sábado, 31 de março de 2012

A COMUNIDADE JUDAICA RECLAMA...

Li no Estadão que a comunidade judaica carioca, através da Federação Israelita do RJ, também se manifestou publicamente em função do uso da estrela de Davi no show de Waters.
O show realmente é fantástico! Os dois álbuns são executados com um intervalo de 25 minutos para o público, entre um e outro. Todavia, as imagens são muito misturadas e a estrela de Davi, a concha da Shell e outros ícones, que indicam a existência das grandes multinacionais no mercado capitalista, aparecem todas no mesmo 'saco' - e isso confunde os menos avisados.

terça-feira, 27 de março de 2012

THE WALL, DE ROGER WATERS

Já estive em um show do Pearl Jam, no Gigantinho, em novembro de 2006, e já assisti a dois shows do U2 pela TV, ao vivo. Ambos os vocalistas, Ed Vedder e Bono Vox, respectivamente, têm um contato direto com a plateia e são politizados. Todavia, nunca vi nada igual, em meus 34 anos de shows de rock ao vivo, uma manifestação tão expressiva pela liberdade com a de Waters e seu grupo.
Roger Waters concebeu a ópera-rock ‘The Wall’, de forte caráter autobiográfico, e Alan Parker a transformou em uma animação musical em 1982, enriquecidas pelas imagens psicodélicas de Gerald Scarfe. Assisti ao filme no cinema, na década de 80, inúmeras vezes, no antigo Bristol, que ficava na Avenida Osvaldo Aranha, em Porto Alegre. Ontem, tive a oportunidade única de assistir à ópera-rock, ao vivo, no Estádio Beira-Rio, em seus 30 anos de criação.
O muro branco de espuma, que montaram à esquerda e à direita do palco, recebia projeções digitalizadas e cores as mais variadas. Se o filme já era revolucionário para a década de 80, com seu imaginário psicodélico transposto para o universo da animação, imaginem um palco gigantesco com um muro metafórico, que se metamorfoseava a todo o momento, até sua queda final.
Roger Waters conseguiu ‘atualizar’ a sua ópera-rock, indo mais longe, e transformou sua crítica pungente contra as guerras, não apenas a Segunda Grande Guerra, que sepultou seu pai, Eric F. Waters, mas criticou, através da reprodução de fichas criminais, projetadas na tela central, em forma de um Sol, as imagens de vítimas das forças opressivas de Estado, como no Irã, no Iraque, no Afeganistão e, qual não foi minha surpresa, dedicou o show à memória de Jean Charles de Menezes, jovem brasileiro morto injustamente pela Polícia inglesa, em julho de 2005. Nós, brasileiros, tivemos de engolir, um tempo depois à morte de Jean, a condecoração de bravura e serviços prestados que a Rainha outorgou ao chefe da segurança inglesa que assassinou Jean.
A família do brasileiro foi lembrada, além de Waters ter cantado uma canção que falava em Jean Charles. Isso foi admirável, uma vez que tratou de um caso genuinamente brasileiro, que repercutiu em toda a imprensa internacional, sobre os abusos de poder e as práticas policiais nos países ricos. Além disso, construiu seu libelo pela volta do contingente militar norteamericano e de países aliados, que ainda se encontra no Iraque, no momento em que na tela apareceram os dizeres “Bring the Boys”, por vários minutos.
O apoteótico final da ópera-rock, após o bombardeio de imagens coloridas e de imagens documentais de massacres, guerras e genocídios, revelou a queda do muro. Os blocos de espuma foram sendo puxados para trás do palco, criando um efeito devastador na plateia. Finalmente, o muro da alienação fora derrubado!
É isso que eu espero, como filósofa e educadora, que a alienação seja minimizada, através da educação e da informação, provinda de fontes idôneas! Para mim, foi um misto de espetáculo, arrebatamento dos sentidos e uma profunda decepção, mais uma, com a falta de informação do pessoal jovem, que, certamente, mal sabia quem fora Jean Charles de Menezes. Além disso, a organização do show deve ter deixado a todos com uma ideia bem precisa do que serão os jogos da Copa em Porto Alegre: caos total!
Para encerrar, ficou uma dúvida: por que um “javali” inflável, como recurso visual, representando a sujeira do Capitalismo, se a referência que temos é de um porco doméstico, do filme “The Wall”? E outra questão mais complicada: a comunidade judaica de Porto Alegre, na segunda-feira pela manhã, já estava comentando sobre qual o uso que Roger Waters fez da Estrela de Davi, no contexto do show. Inúmeras vezes, a estrela apareceu associada às imagens da Segunda Guerra, mas também apareceu junto às inscrições, em Português, feitas no corpo do “javali” inflável, contra o Capitalismo, que percorreu parte do estádio pelo ar.
São questionamentos que deixo aqui para os cidadãos refletirem e também darem-se conta de que a música é um dos veículos estéticos mais poderosos da comunicação em massa e é extraordinário perceber o quanto ela pode influir e transformar, se utilizada para o Bem!

sábado, 24 de março de 2012

O DIONISÍACO "PINA", DE WIM WENDERS

Assistir ao documentário "Pina", de 2011, com a tecnologia 3D, que Wim Wenders dedicou à sua amiga pessoal, a coreógrafa Pina Bausch, falecida em 2009, é uma arrebatadora aventura sensorial e estética! Não vou entrar em detalhes neste comentário sobre a trilha, que desfila Louis Armstrong, várias performances de orquestras alemãs, Tchaikovsky etc. O longa é resultado de filmagens de três trabalhos distintos: Café Müller, Le Sacre du Printemps e Vollmond.
Na cena inicial, os bailarinos estão se movimentando por detrás de um fino véu. Com o efeito 3D, parece que o véu esvoaça sobre a plateia de espectadores e cria uma antítese entre aquilo que os espectadores, de óculos, podem enxergar, através do Véu de Maya, e aquilo que a dança é capaz de revelar, tendo como suporte o corpo.
Nos primeiros 15 minutos de filme, há uma menção ao grande bailarino da dança tradicional japonesa, o Butô, Kazuo Ohno, que faleceu em 1º de junho de 2010, no ano subsequente à morte de Pina.
Como esse elemento sutil, pode-se perscrutar a dimensão do universo de Pina, que traz como um de seus legados a tradição do Butô. No final de semana de 19 de março, esteve em Brasília Tadashi Endo (vive em Göttingen, na Alemanha, e foi aluno do mestre Kazuo Ohno), com um espetáculo intitulado "Ikiru - Réquiem para Pina Baush", em que a proposta do bailarino é de obter um máximo de tensão com um mínimo de movimentos.
É isso, em parte, o que encontramos no longa sobre a estética de Pina Bausch: pequenos padrões de movimentos repetitivos com uma estrondosa força dramatúrgica, pedra-de-toque do mosaico de cenas que Wim Wenders 'costurou', enquanto diretor e roteirista.
Nietzsche teria ficado estufefato com a ousadia de seus conterrâneos, em expressarem o caráter transformador da dança e seu trabalho de mimetizar pensamento e linguagem. Indo além, a música e a poesia não são nada separadas da dança, que, na obra de Nietzsche, é a expressão fundamental da estética dionisíaca.
Assim, tendo em vista tais elementos, é possível compreender o sentido da fala de uma das bailarinas em seu depoimento no longa, que reproduz um dos conselhos que Pina lhe dera, em um determinado momento: - Você tem de ser mais louca!
"Louca", dionisíaca ou submetida a uma certa hybris, um descomedimento, tomada de uma vertigem, é justamente a dimensão metafísica que perpassa várias das cenas coreográficas capturadas por Wenders.
Destaco o momento epifânico do longa quando os bailarinos estão em um cenário escuro, com uma grande rocha assentada à direita do enquadramento. De repente, um jato de água começa a verter do teto e um volume d'água, pelo chão, vai redimensionando a cena. Bailarinos atravessam o cenário quase que a nado; outros de pé encharcados dançam de um modo tenso, primitivo, tribal.
As bacantes de Pina, as bacantes do "Tanztheater" de Wuppertal ou as bacantes de Wim Wenders... Quando um artista entra em contato com as profundidades da criação de outro artista, e consegue desvelá-lo e transmutá-lo em uma outra expressão, é difícil de demarcar o que é território de um e de outro.
"Ikiru", em Japonês, quer dizer Vida. Que todos os que prezam a Vida pulsante e estetizante, mesmo sob o jugo do Véu de Maya, assistam ao "Pina"!


terça-feira, 20 de março de 2012

"DRIVE", LONGA DE NICOLAS WIDING REFN

"Drive" é um filme visceral. Lembrou-me o roteiro de "Crash - no limite" (2004), de Paul Haggis, e do grande "Taxi Driver", de 1976, longa de Martin Scorsese, que arrebatou a Palma de Ouro do Festival de Cannes. Hoje mesmo, dia 19 de março, li na imprensa um comentário curioso acerca da atuação de Albert Brooks, o mafioso de "Drive", que negocia com o piloto justiceiro, papel de Ryan Gosling, que lhe valeu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator. Brooks atuou tanto no longa de Scorsese quanto no longa de Refn. No entanto, no longa de 2011, do diretor Nicolas Widing Refn, que levou o prêmio de melhor direção em Cannes, o ator Albert Brooks parece que tem um momento elevado de dramartugia, que, inclusive, acabou por revigorar sua carreira, considerando os filmes menores que fez e alguns papéis cômicos, que é do que me recordo agora.
Tudo se passa em Los Angeles. Também recordei de uma preciosidade ambientada nessa cidade, que é o "Short Cuts - Cenas da Vida" (1993), de Robert Altman.


SOBRE OS MURAIS DE PORTINARI, 'GUERRA E PAZ'!

Estive neste finde em São Paulo, especialmente, para visitar quatro exposições. Fui ao Memorial da América Latina para ver, ao vivo, os enormes murais de Portinari, confeccionados durante alguns meses em 1955. Eles ficaram expostos no Teatro Municipal de São Paulo e depois seguiram, à época, para o prédio da ONU nos EUA.
Entrei no pavilhão. Havia muita gente com a cabeça para o alto, tentando acompanhar a riqueza pictórica e o emaranhado da composição figurativa e cromática. Não havia luz suficiente para as fotos e não se podia utilizar flash. Portanto, não postarei as fotos, que ficaram, obviamente, escuras. As imagens dos murais podem ser encontradas na WEB. Porém, havia uma outra parte da exposição, a que apresentava os estudos, as maquetes, o clipping de tudo o que saiu na imprensa escrita na época e os depoimentos de personalidades ilustres, quando os murais foram entregues.
Fiquei emocionada com essa mostra. Portinari foi, de verdade, o nosso Picasso, à la Guernica, porque o que concebeu é um libelo à liberdade e à paz, embora tenha representado pictoricamente a guerra.
Pesquisem na WEB e, quem sabe, viajem para Sampa!

sexta-feira, 16 de março de 2012

SÃO PAULO

Embarco amanhã bem cedo para Sampa. Quero visitar três exposições importantes na cidade: "Roma e seus imperadores" e a Coleção Pirelli de Fotografia, ambos no MASP. Depois, descerei de táxi até perto do Ibirapuera, na Cinemateca Brasileira, para checar as fotos de Marilyn Monroe.
Por fim, à noite, na companhia de um velho amigo gaúcho de Porto Alegre, que vive em São Paulo há quatros anos, Evandro Rohden, iremos à festa de Saint Patrick's Day, que os irlandeses comemoram no dia 17 de março. Iremos a um irish pub badalado, que fica na famosa Oscar Freire, o 'All Black'.
No domingo, visitarei os murais restaurados de Portinari, "Guerra e Paz", trazidos do prédio da ONU para o Brasil, em 2010. Eles estão expostos em uma das galerias do Memorial da América Latina. Depois, pretendo comer no tradicional restaurante grego do Bom Retiro, o "Acrópoles". Se ainda der tempo, irei ao MUBE, o Museu Brasileiro de Escultura, para conferir uma expo de fotografia internacional sobre São Paulo.
Estou quase terminando meu comentário crítico sobre o longa "Drive"!
Aguardem! Abraço, amigos!

terça-feira, 13 de março de 2012

SOBRE O FILME ‘SHAME’, DE STEVE MCQUEENN (2011)


Freud explicou em sua obra que as necessidades do ser humano e do animal são de natureza biológica. Assim, algumas pessoas estabelecem formas peculiares, e até mesmo patológicas, de satisfação da necessidade sexual. Por isso, algumas perversidades podem ser catalogadas nesse campo, como o fetichismo, em que o objeto de prazer é inanimado, ou seja, é simplesmente uma coisa, um corpo. O prazer aí, em geral, não é de mão dupla e só goza o sujeito com a desordem sexual. Foi isso que encontrei no longa do diretor e artista plástico Steve Mcqueen, “Shame”, estrelado pelo ator de origem irlandesa, Michael Fassbender, conhecido do telão por papéis pequenos e inexpressivos até então.

Brandon é o protagonista do longa. Ele tem, aproximadamente, 30 anos, vive só em NY e é um executivo - não se descobre ao longo da narrativa de que segmento, nem se sabe nada de seu passado ou de sua compleição psicológica. Ele masturba-se em horário útil e, mal chega em em seu apartamento, abre seu notebook, acessa sites de pornografia, ao som de um tema das "Variações de Goldberg", de Bach. Os diálogos são escassos e o próprio roteiro, escrito pelo diretor Steve Mcqueen, com a parceria de Abi Morgan (da série inglesa “The Hour” e, mais recentemente, do “The Iron Lady”, que outorgou a Meryl Streep o terceiro Oscar de Melhor Atriz, em 2012) não revela dicas sobre seus conflitos internos. Não obstante o fato de que o filme sobre a dama de ferro tenha problemas, inclusive de ordem política, o roteiro de “Shame” é muito interessante, justamente por não fazer flashbacks do passado de Brandon e não subsidiar o expectador com lugares-comuns para justificar moralmente a patologia do personagem, vivendo na selva da grande megalópolis: New York.

Li as entrevistas tanto do diretor quanto do ator nos jornais The Guardian e na revista “Positif”, no dossier do mês de dezembro, dedicado ao lançamento de “Shame” na Europa. Não encontrei nenhum comentário profundo sobre a psicologia dos personagens, que é sempre o que mais me interessa e chama a minha atenção no cinema de Arte e/ou Independente.

A rigor, a entrada da personagem de Carey Mulligan, irmã de Brandon, a Sissy, da metade do filme em diante, quebra a rotina do sexaholic e funciona como um jogo de espelhamento, que fornece algumas pistas para se compreender a matriz emocional que os irmana. Ela é cantora, bebe, joga-se nos braços do patrão (casado, interpretado por James Badge Dale) de Brandon em 20 minutos e vive uma vida sem rumo. Em uma cena, em que ela convida o irmão para ouvi-la cantar, em um charmoso restaurante, cuja vista de NY é deslumbrante, percebe-se, a partir do comentário de seu patrão (de Brandon, que foi junto), que ela possui “marcas” em seu antebraço. Isso já desvela a fragilidade de seu modo de existir e o apoio que ela almeja de parte de seu único irmão.

Nessa cena, ouve-se, na versão integral, a canção New York, New York, imortalizada por Frank Sinatra e Liza Minelli. O personagem de Michael Fassbender chora – e claro, parte da plateia de expectadores da sala onde eu me encontrava também, em sua maioria, casais gays. Belíssima a interpretação lenta e murmurada de Carey Mulligan, que, não raras vezes, lembrava os trejeitos de Marilyn Monroe.

O caráter epifânico da tensão familiar, entre os dois irmãos, que se desenrola ao final do longa – e que não descreverei aqui -, ilumina a tragédia da existência nauseante das grandes cidades, da liberdade sem direcionamento, da grana gasta de modo supérfluo, do sexo desenfreado que povoa o imaginário dos sujeitos que o praticam e da ausência de uma moral prescritiva.

“Shame” não desperta a vergonha de cada um de nós. Ao contrário: que venham mais filmes dessa índole, que excitem os expectadores e nos provoquem à autorreflexão! "Se está melhorando, siga em frente" é o sentido do que diz um cartaz que aparece de modo reincidente nas cenas do metrô. Assim, para encerrar, o protagonista passa por uma ruptura, de ordem emocional, mas retoma sua vida monocromática e morna.

segunda-feira, 12 de março de 2012

SOBRE O LONGA "A INVENÇÃO DE HUGO CABRET", DE MARTIN SCORSESE ("HUGO", EUA, 2011)

De trás para a frente, vou comentar em primeiro lugar o filme a que assisti hoje à tarde em Porto Alegre, "A invenção de Hugo Cabret", de Martin Scorsese, que concorreu ao Oscar 2012, dentre outros, de Melhor Diretor. Em minha modesta opinião, ele foi injustiçado por força de o longa "O artista", de Michel Hazanavicius, ter arrebatado os prêmios mais importantes, incluindo o de Melhor Direção.
"Hugo" é o título do livro do escritor Brian Selznick, adaptado para o cinema pelo roteirista John Logan, conhecido do público por filmes como "O último samurai", "O aviador", "O gladiador". Ele encontra-se, atualmente, trabalhando com o diretor Darren Aronofsky (Pi, Fonte da vida, Réquiem para um Sonho e Cisne Negro) sobre o episódio bíblico de Noé, que será vertido para o cinema.
Voltando ao livro-visual "Hugo", em suas quase 500 páginas há uma variedade de ilustrações, que lembram o universo pictórico de Escher. A narrativa passa-se na Paris dos Anos 30, dentro de uma estação de trem, porque é lá que o menino Hugo Cabret vive, órfão que é, escondido nas engrenagens de um enorme relógio de corda, sempre sobrevivendo através de pequenos roubos de comida e de constantes fugas do inspetor da estação férrea.
O filme não fica por menos, comparado ao livro: é brilhante na imagética e nos efeitos especiais. A trilha sonora é primorosa e ouve-se, reiteradamente, um piano ao fundo (três temas de Erick Satie), animando os passos do protagonista e de seu único amigo, um autômato, deixado de legado por seu pai, um relojoeiro, que ensina o ofício a Hugo, além de compartilhar com ele o fascínio pelos consertos e invenções.
Na parte final do longa, o "leitmotiv" desvela-se e entende-se a que veio o filme: a homenagem que a literatura/cinema prestam a uma dos pioneiros do "cine-magia", ou seja, da inserção do ilusionismo e dos primeiros efeitos especiais na Sétima Arte, através de seu mentor, o francês Georges Mèliés.
Muito poético e emocionante o desfilar de cenas dos filmes de Méliés recuperados pela iniciativa de alguns apaixonados pelo cinema e sua história, no desfecho do longa!