sábado, 30 de junho de 2012

POEMAS RECENTES - ENDGAME

Morte  não  é a  perda  da Vida.    O  morrer den-
 tro de nós, enquanto vivemos, é que é Morte! (Rô)


À ESPERA
                                                                            

Meu querer tem teu nome
Teu nome não prescrito em mim
Porção de ti que aplaca a minha fome
Vem me encontrar: um início depois do fim.

(Em casa – 25.05.12)

EPISTEMOLOGIA

Guardiã da Razão,
Minha Filosofia não sabe o que me indicar
Cala a boca da minha Dor,
Mas é a Memória quem desobedece
E o teu nome sempre me traz!

(Em casa – 26.05.12)

PAUSA
                                          

Seguro e confiante,
Volta a acolher-me!
- O tempo cingido em mim, à espera...

(Em casa - 29.05.12) 


MEIO SONETO DE MORTE

(...) 

Apaziguava  o meu sexo árido, que gritava pelo teu há muitos meses.
Não ouvia, nunca ouvia o meu triste nome
Ser enunciado pela tua boca 
nesses infindos meses.

Macero minha vida e o sofrimento que nela jaz
Ainda canto e toco ao violão o meu Fado funesto
Para este Amor ser soterrado 
e junto enterrar a fome voraz deste sofrimento.

(Em casa - 30.06.12)




MELANCHOLIA II

Galeno e Aristóteles
Dürer, Burton e Freud
Melancolia e gênio
Melancolia e mania
Bílis negra a atormentar-me
Obriga-me, pois, outra tornar-me
Freud, Burton e Dürer
- Quem vai salvar-me de minha ira?

(Em casa - 30.6.12)



segunda-feira, 25 de junho de 2012

"PROMETHEUS": UM FILME EQUIVOCADO, QUE MACULOU A MINHA NOITE!

Ontem, domingo, fui assistir, no cinema aqui de Santa Cruz do Sul, ao longa de Ridley Scott, ficção científica intitulada de "Prometheus", longínqua referência ao Prometeu, da mitologia clássica, que roubou o fogo de Zeus para presenteá-lo à natureza humana. Todavia, estamos, mesmo a contragosto, diante do gênero  ficção científica, no qual Scott colaborou para sofisticar, há mais de três décadas ("Alien", de 1979, e "Blade Runner", de 1982). Na verdade, não li crítica alguma, de modo sistemático, para não desistir da empreitada de assistir a essa ficção científica de Ridley Scott, mas, confesso, eu já sabia que a mesma estava sendo depredada pelos cinéfilos, ainda que contando com Michael Fassbender (de "Shame"), Noomi Rapace (da trilogia sueca "Millennium") e Logan Marshall-Green (de "O grande ataque"), além da bela Charlize Theron (de "Vidas que se cruzam").
O que me vem à mente hoje, já com um certo distanciamento do objeto, é: - Como um grande cineasta britânico produziu e dirigiu um longa tão irregular, repleto de equívocos e com graves problemas de roteiro? Ficamos indignados com a experiência, que não teve nada de estética, e conversamos uns bons 40 minutos em casa sobre os problemas que verificamos na trama, de ordem técnica e de roteiro. Os cenários inóspitos e as criaturas fisiológicas, também criadas pelo mesmo HR Giger, de "Alien", não salvam o longa-metragem do equívoco e provocam uma fulminante comparação com a inventividade do 'sétimo passageiro' e com a natureza lúdica dos replicantes de "Blade Runner", tendo em vista o   andróide pernóstico de "Prometheus", encarnado por Michael Fassbender, que se regozija por ressuscitar línguas mortas, por ter erudição e se confrontar com os doutores e pesquisadores da expedição paga por um bilionário senil, esperançoso em obter algumas respostas metafísicas e ter sua vida prolongada pelos supostos 'criadores', a quem todos procuram. 
Se fosse um 'remake' de "Alien", em 3D, certamente seria um filme melhor! Desculpa-me, Ridley Scott, mas o senhor, do alto de seus mais de 70 anos, 'saiu da casinha' desta vez! 

sábado, 23 de junho de 2012

"À ESPERA DE TURISTAS", LONGA ALEMÃO DE ROBERT THALHEIM

O segundo filme a que assisti (o primeiro foi o do Polanski, no comentário anterior a este!), na mesma tarde e na mesma sala do Bourbon Country, em 17 de junho, foi a produção anglo-polaco-germânica, "Am Ende kommem", do diretor Robert Thalheim.
O roteiro é muito interessante e deveria ser assistido e discutido por professores e acadêmicos das áreas da História e das Ciências Sociais, uma vez que trata de um período da história ocidental do século XX, que deixou trágicas cicatrizes na natureza humana. Sven (Alexander Fehling) é um cara de Berlin que está na idade de cumprir o serviço militar. Como na Alemanha é possível optar por trabalho comunitário, Sven candidata-se a uma vaga na cidadezinha de Oswiecin, a antiga Auschwitz, Sul da Polônia, para trabalhar no Hostel que fica localizado junto ao antigo campo de concentração da Alemanha nazista. Chegando lá, Sven, na verdade, tem de fazer o papel de tutor de um polonês  de quase 90 anos, Krzeminski (Ryszard Ronczewski), que vive no alojamento junto ao campo. Ele não é bem-acolhido pelo idoso, que apresenta dificuldades para caminhar, para se deslocar e para manter a sua rotina diária, tarefas desempenhadas ao longo de oito horas diárias pelo rapaz alemão. Além de Sven ser motivo de chacota e discriminação, por ser alemão, em um pub da cidade, logo em seus primeiros dias, ele se sente oprimido pelo idoso a quem tem de se submeter. Em uma tarde, acompanhando-o a uma palestra em outra localidade, Sven descobre que se trata de um judeu sobrevivente do campo de Auschwitz. A partir de alguns meses, a relação deles começa a se constituir e o idoso torna-se dependente das tarefas de Sven, especialmente para fazer sessões de fisioterapia,  bem como    passa a demonstrar um certo afeto pelo rapaz. Nesse ínterim, Sven envolve-se com uma jovem polonesa, que é guia turística na cidade, e passa a alugar um quarto em seu pequeno apartamento. O relacionamento do alemão, que partiria no final daquele ano de volta a Berlin, com Anya, que está em busca de uma vida melhor fora da Polônia, cria uma antítese entre os universos que os dois representam e o peso da História implicada em suas vidas. Além de uma narrativa que denota o quanto os mais antigos não conseguem falar sobre os horrores da Segunda Guerra, destacadamente sobre a 'solução final', os mais jovens parece que tentam se expressar sobre o tema e, de algum modo, exorcizar da memória e do imaginário o genocídio. Não havia apenas um campo de concentração denominado Auschwitz e o filme colabora, didaticamente, para que aprendamos mais sobre a dimensão geopolítica dos campos de extermínio do Sul da Polônia. Havia três campos: Auschwitz I - em que morreram, aproximadamente, 70 mil intelectuais poloneses e prisioneiros soviéticos; Auschwitz II /Birkenau - em que, aproximadamente, morreram um milhão de judeus e quase 20 mil ciganos; e Auschwitz III/Monowitz - campo de trabalho escravo para a empresa IG Farben. Os campos da Polônia eram controlados pela SS e comandados por Himmler. O filme de Robert Thalheim tem cenas justamente em Monowitz, cidadezinha próxima a Oswiecin, que o protagonista e a guia visitam de bicicleta. Ali seria construído por voluntários um pequeno memorial aos mortos nos campos, cuja cerimônia contaria com a presença e o discurso do judeu sobrevivente, o polonês Krzeminski. O fato é que tudo acontece em uma tarde chuvosa e Krzeminski mal começa a discursar e é cortado pela chefe do cerimonial, que não suporta mais, pelo que se supõe, ouvir falar sobre os horrores dos campos. O idoso polonês fica muito indignado e se sente preterido pela comunidade. Decide, então, ir embora e viver na casa de sua irmã. Sven também está se preparando para voltar à Alemanha, mas, dada a reflexão que sua experiência suscita, ele altera seus planos e o longa termina de uma forma surpreendente. É um bom filme, de menos de 90 minutos, propício para ser trabalhado em sala de aula com alunos de ensino médio e acadêmicos do ensino superior. Confiram em Porto Alegre!

"CARNAGE" OU "O DIA DA CARNIFICINA", DE ROMAN POLANSKI

Assisti a dois filmes no domingo, 17 de junho, em Porto Alegre. Tenho de comentá-los aqui, meus amigos.
O primeiro a que eu assisti, o último longa de Roman Polanski, de apenas 88 minutos, é "Carnage" ou "O Dia da Carnificina", texto da dramaturga francesa Yasmina Reza, já encenado em São Paulo em abril de 2011, com Júlia Lemmertz e parceiros de peso. Sala lotada, Arteplex 8, no Bourbon Country, e plateia meio eletrizada nos primeiros 30 minutos de espetáculo, espetáculo mesmo: em uma mesma arena, um suposto apartamento de classe média em NY, dois casais se digladiam por conta de um problema de troca de  violência entre seus filhos de 11 anos.
Misturar Christoph Waltz, o grande ator oscarizado da cena inicial de "Bastardos inglórios", de Quentin Tarantino, com a oscarizada Kate Winslet, inesquecível atuação em "O Leitor" (tento me esquecer dela em "Titanic"!), a maravilhosa  oscarizada Jodie Foster, que brilhou em tenra idade no "Táxi driver", de Martin Scorsese (1976), e o não menos brilhante John C. Reilly, que fez dobradinha com Tilda Swinton no recente "Precisamos falar sobre Kevin", é quase que covardia. Senti-me na Broadway, assistindo a um grande espetáculo teatral e não o desmereci por vê-lo em 35mm  em tela grande.
Lembrei-me de peças teatrais consagradas vertidas para o cinema como "Uncle Vanya", de Louis Malle, de 1994, ou mesmo de outros textos de Tchecov no teatro, como "A alma boa de Setsuan" ou "As três irmãs", montagens a que assisti no RJ e em SP com atores brasileiros de envergadura. Também pensei no "O Baile", do Scola, ou no "Dogville", do Lars von Trier, além do belo "Arca russa", do Sokurov, que, a rigor, é uma encenação.
Após a modulação do tom dos personagens, no debate sobre o episódio em que um garoto machucou o outro, em uma saída pelo Brooklyn, a natureza humana desvela-se, no teatro dentro do cinema, em uma espécie de estratégia que Shakespeare já utilizava no século XVI e que Lacan denomina de "play scene". 
A hipocrisia, a banalização da violência, a força do status social e do patrimônio financeiro, como moeda de barganha, alimentam a trama "in progress". A cena em que uma das esposas vomita sobre os livros de Arte da outra, que estavam dispostos sobre a mesa central do living, Bacon e Kokoschka atingidos, também deixou-me repugnada! 
Vou parar por aqui, porque é preciso saber parar no momento certo, quando se comenta cinema de arte.

terça-feira, 19 de junho de 2012

ÉTICA E SENTIMENTOS MORAIS

Encontro-me desde ontem em Santa Maria, confinada no Hotel Itaimbé, no V Colóquio Internacional de Ética e Ética Aplicada, do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Filosofia da UFSM, financiado pela CAPES, CNPq e FAPERGS.
Minha satisfação é imensa e a linguagem é insuficiente para expressar meu sentimento efusivo por ouvir abordagens com roupagens autorais de ex-colegas de faculdade, conhecidos meus de 30 anos atrás, de debates em salas de aula na UFRGS, ao nível de graduação e mestrado.
Ter a oportunidade inusitada de desapergar-se da rotina diária, dos compromissos muitas vezes repetitivos do ofício de professor, das tarefas burocratizantes, que domesticam as sinapses, para poder se entregar, sem pensar no soberano Tempo, ao desfrute de falas altamente técnicas, exegéticas e, não raras vezes, originais, sobre os sentimentos morais nas filosofias de Kant e Hume, é algo que gera muito prazer intelectual.
O problema colocado na obra de Kant sobre por que a razão deve se preocupar com a felicidade, ou se há na obra de Kant, na 'Fundamentação da Metafísica dos Costumes' uma dimensão correlata à Justiça, ou seja, a felicidade como direito e justiça, e não como prêmio, ou, ainda, a ideia de um "orgulho inativo" na obra de Hume, do orgulho, como uma paixão importante para a formação de uma identidade pessoal marcante, foram temas de diferentes momentos, de diferentes filósofos, que irmanaram a todos no dia de ontem e hoje.
A questão da Felicidade esteve tangenciando as falas da tarde de hoje, do ponto de vista da ética aristotélica, como realização da vida e a vida excelente, do ponto de vista estóico e do ponto de vista da moral da obrigação, via Kant.
É isso, quase que um estrebuchar após a tarde memorável de aprendizado e trocas. Que venham as comunicações na parte da noite.
Até mais! Postarei mais um comentário após esse colóquio!

quarta-feira, 6 de junho de 2012

AETATIS DIFFERENTIA


Aetatis Differentia

Quando mulheres maduras amam jovens homens
Um pouco de Deus nelas se instaura:
O presunçoso  milagre da vida
Contra a juventude engolfada,
A fertilidade extirpada

É uma brecha que se abre na escuridão
Uma luz tênue que inspira os anos,
Que passam como as aves que migram do hemisfério setentrional
Pelos céus, a cada estação, inexoravelmente,
Mas ninguém as usa para mensurar o que já foi

Quando homens mais jovens se rendem a mulheres maduras
Trazem um perfume de esperança
Que é pulverizado a cada conflito, a cada entropia,
Comprovando, mais uma vez, que a ligação é ilegítima,
Que a ligação de amor posta não celebra a vida

Vida que deveria trazer a lume o irracional, as pulsões, a dança das bacantes,
As turbas dionisíacas, a fúria latente, a obscuridade, o império secreto dos desejos, o lado sinistro da clandestinidade dos afetos,
O sêmen da loucura, o intercurso sexual, a primitividade dos atos,
A devastação da linguagem dita, o atropelo da linguagem interdita

Quando homens mais jovens amam mulheres maduras
Eles se regozijam com a conquista nobre,
Se enchem de orgulho pelo domínio,
Se refestelam pelos louros da fornicação
- Viram para o lado da parede e dormem o sono da tirania!

Tirania abusada por um tipo de racionalidade masculina,
Que se outorga o direito a desenfreadas realizações
De machucar, de vampirizar, de escravizar, de humilhar, de condenar...
De se pronunciar, sem ouvir com delicadeza, de sentenciar à morte
Sem direito a um tribunal decente e parcimonioso

Quando um homem mais jovem vislumbra, de soslaio, o espírito de uma mulher madura,
Não apenas seus seios, sua genitália, sua bunda,
Seus secretos odores,
Suas ações empreendedoras,
Seus gestos maternais,
Suas preocupações exageradas
Seus desatinos no dia-a-dia porque ama, porque enxerga mais longe, porque sente com as entranhas, porque prenuncia a dor, porque intui com instintividade animal,
Ele está fadado ao infortúnio

Ao infortúnio de sentir de modo arrebatado a dança da vida,
De participar de um  performance arquetípico
Que a  poucos é dado o roteiro
De perscrutar palavras ancestrais
De descer ao Hades e voltar ileso
De provar da carne, antropofagicamente

Quando o espírito lhe é revelado
Em um ritual mágico
Da palavra, quer distância
Da experiência, pede um passo
Da confidência,  tem alergia
Da loucura, basta-lhe a razão doce,  cálida e cínica.

O espírito de uma mulher mais velha só poderá ser vislumbrado,
Sagrado que é,
Por homens mais jovens que têm um pouco da natureza da Mulher:
Sabem que no mundo sensível, obtuso de aparências, tudo pode ser revertido,
Tudo pode ser alterado, tudo pode ser dominado!
- É preciso apenas Vontade!


                                                                Rô Candeloro