Assisti ao longa de Alfonso Cuarón, o "Gravidade" (Gravity, de 2013), uma coprodução dos EUA e Grã-Bretanha, que abriu o Festival de Veneza deste ano. Assisti-o no sábado, em 3D, no Iguatemi. O filme é do gênero 'ficção científica', dos genuínos mesmo, que se inicia já no espaço com a personagem de Sandra Bullock na pele de uma cientista, tentando resolver uma avaria em uma das sondas do Hubble. Como sempre faço, não li nada na imprensa, blogs ou sites especializados sobre esse filme, porque não aprecio ficar 'contaminada' por outras percepções e comentários críticos. Li a ficha técnica e achei curioso o fato de que o mexicano Cuarón, o Alfonso (não o Carlos, que também é conhecido na indústria), ter escrito o roteiro com um de seus três filhos. O cara tem 52 anos, o que significa que concebeu um roteiro a quatro mãos com um jovem iniciante. Somente nos primeiros 30 minutos, vê-se a personagem de Bullock contracenando com o comandante da expedição, um astronauta experiente e metido a galanteador, encarnado por Clooney. Uma boa parte dos planos-sequência é constituída de silêncios, visões de lixo aeroespacial orbitando a Terra, lindas imagens do planeta, de dia e de noite, raios solares dividindo a cena com os azuis dos mares e alguns satélites de outras nações, como Rússia e China... Para variar, os destroços que atingem as personagens são de um satélite russo, não poderia ser de outro país. Para quem ainda se lembra da Guerra Fria, essa cena foi um grande clichê, que, unido a outros, desqualifica a produção, mas não macula a embevecida estética de um espaço, que é sagrado e inóspito, simultaneamente. A procura de um modo de sobreviver no espaço, sozinha, sem condições adequadas, coloca a personagem de Bullock dentro de uma alegoria poderosa, considerando o fato de que ela é mulher, divorciada, amargurada, por ter perdido uma filha em um acidente escolar, solitária, porém competitiva, no âmbito de um ramo do conhecimento ainda liderado por homens! Em 3D, os destroços que, constantemente, invadem a tela chegam a nossos corpos na plateia. Há alguns momentos de reações sensoriais da plateia. Não raras vezes, vi pessoas se mexerem para os lados, como se estivessem evitando de ser atingidas pelos objetos que giravam em grande velocidade! Há uma bela cena em que, no retorno a uma das cápsulas e em contato com o oxigênio novamente, a personagem de Bullock fica 'dançando' sem gravidade, em movimentos lentos vai tirando o traje espacial com ganas e, finalmente, fica seminua, em posição fetal. Ao fundo do quadro, os fios que a conectam à capsula parecem o cordão umbilical que, por sua vez, a conecta a algo maior, algo espiritual, que o filme tem a pretensão de apresentar e explorar, de modo epifânico. Não percam! Antes disso, a cientista é jogada em um spinning no espaço, em uma cena longa, que chega reações no espectador. Alfonso Cuarón dirigiu um dos quadros de 'Paris, Je t'aime' (2006) e também envolveu-se com um dos filmes da saga de Harry Potter, que não sei qual agora. Vai lá, assiste-o e comenta aqui no meu blog as tuas impressões. Abraço a todos!