terça-feira, 3 de julho de 2012

"PARIS: A FESTA CONTINUOU", LIVRO DE ALAN RIDING, PUBLICADO NO BRASIL EM 2012

(texto revisado)
Terminei em junho a leitura do livro de Alan Riding, jornalista inglês, filho de brasileiros, mas residente em Paris. O Diário Regional de Santa Cruz do Sul publicou uma entrevista com o autor na semana passada. Pelo título, que faz alusão à obra de Hemingway, Paris é uma festa, não se tem muita certeza do conteúdo do texto. Todavia, através do subtítulo, "a vida cultural durante a ocupação nazista, 1940-44" já se antevê que há resultados de pesquisa documental e de entrevistas acerca de que vida cultural era possível desenvolver e desfrutar durante a permanência dos nazistas na França, quando da vigência do Estatuto Judaico, promulgado em outubro de 1940, que proibia que judeus trabalhassem na indústria cinematográfica, por exemplo. O livro contém uma tese, a de que a maior parte dos intelectuais e artistas, que alegaram, após a libertação de Paris, participar da Resistência Francesa, a rigor, não participaram do movimento, sequer das operações de salvamento, de sabotagem e de espionagem. Lendo o livro de Riding, um apaixonado pelo período da ocupação de Paris, fiquei enojada com a posição antissemita de artistas e escritores renomados mundialmente. O historiador Philippe Ariès, na época simpatizante do Action Française, um dos bizarros grupos fascistas da França, teria dito ao colega de área Jean-Louis Crémieux-Brillac, ligado a um grupo de esquerda da Sorbonne, que ele era "capaz de identificar um judeu pelo cheiro!". O fundamentalismo e o antissemitismo é que têm um cheiro fétido, em meu entendimento. Lamentável o comentário de Ariès. Céline, médico e escritor, autor dos maravilhosos livros Viagem ao fim da noite e Morte a crédito, que povoaram a minha juventude de imagens sórdidas, era, sim, discaradamente, um colaboracionista, transformando sua voz em "uma metralhadora antissemita" (p. 35) assim que retornou de uma viagem à União Soviética em 1936. Foi aí que ele aderiu ao fascismo. André Gide reagiu com incredulidade ao ler os panfletos que Céline começou a publicar na França, de caráter altamente discriminatório. O mesmo Gide também descreveu a perseguição aos estrangeiros como um "espetáculo estarrecedor, assinalando que o comportamento da França era imoral" (p. 45). Heinrich Mann, o irmão de Thomas Mann, judeus alemães, foi enviado para o campo de concentração francês Le Vernet, conhecido como o mais violento de todos, no qual os prisioneiros passavam fome e eram tratados de modo bárbaro. Koestler, em suas memórias, descreveu os tormentos passados em Le Vernet, em um livro intitulado Escória da terra. André Malraux foi ferido e capturado, mas conseguiu escapar dos alemães. Louis Aragon recebeu quatro medalhas por bravura e também escapou de ser capturado pelos alemães. A Luftwaffe conquistou a supremacia no espaço aéreo e Saint-Exupéry perdeu vários pilotos de sua esquadrilha. A ocupação de Paris ocorreu silenciosamente e a capital perdeu 60% de sua população. O chefe de Estado francês Pétain dirigiu-se à nação pelo rádio e sugeriu que a derrota francesa, contra a Alemanha, era culpa dos próprios franceses, que foram negligentes. Daí, instalou seu governo em Vichy, uma estância termal no centro da França, nomeou Laval como seu vice e abdicou do lema "Liberdade, igualdade e fraternidade" para adotar a cruzada fascista "Trabalho, família e pátria" (p. 67). Hitler, em sua única visita à cidade-luz, em 23 de junho de 1940, encontrou uma capital vazia. Encantou-se com a Ópera de Paris e por três horas passeou, acompanhado de Albert Speer, seu principal arquiteto, e de Arno Brecker, seu escultor favorito, por uma Paris vazia e silenciosa. Também visitou a Catedral de Notre-Dame, o Panthéon e a tumba de Napoleão em Les Invalides. Há, enfim, passagens muito interessantes no livro de Riding sobre o sequestro de obras de arte da França e sobre seu salvamento e saída de território francês, por força do trabalho bem-articulado da Resistência Francesa. Por fim, a parte da obra que mais me cativou foi quando Alan Riding começa a descrever as restrições ao trabalho dos judeus na França ocupada, especialmente em Paris,  no segmento do cinema. O poeta Jacques Prévert teria alertado um ex-produtor de um estúdio cinematográfico de Berlin, enviado pelo Partido Nazista a Paris, Alfred Greven, que sua causa era perdida porque "não se pode filmar sem eles (os judeus). Veja Hollywood!" (p. 227). Os judeus representavam cerca de nove mil trabalhadores na indústria cinematográfica dos 60 mil envolvidos na época. Greven acabou contratando um roteirista judeu, de sobrenome Dreyfus, para escrever roteiros para quatro filmes de sua empresa, a Continental Films, que produziu onze longas em 1941 (p. 229). Pensando em meus antigos amigos judeus, amizades bem antigas travadas em Porto Alegre, tenho a certeza de que eu não teria a formação intelectual que tenho não fossem os textos, os comentários literários, as indicações de filmes e as idas a concertos com meus amigos de origem judaica. Seu universo cultural fez diferença em minha vida. Leiam o livro e regozijem-se! Um bom presente para o  Dia do Amigo ou Dia dos Pais.

Um comentário:

  1. Achei muito interessante, Rô, tanto o livro quanto a sua resenha, gracias

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