as quartas, almoço com o Samuel Machado (ex-aluno meu de Filosofia, professor de Filosofia no ensino médio privado e lacaniano) no café da Livraria Iluminura, em Santa Cruz do Sul (RS) e, às 16h, tenho sempre encontro de meditação com o Nattaniel Piva, o Natta, meu aluno de Filosofia e mestre de Meditação. É indescritível a minha alegria quando converso durante quase duas horas com o Samu e depois quase uma hora e meia com o Natta. Só aqueles que têm uma vida intelectual ativa e produtiva podem compreender o que esses encontros disseminam na mente, agregam ao conhecimento e o quanto validam a interlocução entre amigos! Hoje, eu e Samu conversamos sobre Hegel, inicialmente, depois sobre a poética de Augusto dos Anjos e, por fim, sobre Lacan - sempre Lacan na saideira! Ele estava com algumas questões irresolutas concernentes à pedagogia política de Hegel. O que mais estudei em minha formação na UFRGS foram as obras de Hegel e Heidegger. Sobre elas, tenho firmeza ao explicar, discutir ou tergiversar. O Samu comentou várias passagens dos "escritos" de Lacan comigo sobre cultura e destacou a distinção entre a psicanálise intensiva e extensiva, que bem compreendi. Em um de seus comentários, compartilhou algumas ideias do filósofo e psicanalista esloveno, Slavoj Zizek (pronuncia-se "Gigek"),  profundo conhecedor de Hegel e de Lacan. Peguei na biblioteca da universidade o livro "Arriscar o impossível: conversas com Zizek", publicado há seis anos pela Martins Fontes, em co-autoria com Glyn Daly. Como não conheço esse texto de Zizek, resolvi lê-lo antes do recém-lançado no Brasil, o "Vivendo no fim dos tempos", editado pela Boitempo, com introdução de Emir Sader. O que chamou a minha atenção, e ficou em minha mente durante horas, até o momento de eu conceber este pequeno post que publico agora em meu blog, é sua ideia de 'visão em paralaxe' ("A visão em paralaxe", livro dele lançado no Brasil também pela Boitempo, em 2008Paralaxe = "deslocamento aparente de um objeto, quando se muda o ponto de observação" - Houaiss). Associei essa percepção de "deslocamento", em consonância com a mudança da posição do observador, à Meditação, que tenho tentado praticar sob a orientação do Nattaniel. Se a consciência só existe na minha ânsia pelo "hic et nunc", apelando para uma visão em paralaxe, meus pensamentos movimentam-se à medida que minha consciência os observa e, igualmente, desloca-se. Observar os pensamentos é a pedra-de-toque da Meditação. Pensar os pensamentos é uma das estratégias da psicanálise. Não estou interessada nos argumentos de Zizek para reabilitar a filosofia do materialismo dialético, tampouco suas remissões às antinomias kantianas. O que me interessou, e será objeto de algumas reflexões até a próxima semana, é se o que ele denomina de "lacuna paraláctica" (uma espécie de "intermezzo, que, no meu entender, se estabeleceria entre os pensamentos e a consciência) pode contribuir para que eu compreenda mais detidamente o processo de meditar, o percurso do afastamento dos pensamentos de nossa consciência e o almejado convívio mais intenso com um silêncio profundo. Fica aqui apenas uma provocação e, mais adiante, voltarei a esse tema. Namaste!

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A SABEDORIA DO DESAPEGAR-SE!

Minha filha Mirelle ensinou-me um mantra para a liberação do Samsara, há alguns dias atrás. Li comentadores que afirmam que é muito poderoso enunciar as sílabas desse mantra tibetano. Ele tem a capacidade de nos libertar de problemas, lembranças desagradáveis e também de modificar ambientes pesados. OM TARE TUTTARE TURE SVAHA (a pronúncia mais próxima é "om tare tutare ture sorrá"). Há no You Tube alguns links da sonoridade desse mantra. O sentido aproximado de cada sílaba é:
OM: relaciona-se com os sagrados corpo, fala e mente de Tara.
TARE: neste trecho que o sofrimento é liberado.
TUTTARE: elimina todos os medos internos e externos, sejam eles vindos de desilusões ou de karmas.
TURE: esta parte concede todo o sucesso para a liberação da ignorância da natureza do Eu. É ela que mostra a verdadeira cessação do sofrimento.
SVAHA: significa “possa o significado do mantra enraizar-se em minha mente”. Pode ser considerado o “que assim seja”. (Fonte: http://sabedoriauniversal.wordpress.com).

Considero o "apego" como um tipo de exercício que é plasmado pelas ações/reações kármicas. Tenho praticado o contrário, o "desapego", desde sempre, sobretudo com relação à matéria, não apenas compartilhando tudo o que tenho, mas, especialmente, não adquirindo mais que o absolutamente necessário para a minha sobrevivência social e intelectual. O Bhagavad-Gita revela que aquele que abandona o apego egoísta em relação aos resultados de suas ações, segue intocado, como uma flor-de-lótus, que não é atingida pela podridão da lama em que nasce. Desapego é renunciar ao que não é essencial! Cultivar raiva, ódio ou indiferença por alguém é reafirmar o apego. Não compreendo como pessoas que se dizem espíritas, por exemplo, e afirmam compreender a doutrina kardecista, vivem apegadas às benesses que lhe foram concedidas um dia, e delas não se desapegam, mesmo sabedoras de que estão cometendo um equívoco e prejudicando outrem. Segundo o Bhagavad-Gita (cap. 16, verso 10), pessoas assim não têm conhecimento suficiente da impermanência e sentem-se vítimas, devido à ilusão, presas a uma rede de raiva, luxúria e egoísmo. Seres evoluídos e conscientes não tergiversam em fazer renúncias, em desapegar-se. Tenho muito o que aprender ainda - e necessito de mais tempo nesta existência para presenciar a extraordinária magia da mudança e do verdadeiro encontro com a consciência desperta, através da Meditação!
Namaste!

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A ESCOLHA PELA MUDANÇA: A MEDITAÇÃO!

Sempre ouvi dizer, ao nível do senso comum, que apenas pessoas que teriam acesso a um nível de conhecimento muito elevado, apresentariam condições de fazer uma escolha pela Meditação. No entanto, não é o que eu tenho aprendido com o meu Mestre: eu até posso promover mudanças em minha visão e atitude, e é o que eu tenho feito, mas a Meditação não é parte de um plano, decorrente do uso legítimo de minha racionalidade. Simplesmente, sem saber explicar a partir de inferências, fui-me aproximando da prática. Do Budismo, eu já estava próxima há muitos anos, até o final de 2008, quando cancelei minha participação em um 'vipasana'! Estou resgatando o que ficou para trás, há quase quatro anos, em uma busca incessante de compreender o que está por detrás dos pensamentos - e de meu sofrimento - e o que é possível utilizar, como técnicas, para alcançar esse 'estado'! Estive mergulhada em momentos de tristeza e de desesperança (o Samsara!!), de outubro de 2011 a junho de 2012, de ordem pessoal. A prática da Meditação, orientada e acompanhada por um Mestre, associada à formação filosófica, tem-me aberto novas perspectivas de entendimento de minha própria vida e de meu entorno, sem falar na serenidade e na alegria, que esses estados têm-me proporcionado. Eu prometi a meu Mestre que, tão-logo eu tenha uma forte e paradigmática vivência de Meditação, eu alterarei na página de meu Facebook a autodenominação de "agnóstica" para "espiritualista", como ele já vem sinalizando há semanas! Namaste!

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O CÍCERO VIRÁ!

Deu certo a campanha para trazermos o Cícero a Porto Alegre! É a segunda vez que faço parte de uma campanha dessas, desde o início, e tem sido uma ferramenta  de marketing poderoso! Iremos todos ao apartamento do Cícero para saborear um café; o meu, com adoçante, nada de açúcar! Voilá! Que coisa boa, amigos! No dia 11 de novembro, estaremos juntos novamente, a mesma turma que foi para o show do Criolo comigo, agora incluindo o Stéfano Demari e sua namorada parisiense, mais o meu querido Eduu Mandelli! Já divulguei o show no Opinião em minha página do Facebook e neste blog. Espero que o Cícero também encontre o meu post e, como o Criolo, faça um comentário. Como eu sigo a página pessoal do Cícero, desde o verão, no Facebook, ele deve ler o que eu posto!

Depois da perda do Autran Dourado no sábado e do Hobsbawn hoje, uma boa notícia alenta-me o coração! Boa semana a todos!

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

CÍCERO EM SAMPA E AGORA EM POA!

Esqueci-me de comentar com vocês que, qual não foi a minha surpresa, ao chegar à exposição dos Impressionistas no CCBB de SP, no sábado, dia 22 de setembro, vi em um banner a lista de alguns músicos que fariam show naquela tarde, no auditório desse centro cultural. O CÍCERO, quem procurei em Botafogo em julho, falando com os caras dos quiosques, tabacarias e botecos de algumas ruas do bairro, cantou lá. Achei onde o moleque mora atualmente no Botafogo! O som dele é muito massa! Seus temas foram compostos dentro do JK em que ele morava, até o ano de 2011. Hoje, ele está vivendo em um apto de três quartos. Hahahaha. Já tentaram ouvir algumas de suas canções no You Tube? O CD dele eu não encontrei em pleno RJ - e o procurei nas livrarias com bancadas de CD, na seção musical da Saraiva no RJ e em duas lojas grandes do centro. Não tive sucesso! Confiram! Agora, para o nosso deleite, depois da vinda do Criolo (em novembro de 2011 e no dia 14 de setembro de 2012, também na mesma casa, show no qual eu estive presente e colaborei com grana para a campanha!), que fez um comentário em meu blog (procurem aí o meu texto sobre o show do Criolo no Opinião), o Cícero virá com o seu "séquito romano"! Procurem a página no Face, "Queremos Cícero em Porto Alegre", em 11 de novembro, e "curtam" a página da campanha! Voilà!

terça-feira, 25 de setembro de 2012

SÃO PAULO, NO DOMINGÃO, 23 DE SETEMBRO (ÚLTIMA PARTE)

No domingo de manhã, como desisti de visitar a retrospectiva da Lygia Clark, na pinacoteca do Itaú Cultural na Paulista, a 30ª Bienal de Arte de São Paulo e a 'panorâmica' da obra de Adriana Varejão, no MAM, ambas no Parque do Ibirapuera, então, decidi visitar em uma hora a Pinacoteca do Estado de SP, como faço em todas as vezes que vou a São Paulo. As três exposições que não pude conferir desta vez, eu as visitarei em novembro, porque decidi voltar  a SP, pela quinta vez no ano. Todas estarão em cartaz até dezembro e ainda terei o prazer enorme de visitar uma retrospectiva das gravuras de Osvaldo Goeldi, na Pinacoteca, a partir desta semana. Cheguei lá às 11h e saí de lá às 12h10. Meu voo de volta a Porto Alegre sairia às 16h, em Guarulhos. Daí, eu não podia vacilar com os horários... Visitei apenas, dentro da Pinacoteca, a exposição do artista plástico Willys de Castro, um neoconcretista mineiro, falecido em 1988, muito bem-cotado no mercado de arte. Uma peça sua foi arrematada por mais de 150 mil reais há pouco tempo atrás. Fui checar a doação que seu companheiro fez, o também artista plástico Hércules Barsotti (falecido em 2010, aos 96 anos), ao acervo da Pinacoteca do Estado de SP. Uma doação expressiva de estudos e documentos de Willys.

 Comentarei, mais adiante, o valor das obras de Beatriz Milhazes, hoje com 52 anos, e de Adriana Varejão, com apenas 47 anos, no mercado de arte, que é um tema que tenho acompanhado bem de perto.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

SÃO PAULO, DIA 22 DE SETEMBRO, SEGUNDA PARTE

Segunda parte da viagem a Sampa (hoje, meu blog atingiu 12 mil acessos aos textos! Obrigada, amigos e leitores que eu não conheço!)

No sábado, após um dia de chuva, vento e frio, o tempo melhorou, mas a temperatura caiu para 14 graus à noite. Deixei de lado a 'panorâmica' da obra de Adriana Varejão, que stá no MAM, e a própria 30ª edição da Bienal de Arte de SP, simplesmente porque resolvi que voltarei pela quinta vez no ano à capital paulista, para visitá-las com mais calma. Viajarei no dia 6 de novembro, uma terça. Então, no sábado, dia 22 de setembro, início da Primavera, havia um sol meio anêmico. Fui para a fila do Centro Cultural Banco do Brasil. Já estavam lá, à minha espera, a dupla Lucy e João, amigos de Porto Alegre. Ficamos conversando por mais de 60 minutos, aguardando a entrada na exposição itinerante intitulada "Impressionismo: Paris e a modernidade" (com obras-primas do Museu D'Orsay, de Paris), até 7 de outubro de 2012. Revi algumas telas das quais ainda me lembrava, quando estive nesse museu pela primeira vez, eu diria que o meu segundo preferido, depois do Museu Rodin. Havia centenas de pessoas circulando pelos quatro andares do CCBB de São Paulo. Uma loucura geral! Fiz várias fotos dos ambientes externos, do frontispício da exposição e das filas coordenadas pelas equipes do centro... Não tenho como colocá-las nesta página. Deixei meu carregador no RJ, em julho. Daí, pela terceira vez, o Maiquel, baby, vai descarregá-las para mim, de mais esta viagem, lá no dia 15 de outubro. Aguardem as fotos!! Aguardem! Voltando ao Impressionismo, desde que essa escola rompeu com a tendência pictórica, então em vigência, e com a ideia de mimetizar a realidade, tudo mudou na Arte. Devemos essa superação aos esforços estéticos de Monet, que, junto a outros pintores, passou a usar a luz natural em suas leituras da figura ou da paisagem. Estavam lá no CCBB a famosa tela "Le Bassin aux nymphéas: harmonie verte", de Claude Monet, de 1899; "Paysannes bretonnes", de Paul Gauguin, de 1894; e "Nature morte à la soupière", de  Paul Cézanne, de, aproximadamente, 1877, por exemplo. Emocionante e comovente visitar uma exposição de alto nível, com a curadoria-geral  do Presidente dos Museus D'Orsay e do de l'Orangerie, Guy Cogeval. Além disso, testemunhar tantas centenas de pessoas em filas, esperando para um momento de fruição estética leva-nos a crer que a educação no Brasil está melhorando e desenvolvendo um olhar estético nos cidadãos, que não se resume a Carnaval e Futebol! We hope so!

SÃO PAULO, SEXTA, DIA 21 DE SETEMBRO (1ª PARTE)

Olá, amigos! Como avisei, postarei aqui meus comentários sobre o que visitei em Sampa com amigos gaúchos. Aliás, desta vez, eu estava acompanhada de vários gaúchos: Lucy Demari e seu namorado João; Sheila Boesel e seu marido Marcos; o próprio Evandro Rohden, quem me hospedou em Sampa desta vez (minha quarta viagem à capital paulista em 2012), mais a poeta Tuca Rosa, natural de Capão da Canoa, sem falar em um outro amigo do Evandro, o Ricardo, também gaúcho.
Na sexta, iniciamos (eu, Lucy e João) a jornada pelas exposições, abaixo de chuva, vento e frio, selecionando, em primeiro ligar,  a de Michelangelo Merisi, conhecido por Caravaggio. A pequena mostra leva o título de "Caravaggio e seus seguidores", no MASP, até 30 de setembro de 2012. A idealizadora da mostra é Rossella Vodret, a maior especialista em Caravaggio da Itália. Fiz algumas considerações iniciais aos meus amigos sobre a vida turbulenta de Caravaggio, sua hybris, seus descomedimentos por várias cidades italianas, em pleno início do século XVII, até ter de abandonar de vez Roma. Ele não apenas brigava: ele feria outros e se autoferia nas brigas. Assim, acabou perdendo sua vida aos 38 anos. Simplesmente um gênio esse homem, que inaugura o Barraco, após os 'frufrus' dos maneiristas. A técnica do chiaroscuro põe a cena ou o retrato em primeiro plano, com um fundo escuro, e joga um jato de luz sobre um outro objeto da composição pictórica. Isso mexe com a dimensão sensorial de cada espectador; a força é enorme! Não é à toa que a segunda parte da exposição revela a produção de seus seguidores, que eram muitos, pintores de certa expressão na Itália, conhecidos como caravaggescos! Impressionante a cabeça da Medusa, a Medusa Murtola, de 1597, de um colecionador particular, totalmente envolta em um vidro blindado, semelhante ao que fica defronte à tela "A Monalisa", de Leonardo da Vinci, no Museu do Louvre. A imagem parece, inicialmente, que pretende aterrorizar quem a espreita; no entanto, imagina-se o terror que a entidade deva ter sentido ao ver sua própria imagem, mimetizada, no escudo de Perseu. Nesse mesmo dia, à tarde, fomos à Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, tomar um café. No início da noite, lá pelas 20h, fui a um sarau poético na Casa das Rosas, na Avenida Paulista. Lá estava o Evandro, aguardando-me. Saímos fugidos de lá. Sarau da quarta idade? Socorro! Valeu para conhecer a tal Casa das Rosas, que é um casario antigo em uma área verde linda, em plena Paulista! Mais tarde, às 22h, fomos todos jantar em uma cantina típica italiana, no Bixiga, a Esperanza, que introduziu em São Paulo, em 1958, as receitas de pizza Marguerita e de pão de linguiça. Estávamos em oito pessoas e, junto aos gaúchos, dois paulistanos: a Berna, amiga da Lucy, e o Ricardo Camarotto, ilustrador da Folha de São Paulo. É ele quem ilustra, todas as terças, os textos do filósofo Luís Felipe Pondé (que eu, particularmente, não aprecio). Rimos muito! Foi terapêutico! Foi demais!

(a continuação segue no texto postado antes deste!)

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

SÃO PAULO

Amigos e leitores, aguardem meus comentários após o feriadão gaúcho de 20 de setembro. Estarei em SP e visitarei as seguintes exposições:

Exposição na Casa de Lina Bo Bardi, no Morumbi, com a curadoria de Hans U. Obrist;
Coleção de obras impressionistas do Museu D' Orsay, de Paris, no CCBB;
Obras de Caravaggio, no MASP;
"Morphosis", de Thom Mayne, no Instituto Tomie Ohtake.
Obras da coleção do Vaticano na "Oca", dentro do Parque do Ibirapuera.

Além disso, irei ao "Jazz nos fundos", uma famosa casa paulista de jazz, inclusive apresentando convidados internacionais; a uma peça teatral, "Júlia", de Strindberg, a uma peça infantil, na qual meu amigo gaúcho Evandro Rohden é ator; e, por fim, a um sarau poético na Casa das Rosas, na Avenida Paulista.

Espero que seja possível realizar tudo o que planejei. Estarão comigo em Sampa, além do próprio Evandro, que me hospedará, Tania Fleig, Lucy Demari e seu namorado João, mais sua amiga paulistana Berna, que os hospedará, sem falar no poeta e tradutor Leo Gonçalves,  vivente de SP, com o qual tomarei um café, ao menos.

Abraços e todos e bom feriadão!



segunda-feira, 17 de setembro de 2012

SHOW DO CRIOLO NO OPINIÃO, EM PORTO ALEGRE, E VIAGEM A CURITIBA

(Texto revisado! Deixei passar uns errinhos de digitação na versão preliminar! Agora, está bem!)

Neste final de semana, tive a rara oportunidade de estar em Porto Alegre, em plena sexta à noite, na companhia de um vocalista de banda, para desfrutar do primeiro show do cantor Criolo na capital gaúcha, no Opinião. Eu o ouço desde o verão e já sabia as letras de suas canções de cor. A casa estava lotada e a vibe era maravilhosa, porque todos os presentes cantavam as letras das canções do Criolo também, fossem elas samba, rap, hip-hop ou bolero. O show não foi longo e o cara mostrou-se o mais carismático do cenário atual da música brasileira, muito politizado, levando a galera a aplaudi-lo inúmeras vezes, ao final de seus enunciados, além do fato de que, vale frisar, a pegada de sua música é impressionante. Acompanhado de seis bons músicos, seu mise-en-scène também merece destaque, uma vez que, vestindo uma bata esvoaçante branca, dançava, rebolava e recebia no palco, de modo acolhedor, vários dos fãs, que estavam na parte da frente da plateia. No final do show, havia três tipos de camisetas do Criolo, os dois CDs e outros souvenirs, bem ao estilo da produção independente! Valeu a pena, valeu o calor partilhado com a plateia, valeu a ceva gelada do final com o meu bro e valeu o gasto com o valor do ingresso. Para quem quiser conferir a íntegra de suas oito faixas, do CD "Nó da Orelha", já o descobri na bancada de CDs da Livraria Cultura de Porto Alegre.

No sábado, voei para Curitiba, cidade na qual tenho amigos antigos e novos. Reunimo-nos todos no Shadow Bar, reserva da Lucimeri Bridi, à noite. Lá apareceram para me rever o Ade, mestrando em Literatura de Língua Inglesa na UFPR, além de poeta e tradutor, mais o Gui, professor de Literatura de Língua Latina na UFPR, também poeta e tradutor. Os dois administram o blog "Escamandro", que veicula preciosidades em traduções coletivadas.
 Abraço a todos os meus amigos!

terça-feira, 11 de setembro de 2012

'MUTTER COURAGE UND IHRE KINDER' (1938 - B. BRECHT) NO THEATRO SÃO PEDRO, DE PORTO ALEGRE, NA NOITE DE 8 DE SETEMBRO DE 2012

Passei uma tarde de sábado, em Porto Alegre, feito uma hedonista - como sempre! Fui tomar o meu café, comprei vários livros na Livraria Cultura, DVDs e CDs, ao todo, seis presentes para amigos queridos (Gilson Klemz, Luciani Voght, Elstor Petry-Loseiret, Julia Schnaiders e Rafael Engel), todos de aniversário: quatro atrasados e dois nats futuros! Não gosto de dar  presentes por obrigação, mas ofertar algo especial que esteja em consonância com aquele amigo que o recebe. Comprei "Der Sandmann", do ETA Hoffmann para mim, mais o "Leben ist Werden", do Hesse, no ano de seus 50 anos de falecimento. Encontrei um romance do Hesse para o Gilson, meu professor de Alemão, e sua esposa Luciani. DVD e CD de interpretações de composições de Villa-Lobos para o Elstor, DVD do 'Prodigy na Alemanha' para o Rafa e um Kamasutra para a Júlia. Para mim, encontrei um CD importado com uma seleção de Satie variada, com Pascal Roge ao piano. Depois, fomos assistir ao "Os Intocáveis" ("Les Intouchables", de 2011), de Eric Toledano e Olivier Nakache. Não vou comentar aqui o longa francês. Passarei, de imediato, às minhas impressões da peça "Mutter Courage und ihre Kinder", de Bertold Brecht, texto concebido em 1938, um ano antes do início da Segunda Grande Guerra, e ambientado durante a Guerra dos Trinta Anos, na Europa. Cheguei cedo ao Theatro São Pedro, porque eu teria de retirar o meu ingresso com a equipe do 'Porto Alegre em Cena', uma vez que o mesmo foi comprado pelo site do Ingresso Rápido. Cheguei cedo demais, antes de a equipe se instalar no saguão do TSP. Todavia, cheguei no momento em que os atores do grupo "Berliner Ensemble", fundado em Berlin por B. Brecht, em 1949, estavam ali, rindo e montando um pequeno espaço para a venda de posters, programas da peça e camisetas do grupo. Lá fui eu com o meu Alemão pré-básico. Cumprimentei-os e perguntei o preço das camisetas. Parei aí. Bloqueei! Minutos após, comecei a falar em Inglês e foi um papo muito bacana. Contei a eles que conheci Berlin em 2011 e os pontos que visitei, que estudava Alemão e que voltaria para lá em 2013. Um dos atores foi muito simpático, falou bastante em Berlin, perguntou-me se eu morava em Porto Alegre, trocamos e-mails e ele me deu uns materiais do grupo. Comprei uma camiseta preta do "Berliner Ensemble", com o slogan em vermelho. As filas foram se formando no saguão e eu tinha ingresso de camarote, na lateral direita do palco, no segundo andar; bem-localizado o assento. A peça iniciou-se com uns minutos de atraso, lá pelas 20h10, e eu sabia que haveria três horas de espetáculo pela frente, com um intervalo de 15 minutos. Primeiro ato, Mãe Coragem aparece no palco, empurrando seu carroção de toldo branco, ao lado de seus três filhos. Segundo ato, Mãe Coragem negocia com o cozinheiro do Comandante do regimento militar a venda de uma ave, uma galinha branca. Ouvia-se tudo em Alemão e a tradução em Português era projetada, simultaneamente, na parte superior do arco, acima do palco do TSP. Muito bom! Legendas perfeitas, sem erros morfossintáticos, tudo de alto nível! Foi  assim:

In den Jahren 1625 und 1626 zieht Mutter Courage im tross der schwedischen heere durch Polen. Vor der festung Wallhof trifft sieihren sohn wieder. - Glücklicher verkauf eines Kapauns und grosse tage des kühnen sohnes.

Daneben die Küche. Kanondendonner. Der Koch streitet sich mit Mutter Courage, die einen Kapaun verkaufen will.

Meu professor de Alemão trouxe-me o texto de Brecht e o segundo ato para lermos juntos na aula da semana passada. É a cena em que Mãe Coragem tenta negociar a venda de uma galinha ao cozinheiro do comandante do QG. São protestantes lutando contra católicos, em pleno século XVII. Ouve-se, ao fundo, sons de bombardeio e de tiros de canhão. Eu esperava que o Berliner Ensemble desse um tratamento mais contemporâneo ao texto de Brecht, situando a batalha em um outro período histórico e, quiça, em outro país. Não foi o que ocorreu! A apresentação foi clássica e fidedigna ao texto original, não obstante alguns artifícios tecnológicos utilizados na cenografia. As cenas são, segundo o texto de Brecht (contribuição de Elstor Petry-Losereit, meu amigo de Hamburg, Alemanha, que muito tem contribuído com os meus comentários), as seguintes:


1a. Cena
Primavera em 1624 . Mae Coragem, sua carroca e seus tres filhos. Dois rapazes e uma menina moca, seguem  um regimento. Sao detidos por um Oficial e seu Ajudante, eles querem contratar os rapazes como soldados para um proximo combate na Polonia. Mae Coragem nao está de acordo, entoa uma cancao e nela apresenta-se como negociante de grande perícia. Mostra seus documentos e conta que seus filhos foram gerados por homens diversos, durante sua jornada pelos países em guerra. O Oficial a distrae mostrando interesse na sua mercadoria, ela nao nota os sinais da filha que é muda. O Ajudante desaparece com seu filho mais velho chamado Eilif.

2a. Cena
Mae Coagem está negociando o preço de um frango com o cozinheiro do regimento e ouve o Comandante louvando seu filho Eilif que com perícia roubou gado dos camponeses. A mae assustada e preocupada, dá um tapa na cara do filho. O espectador paraleamente pode ver a cena na cozinha e na sala do Comandante.

3a. Cena
Passados tres anos, o segundo filho de M.C. Schweizerkas é Quartel-Mestre. Era assim o responsável pela caixa do regimento. M.C. encontra-se com Yvette Pottier a prostituta do regimento, que lhe conta de sua vida. (cancao da confraternizacao) Em seguida, o cozinheiro e o pároco-militar discutem sobre a situacao política. A conversa é interrompida por tiros e o som de tambores. Um ataque inimigo. No entrevero M.C. procura salvar seus filhos, esfrega cinza na cara da filha para esconder sua beleza. Pede ao filho jogar fora a caixa com o dinheiro, ajuda o pároco a se esconder. Às pressas tira a bandeira do regimento de sua carroca. O rapaz quer salvar a caixa com o dinheiro e é descoberto por soldados poloneses que o prendem e o torturam. O pároco entoa uma cancao “Paixao de Cristo” , visando ao sofrimento do pobre Schweizerkas. M. C. procura vender seus bens para poder regatar seu filho, mas a negociaçao é prolongada demais e o filho é executado. O morto é apresentado  a M.C. que afirma nao conhece-lo para salvar sua própria vida.

4a. Cena
M.C. está indignada e quer pedir uma indenizacao pelos estragos que os soldados causaram em sua carroça à procura da caixa com o dinheiro do regimento. Ela canta a cancao da “Grande Capitulacao” para dar ênfase à profunda resignaçao dos dois partidos religiosos que de ambos os lados só perderam. O refrao da cançao: “o homem pensa: Deus guia” (der Mensch denkt: Gott lenkt) demonstra o distanciamento da religiao, da ideologia de guerra.

5a. Cena
Passaram-se dois anos. Neste tempo,  M.C. e sua filha Kattrin cruzaram parte dos territórios da Polonia, da Baviera e da Italia. As duas fazem parada num vilarejo totalmente destruído. M.C. oferece cachaca aos poucos moradores que sobreviveram. Nisto aparece o pároco que pede tiras de linho, para fazer curativos nos feridos. De início M.C. se nega, mas finalmente entrega as tiras. Kattrin arriscando sua vida, salva um bebê de dentro de uma casa que está prestes a desabar.

6a. Cena
É 1632, a vivandeira e sua filha acampam às portas da cidade de Ingolstadt. Kattrin é mandada à cidade para comprar nova mercadoria. O pároco procura  intimidade, mas M.C. se recusa. A jovem retorna das compras com um ferimento horrível no rosto,; foi assaltada, mas nao entregou a mercadoria. M.C. está decepcionada e perdeu a esperança de um dia poder casar a filha. Qual o homem que vai querer uma muda de rosto desfigurado? E  amaldiçoa a guerra.

7a. Cena
A antítese do final da sexta cena segue imediatamente com o início da setima cena. Com a frase: Eu nao deixo que vocês me ponham bicho na guerra (ich lass mir von euch den Krieg nicht madig machen) M.C. está satisfeita com a relativa riqueza angariada, graças à guerra. Entoa uma cançao que conta de sua vida como vivandeira. E seguem de um lugar ao outro com o regimento; junto na carroça também vai o pároco.
8a. Cena

O rei da Suécia, Gustavo Adolfo,  é ferido no campo de batalha e morre.  Ao longe ouve-sem os sinos. Em seguida espalha-se a notícia da paz. O pároco novamente veste sua batina. M.C. em conversa com o cozinheiro do regimento conta que agora está completamente arruinada, pois o pároco a tinha convencido de comprar mercadoria em demasia que agora no tempo de paz perderam seu valor. O pároco briga com o cozinheiro, pois tem medo de perder a companhia da vivandeira que tinha lhe proporcionado uma boa vida. Ela amaldiçoa a paz. Yvette que há cinco anos é viúva de um oficial, transformou-se numa matrona; acompanha M.C. à cidade onde querem vender às pressas a mercadoria antes que esteja totalmente desvalorizada.
Durante a ausencia de M.C.,  soldados chegam com Eilif, que recebeu uma última oportunidade de se despedir de sua mae. Ele tinha continuado a assaltar e a matar, afirmando que nao sabia que era tempo de paz. Ele é executado antes da mae retornar ao acampamento. Ela nao vendeu sua mercadoria, pois na cidade soube  que em breve a guerra continuaria. O cozinheiro nao lhe contou da execucao do filho. Segue a viagem com ela, no lugar do pároco.

9a. Cena
É outono de 1634 e a guerra já dura dezesseis anos; os Estados alemaes perderam a metade de sua populaçao e estao completamente devastados. M.C. junto com a filha e o cozinheiro mendigam para poder sobreviver. O cozinheiro soube que sua mae foi vítima da colera e que tinha herdado uma pequena bodega. Ele que está cansado desta vida inquieta anima M.C. a ir junto com ele. Ela de início está entusiasmada, mas quando soube que deveria ir só, sem a filha, resoluta coloca-a junto com as tralhas na carroça e segue viagem sem o cozinheiro. A carroça , a filha e a guerra sao sua vida.

10a. Cena
M.C. continua seguindo o regimento. Os soldados estao desmoralizados, emagrecidos, o que sobrou dos uniformes sao apenas farrapos. Passam por um casebre, de dentro ouvem uma voz cantando, louvando a segurança e a felicidade de ter um telhado sobra a cabeça.  Mae e filha param, ouvem a cancao até o fim e seguem em silencio.

11a. Cena
Janeiro de 1636, M.C. acampa na cercania de Halle, no patio de um camponês. Ela afasta-se do lugar à procura de mercadoria. Um oficial e dois soldados  das tropas imperiais invadem a propriedade e querem obrigar o camponês  a dizer onde podem entrar na cidade despercebidos. Kattrin ouve as ameacas, sente o perigo, agarra um tambor, sobe no telhado da casa e o bate com veemencia. Os soldados tentam impedir a jovem, mas sem exito; um dos soldados atira e a fere mortalmente. A valente açao de Kattrin custou-lhe a vida, mas os habitantes da cidade alertados puderam se salvar.

12a. Cena
Na manha seguinte, M.C. volta com as mercadorias  que conseguiu. Encontra a filha e custa a acreditar que ela está morta. O camponês recebe uma quantia de dinheiro para sepultar o corpo de Kattrin. M.C. segue só, em sua carroça, junta-se às tropas suecas. Canta a terceira estrofe da cancao da 1a. cena, na esperança de que, pelo menos, Eilif  vivo.


domingo, 26 de agosto de 2012

BERLINER ENSEMBLE, DE BERTOLD BRECHT, NO 19º 'PORTO ALEGRE EM CENA' DE 2012

(hoje alcançando mais de 11,2 mil acessos aos meus posts!)

Lembrei-me agora de meus amigos Elstor e Rainer, que vivem em Hamburg: como seria bom se eles pudessem me acompanhar à apresentação da peça "Mãe Coragem e seus Irmãos", no Theatro São Pedro, no dia 8 de setembro. Anotei em minha agenda que hoje, dia 26 de agosto, os ingressos seriam vendidos pela WEB a partir das 8h, pelo site do Ingresso Rápido. Quase esqueci-me disso, mas, por volta das 13h15, consegui comprar o penúltimo ingresso para o camarote do segundo andar do Theatro São Pedro, de Porto Alegre (foram vendidos 12 mil ingressos para os espetáculos do Porto Alegre em Cena deste ano até o dia de hoje!). Estou contente com isso! Essa peça é muito famosa! Eu vi uma montagem em São Paulo, há muitos anos atrás, e estou ávida para assisti-la em setembro, agora realizada pelo grupo teatral remanescente de Brecht, a Berliner Ensemble, fundada em 1949. A peça em questão foi escrita em 1938, quase que às vésperas da explosão da Segunda Guerra Mundial. No texto, a anti-heroína Ana Fierling, apelidada de 'mãe coragem',  passa o início da guerra empurrando seu carroção, vendendo roupas, bebidas e comida aos soldados para poder sustentar seus três filhos. O período histórico é o da Guerra dos 30 Anos, que ocorre entre 1618 e 1648, na Europa. Logo depois, Ana fica apenas com a filha, Kattrin, que é muda, uma vez que os filhos homens são recrutados. Ruth Escobar produziu essa peça, na década de 60, com Lélia Abramo no papel de "Mãe Coragem", e seu marido, Alberto D'Aversa, na direção. Sérgio Ferrara também a montou em São Paulo, em 2002, com Maria Alice Vergueiro no papel principal e adaptação de Alberto Guzik. O saudoso ator, tradutor e diretor Fernando Peixoto, que faleceu neste ano em Porto Alegre, e que tive a honra e a alegria de conhecer nos idos de 80, quando eu era aluna da UFRGS, época em que prestigiava com afinco o teatro e a produção cinematográfica locais, foi ligado ao Teatro Oficina de SP e participou como ator das montagens de "Galileu Galileu" e "Na selva das cidades", ambas de Brecht, com direção de Zé Celso Martinez Corrêa. Depois disso, Fernando sai do Teatro Oficina.  Antes das montagens, Fernando Peixoto e Zé Celso assistiram juntos à atuação do grupo Berliner Ensemble, em Berlin, e voltaram ao Brasil cheios de ideias para montarem versões do teatro épico de Brecht. Vou conferi-lo em 8 de setembro, com o TSP lotado. Comentarei as minhas impressões depois, por aqui. Boa semana a todos!

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

COISAS QUE AINDA ME SURPREENDEM: POLÍTICA E ARBITRARIEDADE!

Na segunda à noite, dia 20 de agosto de 2012, cheguei rapidamente em casa, vinda da universidade. Eu havia terminado de ministrar uma aula sobre a religião Jaina, na Índia, e o sentido profundo que os jainistas concedem ao termo em sânscrito "maya", ilusão. Ao final da aula, solicitei aos meus alunos do curso de Relações Internacionais que fizessem uma reflexão e escrevessem como a sabedoria jaina, de um modo geral, a hindu, permeou alguns relevantes episódios históricos, inclusive, da política internacional. O mais notório, para mim, foi a assinatura do tratado de não-agressão entre União Soviética e Alemanha, antes do irromper da Segunda Guerra, além do golpe que Hitler deu na Polônia. A vida fenomênica, esta vida terrena em que vivemos e sofremos, é a expressão do "véu de Maya". Schopenhauer já sabia muito bem disso no primeiro quartel do século XIX, na Alemanha. 'Maya' é o que vivemos em relação a muitas pessoas, quando imaginamos que elas aprenderão conosco, em um lapso de tempo, ou que nossos exemplos, mais que palavras, serão um paradigma para as suas existências. Retomando, minha pressa, na segunda à noite, devia-se ao fato de que eu queria ouvir e ver o Diogo Mainardi, no "Roda Viva" da TV Cultura, ao vivo. Apreciei suas ácidas reflexões, remontando à época de sua coluna na revista "Veja" (quando eu ainda lia esse veículo!), que lhe renderam muitos desafetos e ações judiciais. Apadrinhado por Ivan Lessa, na verdade, falecido neste ano em Londres, lembrou-me as falas despudoradas e a atitude conservadora de Paulo Francis, que completaria 80 anos em 2 de setembro, se tivesse mantido uma vida saudável. Quando Francis faleceu, ele ainda assinava uma coluna semanal no 'Estadão' e em um outro jornal, do qual não me recordo agora. Ouvi algumas das maledicências resgatadas pelo Mainardi e a descrição do que foi a malograda vinda de Gore Vidal ao Brasil, em 1987, também recentemente falecido,  repleta de amadorismos. O jornalista contou alguns episódios, sobre as ações judiciais impetradas contra si, comentou a mudança da família para Veneza e falou no filho Tito, portador de necessidades especiais. O livro sobre o caso, intitulado "A queda",  já foi lançado no Brasil. O que me surpreendeu foi que, de posse de uma atitude de descaso com a política nacional, e seus séquitos, incrédulo em relação à esquerda e à direita no cenário brasileiro e com o desfecho do julgamento dos réus do "mensalão", desvelou uma postura doce e humanista, considerando a vivência com seu filho Tito, portador de paralisia cerebral, decorrente de erro médico. Quanto às arbitrariedades, que eu gostaria de comentar, há alguns dias ocorreram a declaração formal de concessão de asilo político a Julian Assange, confinado na Embaixada Geral do Equador, em Londres, a pena de dois anos para as três integrantes da banda punk russa "Pussy Riot" e a migração de todos os perfis do Facebook para o formato "Timeline". Primeiramente, o presidente de um governo democrático sulamericano, do Equador, concede asilo político ao fundador do Wikileaks, que se encontra nas dependências da Embaixada Geral do Equador, localizada em Londres. O governo britânico já ameaçou invadir área, que, a rigor, está protegida pelos tratados internacionais como zona imune a qualquer tipo de ação arbitrária de parte do governo que a abriga geopoliticamente. Assange não pode ser extraditado, para os  EUA, porque pode morrer, todos sabem disso, em função de ter protagonizado o vazamento de documentos ultrassecretos. Basta ler um excerto do relatório da Anistia Internacional do ano passado, reportando-se às ações contra os direitos humanos em solo americano, para se entender que as coisas por lá não andam bem já há muito tempo. Se algo ocorrer com Assange, certamente haverá uma enorme represália em rede, de parte de países democráticos contra o Reino Unido. Vamos ver o que vai rolar até o final do mês de agosto. Em relação à pena que as integrantes da banda "Pussy Riot" receberam, em 17 de agosto último, após cinco meses de prisão, por conta de sua manifestação musical anárquica no altar da grande Catedral da Igreja Ortodoxa em Moscou, contra Vladimir Putin, ocorrida em 21 de fevereiro deste ano, não há mais muito o que dizer. É óbvio que houve muitas manifestações na Rússia, das quais sequer ouvimos falar, naquele mês, uma vez que o patriarca ortodoxo de Moscou e da Rússia pediu votos para Putin, às vésperas das eleições, em março deste ano. Um escândalo! Assim, a pena divulgada pelo tribunal russo não condiz com a ação das garotas punk e o resultado fala muito mais do governo de Putin, e a falta de liberdade de expressão no país, que propriamente da banda, que alçou  muito mais que 15 minutos de sucesso na mídia internacional e nas redes sociais. O 'casamento' entre Estado e Igreja na Rússia está rendendo rica matéria-prima para os analistas de política internacional. Por fim, o sistema operacional do Facebook, na quinta passada, dia 16 de agosto, transformou, automaticamente, meu perfil (e acredito que mais alguns milhares), dispondo-o de um modo diferenciado graficamente, com textos entrecortados à direita e à esquerda, com meus dados sumários no cabeçalho superior e um papel de parede, também na margem superior, no qual eu deveria lançar uma foto ou uma ilustração. Acredito que, pelo texto do box automático, gerado pelo sistema, quando da transformação, até o final de agosto, todos os milhões de perfis terão o mesmo fim. Para registrar a minha indignação, pela ação arbitrária da administração do Facebook, que não concedeu aos seus usuários a chance de ainda permanecerem com o lay-out antigo, gostaria apenas de descrever como me senti, vítima de uma violência desse tipo: se eu fosse de origem judaica, como vários amigos queridos que possuo, eu diria que me acordei na quinta-feira e constatei que minha loja, no distrito comercial de Berlin, havia sido destruída - e uma estrela amarela reluzia na parede externa de meu patrimônio; ou que me acordei de manhã, na quinta-feira, e um enorme muro, de aproximadamente três metros de altura, passara a existir a uma quadra do edifício de meus pais, na RDA, no ano em que eu nasci: 1961.  Obrigada pela atenção, meus amigos, alunos e ex-alunos!

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

DICIONÁRIO À LA FLAUBERT

Lendo a maravilhosa fortuna crítica do inglês James Wood sobre a obra de Paul Auster (no blog do Instituto Moreira Salles), hoje, talvez,  um dos maiores escritores norteamericanos (não concordo com alguns de meus amigos escritores/tradutores de Curitiba, que afirmam que o pole position é Thomas Pynchon!), deparei-me, depois de muitos anos, com a referência ao dicionário que Flaubert escreveu, com um humor irretocável, sobre as ideias "prontas" ou "feitas", que eram pedra-de-toque da sociedade burguesa do século XIX na qual viveu. Há várias traduções em língua Portuguesa. A mais atual que conheço saiu em 2007, pela Estação Liberdade, do RJ. O dicionário estava reservado para a segunda parte da obra inacabada intitulada Bouvard e Pécuchet. Lembrei-me deles, porque esses personagens tratam-se de escreventes ou copistas, que sonhavam em poder ter tempo e renda suficientes para dedicar-se à vida intelectual e ao conhecimento do próprio mundo - não às cópias de obras. É um sonho com o exercício não-mimético, porque a mímese escraviza deveras um professor! Um deles até recebe uma herança, em determinado momento da narrativa, não me recordo em decorrência de que, mas resolvem se mudar da cidade grande para o meio rural. Longe de mim pensar em mudar para o meio rural (eu morreria de inanição! Eu já sofro estando no interior do Estado!). Reportei-me a eles na medida em que também sonho em ler e estudar uma série de obras, que separei em julho, quando de minhas férias de inverno, mas, naturalmente, só pude ler apenas quatro textos, em uns poucos dias, porque tive de me ater às leituras para as disciplinas da universidade - com um olho na sala de aula. Todos os dias, olho para alguns livros, detidamente, que também me namoram! Olham-me de soslaio, caem no chão de modo inexplicável ou amontoam-se com minha agenda e meus esquemas de aula, que, confesso, tenho até receio de presenciar uma cópula, bem ao gosto do real maravilhoso! Preciso urgentemente de um ajudante, como Flaubert possuía, que possa organizar com humor e criatividade os meus escritos filosóficos e poéticos, sem pretensão alguma de publicá-los. Quem vai herdá-los é a minha filha, a Mirelle, já ela mesma, com seu nome afrancesado, um indicativo de meu Amor à literatura e ao cinema de língua francesa, que eu comecei a estudar com meus 14 anos. Segundo o próprio Flaubert, podemos brincar com os clichês - que abundam neste texto em sua homenagem -, mas devemos matá-los e enterrá-los depois. O convívio com os clichês exige perseverança, humildade e, sobretudo, tolerância. O que pode ser mais clichê que dar uma aula de Filosofia e tentar debater com os alunos algum tema relevante e atual, ancorado em um texto filosófico? Há uns meses atrás, comentando um episódio histórico em aula, perguntei à minha turma quem era de família de confissão luterana. Um de meus alunos, muito interessado na discussão, levantou a mão e perguntou-me "se minha pergunta tinha a ver com Luther King" (sic). Bem, engoli seco, respondi que não, não dei maiores explicações e continuei a minha aula. O problema foi a melancolia  pós-aula que me acometeu! Esse caso não se enquadraria no dicionário de ideias "prontas" ou "feitas" de Flaubert, mas eu poderia começar a anotar as 'pérolas' que são brandidas em minhas aulas e, além de catalogá-las, contextualizá-las e comentá-las criticamente. Quem sabe tenha até um certo apelo comercial?

terça-feira, 31 de julho de 2012

SOBRE O "FAUSTO", DE MURNAU

Este pequeno comentário é do Elstor L. Petry, amigo querido de Hamburg, Alemanha, e uma pessoa muito culta. Resolvi copiar-e-colar o texto do email que recebi hoje dele, 31 de julho de 2012.



"Fausto", filme mudo de Murnau.
Friedrich Wilhelm Murnau nasceu em 28 de dezembro de 1888 em Bielefeld, na Renânia do Norte – Westfalia,  e faleceu em 11 de marco de 1931 em Santa Bárbara, nos Estados Unidos.
“Fausto”  (Faust eine Deutsche Volkssage, 1926)  foi seu último filme feito na Alemanha. Tem sua base nas obras de Marlowe, Goethe e no folclore alemão. As legendas foram escritas por Gerhart Hauptmann, já na época um renomado poeta.
O filme foi lançado quando o expressionismo alemão já se encontrava em declínio. Uma superprodução da U.F.A – Berlin, com expectativas de grande sucesso, com um enorme investimento financeiro. Foi na Alemanha, lamentavelmente, um grande fracasso, ignorado pela crítica e pelo público.  O devido valor ao filme e homenagem a Murnau foram dados somente depois da 2ª Grande Guerra.
Ele foi pioneiro na contenção imóvel da câmara, surtindo efeitos especiais, criando um clima místico, notabilizado pela estilização dos cenários, dramatização e movimentos dos personagens colocados em cena. A iluminação, a decoração, o jogo dos atores, o jogo de linhas e formas colocavam peso ao drama e aos personagens. A arquitetura do vilarejo, onde tudo acontece, com seus telhados pontudos, lado a lado para economizar o espaço do terreno. No interior delas os ambientes pequenos, apurando a claustrofobia, angustiante frustração dos personagens, profetizando a epidemia de peste negra que está ante as portas. O horror acompanha a narrativa. Encontramos elementos  do expressionismo nas cenas de ruas que exprimem angústias, as feiras que simbolizam o caos da Alemanha pós-1ª Grande Guerra, as escadas são símbolo da ânsia de se desenvolver espiritualmente e materialmente. Tanto o Fausto de Goethe como o de Murnau espelham a burguesia que surgiu com a Revolução Industrial, a decadência da aristocracia, conscientização de valores como a educação dos filhos, uma boa situação financeira e a honra pessoal.

A MORTE DE CHRIS MARKER

Texto retirado do blog "Modo de usar & Co", de 30 de julho de 2012:


SEGUNDA-FEIRA, 30 DE JULHO DE 2012


Chris Marker (1921 - 2012)



Morreu hoje o cineasta, poeta e escritor francês Chris Marker. Nascido Christian François Bouche-Villeneuve a 29 de julho de 1921, começou sua carreira na década de 40, publicando artigos e poemas na imprensa francesa. No final da década, seu único romance é lançado, Le Cœur Net (Paris: Editions du Seuil, 1949). Seu primeiro filme viria em 1952, intitulado Olympia 52, filmado nos Jogos de Inverno daquele ano em HelsinkiTornou-se mundialmente conhecido em 1962, com o filme La Jetée, que por sua vez inspiraria Terry Gilliam em seu 12 Monkeys (1995). Assim como Arthur Lipsett, já discutido aqui, o trabalho de Chris Marker é de grande interesse para o debate poético, não apenas por seus métodos compositivos no campo visual, como por sua requintada arte textual. Mostramos abaixo três importantes filmes de Chris Marker: Les Statues meurent aussi (com Alain Resnais, de 1953), em seu original francês com legendas em português; La Jetée(1962), com legendas em inglês; e o belo Sans Soleil, de 1983. Todos na íntegra.