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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

LITERATURA, POESIA E PRÊMIOS LITERÁRIOS

Semana de boas notícias na literatura brasileira! Fiquei contente com a notícia de que a escritora gaúcha - e minha amiga pessoal-, Cintia Moscovich, de Porto Alegre, arrebatou mais um prêmio literário, o Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2013, na categoria contos (50 mil reais). Na categoria poesia (50 mil reais), venceu o interessante poeta carioca, que eu aprecio bastante, Eucanaã Ferraz, que esteve em POA neste ano, no FestPoa. Fui ouvi-lo e junto a ele estava o meu adorado Antonio Cícero. Na categoria romance, José Luiz Passos, escritor pernambucano, foi agraciado com o grande prêmio, por seu romance "O sonâmbulo amador" (100 mil reais). A vez é dos pernambucanos, não tenho dúvidas! Após ter assistido ao magnífico longa, do diretor pernambucano Cléber Mendonça Filho, "O som ao redor" (2012), não tenho dúvidas de que algo significativo está rolando no Nordeste, especialmente no Pernambuco! Este ano foi um ano de efemérides, para aqueles que amam a Literatura! Há 30 anos, suicidou-se no Rio de Janeiro a poeta Ana Cristina César (29.10.83). Eu já a lia desde seu início de carreira e ontem mesmo encomendei o livro "Poética" (Companhia das Letras), com seus quatro livros publicados em vida e muitos poemas esparsos e inéditos, selecionados pelo poeta e amigo pessoal, Armando Freitas Filho. No dia 9 de novembro, foram os 60 anos de morte do poeta galês Dylan Thomas, cujos poemas também leio há muito tempo! Eu estava a preparar um artigo sobre a obra mais espiritualista de Aldous Huxley, mas não consegui terminar a tempo de publicar nos 50 anos de morte do mesmo, em 22 de novembro. Por fim, ontem, 4 de dezembro, os alemães letrados comemoraram os 70 anos de morte de Stefan George, poeta que inovou a poesia germânica. Escrevi sobre ele neste blog em junho deste ano. Deixo a vocês um de meus poemas prediletos da lavra de Ana Cristina César:

                           Tu queres sono: despede-te dos ruídos

Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.

sábado, 30 de junho de 2012

POEMAS RECENTES - ENDGAME

Morte  não  é a  perda  da Vida.    O  morrer den-
 tro de nós, enquanto vivemos, é que é Morte! (Rô)


À ESPERA
                                                                            

Meu querer tem teu nome
Teu nome não prescrito em mim
Porção de ti que aplaca a minha fome
Vem me encontrar: um início depois do fim.

(Em casa – 25.05.12)

EPISTEMOLOGIA

Guardiã da Razão,
Minha Filosofia não sabe o que me indicar
Cala a boca da minha Dor,
Mas é a Memória quem desobedece
E o teu nome sempre me traz!

(Em casa – 26.05.12)

PAUSA
                                          

Seguro e confiante,
Volta a acolher-me!
- O tempo cingido em mim, à espera...

(Em casa - 29.05.12) 


MEIO SONETO DE MORTE

(...) 

Apaziguava  o meu sexo árido, que gritava pelo teu há muitos meses.
Não ouvia, nunca ouvia o meu triste nome
Ser enunciado pela tua boca 
nesses infindos meses.

Macero minha vida e o sofrimento que nela jaz
Ainda canto e toco ao violão o meu Fado funesto
Para este Amor ser soterrado 
e junto enterrar a fome voraz deste sofrimento.

(Em casa - 30.06.12)




MELANCHOLIA II

Galeno e Aristóteles
Dürer, Burton e Freud
Melancolia e gênio
Melancolia e mania
Bílis negra a atormentar-me
Obriga-me, pois, outra tornar-me
Freud, Burton e Dürer
- Quem vai salvar-me de minha ira?

(Em casa - 30.6.12)



quarta-feira, 6 de junho de 2012

AETATIS DIFFERENTIA


Aetatis Differentia

Quando mulheres maduras amam jovens homens
Um pouco de Deus nelas se instaura:
O presunçoso  milagre da vida
Contra a juventude engolfada,
A fertilidade extirpada

É uma brecha que se abre na escuridão
Uma luz tênue que inspira os anos,
Que passam como as aves que migram do hemisfério setentrional
Pelos céus, a cada estação, inexoravelmente,
Mas ninguém as usa para mensurar o que já foi

Quando homens mais jovens se rendem a mulheres maduras
Trazem um perfume de esperança
Que é pulverizado a cada conflito, a cada entropia,
Comprovando, mais uma vez, que a ligação é ilegítima,
Que a ligação de amor posta não celebra a vida

Vida que deveria trazer a lume o irracional, as pulsões, a dança das bacantes,
As turbas dionisíacas, a fúria latente, a obscuridade, o império secreto dos desejos, o lado sinistro da clandestinidade dos afetos,
O sêmen da loucura, o intercurso sexual, a primitividade dos atos,
A devastação da linguagem dita, o atropelo da linguagem interdita

Quando homens mais jovens amam mulheres maduras
Eles se regozijam com a conquista nobre,
Se enchem de orgulho pelo domínio,
Se refestelam pelos louros da fornicação
- Viram para o lado da parede e dormem o sono da tirania!

Tirania abusada por um tipo de racionalidade masculina,
Que se outorga o direito a desenfreadas realizações
De machucar, de vampirizar, de escravizar, de humilhar, de condenar...
De se pronunciar, sem ouvir com delicadeza, de sentenciar à morte
Sem direito a um tribunal decente e parcimonioso

Quando um homem mais jovem vislumbra, de soslaio, o espírito de uma mulher madura,
Não apenas seus seios, sua genitália, sua bunda,
Seus secretos odores,
Suas ações empreendedoras,
Seus gestos maternais,
Suas preocupações exageradas
Seus desatinos no dia-a-dia porque ama, porque enxerga mais longe, porque sente com as entranhas, porque prenuncia a dor, porque intui com instintividade animal,
Ele está fadado ao infortúnio

Ao infortúnio de sentir de modo arrebatado a dança da vida,
De participar de um  performance arquetípico
Que a  poucos é dado o roteiro
De perscrutar palavras ancestrais
De descer ao Hades e voltar ileso
De provar da carne, antropofagicamente

Quando o espírito lhe é revelado
Em um ritual mágico
Da palavra, quer distância
Da experiência, pede um passo
Da confidência,  tem alergia
Da loucura, basta-lhe a razão doce,  cálida e cínica.

O espírito de uma mulher mais velha só poderá ser vislumbrado,
Sagrado que é,
Por homens mais jovens que têm um pouco da natureza da Mulher:
Sabem que no mundo sensível, obtuso de aparências, tudo pode ser revertido,
Tudo pode ser alterado, tudo pode ser dominado!
- É preciso apenas Vontade!


                                                                Rô Candeloro 

quinta-feira, 31 de maio de 2012

POEMA DE GÜNTHER GRASS, "A VERGONHA DA EUROPA"

                                                 

                                       Europas Schande 

                                          Ein Gedicht von Günter Grass (2012)



Dem Chaos nah, weil dem Markt nicht gerecht,
bist fern Du dem Land, das die Wiege Dir lieh.
Was mit der Seele gesucht, gefunden Dir galt,
wird abgetan nun, unter Schrottwert taxiert.
Als Schuldner nackt an den Pranger gestellt, leidet ein Land,
dem Dank zu schulden Dir Redensart war.
Zur Armut verurteiltes Land, dessen Reichtum
gepflegt Museen schmückt: von Dir gehütete Beute.
Die mit der Waffen Gewalt das inselgesegnete Land
heimgesucht, trugen zur Uniform Hölderlin im Tornister.
Kaum noch geduldetes Land, dessen Obristen von Dir
einst als Bündnispartner geduldet wurden.
Rechtloses Land, dem der Rechthaber Macht
den Gürtel enger und enger schnallt.
Dir trotzend trägt Antigone Schwarz und landesweit
kleidet Trauer das Volk, dessen Gast Du gewesen.
Außer Landes jedoch hat dem Krösus verwandtes Gefolge
alles, was gülden glänzt gehortet in Deinen Tresoren.
Sauf endlich, sauf! schreien der Kommissare Claqueure,
doch zornig gibt Sokrates Dir den Becher randvoll zurück.
Verfluchen im Chor, was eigen Dir ist, werden die Götter,
deren Olymp zu enteignen Dein Wille verlangt.
Geistlos verkümmern wirst Du ohne das Land,
dessen Geist Dich, Europa, erdachte.



                                                    La Verguenza de Europa

Aunque próxima al caos, por no agradar al mercado,
lejos estás de la tierra que tu cuna fue.
Lo que con el alma buscaste y creíste encontrar
hoy lo desechas, peor que chatarra valorado.
Desnuda en la picota del deudor, sufre una nación a la que dar las gracias era antaño lo más natural.
País condenado a ser pobre, cuya riqueza
adorna cuidados museos: botín por ti vigilado.
Los que invadieron con armas esa tierra bendita de islas llevaban, con su uniforme, a Hölderlin en la mochila.
País tolerado ya apenas, a cuyos coroneles
toleraste un día en calidad de aliados.
País sin ley al que el poder, que siempre tiene razón, aprieta el cinturón más y más.
Desafiándote viste de negro Antígona, y en el país entero hoy lleva luto el pueblo cuyo huésped eras.
Pero, fuera de ese país, el cortejo de parientes de Creso ha acumulado en tus cámaras cuanto brillaba dorado.
¡Bebe de una vez, bebe! grita la clac de los comisarios, pero airado te devuelve Sócrates su copa a rebosar.
Maldecirán los dioses a coro lo que te pertenece, pero sin tu permiso no se podrá expropiar el Olimpo.
Sin ese país te marchitarás, Europa, privada del espíritu que un día te concibió.

                                                (Traducción de Miguel Sáenz, enquanto a minha não fica pronta)

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