"Summertime" (1959) é um de meus temas prediletos. Ouço-o agora.
Salve, Miles!!!!!!
"Summertime" (1959) é um de meus temas prediletos. Ouço-o agora.
Salve, Miles!!!!!!
Fonte: Youtube
Terminei o ano de 2025 lendo os Poemas de Natal, de Joseph Brodsky. Já pensava lá em dezembro homenageá-lo hoje em meu blog, em seu aniversário de 30 anos de morte. Ele é um de meus poetas favoritos, uma voz brilhante e corajosa, expressão de uma vida de resistência no exílio nos EUA, país para o qual emigrou em 1972, então expulso da União Soviética pelo crime de "parasitismo".
Estive em Veneza no Carnaval de 1996. Era a minha primeira vez na cidade. Procurei pelos trajetos do poeta russo. Eu já sabia da morte de Brodsky por uma fonte estadunidense. Ele faleceu nos EUA, mas um ano depois, em 1997, após muitos contatos de seu amigo Robert Morgan, que conseguiu comprar um túmulo, seus restos mortais foram trasladados para San Michele, uma ilhota que faz parte do arquipélago de Veneza, transformada em cemitério a mando de Napoleão. Na mesma ilha, estão enterrados próximos a Brodsky os restos mortais de Stravinsky e Diaghilev. Um pouco mais longe, jaz Ezra Pound.
Aos 32 anos, Brodsky chegou em Detroit. Já havia sofrido bastante sob o regime de Stalin. Como poeta do exílio, ainda falava mal o Inglês, mas, mesmo assim, foi convidado a ser professor residente da Universidade de Michigan, campus de Ann Arbor. Foi se adaptando à rotina estadunidense e dominando o idioma, mas continuou até sua morte a ser uma espécie de mártir da brutalidade do stalinismo e da Guerra Fria. Através da amizade com o poeta estadunidense W.H. Auden, quem o recebeu e muito o ajudou a adaptar-se à sua nova realidade, pôde desfrutar de uma vida mais confortável. Auden faleceu um ano depois, em 1973.
O poeta russo nunca mais retornou a São Petersburgo. Sua antiga residência é hoje um museu. A partir de 1989, com a dissolução da URSS, ele poderia ter obtido um visto e ter viajado, mas não o fez. Retornava sempre a Veneza. Depois que conheceu a cidade, desejava residir nela até em uma vida pós-morte. Chegou a dizer que poderia voltar como um gato, até como um rato, mas em Veneza, sempre em Veneza.
Um de seus amigos próximos, o artista Robert Morgan, que ainda é vivo e reside em Veneza, fez companhia a Joseph em suas caminhadas pela cidade. Brodsky dedicou a Morgan o famoso livro Marca d'Água (Watermark: an Essay on Venice), publicado em 1992.
Filho da classe trabalhadora (sua mãe era contadora e o pai, fotojornalista), Brodsky desestabilizou-se, emocionalmente, com o Prêmio Nobel de Literatura, que lhe foi conferido em 1987, e com o respectivo montante em dinheiro recebido. A imprensa nunca mais o largou. Ele era tabagista, bebia café e dava uns tragos na vodka, bebida trocada pela graspa, ou grappa, na Itália. Era cardiopata e não cuidava da saúde.
Iosif Aleksandrovich Brodsky deixou-nos aos 55 anos, em 28 de janeiro de 1996, em Nova Iorque. Abaixo, um de seus poemas mais conhecidos, escrito em 1972, que ressignifica sua própria condição de exilado.
Odisseu a Telêmaco
Fonte: Youtube.
Selecionei um pequeno poema de Ricardo Reis, o heterônimo que mais aprecio, para prestar minha reverência a um dos grandes poetas do século XX. A Editora Tinta da China, de SP, publicou há um mês um belo volume com a poesia completa desse heterônimo, com o estabelecimento de texto, novas percepções, paratextos e versos inéditos, inclusive, por Jerónimo Pizarro e Jorge Uribe. O volume tem capa dura e 500 páginas. Uma preciosidade, que pretendo adquirir no início de 2026.
SÁBIO É O QUE SE CONTENTA
Ricardo Reis em 16.06.1914
Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo,
E ao beber nem recorda
Para quem tudo é novo
E imarcescível sempre.
Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis,
Ele sabe que a vida
Passa por ele e tanto
Corta à flor como a ele
De Átropos a tesoura.
Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
Que o seu sabor orgíaco
Apague o gosto às horas,
Como a uma voz chorando
O passar das bacantes.
E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
E apenas desejando
Num desejo mal tido
Que a abominável onda
O não molhe tão cedo.
Estive em São Paulo por seis dias em outubro de 2025. Assisti a seis filmes na 49. Mostra Internacional de Cinema de SP, fui à 36. Bienal de Arte de SP, visitei o prédio novo do MASP, fui a mais meia dúzia de mostras, assisti a três peças teatrais, conheci as instalações do Museu de Diversidade Sexual - que fica na estação de metrô República, pela entrada do extremo oposto à Av. Ipiranga -, e visitei, finalmente, a Biblioteca Mário de Andrade, que está completando neste mês 100 anos de fundação, com eventos e celebrações. Deem uma olhada em meu canal do Youtube no final de outubro, "Rocandel do outro lado do mundo", para verem as imagens dessa biblioteca e da livraria que visitei, a aconchegante Gato sem rabo (menção a uma passagem de uma narrativa de V. Woolf), especializada apenas em publicações de autoras mulheres.
Esta postagem é para destacar a mostra fotográfica de Gordon Parks, no IMS de SP (Av. Paulista, 2424). Ela ficará em cartaz até 1º de março de 2026. Vá lá visitá-la. A curadoria é de Juliana Damaceno. É algo especial e relevante, estética e politicamente. As 200 fotografias dessa exposição vieram da Fundação Gordon Parks, nos EUA, além de seus filmes e documentários. Ele também foi um homem do cinema. É a maior mostra e a mais completa já apresentada na América Latina. Eu ouvi falar no Parks nos anos 80, quando era universitária. Vi uma foto sua em uma revista antiga. Ele esteve no Rio de Janeiro nos anos 60 e fotografou a Favela da Catacumba. As fotos gerada foram publicadas na forma de ensaio em uma edição da revista Life em 1961 com o título Freedoms's Fearful Foe: Poverty, dando ênfase a uma família favelada negra de sobrenome Silva. O ensaio gerou uma série de manifestações. No Brasil, o governo e a imprensa da época consideraram a matéria extremamente estereotipada. Nos EUA, muitas pessoas se comoveram com a pobreza da família Silva estampada nas fotos e na reportagem de Parks e enviaram doações em espécie para que os Silva se mudassem para uma casa adequada e para o tratamento do menino Flávio, o caçula da família, que sofria de uma asma ostensiva.
Gordon Parks era negro e, como tal, registrou e testemunhou a pobreza, a exclusão e a busca incessante pelos direitos civis de parte dos negros estadunidenses, notadamente, nos 60. As imagens são fortes e emblemáticas. Há registros de manifestações e atos públicos, de Malcolm-X no palanque, de M. Luther King e de Cassius Clay (depois de convertido, Muhammad Ali). As fotos que retratam a pobreza no Harlem, em NY, e em Chicago são chocantes, porém belas (tão chocantes quanto a miséria que testemunhamos no Brasil). A luz e a essência capturadas fizeram dele um artista requisitado. Ele foi o primeiro fotógrafo negro a ser contratado por uma revista, a prestigiosa Life, em 1948.
Fonte: Youtube
Acordei-me hoje e logo já estava ouvindo música, como todos os dias. Em homenagem à memória de Ozzy Osbourne e de sua carreira no rock mundial, ouvi "Paranoid"
Meu consolo é que assisti a três show da Black Sabbath, um show do Ozzy e banda e acompanhei sua despedida, ao vivo, em um festival de rock beneficente que durou 10 horas, em Birmingham, UK, há 18 dias, e reuniu, aproximadamente 45 mil pessoas.
Tua voz foi trilha sonora de muitos eventos de minha vida. Obrigada por tudo e por tanto! R.I.P., Ozzy!
Capa: Hiago Silva (ES)
Estive em Santa Cruz do Sul em 30 de abril de 2025, data que marcava, então, o aniversário de falecimento de um dos artistas mais interessantes de sua geração, o saudoso Belchior.
Belchior passou uma década entre o Uruguai e o Sul do Brasil. Nos últimos quase quatro anos de sua vida, esteve em Santa Cruz do Sul/RS acolhido por um antigo amigo e fã dos anos 80, o jornalista, radialista e escritor Dogival Duarte. Esta é a matéria-prima do livro de Doge, os bastidores da estada de Bel em Santa Cruz do Sul, muitas conversas sobre a poesia, a literatura, a cena musical brasileira e as viagens...
Dogival é maranhense, na verdade, um retirante moderno como Belchior, que era cearense. A poética das canções de Belchior possui uma forte literariedade, que dialoga com várias tradições literárias clássicas e modernas.
O lançamento do livro na noite de 30 de abril foi um sucesso! Um pocket show de covers do Belchior ocorreu na ocasião, levando mais de cem pessoas a cantarem em uníssono os refrões das canções do bardo cearense.
Aos domingos, às 20h, Dogival Duarte é o mentor e locutor de um programa na Web Rádio Rural do Ceará, os "Labirintos Noturnos", no qual ele declama poemas, comenta as intertextualidades das letras de Belchior e veicula uma seleção do Cancioneiro Belchior, composto por um pouco mais de 130 canções registradas para o deleite da nação belchioriana.
Para os que quiserem adquirir o livro independente, de quase 400 páginas e com fotos inéditas ao final da edição, podem fazê-lo através de um contato direto com o autor pelo e-mail:
dogivalescritor@gmail.com
Entrevista com Alejo Carpentier.
Fonte: Youtube.
Alejo Carpentier nasceu em Lausanne, Suíça, em 1904. Faleceu em Paris, onde se manteve exilado, no dia 24 de abril de 1980. Ele cresceu em La Habana e vivenciou uma série de fatos históricos importantes em sua Cuba amada, alinhado à ideologia de esquerda revolucionária.
Nos anos 80, deparei-me com sua obra e destaco dentre seus livros publicados"O recurso do método", de 1974, cuja fonte de inspiração é o livro de René Descartes, "O discurso do método" (1637). Eu era uma estudante de Filosofia e fiquei apaixonada pelo real maravilhoso que emana de seus escritos.
Suas reflexões históricas, de um ponto de vista totalizante, resgatam fatos sociais que agitaram La Habana nos anos 20, em especial. Esse espectro temporal chega até o início da revolução cubana, em 1959, em sua última obra publicada em 1978, "A sagração da primavera".
Tive trabalho para encontrá-la em um sebo em março, aqui em Porto Alegre. O livro tem pouco mais de 500 páginas, é complexo e polifônico, minado de referências culturais e citações em vários idiomas. Comprei uma tradução para o Português realizada por Mustafa Yazbek, em uma edição de 1987, que saiu pela Editora Brasiliense.
O título dessa obra reporta-se ao balé homônimo de Igor Stravinsky, cuja estreia ocorreu em 1913. Uma possibilidade de interpretação do título é associá-lo à própria revolução cubana, que foi um novo despertar para o país sob o viés histórico-dialético do autor.
A identidade cultural e social de Cuba vai sendo desvelada através da música cubana, que tem proeminência em relação às outras expressões artísticas da ilha, equiparando-a à beleza da música de Stravinsky.
Abaixo, selecionei uma passagem dessa última obra de Carpentier para atiçar o interesse daqueles que apreciam uma obra longa e difícil:
"(...) Os cotovelos no balcão do bar, Ernest Hemingway, de costas para a porta de entrada, encurvava seu largo dorso de lenhador, erguendo as manoplas ao calor de uma discussão sobre técnicas do jogo de pelota basca, o jai-lai, com um pitoresco amigo seu, engraçado cura basco, que alternava as artes desse jogo com o aspergir do hissope. 'Cumprimente-o', disse-me Vera, ansiosa por conhecê-lo. 'Lembre-o da casa de Gertrude Stein' (...)" (p. 204).
Fonte: Youtube
Em Porto Alegre, está em cartaz uma peça inspirada na obra de Goethe, "Os sofrimentos do jovem Werther". São comemorados os 250 anos da publicação dessa obra em 2024. A USP realizou um seminário no dia 06 de novembro passado, devidamente divulgado pela newsletter da ANPOF, e a Revista Contingentia, do setor de Alemão da UFRGS, publicou um número especial sobre o livro de Goethe no início deste ano. Não fiquei ciente de outro evento celebrando a efeméride...
O livro em questão, de 1774, relata, em forma de cartas/diário e em tom confessional, a paixão não correspondida do jovem Werther, que se suicida ao final. Na vida real, Goethe apaixonou-se, perdidamente, por Charlotte Buff, já comprometida, que se casou logo em seguida com Christian Kestner. Com ele, teve sete gestações, mas apenas três vingaram. O livro narra um amor arrebatador e impossível, o que tornou Goethe muito popular e encarado como um grande best seller na época. Conheço mais de dez traduções dessa obra, mas existem mais de 20 para o Português no Brasil. Tenho a tradução de Erlon José Paschoal, que foi lançada pela Estação Liberdade, em 1999.
Tornei-me tradutora do Alemão em 2016, quando lancei a primeira tradução bilíngue. De lá para cá, foram três livros de traduções de A. Schopenhauer publicados. Saí da universidade em 2017 e fui morar na Itália para obter a minha cidadania, não sem problemas, dificuldades no inverno e maus-tratos sofridos no serviço público italiano. Superado o passado, cá estou hoje, nostálgica, relembrando minhas viagens à procura de Goethe e revendo algumas fotos. A cada viagem, uma inspiração. Em 2015, inverno europeu, fui à Sicília e a Malta: 'Ao Encontro de Caravaggio'. Nesse ano, eu estava estudando, como autodidata, a pintura do mestre italiano. Nessa viagem, chegando em Palermo, conheci um motorista siciliano, que fazia traslados e servia de guia. Paguei-o para passear comigo por três dias inteiros. Até hoje somos amigos e pretendo retornar à Sicília em 2025, dez anos depois de conhecê-lo.
Na ocasião, Camillo Guarneri levou-me a locais preciosos na antiga Palermo e em igrejas e templos emblemáticos no entorno da capital siciliana. Foram dias de erudição, eu diria, de parte de alguém modesto. A tela "Natividade com São Francisco e São Lourenço", de Caravaggio, avaliada em 20 milhões de dólares, que estava em uma igreja de Palermo, foi furtada pela Máfia em 1969. Camillo comentou-me toda a 'novela' ouvida de familiares. Não encontrei Caravaggio em Palermo; no entanto, aproximei-me de Goethe pelos olhos e narrativas de meu amigo.
Foi ele quem me mostrou onde Goethe teria se hospedado na capital siciliana, por onde teria passado, montado em um burrico. Fiquei pasmada com as estórias que ele me relatou e somente no ano subsequente, 2016, li "Viagem à Itália", de Goethe, publicada entre 1813 e 1817. Daí, apoderei-me de uma série de informações sobre a trajetória de Goethe na Itália e na Sicília, "a rainha das ilhas", como o alemão a chamava. Na Sicília, Goethe terminou de escrever a peça "Torcato Tasso".
Conferi telas de Caravaggio em Siracusa e em La Valetta, Malta, mas voltei dessa viagem hiperfocada no trajeto que Goethe havia realizado na Itália, chegando em Roma, descendo a Nápoles, visitando os templos greco-romanos de Paestum, indo de barco até a Sicília e viajando pelo interior da ilha em um burrico.
Tenho duas gravuras das casas em que Goethe viveu em Weimar; fui ao Museu Goethe e ao Museu Schiller; visitei sua casa em sua cidade natal, Frankfurt, em 2011. O ponto alto desta busca pelos caminhos de Goethe foi visitar Roma, em uma outra viagem, em 2016, e conhecer a "Casa di Goethe", um palacete localizado na Via del Corso, 18, defronte à Piazza del Popolo, fácil de encontrá-la. É o único museu alemão fora da Alemanha. O patrimônio passou por várias mãos, abriu, fechou e reabriu restaurado como um museu. Ali Goethe teria vivido por 20 meses (foram dois anos viajando, de 1786 a 1788). Chegando lá, conheceu o pintor com quem já trocava epístolas há um bom tempo, Johann W. Tischbein. Em Roma, Goethe terminou a peça "Ifigênia na Táurida".
Na entrada da "Casa di Goethe", no salão principal, encontra-se a tela que Tischbein pintou de escritor, usando um enorme chapéu e uma capa. No site do museu, aparecem os detalhes das instalações e da tela.
Como Goethe saíra escondido da Alemanha, sem comunicar a ninguém que iria para a Itália, pois deixara para trás suas obrigações administrativas como conselheiro e ministro no ducado de Weimar, viajou com um nome falso: Johan Philipp Möller. Na volta, em 1788, Charlotte não se dirigiu mais a ele. Em 1806, Goethe casou-se com Christiane Vulpius e teve um único filho, que, ao falecer, foi enterrado na 'cidade eterna', a pedido do pai.
Fui a Paestum (ou Pesto) também, na Campânia. Saí de Nápoles de trem em uma segunda-feira de manhã e fiz um percurso de mais de duas horas. Parei na Estação de Paestum, em pleno inverno, sem câmera fotográfica (fui furtada em Nápoles e levaram o meu celular. Não tenho registros fotográficos dessa viagem, lamentavelmente). Não havia uma viva alma por perto. Fiquei com um certo receio, mas saí caminhando em direção à entrada do parque arqueológico, famoso pelas ruínas de templos greco-romanos imortalizados por Goethe no livro "Viagem à Itália" e pelos desenhos feitos por Tischbein.
Foi uma grande emoção vislumbrar ao vivo o que eu já havia memorizado na imaginação, através dos desenhos. Havia mais cinco turistas caminhando pela área. Fiquei menos de 60 minutos no parque. Estava muito frio e eu queria retornar a Nápoles antes do anoitecer.
Foram várias viagens para dar conta do que eu planejara. Viajar é sempre maravilhoso e memorável, além do conhecimento e cultura agregados. Há quem não suporte, como Nelson Rodrigues, que dizia que "viajar é a mais empobrecedora e burra das experiências humanas"!
Fonte: Youtube
Sou uma usuária atenta do Substack, desde o início de 2024. Desativei minhas contas no Instagram após dez anos. O processo de divórcio foi semelhante ao do falecido Orkut e ao do Facebook. Dez anos é um período longo; cheguei à conclusão de que perdia o meu precioso tempo com o Instagram e suas frações.
No Substack, encontrei poucos escritores do mainstream literário atual, mas vários escritores jovens e promissores, poetas, docentes, pesquisadores e psicanalistas. Tenho dedicado duas horas por dia para ler as newsletters dos substackers dessa plataforma, que, na verdade, agrega escritores e leitores, de um modo geral. Nessa rede, encontrei uma postagem sobre Foucault assinada pelo Prof. Márcio Tavares d'Amaral, da Escola de Comunicação da UFRJ. Pude me deliciar com um relato que revelava seu encontro auspicioso com Michel Foucault, quando de sua estada no Rio de Janeiro em 1973. Nesse ano, eu tinha 12 anos ainda, mas, no decorrer de minha vida intelectual, degustei algumas publicações que saíram após a fértil estada do intelectual francês por lá. Em 1984, Foucault desaparece devido às complicações desencadeadas pela AIDS. São 40 anos de sua morte! Ele deixou não apenas no Rio de Janeiro, mas em outras escolas e cursos de Filosofia e Psicologia do país, um exército de seguidores, admiradores e pesquisadores que ressoam suas abordagens publicadas ao longo de sua brilhante carreira docente na Sorbonne, em Paris. Tenho um especial apreço pela sua crítica da verdade e pelas aulas sobre o cuidado de si, cujo ponto de partida são os diálogos platônicos "Alcibíades" (que revela o ser da alma) e o "Laques" (que prega a maneira de viver). Tenho uma tatuagem em grego na parte posterior de meu braço esquerdo, que sinaliza a minha admiração por esses textos foucaultianos: "Epimeleia Heautou", cuidar de si mesmo ou a ética do cuidado de si.
Nos dias 28 e 29 de novembro, na semana passado, realizou-se um seminário internacional por conta da efeméride dos 40 anos de morte de Michel Foucault no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, intitulado "Foucault em Transe". Para os interessados, a íntegra das comunicações estará disponível no Youtube, no canal do próprio fórum.
O rico e multifacetado legado da literatura de García Márquez não pertence apenas aos colombianos. Pertence também a todos os latinos-americanos, que compartilham de um modo de existir tão similar, de uma imagética povoada de heróis, de cavaleiros, de manobras na Cordilheira dos Andes e de deuses estabelecidos pelos povos originários.
Gabo tinha uma estreita relação com Cuba. Faleceu no México, capital, e nasceu em Aracataca, na Colômbia. Amanhã, 17 de abril de 2024, a Feira Internacional do Livro da Colômbia abrirá uma série de eventos para celebrar os dez anos de falecimento de Gabo, que completaria 100 anos em 2027, uma outra efeméride a ser amplamente festejada.
Cedo, li alguns de seus livros, que estão inscritos dentro da perspectiva denominada de realismo mágico na América Latina. Quem não se emocionou com a família Buendía na fictícia cidade de Macondo, em "Cem anos de solidão"?
Na medida em que sua obra é atemporal, vou começar a reler alguns livros dele como forma de homenagear sua memória e honrar o seu legado de escritor, jornalista, ativista político e apaixonado pelo cinema.
Salve, García Márquez, para sempre entre nós!
Quando Ana Cristina César faleceu, no apartamento de seus pais em Copacabana, aos 31 anos, em meio a um grave quadro de depressão profunda, eu ainda era uma menina de 22 anos, estudando na Universidade, amando, engendrando-me como leitora voraz de Poesia, das mulheres de peso como Florbela, Emily, Sylvia, Catherine, Cecília e Ana.
Vi a notícia em um telejornal e fiquei muito afetada. Em 29 de outubro de 2023, a comunidade poética brasileira vai resgatar, com amor, a pessoa da Ana - e aquilo que ela fazia com maestria.
Segue abaixo um poema dela, do volume de "A teus pés" (1982), como forma de celebrar a existência dessa escritora queer, que amava viajar:
"Queria falar da morte
e sua juventude me afagava.
Uma estabanada, alvíssima, um palito.
Entre dentes, não maldizia a distração
elétrica, beleza ossuda al mare.
Afogava-me"
Estive em Curitiba, novamente, neste mês de setembro de 2023. As temperaturas estavam acima dos 30 graus C, um calor estranho, fora de época, para uma capital que possui microclimas e está a mil metros de altitude.
Fico imaginando o escritor curitibano Dalton Trevisan, um flâneur idoso e geminiano arisco de 98 anos, recluso em seu novo apartamento no Centro de Curitiba, com um split ligado a todo o vapor... Caminho pelas ruas de Curitiba atenta, louca para reconhecer algum escritor ou tradutor escondidos debaixo de um boné e de um óculos-de-sol. Hoje, ele vive como um ermitão, mas já foi muito ativo no teatro curitibano, além de cinéfilo amador. Quando viajava ao RJ para acertar detalhes com seu editor José Olympio, tecia muitas horas de conversas com outros dois escritores famosos, Rubem Braga e Otto Lara Rezende. Trocava epístolas com o último e chegou a doar mais de 500 cartas para o arquivo do Instituto Moreira Salles.
Visitei a livraria e editora Arte e Letra. Conheço-a desde 2007. Tive o privilégio de encontrar ali seu proprietário, o escritor Thiago Tizzot, que possui no catálogo da editora quatro títulos no gênero fantasia. Contou-me Thiago que relançará em outubro, em edição artesanal, um livro de Dalton Trevisan intitulado "Sonata ao luar" (1945). Nunca tinha ouvido falar desse livro de contos, parece que um tanto renegado pelo autor.
Li o autor lá no final dos anos 80, na época de meu mestrado em Literatura Brasileira. Comecei pelo clássico "O vampiro de Curitiba", de 1965. Hoje, tenho no Kindle o e-book "O beijo na nuca", livro de contos que encerrou a carreira literária de Trevisan, em 2014.
Curitiba é terra literária de escritores saudosos como Paulo Leminski e Wilson Bueno. Seguem por lá ou lá viveram um tempo Alice Ruiz e Cristovão Tezza, os tradutores Caetano Galindo, Adriano Scandolara, Rodrigo Garcia Lopes, Guilherme Gontijo Flores, Giovana Madalosso, Luci Collin e Eduardo Ribeiro da Fonseca, nem todos curitibanos, quase todos poetas...
Dalton Trevisan é o maior baluarte literário vivo do Paraná, especialmente, de Curitiba. Foi agraciado com vários prêmios ainda em seu início de carreira, quando usava pseudônimos: Prêmio Jabuti (1959) e I Concurso Nacional de Contos do Estado do Paraná (1968). Mais tarde, já traduzido para vários idiomas e consagrado como contista, recebeu o Prêmio Camões, no valor de cem mil Euros, em 2012. No mesmo ano, foi laureado pela Academia Brasileira de Letras com o Prêmio Machado de Assis.
A seguir, deixarei um pequeno trecho da fala de Nelsinho, o vampiro de Curitiba, herói gestado por Dalton Trevisan, que engendra a figura arquetípica de Dom Juan e que necessita de performances teatrais para retroalimentar sua virilidade (suspeita), em uma Curitiba de homens perversos no pós-golpe de 64 (quão atual esta leitura ressignificada permanece!):
(...) "Em despedida - oh, curvas, oh delícias - concede-me a mulherzinha que aí vai.
Em troca da última fêmea, pulo no braseiro - os pés em carne viva. Ai, vontade de morrer até. A boquinha pedindo beijo - beijo de virgem é mordida de bicho-cabeludo. Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz" (...) (1974, p. 15).
Recomendação:
Documentário "Daltonismo" (2006), de Célio Yano - Youtube
Fonte: Youtube
A obra de Roberto Bolaño não é para qualquer leitor. Os textos são longos, elaborados e caudalosos! Iniciei de trás para frente a lê-los, ou seja, devorei o grande volume de "2666", publicado postumamente em 2004. Depois dele, só fui voltando na cronologia... A emoção que a leitura de "2666" causou-me foi semelhante ao assombro do livro "Graça Infinita", de 1996, de David Foster Wallace (tenho uma postagem sobre ele neste blog).
Estou a quase 90 dias de viajar novamente para o exterior. Irei à Islândia visitar minha filha; depois, passarei uns dias em Barcelona, Madrid, Andorra-a-Velha e Istambul. Quando eu estiver em Barcelona, pretendo pegar um trem e ir até a cidade litorânea de Blanes, província de Girona, cidade na qual Bolaño viveu desde os anos 80 até falecer.
Encontrei vários sites que tratam de um suposto "Circuito Bolaño" em Blanes. No site de turismo da Costa Brava, há uma "Ruta Bolaño". No final deste ano, de 2023, postarei fotos e impressões desse passeio literário.
Salve Bolaño! Que viva em nossos corações para sempre!
Até mais!
Preâmbulo
Tenho o hábito de ler blogs, bons blogs, diga-se de passagem. Talvez, por isso, decidi alimentar um também há 11 anos. Há seis meses que não postava um texto. Não sei explicar, exatamente, o motivo deste desleixo ou silêncio. A Arte consegue me silenciar por um tempo considerável, quando me sinto arrebatada por ela. Viajei para a Europa em 1º de agosto de 2021. Retornei de Lisboa no dia 8 de setembro e, daí, passei uma semana em São Paulo, visitando mostras, com um especial destaque para a 34ª Bienal de Arte de São Paulo. Tudo o que visitei em Portugal somado ao que eu conferi em São Paulo deixaram-me em um estado taciturno. Eu havia escrito um rascunho sobre as telas do artista indígena Jaider Esbell, da etnia macuxi, que sorvi avidamente no terceiro andar do pavilhão; a notícia de seu suicídio, todavia, quase dois meses depois de minha visita à Bienal de SP, deixou-me pouco à vontade para finalizar o meu comentário, além de muito triste.
Primeiro Ato
Em outubro de 2021, foi inaugurada na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, a primeira mostra individual do artista plástico Lucas Arruda, paulistano nascido em 1983. Deixei para conferi-la nos últimos dias da temporada. Estive na Fundação Iberê Camargo em uma tarde quente de janeiro de 2022. Eu havia lido sobre a obra de Arruda, através da leitura de blogs, de sites de galerias internacionais, de galerias online e de alguns esparsos textos em Português. Pelo que entendi, as telas de Lucas Arruda são reconhecidas e apreciadas no mercado de arte do exterior; entretanto, ele ainda é pouco conhecido dos brasileiros. Portanto, entre a primeira quinzena de setembro de 2021 e a primeira de janeiro de 2022, passaram-se quatro meses. Já em Porto Alegre, eu havia visitado as mostras do Museu de Arte do Rio Grande do Sul e da Casa de Cultura Mario Quintana neste interregno. Ontem, dia 30 de janeiro de 2022, conferi as peças de Sírio Braz, um artista pernambucano que vive em São Paulo e que trouxe algumas obras de seu acervo pessoal e da coleção particular de Carlos Trevi à Fundação Ecarta em uma mostra intitulada Casa Brasileira com curadoria de André Venzon (muito lindas suas peças! Ficarão expostas até março). Senti-me, pois, mais preparada e estimulada hoje, esteticamente, para escrever sobre o que vi nas telas de Lucas Arruda.
Segundo Ato
A mostra "Lugar sem Lugar", de Lucas Arruda, inaugurada no início de outubro de 2021, na Fundação Iberê Camargo, teve como curadora Lilian Tone, quem assina o texto de abertura da exposição (divulgado no formato de artigo no jornal Correio do Povo e publicado em 2 de outubro). Nesse texto, a curadora destaca a "incansável experimentação pictórica de suas pinturas", que abrangem 14 anos de trabalho, desde as obras iniciais até o ano de 2021, inclusive criações em outros suportes como instalação de luz e vídeo.
Li há alguns anos sobre a pintura de Arruda. No blog da Brazilian Contemporary Art, encontra-se uma observação estética interessante, que alude à tradição pictórica do Ocidente, sugerindo ao leitor e apreciador das telas do artista paulistano que "his paintings represent timeless landscapes wich could remind the renowed artistic works by Romantic Painter such as Capar David Friedrich and William Turner" (Ken Johnson, 2016. In: www.braziliancontemporaryart.altervista.org). Em outras palavras, suas telas representam paisagens atemporais, não localizáveis geograficamente, mas que evocariam memórias de uma intensidade emocional, que poderiam lembrar os pintores românticos como o alemão Caspar David Friedrich (1774-1840) e o britânico William Turner (1775-1851).
Diante do exposto, eu já havia engendrado um grau de expectativa para a visitação das telas de Arruda, dado o fato de que conheço a 'Turner Collection' da Tate Britain, em Londres, e visitei três vezes a sala dedicada ao pintor Caspar David Friedrich na Hamburg Kunsthalle, em Hamburgo. No repertório pictórico de Friedrich, há ruínas, brumas, paisagens invernais e montanhas, uma estética situada no bojo do movimento do Romantismo Alemão, cujo quartel-general era Dresden, no final do século XVIII. Urgia, naquele momento histórico, plasmar uma identidade, genuinamente, germânica por conta das guerras napoleônicas, que devastavam a Europa.
Em referência à obra do pintor Turner, foi a arte sobre papel, a aquarela e o desenho, que contribuíram para que ele configurasse sobremaneira suas telas a óleo e entregasse ao público algumas imagens com uma grande carga cósmica plasmadas por turbilhões de luz. Como professor, William Turner lutou para que a pintura de paisagem adquirisse um status mais elevado dentro do cânone da pintura ocidental. Schopenhauer, em sua Estética, no livro III de O mundo como vontade e representação (1818/1819), não categoriza a pintura de paisagem; analisa a produção das pinturas históricas e de animais. Todavia, dimensiona o belo natural junto ao belo artístico. Quem flui o belo é o "olho cósmico", afirma Schopenhauer, não importando aqui o lugar do qual se contempla, tampouco a classe social do fruidor. Ele comenta as pinturas paisagísticas dos neerlandeses, mas as considera "extremamente insignificantes" (BARBOSA, J. Os pintores de Nietzsche e Schopenhauer. Cadernos Nietzsche, n. 31, 2012).
Terceiro ato
Assim, considerar a pintura de Lucas Arruda como um expoente do Romantismo, uma releitura do Romantismo clássico ou uma prática que emula a estética do Romantismo, no meu entender, é empobrecer sua experimentação. Essa tensiona-se na volatilidade do Figurativo e da Abstração, ao passo que as pinturas românticas eram, majoritariamente, norteadas pelo Figurativo e desconheciam os suportes utilizados pela contemporaneidade.
O apreciador das telas de Arruda pode, sim, se entronizar como parte da obra, na medida em que ressignifica a luz abundante da composição e faz com que qualquer ponto de apoio, como uma linha no horizonte ou um cromatismo na parte superior, se dissipe e se reconstrua de acordo com sua subjetividade, suas memórias e sua carga emocional.
Movimentei minhas mãos, suavemente, diante das telas de dimensão reduzida de Arruda. Eu ri. Parecia que luz estava se deslocava, simulando que o limite da tela e o suporte também continham parte da composição pictórica. Esse jogo de ilusão, distinto daquele do Barroco, sob a expressão de novos suportes e veículos, afeitos ao século XXI, fazem de Lucas Arruda um artista que sabe de seu lugar de criação, que já orou no jazigo da tradição romântica da pintura de paisagem (embora conheça o defunto e sua causa mortis) e, tendo em vista a segunda mostra paralela, de obras tardias de Iberê Camargo, curada por ele (Lucas Arruda), denota-se o quanto as guaches e desenhos de Iberê também influenciaram sua poética, marcada por um tipo de fantasmagoria, que só os que conhecem a Fundação Iberê Camargo, desde a sua abertura, e acompanham as várias fases do artista homônimo, podem compreender. Muito lindo o teu trabalho, Lucas Arruda, visceral e necessário!
I really appreciate the mural paintings by Gêmeos, Kobra, Speto, Cranio and Toz, however as I live in Porto Alegre, today I would like to highlight the two-decade trajectory of visual artist Deivid Bizer: he is 33, humble origins, resident of the outskirts and cultural agent, who has been notable for taking his art to hospitals in our capital.
The chromaticity of Bizer's graffiti and the dolls in the third image, his trademark, fill the environment in which they are raised with Beauty and Peace, in addition to empowering women from the outskirts, specially black women.
Fonte: Youtube
I woke up today thinking particulary of Lennon. I was 19 years old when he was murdered in New York. What a sadness! I am listening to Imagine now! Below, I will share his lyrics as a way to honor this man, artist and peace activist!
R.I.P. John Lennon!
Imagine (1971)
Imagine there's no heaven
Canal de Tatiana Feltrin: Youtube, 2020.
A morte de Oscar Wilde foi muito triste, no completo abandono, desacreditado, com sua saúde debilitada, afastado de seus filhos e desorientado, na Paris de 1900. A blogueira Tatiana Feltrin, acima, comenta a monumental biografia de Oscar Wilde, escrita por Richard Ellmann. Vale a pena ouvi-la.Não tenho fôlego, nem vontade de escrever hoje, neste final de 2020, ano de perdas, mortes e pobreza para muitos.Segue um trecho do longo poema epistolar, escrito na prisão de Reading, UK, intitulado "De Profundis", e destinado ao seu amante, Alfred Douglas, apelidado de "Bosie".
Fonte: Youtube
Arthur Schopenhauer (1788-1860)
Meu filósofo predileto, aquele que é considerado pela crítica filosófica de "irracionalista" e de "budista". Parece que nunca praticou a meditação, mas conseguiu compreender a essência da indestrutibilidade do ser após a putrefação cadavérica.Aprecio sua metafísica a tal ponto, que comecei a estudar Alemão em 2011 para lançar meu primeiro livro de tradução: seis ensaios de Parerga e Paralipomena, de 1851, que ainda não haviam sido publicados em Português no formato de livro. O trabalho foi editado pela Editora Zouk, de Porto Alegre, em 2016, e ainda está em seu catálogo. Existem dois volumes: o bilíngue e a edição apenas em Português, bem mais acessível. Encomendei a imagem da capa para um fotógrafo, o Erion Lara, quem produziu a expressão pictórica exatamente como a sonhei. Ficou muito linda e está relacionada com o conceito de Vontade na Natureza! A supervisão da tradução foi realizada por meu professor de Alemão, entre 2011 e 2015, Gilson Klemz, e pelo tradutor mineiro e professor de Estudos Clássicos da UFPR, Guilherme Gontijo Flores.Tive uma imensa alegria quando os seis ensaios foram traduzidos e finalizados para a edição. Meu trabalho é imperfeito; eu alteraria e corrigiria vários trechos, quatro anos depois. Todavia, foi minha primeira tentativa e tenho orgulho da coragem e do esforço investidos no projeto.No ano de 2011, estive em sua sepultura, no Cemitério Municipal de Frankfurt, na companhia de Rafael Trapp. Foi logo após essa experiência emocional, quase uma epifania, que decidi aprender mais um idioma, a de Goethe, e embrenhar-me nos originais do Parerga und Paralipomena, de Arthur Schopenhauer.
Fonte: Youtube
Deixei passar a data, mas ainda está em tempo. O mundo literário comemorou a passagem dos 100 anos de nascimento de Charles Bukowski (seu alterego era Henry Chinaski) no dia 16 de agosto de 2020. Nascido na Alemanha, foi levado para os EUA aos três anos. Cresceu na Califórnia e testemunhou uma série de eventos que marcaram sua carreira de escritor. Foi contemporâneo da geração Beatnik, mas não participou do grupo e não comungou de seus pressupostos. Pelas mãos de uma grande amiga, há 40 anos, li, pela primeira vez, a prosa de Bukowski no original, muito tempo antes de as traduções de suas obras surgirem vertidas para o português. Há alguns poemas que me tocam até hoje e, abaixo, selecionei um deles para o ensejo. Espero que gostem e que leiam o mestre.
Não há nada para
discutir
Não há nada para
rememorar
Não há nada para
olvidar
É triste
e
não é
Parece que a
coisa mais
acertada
que uma pessoa pode
realizar é se sentar com um drink
na mão
enquanto as paredes
emanam sorrisos
de adeus
Uns passam por
tudo isso
com eficácia e
bravura
e então
vão embora
Alguns acatam
a possibilidade de
Deus lhes ajudar a suportar
Outros
aguentam no osso
E, para esses,
Eu bebo esta noite.