domingo, 25 de janeiro de 2026

JOSEPH BRODSKY (1940-1996), 30 ANOS DE SEU FALECIMENTO EM 28 DE JANEIRO

 


                                                                       Fonte: Youtube


  Terminei o ano de 2025 lendo os Poemas de Natal, de Joseph Brodsky. Já pensava lá em dezembro homenageá-lo hoje em meu blog (adiantado), em seu aniversário de 30 anos de morte. Ele é um de meus poetas favoritos, uma voz brilhante e corajosa, expressão de uma vida de resistência no exílio nos EUA, país para o qual emigrou em 1972, então expulso da União Soviética pelo crime de "parasitismo".

   Cheguei em Veneza no Carnaval de 1996. Era a minha primeira vez na cidade. Eu já sabia da morte de Brodsky por uma fonte estadunidense. Ele faleceu nos EUA, mas um ano depois, em 1997, após muitos contatos de seu amigo Robert Morgan, que conseguiu comprar um túmulo, seus restos mortais foram trasladados para San Michele, uma ilhota que faz parte do arquipélago de Veneza, transformada em cemitério a mando de Napoleão. Na mesma ilha, estão enterrados próximos a Brodsky os restos mortais de Stravinsky e Diaghlev. Um pouco mais longe, jaz Ezra Pound.

    Aos 32 anos, Brodsky chegou em Detroit. Já havia sofrido bastante sob o regime de Stalin. Como poeta do exílio, ainda falava mal o Inglês, mas, mesmo assim, foi convidado a ser professor residente da Universidade de Michigan, campus de Ann Arbor. Foi se adaptando à vida estadunidense e dominando o idioma, mas continuou até sua morte a ser uma espécie de mártir da brutalidade do stalinismo e da Guerra Fria. Através da amizade com o poeta estadunidense W.H. Auden, quem o recebeu e muito o ajudou a adaptar-se à sua nova vida, pôde desfrutar de uma vida mais confortável. Auden faleceu um ano depois, em 1973.

    O poeta russo nunca mais retornou a São Petersburgo. Sua antiga residência é hoje um museu. A partir de 1989, com a dissolução da URSS, ele poderia ter obtido um visto e ter  viajado, mas não o fez. Retornava sempre a Veneza. Depois que conheceu a cidade, desejava residir nela até em uma vida pós-morte. Chegou a dizer que poderia voltar como um gato, até como um rato, mas em Veneza, sempre em Veneza. 

    Um de seus amigos próximos, o artista Robert Morgan, que ainda é vivo e reside em Veneza, fez companhia a Joseph em suas caminhadas pela cidade. Brodsky dedicou a Morgan o famoso livro Marca d'Água (Watermark: an Essay on Venice), publicado em 1992.

   Filho da classe trabalhadora (sua mãe era contadora e o pai,fotojornalista), Brodsky desestabilizou-se, emocionalmente, com o Prêmio Nobel de Literatura, que lhe foi conferido em 1987, e o respectivo montante em dinheiro recebido. A imprensa nunca mais o largou. Ele era tabagista, bebia café e dava uns tragos na vodka, bebida trocada pela graspa, ou grappa,  na Itália. Era cardiopata e não cuidava da saúde. 

   Iosif Aleksandrovich Brodsky deixou-nos aos 55 anos. Abaixo, um de seus poemas mais conhecidos, escrito em 1972, que ressignifica sua própria condição de exilado:


                                                                Odisseu a Telêmaco

Caro Telêmaco,

Encerrou-se a Guerra 
de Troia.
Quem venceu, não lembro. Gregos,
sem dúvida: só gregos deixariam
tantos defuntos longe de seu lar.
Mesmo assim, o caminho para casa
mostrou-se demasiado longo, como
se Posídon, enquanto ali perdíamos
nosso tempo, tivesse ampliado o espaço.

Não sei nem onde estou nem o que tenho
diante de mim, que suja ilhota é esta,
que moitas, casas, porcos a grunhir,
jardins abandonados, que rainha,
capim, raízes, pedras. Meu Telêmaco,
as ilhas todas se parecem quando
já se viaja há tanto tempo, o cérebro
confunde-se contando as ondas, o olho
chora entulhado de horizonte e a carne
das águas nos entope enfim o ouvido.
Não lembro como terminou a guerra
e quantos anos tens, tampouco lembro.

Cresce, Telêmaco meu filho, os deuses,
só eles sabem se nos reencontraremos.
Não és mais o garoto em frente a quem
contive touros bravos. Viveríamos
juntos os dois, não fosse Palamedes,
que estava, talvez, certo, pois, sem mim,
podes, liberto das paixões de Édipo,
ter sonhos, meu Telêmaco, impolutos.



Tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher. 
In: Quase uma elegia, Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996.


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