quarta-feira, 6 de junho de 2012

AETATIS DIFFERENTIA


Aetatis Differentia

Quando mulheres maduras amam jovens homens
Um pouco de Deus nelas se instaura:
O presunçoso  milagre da vida
Contra a juventude engolfada,
A fertilidade extirpada

É uma brecha que se abre na escuridão
Uma luz tênue que inspira os anos,
Que passam como as aves que migram do hemisfério setentrional
Pelos céus, a cada estação, inexoravelmente,
Mas ninguém as usa para mensurar o que já foi

Quando homens mais jovens se rendem a mulheres maduras
Trazem um perfume de esperança
Que é pulverizado a cada conflito, a cada entropia,
Comprovando, mais uma vez, que a ligação é ilegítima,
Que a ligação de amor posta não celebra a vida

Vida que deveria trazer a lume o irracional, as pulsões, a dança das bacantes,
As turbas dionisíacas, a fúria latente, a obscuridade, o império secreto dos desejos, o lado sinistro da clandestinidade dos afetos,
O sêmen da loucura, o intercurso sexual, a primitividade dos atos,
A devastação da linguagem dita, o atropelo da linguagem interdita

Quando homens mais jovens amam mulheres maduras
Eles se regozijam com a conquista nobre,
Se enchem de orgulho pelo domínio,
Se refestelam pelos louros da fornicação
- Viram para o lado da parede e dormem o sono da tirania!

Tirania abusada por um tipo de racionalidade masculina,
Que se outorga o direito a desenfreadas realizações
De machucar, de vampirizar, de escravizar, de humilhar, de condenar...
De se pronunciar, sem ouvir com delicadeza, de sentenciar à morte
Sem direito a um tribunal decente e parcimonioso

Quando um homem mais jovem vislumbra, de soslaio, o espírito de uma mulher madura,
Não apenas seus seios, sua genitália, sua bunda,
Seus secretos odores,
Suas ações empreendedoras,
Seus gestos maternais,
Suas preocupações exageradas
Seus desatinos no dia-a-dia porque ama, porque enxerga mais longe, porque sente com as entranhas, porque prenuncia a dor, porque intui com instintividade animal,
Ele está fadado ao infortúnio

Ao infortúnio de sentir de modo arrebatado a dança da vida,
De participar de um  performance arquetípico
Que a  poucos é dado o roteiro
De perscrutar palavras ancestrais
De descer ao Hades e voltar ileso
De provar da carne, antropofagicamente

Quando o espírito lhe é revelado
Em um ritual mágico
Da palavra, quer distância
Da experiência, pede um passo
Da confidência,  tem alergia
Da loucura, basta-lhe a razão doce,  cálida e cínica.

O espírito de uma mulher mais velha só poderá ser vislumbrado,
Sagrado que é,
Por homens mais jovens que têm um pouco da natureza da Mulher:
Sabem que no mundo sensível, obtuso de aparências, tudo pode ser revertido,
Tudo pode ser alterado, tudo pode ser dominado!
- É preciso apenas Vontade!


                                                                Rô Candeloro 

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