sábado, 4 de abril de 2020

OS 500 ANOS DE MORTE DE RAFFAELLO (1483-1520)

      
No início de março de 2020, antes da pandemia e das normativas para o isolamento social, italianos e estrangeiros que estavam em Roma tiveram o privilégio de visitar a grande mostra dos 500 anos de morte de Raffaello ou Rafael Sanzio, como o conhecemos em língua portuguesa. Acompanhei as matérias na imprensa italiana e fiz um percurso virtual pela mostra. Já testemunhei, ao vivo, o esplendor da produção pictórica da Renascença, uma vez que passei por alguns museus italianos que albergam as telas do artista.

Uma espécie de gozo estético arrebatou-me quando deparei-me, na Galleria degli Uffizi (estive lá, pela segunda vez, em 2017), com as telas Retrato do Papa Leão X com dois cardeais (1517-1518), Retrato do Papa Júlio II (1512) e Autorretrato (1505-1506). Esses dois papas, dentre outros,  incentivaram e financiaram a produção artística renascentista, especialmente a partir de 1506, quando a Basílica de São Pedro começou a ser construída sobre a de Constantino, que precisou ser demolida. Na Galeria Borghese, contemplei a tela A dama do unicórnio (1505-1506) e, em Nápoles, no Museu Nacional Capodimonte, o Retrato do Cardeal Alessandro Farnese (1512).

Rafael fez parte do Triunvirato da Alta Renascença, constituído também por Miguelangelo (1475-1564) e Leonardo Da Vinci (1452-1519). Com apenas 21 anos, ainda estava perscrutando seu caminho na pintura, uma escolha entre o Classicismo e a Arte Acadêmica. Logo, Rafael caiu nas graças do Papado e foi contratado para criar vários afrescos para uma das salas do Palácio Apostólico, local em que o Papa Júlio II fazia seus despachos. Denomina-se Stanza della Segnatura e é nela que se encontra o afresco que eu mais desejava ver e dele desfrutar: Escola de Atenas (1510-1511), medindo 5 metros por 7,7 metros. 

A obra impressionou-se muito pela dimensão. Eu não imaginava que era monumental! O que eu buscava na tela eram os sábios, que tinham relação direta com a minha vida acadêmica na área filosófica. Estavam lá Sócrates, Heráclito, Parmênides, Platão, Aristóteles e outros. O núcleo do afresco está pontuado por Platão e Aristóteles. O primeiro segura a obra Timeu, que aborda a origem do universo. Platão aponta uma mão para o alto, em busca de seu mundo das ideias, no qual se localiza, segundo ele, o verdadeiro conhecimento. Aristóteles, não concordando com o mestre, alonga seu braço e sua mão em direção do chão, no qual estão dispostos os objetos sensíveis. Ele carrega na outra mão sua Ética a Nicômaco. Há uma tensão entre as duas figuras, espraiada pelos outros sábios que se encontram à direita e à esquerda do centro. Não é possível fotografar na sala de Rafael; assim, abaixo, deixo a vocês um pequeno vídeo de uma professora portuguesa:

                             Scuola di Atene, Raffaello  (Fonte: You Tube)         

Na mesma sala da Stanza, estão outros afrescos. Dois deles são especialmente belos para mim: A Filosofia (1509-1511) e A Poesia (1509-1511). A visita aos Museus do Vaticano levou horas. Passei quase dois turnos lá dentro até a finalização do percurso na Capela Sistina, uma emoção indescritível!

Na segunda-feira, 6 de abril, o mundo das Artes comemorará a efeméride dos 500 anos de morte desse grande artista. A megaexposição está acontecendo no Palácio Le Scuderie del Quirinale. É uma promoção conjunta com a Galleria degli Uffizi, de Florença. Tem o apoio da Galleria Borghese, Musei Vaticano e Parco Archeologico del Colosseo. A mostra seguirá, inicialmente, até o dia 2 de junho, mas espera-se que seja prorrogada por força do momento que todos vivenciamos. A curadoria é de Marzia Faietti e Matteo Lafranconi.

segunda-feira, 23 de março de 2020

PESTES E PANDEMIAS AO LONGO DA HISTÓRIA

   
  (O Triunfo da Morte, de Pieter Bruegel, o Velho. Fonte: Google)

        No site da Live Science, em colaboração com All About History (www.livescience.com), encontrei um artigo muito interessante sobre as pestes, epidemias e pandemias, que devastaram a população mundial ao longo da História, assinado por Owen Jarus, jornalista científico com formação na Universidade de Toronto. Verti para o Português alguns trechos, em tradução livre, e as costurei com informações que obtive em outras leituras, na perspectiva diacrônica, para tentar compreender que possíveis mudanças (ou não) podem ser detectadas nas sociedades no período pós-epidêmico.
  Foram encontrados esqueletos humanos de, aproximadamente, cinco mil anos no Nordeste da China. Esse sítio arqueológico bem-conservado chama-se Hamin Mangha e sugere que uma epidemia tenha feito muitas vítimas - homens, mulheres, crianças, jovens e idosos -, em um povoado "pré-histórico", considerando que o material humano estava confinado em uma espécie de casa, que sofreu um incêndio no mesmo período da datação.
     Tucídides (460 a. C - 400 a. C.), um dos grandes historiadores da Grécia Antiga, relata em sua obra A História da Guerra do Peloponeso, que, por volta de 430 a. C., uma epidemia assolou Atenas por cinco anos, vitimando 100 mil pessoas, ocorrida durante a vigência da guerra contra Esparta. Os doentes apresentavam calores violentos na cabeça, segundo o historiador, e suas gargantas e línguas sangravam, provocando uma respiração ofegante e um odor fétido. Os estudiosos não chegaram a uma conclusão definitiva por falta de evidências; todavia, aludem à Febre Tifóide ou mesmo ao Ebola. Atenas foi enfraquecendo suas defesas e acabou perdendo a guerra para Esparta.
    A Peste Antonina matou mais de cinco milhões de pessoas no Império Romano (entre 27 a. C e 180 d. C), no retorno das legiões romanas para casa, conforme pesquisa acadêmica conduzida pela Prof. April Pudsay, da Universidade Metropolitana de Manchester.  As perdas e mortes causaram uma profunda instabilidade ao império, que viu crescer as invasões de povos "bárbaros" e a consolidação do Cristianismo em seu território. 
   O Império Bizantino foi quase aniquilado por uma epidemia, que vitimou cerca de 10% da população mundial à época. A doença recebeu o nome do Imperador Justiniano I (527 d. C. - 565 d. C.), a Praga de Justiniano, que governava  Constantinopla no auge de sua expansão geopolítica. Foi Justiniano quem mandou construir a catedral Hagia Sophia, para se ter uma ideia da dimensão de suas realizações. Ele acabou contaminado pela peste, porém, recuperou-se. O momento pós-doença no império marcou o declínio paulatino do poder de Bizâncio e a consequente perda de seus territórios, nos séculos subsequentes, até sua derrocada definitiva no século XV.
    A Peste Negra ou Peste Bubônica (1346 - 1353)  deslocou-se da Ásia para a Europa, deixando destruição em seu rastro. Foi causada por uma cepa da bactéria Yersinia Pestis, espalhada por pulgas de roedores contaminados. Estima-se que 25 milhões de europeus tenham morrido em um período que varia de cinco a sete anos. A Peste Negra mudou o rumo da história europeia, uma vez que, com uma mão de obra escassa, o Feudalismo foi entrando em ruína, o sistema de servidão foi colapsando e uma inovação tecnológica instalou-se entre os trabalhadores, que passaram a ter uma remuneração maior, o que garantiu que se alimentassem melhor.  
     Por fim, a Gripe Espanhola (1918-1920), que não se originou na Espanha, surgiu no último ano da Primeira Guerra Mundial (a Espanha não participou do confronto) e alastrou-se, rapidamente, pelo planeta. Seu alto grau de contágio e letalidade infectou 500 milhões de pessoas, aproximadamente, através de três ondas de proliferação, e matou quase 50 milhões no mundo. O nome da gripe, talvez, tenha se difundido porque a imprensa espanhola foi muito atuante na divulgação da doença e não esteve sob a censura dos países em guerra. Fake News da década de 20 comprometeram o país, batizando a peste com o seu nome. Essa pandemia é considerada a "mãe das pandemias"; lamentavelmente, a primeira vacina contra essa doença  foi produzida somente em 1944.
        Em dezembro de 2019, surgem os primeiros indícios de um surto na China, que viria a se tornar uma pandemia global batizada de Covid-19, alarmando o mundo e exigindo os esforços conjuntos dos governos de países ricos e em desenvolvimento. O tom surrealístico, derivado das medidas de confinamento social, que o coronavírus desencadeou no planeta, será, futuramente, explorado pelo cinema e pela literatura. 

    Que mudanças o capitalismo vigente apresentará (ou não), após o enfraquecimento da pandemia? Haverá um fortalecimento do sistema bancário e das megacorporações, como preveem alguns analistas? O momento é de reflexão e cautela.

        Fiquem em casa, fiquem bem e aproveitem para LER!
             Go home and stay home! Enjoy reading a Book!

sábado, 15 de fevereiro de 2020

MALCOLM-X E AS NOVAS PROVAS DE SEU ASSASSINATO

     
                                        Fonte: Google

    No início de fevereiro deste ano, estreou na plataforma da Netflix uma série documental, "Who killed Malcolm X", direção de Rachel Dretzine e Phil Bertelsen, de 2020, produzida pela própria Netflix. Assisti a todos os capítulos em apenas um dia porque fiquei muito tocada com as imagens de arquivo e com as novas provas encontradas, que poderão elucidar, de vez, quem foram os muçulmanos que executaram o ativista Malcolm-X na tarde de 21 de fevereiro de 1965, aos 39 anos. Foi um homem consciente de sua negritude e de sua pobreza, bem como da violência policial a que a população afro-americana era submetida todos os dias nos EUA, nas décadas de 50 e 60.  

    Batizado Malcolm Little, em 1925, em Nebrasca, ironicamente, de 'pequeno', não tinha nada: era alto, magro, bonito e um altivo orador, que se expressava muito bem, de modo articulado, embora não tenha tido a oportunidade de ingressar em uma universidade. Perdeu seu pai aos seis anos de idade, assassinado por representantes da supremacia branca, possivelmente, ligados à seita paramilitar racista, a Klu Klux Klan, fundada em 1865. Ainda muito jovem, apaixonou-se pelo Harlem em uma visita a Nova York e para lá se mudou. Estive no Harlem duas vezes e pude caminhar pela Boulevard Malcolm-X.

     Segundo o The Washington Post, em uma reportagem assinada por Meagan Flynn, a Procuradoria Pública do distrito de Manhattan, comunicou o jornal por e-mail  que estaria providenciando uma "revisão" no processo de Malcolm-X, no sentido de decidir ou não por uma reinvestigação, considerando-se que, nos EUA, assassinatos não prescrevem. Parece que o New York Times já havia noticiado a possível revisão do caso, antes de a série da Netflix estar disponível na plataforma. Não consegui localizar tal matéria no site do jornal.

     Malcolm, chegando ao Harlem, tornou-se um "fora da lei": foi traficante e cafetão, até ser preso em 1946. Na prisão, teve a chance de ler muito. Fiz uma pesquisa em alguns blogs e encontrei várias listagens de obras. De forma resumida, Malcolm leu textos selecionados de Kant, Schopenhauer e Nietzsche, perscrutou a obra do geneticista Mendel e mergulhou em Sex and Race, de J. A. Rogers, e Negro History, de Carter G. Woodson. Esse último autor foi um historiador negro, fundador da 'Associação para os Estudos da Vida e da História Negra' nos EUA e precursor da semana da história negra, transformada depois no Mês da História Negra, comemorado todos os anos em fevereiro, nos EUA.

      Ainda no período de encarceramento, aproximadamente seis anos cumprindo pena por roubo, Malcolm-X converteu-se ao Islamismo e aderiu à Nação Islã, presidida por Elijah Muhammad, um líder "muçulmano preto", expressão cunhada pelo grupo para diferenciar o "negro", remanescente da escravidão, do muçulmano preto, que era exortado a retornar à sua origem livre africana e muçulmana (dado do blog de Arthur Andrade, de 29 de fevereiro de 2016). Começou a se corresponder por cartas com Ellijah e, em 1952, sai da prisão e passa a "recrutar" jovens para as mesquitas dele, assinando seu nome com um X, porque Little, o pequeno, era entendido por ele como uma herança escravocrata.

     Daí em diante, trabalhou durante 11 anos para Ellijah, ampliou, significativamente, o número de integrantes da Nação Islã, consolidou sua militância separatista e sua estratégia radical de se opor à igualdade racial e ao pacifismo de outros movimentos negros, viajou pelo país como representante do líder, fundou mesquitas e tornou-se um ministro assistente, com mais poder que os próprios filhos do fundador do grupo. A recepção e o destaque que Malcolm foi alcançando no país gerou atritos entre os membros da cúpula da Nação Islã, entre ele e um dos filhos de Ellijah, que não simpatizava com ele, e, aos poucos, Malcolm foi tomando ciência da corrupção disseminada no grupo, dos filhos bastardos de Ellijah e da fortuna acumulada da família.

      Quando o presidente John F. Kennedy foi assassinado em 1963, Malcolm manifestou-se de um modo comprometedor aos olhos da Nação Islã. Dado o fato de que adquirira fama e respeito junto à imprensa, a outros líderes negros, como M. L. King Jr., e à população negra em geral,  tornou-se uma ameaça ao líder Ellijah Muhammad. Na época, Malcolm foi para a Flórida e aproximou-se do pugilista Cassius Clay, que também se converteu ao Islamismo,  imaginando que a iniciativa lhe traria prestígio junto à Nação Islã. Todavia, Malcolm foi silenciado, humilhado publicamente e afastado do grupo, além de proibido de falar em nome dos representantes da mesquita a qual frequentava.

       Rompendo, então, definitivamente com Ellijah em 1964, Malcolm aproveita para fazer uma viagem à Meca, na Arábia Saudita, e compreende o quanto o Islamismo havia sido deturpado em seu país. Em seu retorno aos EUA, funda seu próprio movimento, a Organização da Unidade Afro-Americana, de natureza laica e não sectária, manifestando um tom mais brando em seu ativismo. A Nação Islã reagiu brutalmente e, na tarde de 21 de fevereiro de 1965, Malcolm foi palestrar para algumas dezenas de pessoas em um auditório em Manhattan. Não havia policiamento, somente um segurança no local. Quatro homens apareceram armados e o executaram com tiros de calibres 38 e 45 e de uma espingarda; ninguém sabia quem eles eram. 

  Três homens foram presos; dois deles sempre se autoproclamaram inocentes. Descobriu-se há pouco tempo, revelação chocante feita pela série da Netflix, que o segurança pessoal de Malcolm era do FBI, que a Polícia nova-iorquina foi conivente com a injusta prisão de dois deles, que os assassinos eram negros muçulmanos de uma mesquita de Newark e que o próprio FBI esteve infiltrado na comunidade de Ellijah Muhammad o tempo todo, através de vários agentes. 

   Malcolm-X, ou Al Hajj Malik Al-Shabazz, deixou uma esposa grávida e quatro meninas, que presenciaram o assassinato do pai. Recomendo que vocês assistam à série e que tirem suas conclusões. Há muitos mais detalhes a serem descortinados neste ano, se houver uma séria reinvestigação sobre a trágica morte de Malcolm-X.

                     R.I.P., Malcolm-X (1925-1965)!



      

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

GÉRARD DE NERVAL: A LOUCURA COMO MODO DE VIDA

    
Amazon.com: Aurelia & Other Writings (9781878972095): De Nerval ...
          Fonte: Amazon


 Em uma de minhas caminhadas solitárias por Paris, em 2017, procurei, inutilmente, a antiga Rue de la Vieille-Lanterne, próxima à Praça Châtelet, no atual 4º arrondissement. Resgatando uma triste narrativa, nessa ruela, em uma madrugada fria de 25 de janeiro de 1855, Gérard de Nerval, um dos grandes poetas e novelistas de língua francesa, suicidou-se por enforcamento. Seu cadáver foi encontrado preso a uma grade de uma parede. De dentro do bolso de seu casaco, foram retirados os últimos capítulos da novela Aurélia (ou O Sonho e A Vida), publicada postumamente no mesmo ano. Seu amigo e também poeta francês Théophile Gautier foi quem pagou seu enterro no Cemitério Père-Lachaise, em Paris.
   Gérard de Nerval, para quem não sabe, é um pseudônimo de Gérard Labrunie, nascido em 1808 em uma família abastada. Era filho de um médico do exército napoleônico. Por isso, foi criado por um tio-avô nas dependências da propriedade da família em Mortefontaine, que fica, aproximadamente, a 50km de Paris. Em 1834, Nerval herda essa propriedade de seu pai e mais alguns milhares de francos. Ele viaja, então, pela França e pela Itália. Anos depois, visita a Alemanha na companhia de seu amigo Alexandre Dumas, um notório romancista francês à época. No final de sua vida, com pouco mais de 40 anos, fez uma viagem pelo Oriente, o que lhe causou profundas impressões e inspirou-lhe a escritura de um livro de narrativas de natureza mística.
   Gérard de Nerval também era tradutor e um apaixonado por óperas. Aos 19 anos, traduziu o Fausto, de Goethe, para o Francês, adaptado por Berlioz em 1829, ópera divulgada sob o título de Oito cenas de Fausto. Colaborou com Alexandre Dumas em dois libretos de óperas, Piquillo e O Alquimista, e em outras produções literárias. Também assinou sozinho outros libretos.
     Em tenra idade, dominava o Grego e o Latim, que aprendeu com seu pai. Muitos de seus textos, sejam poemas, contos ou peças teatrais, refletem sua formação em estudos clássicos. Nos 165 anos de morte, neste próximo final de semana de janeiro de 2020, gostaria de fazer uma singela homenagem a um visionário, que influenciou a produção textual de vários nomes da literatura universal. 
    Se a Psiquiatria e a saúde mental já tivessem evoluído no segundo quartel do século XIX, talvez, Nerval poderia ter sido salvo de suas crises psicóticas e de suas alucinações, quadro registrado nos internamentos aos quais fora submetido diversas vezes. Sorveu da loucura e enamorou-se da Morte, que o levou desta existência aos 46 anos. Abaixo, deixo um fragmento da novela Aurélia (dedicado a Alexandre Dumas), de 1855, retirado da publicação da Editora Iluminuras, de 1991.



                                      VERSOS DOURADOS                                                                                                                                          Céus! Tudo é sensível   
                                                                                     (Pitágoras)                                                                              
Homem! livre pensador! serás o único que pensa
Neste mundo onde a vida cintila em cada ente?
De tuas forças tua liberdade dispõe naturalmente,
Mas teus conselhos todos o universo dispensa.
Honra na fera o espírito que fermenta…
Cada flor é uma alma em Natura nascente;
Um mistério de amor no metal reside dormente;
“Tudo é sensível!” E poderoso em teu ser se apresenta.
Receia, no muro cego, um olhar curioso:
À própria matéria encontra-se um verbo unido…
Não te sirvas dela para qualquer fim impiedoso!
Quase sempre no ser obscuro mora um Deus escondido.
E, como um olho novo coberto por suas pálpebras,
Um espírito puro medra sob a crosta das pedras!

                                          VERS DORÉS
                                                                       Eh quoi! tout est sensible!                                                                                                                   (Pythagore)
Homme, libre penseur ! te crois-tu seul pensant
Dans ce monde où la vie éclate en toute chose?
Des forces que tu tiens ta liberté dispose,
Mais de tous tes conseils l’univers est absent.
Respecte dans la bête un esprit agissant:
Chaque fleur est une âme à la Nature éclose;
Un mystère d’amour dans le métal repose;
« Tout est sensible ! » Et tout sur ton être est puissant.
Crains, dans le mur aveugle, un regard qui t’épie:
À la matière même un verbe est attaché…
Ne la fais pas servir à quelque usage impie!
Souvent dans l’être obscur habite un Dieu caché;
Et comme un œil naissant couvert par ses paupières,
Un pur esprit s’accroît sous l’écorce des pierres!
   Tradução de Luís Augusto Contador Borges 

terça-feira, 3 de setembro de 2019

BACURAU: UM LONGA PLETÓRICO DE FIGURAS DE LINGUAGEM!

    


 
                                              Bacurau: Brazil in a nutshell - Cine Suffragette - Medium
                                                                       Fonte: Google

Sempre que escrevo um comentário sobre um filme ou um documentário neste blog é porque fiquei impressionada e tive algum tipo de fruição estética, após o espetáculo. Não leio críticas especializadas antes de assistir a um filme, tampouco antes de me reportar ao meu blog. Portanto, esta é expressão escrita de uma visão muito particular de "Bacurau", sem pretensão alguma e sem comprometimento com qualquer escola crítica. O longa dos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles arrebatou o prêmio do júri no Festival de Cinema de Cannes neste ano, foi projetado em vários outros festivais e, em agosto, entrou em cartaz nas salas brasileiras. Arrebatou-me também, devo assumir!

   Passei a me interessar pela música produzida em Pernambuco há muitos anos atrás e, com o filme "O som ao redor", dirigido por Kleber Mendonça Filho e lançado no país em 2013, tive uma verdadeira vontade de conhecer Recife e Olinda, em Pernambuco.

    Três anos após, com "Aquarius", de 2016, e sua narrativa sofisticada, coproduzido por Walter Salles e também apresentado em Cannes, comecei a entender um pouco a urdidura cinematográfica do diretor pernambucano.

   Feito o prólogo, vamos ao filme. Eu o assisti no dia 2 de setembro. Não me interessa aqui se é uma distopia, um conto sociopolítico, se tem nuanças político-partidárias etc. Meu ponto inicial é o título, que guarda simetria com o nome do pássaro bacurau (Nyctidromus albicolis. In: www.wikiaves.com.br). Esse pássaro é típico do cerrado e seu nome indígena é "A-ku-ku". Também conhecido por "Amanhã-eu-vou", em Minas Gerais, é possuidor de grandes asas, o que lhe permite caçar insetos, voando. O nome bacurau é uma onomatopeia, ou seja, é a própria vocalização que o pássaro emite. Temos aí a primeira figura de linguagem que encontrei em "Bacurau". O pássaro voa à noite para se alimentar e, durante o dia, fica camuflado na vegetação rasteira. Os locais só o veem se ele se assusta e se muda de lugar, em um voo curto.

    O sentido de bacurau como "amanhã-eu-vou" também tem simetria, por sua vez, com o subtítulo do filme, que indica que o tempo da ação será localizado no futuro. A partir dessa informação, parece que só se fala em distopia no tratamento narrativo de "Bacurau". O filme é muito mais; está repleto de intertextualidades e as tais figuras de linguagem, que indiquei no título!

     Após conhecermos Teresa  (Barbara Colen), que retorna ao povoado para o funeral de Dona Carmelita, falecida aos 94 anos, matriarca emblemática do povoado, vamos conhecendo os outros personagens como o professor Plínio  (Wilson Rabello), a médica Domingas (Sônia Braga está poderosa!) e Pacote/Acácio (Thomas Aquino). Percebemos os laços, as tensões e a identidade comunitária entre os habitantes no ritual fúnebre, além das tessituras individuais. Mais adiante, após uma série de assassinatos misteriosos, que abalam a comunidade (sem falar no caminhão-pipa, que chega à vila cravejado de tiros, o que coloca o abastecimento de água em risco), um outro personagem, não menos relevante, descortina a narrativa. Trata-se de um foragido que atende por Lunga (brilhantemente desenvolvido por Silvero Pereira, que enseja a reencarnação de Lampião),  um criminoso para a Polícia, porém um protetor para os menos assistidos de Bacurau. Lungo vive escondido, com mais dois capangas fortemente armados, numa torre de uma usina desativada, próxima ao povoado. Ele é convocado a retornar a Bacurau para organizar a contra-ofensiva dos habitantes em relação a pessoas que eles sequer sabem quem são e o que desejam. 

     Até esse ponto do longa, o prefeito da cidade já esteve junto aos habitantes, fazendo campanha para uma possível reeleição. Deixa donativos e caixões fúnebres para os habitantes, que são ignorados. É a segunda vez que caixões são vistos em cena. No início do filme, Teresa vai chegando em Bacurau e a uns 17 quilômetros de distância encontra um caminhão de esquifes virado na estrada. Cartografando o povoado, esse estaria localizado, de modo fictício, no interior de uma cidadezinha no sertão pernambucano.  No entanto, simultaneamente aos assassinatos ocorridos, inclusive de uma criança, a cidade desaparece do mapa digital, monitorado por satélite, e o sinal de celular é cortado, por ocasião da visita de dois forasteiros que chegam de moto dissimulados de trilheiros. Ela, a forasteira,  coloca sob uma mesa de bar um inibidor de sinal de telefonia móvel. Todos os cidadãos ficam sem poder se comunicar entre si e são mantidos isolados, em relação ao centro da cidade. Um drone, em forma de OVNI, é visto, no mesmo período, por um dos moradores sobrevoando a região, o que causa alerta e apreensão. 

     A configuração espacial do povoado de Bacurau lembra a de uma aldeia indígena, aos moldes daquelas que existiram no litoral e no interior de Pernambuco, antes da chegada dos europeus. As etnias de língua tupi eram os Tupiniquins, os Tabajaras e os Caetés, esses extremamente violentos com seus inimigos. Os de língua não tupi, que adentraram o interior do estado, eram os Tapuias. Quando o prefeito de Bacurau aparece na comunidade, a atitude daquele que detém o poder político remonta aos representantes da Coroa, que concediam benefícios aos indígenas aldeados e aliados aos portugueses. Felipe Camarão foi um eminente colaborador desse tipo.

    Na primeira parte do filme, pontuado por antíteses, pode-se reconhecer um certo realismo narrativo, exceto a cena de alucinação em que Teresa vê água saindo do caixão de Dona Carmelita. Na segunda metade do longa, prevalece o que poderíamos intitular de um "quase realismo mágico", um toque muito especial à carga estética do projeto. Para que a narrativa se enquadrasse, verdadeiramente, no realismo mágico, seria necessário que a percepção de tempo dos habitantes fosse cíclica, o que não ocorre em "Bacurau", uma vez que  a dimensão temporal é linear.

     Um último aspecto interessante, e que poderia legitimar a alegoria do conflito entre etnias indígenas e os europeus, ou entre o sistema de poder e o cangaço, é o uso de alucinógenos. No início do filme, Teresa, quando chega a Bacurau, recebe uma semente na boca, o que resulta em sua alucinação no cemitério. No momento da contra-ofensiva dos habitantes de Bacurau, todos os adultos recebem uma semente em suas bocas. Por ilação, percebe-se depois que as armas utilizadas no conflito são retiradas do Museu de Bacurau, um território simbólico que irmana os habitantes e mantém sua identidade cultural. Para a batalha hiperbólica, todos se encontram armados e sob efeito alucinógeno!

      A droga, de efeito cinestésico, utilizada pelos cidadãos, no momento pré-ofensivo, pode ser a Jurema negra (Mimosa hostilis). Inicialmente, essa droga era, nas etnias da América, reservada a indivíduos com funções religiosas ou mágicas dentro de uma comunidade (no filme, não vemos uma figura religiosa ou mesmo um padre). Entretanto, o uso se disseminou, em especial,  quando da chegada de europeus no litoral brasileiro (WASSÉN, 1993). Em 1946, o químico pernambucano Gonçalves de Lima descobriu a presença do DMT (N, N-dimetiltriptamina) na planta Jurema, possuidora de um alcaloide chamado de 'nigerina'. Sua utilização está inserida em uma ampla tradição de consumo de plantas psicoativas. A Jurema e a Ayahuasca compartilham da mesma homologia química, pois ambas contêm o DMT (CARNEIRO, 2004).

     Após o embate entre bacurauenses [sic] e inimigos (não falarei deles para não dar um spoiler!), tem-se a última hipérbole do filme. Não me causaria estranheza se os inimigos fossem devorados pelos habitantes em um ritual de antropofagia, muito comum entre os Caetés, também conhecidos no Nordeste por "papa-bispos".

    Por fim, sem detalhar a ação dos inimigos e sua estratégia, a conivência do prefeito e o final apoteótico do conflito, eu consideraria o roteiro muito mais rico, historicamente, se um ator holandês tivesse sido escalado para o longa, ainda que, do ponto de vista histórico, um alemão judeu, Jacob Rabbi, tenha vivido com os Cariris no Nordeste, no período de conquista de território brasileiro pelos Países Baixos (aludi ao ator alemão Udo Kier, que atua no filme). 

      "Bacurau" é uma obra de arte e merece ser conferida por brasileiros preocupados com a crise econômica e moral que assola o nosso país, com a precariedade da arte e da cultura brasileiras e com o futuro da Amazônia! Vida longa a "Bacurau"! Pela democratização do cinema no Brasil!

Referências:

CARNEIRO, H. As plantas sagradas na história da América. Varia Historia, Belo Horizonte, n. 32, 2004.
WASSEN, S. H. Considerações sobre algumas drogas indígenas, em especial, o rapé e a parafernália pertinente. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, n. 3, 1993.



domingo, 14 de julho de 2019

OS 50 ANOS DA MISSÃO APOLO 11 (CELEBRATE THE APOLLO 50TH ANNIVERSARY)


No dia 21 de julho de 1969, eu vivia em São Paulo e tinha oito anos completos. Meu pai, jornalista gráfico do Jornal da Tarde (do Estadão), estava empolgado. Ligou a TV, quando chegou do trabalho, e juntos acompanhamos a reportagem sobre a conquista da Lua pelos  dois primeiros astronautas estadunidenses, Armstrong e Aldrin (até a missão Apolo 17, mais dez astronautas também pisaram em solo lunar e coletaram muito material do satélite. Você sabia disso?). O Apolo 11 havia sido lançado no dia 16 de julho, propulsionado pelo foguete Saturn V. Os primeiros passos sobre o solo lunar foram vistos pelo mundo somente no dia 21 (EFE: http://www.efe.com), no auge da Guerra Fria. Meu pai fotografou as imagens dos astronautas no solo da Lua diretamente do monitor da TV - eu guardo estas fotos com carinho há meio século... 

Há várias mostras e atividades pelo mundo, que integram as comemorações dos 50 anos da missão Apolo 11. No Brasil, tenho tentado identificá-las, mas não as encontrei, com exceção de um evento do Planetário da UFRGS, aqui em Porto Alegre. Na terça, 16 de julho, telescópios foram instalados na praça do planetário para a observação do eclipse parcial da Lua. Essa atividade foi aberta aos interessados e marcou a semana da chegada do homem à Lua. Abaixo, segue uma foto minha feita pelo celular:

Para quem viajar a Nova York nos próximos meses, o Metropolitan está celebrando a missão Apolo 11 com uma mostra fotográfico-documental, desde o início de julho, intitulada Apollo's Muse: The Moon in the Age of Photografy, que reúne 170 fotografias do satélite, pinturas, desenhos, filmes, objetos e aparelhos astronômicos. A curadoria é de Mia Fineman e a mostra pode ser visitada até 22 de setembro (In: http://www.gothamtogo.com).

Enquanto isso, teremos de aguardar até o final do ano para conferir um documentário muito comentado nos EUA, o When we were Apollo, de Zachary Weil (que estará disponível no streaming da Amazon Prime), sobre os milhares de desconhecidos que fizeram parte da missão Apolo 11, representados por 19 ex-funcionários, selecionados para as entrevistas.

Figuram duas mulheres, entre os demais. Uma delas é Heidi Collier, filha do cientista alemão Fritz Weber, que trabalhava com a fabricação de foguetes durante a Segunda Guerra Mundial. Depois, foi acolhido nos EUA pelo seu  vasto conhecimento sobre o tema (In: http://www.newbeezer.com). O teaser do documentário está disponível no You Tube e os comentaristas afirmam que se trata de um trabalho diferenciado, que destaca o orgulho e o envolvimento da equipe multidisciplinar, tornando possível a missão e seu desfecho bem-sucedido. 

Vamos aguardar!

segunda-feira, 6 de maio de 2019

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DA SÉRIE NAPOLITANA, DE ELENA FERRANTE


                                                                     

       Resenha do livro A AMIGA GENIAL – Elena Ferrante (Primeiro volume da S
                        Fonte: Google                                                  
                                                    

                          Primeira parte: sobre “A amiga Genial” (vol. I) 

Terminei de ler a “série napolitana”, de Elena Ferrante. Eu imaginei que pararia no primeiro volume, mas não foi o que ocorreu. A tetralogia inicia-se com A amiga genial, publicada na Itália em 2011; a série apareceu entre 2011 e 2014 na Europa. Não se sabe quem é Elena Ferrante. Há anos, o pseudônimo encobre uma personalidade cuidadosa, que preza a segurança e o anonimato. Os quatro romances foram publicados no Brasil pela Editora Biblioteca Azul, um selo da Editora Globo, a partir de 2015, com a eficiente tradução de Maurício Santana Dias.
Levei 29 dias para ler os quatro volumes, o primeiro em papel, os outros três em e-book. Terminei a leitura de mais de 1200 páginas exatamente no dia 25 de abril, uma data muito emblemática para os italianos, o Dia da Libertação, que celebra o término do fascismo de Mussolini e da ocupação nazista na Segunda Grande Guerra.
A partir disso, iniciarei minhas reflexões e impressões acerca da série, considerando, inicialmente, alguns elementos políticos e, em um segundo momento, a intertextualidade presente na obra e as ressonâncias que ecoam ao fundo, em meu ponto de vista bem particular.
Para uma maior compreensão do que segue, Raffaela Cerullo é chamada de Lina por todos e de 'Lila' apenas por Elena Greco (Lenuccia ou Lenu). Para quem não leu os quatro romances, já aviso que haverá spoilers pelo caminho.

Prólogo – Quando se ouve falar em Nápoles, a maior parte das pessoas tem como referência a gastronomia e a lembrança da famosa pizza napolitana. Sou cidadã italiana e já passei uma semana inteira em Nápoles, em janeiro de 2017. Estive no maravilhoso Museu Arqueológico napolitano; depois, visitei as ruínas de Pompeia. Viajei até Salerno, a parte final da costa amalfitana, e também fui conhecer os templos greco-romanos de Pesto, tão deliciosamente comentados por Goethe, em sua “Viagem à Itália”. Todavia, senti-me insegura em Nápoles, viajando sozinha. Achei a cidade suja e muito barulhenta, ainda que sua riqueza artístico-cultural tenha me arrebatado. Mesmo com todos os cuidados tomados, fui assaltada por um jovem africano na Praça Garibaldi. Tive um significativo prejuízo, mudei de hotel e passei um dia abalada. Fiz um esforço enorme para racionalizar o meu revés e segui viagem – sem celular. Eu vinha acompanhando a RAE, todas as noites no hotel, e soube que mais barcos haviam atracado no Porto de Nápoles e que dezenas de africanos haviam chegado à cidade (da Eritreia, de Gana e da Gâmbia). Houve uma onda de frio justamente naquela semana e a Diocese tentava aplacar o frio dessa população, angariando fundos para agasalhos e alimentação. Os africanos estavam todos perfilados na rua, no chão, que margeia a Praça Garibaldi, a uns 200 metros da entrada principal da estação de trem, da Napoli Centrale, vendendo produtos chineses. Exatamente ao meio-dia de um domingo, resolvi abandonar o hotel para o qual eu já havia pago todas as diárias e me trasladar para um outro, em uma região mais segura. Fui abordada por um africano de uns dois metros de altura. Ele puxou a minha mochila de minhas costas com muita força. Quase caí. Segurei a mala de viagem em um rápido impulso. Daí, a mochila se abriu e ele retirou, com sua enorme mão, tudo o que conseguiu carregar. Virei-me para trás e o vi correndo. Ninguém fez nada. Outros turistas passavam pelo trecho, rumo à estação. Fiquei muito chateada! Sem o celular - todas as minhas fotos se perderam -, segui viagem para a Grécia sem poder documentá-la. Esses africanos tinham sido aliciados pela máfia local.

Contexto político-cultural dos romances – Todas as informações que possuo foram garimpadas de um livro fantástico, o Gomorra, que retrata as máfias italianas. Foi publicado há mais de 10 anos na Itália pelo jornalista Roberto Saviano. Desde lá, ele vive sob escolta policial. Aqui no Brasil, faz dez anos que a Bertrand Brasil o editou.
No dia 25 de abril, li na imprensa italiana que o líder ultradireitista Matteo Salvini, Ministro do Interior do atual governo, negou-se a participar das comemorações do Dia da Libertação, ao visitar a cidade de Corleone. Salvini comentou à imprensa que, para ele, a data não passa de uma disputa clássica entre fascistas e comunistas. Silvio Berlusconi, que ocupou o cargo de Primeiro Ministro da Itália por nove anos no total, já questionava essa efeméride em sua época. Esse dérbi entre duas facções políticas assombra os quatro romances de Elena Ferrante. Ora alguns personagens são perseguidos pelos fascistas, ora outros se rendem ao apelo comunista e aos embates do proletariado napolitano.
No percurso da infância até a velhice dos personagens, levando em conta os mais militantes, não constatei referência alguma ao 25 de Abril nas páginas de Ferrante.
O que me deixou mais intrigada foi o fato de que os personagens principais, e suas respectivas famílias, não frequentam a igreja aos domingos (nos quatro romances). Não há menção à missa dominical tampouco às práticas católicas como a catequese, a primeira comunhão, a crisma e as confissões periódicas. A autora (ou autor?) da tetralogia certamente é agnóstica ou ateia. Entretanto, não considerar o exercício do catolicismo entre napolitanos da classe operária - na infância de Lenu e de Lila, as protagonistas -, parece-me um problema de verossimilhança. Procurei textos de resenhistas e de comentadores sobre a obra de Ferrante, mas não encontrei nada aprofundado sobre esse tema. A missa aos domingos, para os italianos, é uma prática profundamente arraigada à sua cultura religiosa e é a base de sua educação familiar. Não consigo imaginar a família de um humilde sapateiro (família de Lila) e a de um contínuo (família de Lenu) não frequentarem a igreja, ao menos, aos domingos, vestindo seus melhores trajes. É assim que percebi a obra como um todo, sem referências ao papado, sem beatices, sem dogmas religiosos! O filho que Lila tem com Stefano chama-se Gennaro (depois, apelidado de Rinu), nome do santo padroeiro de Nápoles. Vai entender!
Com relação à máfia napolinata, muito eu teria a comentar, mas tentarei não ser prolixa. A Camorra, como é conhecida a máfia de Nápoles, atua em toda a região da Campânia, mas hoje tem fortes laços com o crime internacional. É denominada, atualmente, de “sistema”, formada de um aglomerado de famílias, os clãs, com, aproximadamente, 250 gangues operando somente nessa cidade. A Camorra teria surgido em Nápoles nos séculos XVI e XVII. O porto napolitano recebe toneladas de produtos legais e ilegais diariamente, que são distribuídos por todo o país. O fato de ser uma cidade portuária foi decisivo para a implementação do crime organizado, desde a falsificação de artigos de luxo de grifes internacionais até a indústria de vários tipos de resíduos. Em dialeto napolitano, “ca + morra” significa “com a morra”, ou seja, com o jogo, nome de um jogo muito popular na Itália, que é a morra. O sentido seria de a organização criminosa atuar 'à maneira da morra'. Esse jogo pode se tornar violento e machucar os dedos dos jogadores no embate. Foi levado do Vêneto para o Brasil pelos imigrantes.
Nos romances de Ferrante, da série napolitana, a família Solara, que atua na periferia - na qual Lenu, Lila e demais personagens vivem -, envolve-se com a corrupção, com o crime, com a lavagem de dinheiro e, mais adiante, com o tráfico de drogas. A violência é a tessitura da narrativa, desde a primeira infância até a velhice dos personagens, como o Vesúvio é o pano de fundo das mazelas vividas pelas famílias.
Quanto ao patrimônio histórico-artístico de Nápoles, não há menção alguma nos quatro livros às ruínas das cidades romanas, que ressurgiram das cinzas do Vesúvio. Somente no quarto livro, que será comentado por mim, na quarta parte desta resenha, Lila retoma a leitura e passa a frequentar o arquivo histórico e a biblioteca, esmerando-se no estudo da arquitetura e da arte napolitanas. A partir de suas manifestações, é possível traçar um roteiro, ir a Nápoles e fazer “o percurso de Elena Ferrante”.

Contexto mítico: Eneias e Dido – Dido significa, em fenício, “a errante” (é o leitmotiv de Eneida, de Virgílio). Esse é o mito que hidrata o primeiro livro de Ferrante e é o tema de uma das redações que Lenu escreve em sala de aula. Eneias é filho de Anquises e Afrodite. É um príncipe troiano mencionado na Ilíada, de Homero. A tradição concorda com o fato de que Eneias foi poupado pelos deuses na Guerra de Troia, de lá partiu para a região do Láscio na qual se estabeleceu, com a missão divina de fundar Roma. Casou-se com Lavínia e teve um filho chamado de Ascânio ou Lulo. Rômulo, mais tarde, descenderia dessa linhagem que, séculos depois, fundaria Roma. Antes de chegar ao Láscio, porém, Eneias atraca em Cartago (na Tunísia atual), cidade comandada pela Rainha Dido, com quem tem uma aventura amorosa. Virgílio narra as errâncias de Eneias, aos moldes de Homero, que decide retomar o plano inicial delegado por um deus, logo após chegar a Cartago. Vai embora não conseguindo se desvencilhar de seu destino. Dido, que era viúva e foragida de sua cidade natal, desesperadamente apaixonada por Eneias, suicida-se.
No primeiro volume, A amiga genial, no capítulo 25, Lenu escreve uma redação intitulada “As várias fases do drama de Dido”, a rainha cartaginesa de Eneida. Esse texto cai nas graças de sua professora, que faz com que ele circule entre os docentes da escola, até que chega às mãos da Prof. Galiani, que era a responsável pelas aulas de Grego e Latim na instituição. Essa era a professora de Nino Serratore, o garoto com quem Lenu sonhava. O argumento da redação foi elogiado por Galiani, “uma cidade sem amor”, que poderia ser equiparada à própria Itália daqueles idos sob o fascismo de Mussolini. Galiani ficou, então, impressionada com a maestria da menina. Era tudo o que Lenu precisava, contando que os elogios chegassem aos ouvidos de Nino.
Nesse momento da narrativa, Lenu colhe seus louros; todavia, Lina para de ler e deixa de frequentar a biblioteca, alegando que os livros fazem “mal à sua cabeça”. Possivelmente, alguns elementos da construção da personagem de Dido, no poema virgiliano, serviram de inspiração para as idiossincrasias de Lila. É indubitável que Elena Ferrante tenha bons conhecimentos da área de estudos clássicos, na medida em que nuanças míticas floreiam sua tetralogia. A inteligência de Lila (sua méthis) nos remete ao uso da mesma astúcia por Dido, em Eneida. Dido suicida-se ao saber que Eneias não ficará em Cartago. Não obstante o influxo trágico de sua vida, Lila não se suicida e Lenu, no prólogo do primeiro volume, sob o efeito da notícia do desaparecimento de Lila, já com 60 anos, assevera que a amiga jamais comentara a possibilidade de acabar com sua própria vida. O drama da trajetória de Dido e Lila enseja marcas intertextuais como: o caráter hostil das heroínas em relação ao irmão; a discórdia e a ganância dos familiares; o fato de que Eneias abandona Dido e Nino, Lila; a beleza e a sensualidade de ambas; e a transgressão da imagem clássica feminina, de fraca e passiva, passando à atuante e à líder local.
Não tive mais dúvidas, ao terminar a leitura de A amiga genial, que estava a me deliciar com uma tragédia moderna, que ressignifica o mito de Dido e amplifica a luz sobre o poema de Virgílio.