sábado, 23 de junho de 2012

"CARNAGE" OU "O DIA DA CARNIFICINA", DE ROMAN POLANSKI

Assisti a dois filmes no domingo, 17 de junho, em Porto Alegre. Tenho de comentá-los aqui, meus amigos.
O primeiro a que eu assisti, o último longa de Roman Polanski, de apenas 88 minutos, é "Carnage" ou "O Dia da Carnificina", texto da dramaturga francesa Yasmina Reza, já encenado em São Paulo em abril de 2011, com Júlia Lemmertz e parceiros de peso. Sala lotada, Arteplex 8, no Bourbon Country, e plateia meio eletrizada nos primeiros 30 minutos de espetáculo, espetáculo mesmo: em uma mesma arena, um suposto apartamento de classe média em NY, dois casais se digladiam por conta de um problema de troca de  violência entre seus filhos de 11 anos.
Misturar Christoph Waltz, o grande ator oscarizado da cena inicial de "Bastardos inglórios", de Quentin Tarantino, com a oscarizada Kate Winslet, inesquecível atuação em "O Leitor" (tento me esquecer dela em "Titanic"!), a maravilhosa  oscarizada Jodie Foster, que brilhou em tenra idade no "Táxi driver", de Martin Scorsese (1976), e o não menos brilhante John C. Reilly, que fez dobradinha com Tilda Swinton no recente "Precisamos falar sobre Kevin", é quase que covardia. Senti-me na Broadway, assistindo a um grande espetáculo teatral e não o desmereci por vê-lo em 35mm  em tela grande.
Lembrei-me de peças teatrais consagradas vertidas para o cinema como "Uncle Vanya", de Louis Malle, de 1994, ou mesmo de outros textos de Tchecov no teatro, como "A alma boa de Setsuan" ou "As três irmãs", montagens a que assisti no RJ e em SP com atores brasileiros de envergadura. Também pensei no "O Baile", do Scola, ou no "Dogville", do Lars von Trier, além do belo "Arca russa", do Sokurov, que, a rigor, é uma encenação.
Após a modulação do tom dos personagens, no debate sobre o episódio em que um garoto machucou o outro, em uma saída pelo Brooklyn, a natureza humana desvela-se, no teatro dentro do cinema, em uma espécie de estratégia que Shakespeare já utilizava no século XVI e que Lacan denomina de "play scene". 
A hipocrisia, a banalização da violência, a força do status social e do patrimônio financeiro, como moeda de barganha, alimentam a trama "in progress". A cena em que uma das esposas vomita sobre os livros de Arte da outra, que estavam dispostos sobre a mesa central do living, Bacon e Kokoschka atingidos, também deixou-me repugnada! 
Vou parar por aqui, porque é preciso saber parar no momento certo, quando se comenta cinema de arte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário