segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

AS VERSÕES SUECA E AMERICANA DE "OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES"

Assisti à versão sueca do longa,"Os homens que não amavam as mulheres" (Män som hatar kvinnor), de Niels Arden Opley, que contempla a primeira parte da trilogia intitulada 'Millennium', do escritor sueco Stieg Larsson. Há três semanas atrás, eu já havia conferido o 'remake' (2011) de David Fincher para essa primeira parte. Embora o roteirista de Fincher tenha sido o conhecido Steve Zaillian, de "A lista de Schindler", não considero a versão americana superior à sueca; muito pelo contrário.
A versão americana é rica em artifícios visuais, que fazem um apelo fantástico aos nossos sentidos; a sueca é bem mais densa, psicologicamente, e nela acompanhamos a construção da personagem de Noomi Rapace, sinistra e introspectiva, rosto abastado de piercings e corpo tatuado, e passamos a entender a cadeia de fatos derradeiros que marcaram sua vida e a levaram a sobreviver como 'hacker' profissional, em uma Stockholmo violenta.
Rooney Mara é uma atriz promissora, que ficou mesmo conhecida do público em sua atuação no longa, também de David Fincher, "A rede social" (2010). Todavia, há lacunas que ficam na composição do personagem de Lisbet Salander, uma vez que o roteirista optou por ressignificar o texto literário e não plagiar descaradamente o original sueco.
Esse é forte, bem contextualizado e traz em suas entranhas as universais questões familiares, que remontam à violência intrafamiliar, ao abuso sexual, à sucessão empresarial, às disputas, racismo e assassinato, determinantes no percurso da trama, que desvela um país nórdico que nada tem de paraíso, acalentado pelo imaginário do Ocidente.
Não vou comentar nada sobre o protagonista da narrativa e do filme, tanto na versão original quanto na americana, uma vez que, é tácito, a personagem feminina de Lisbeth Salander rouba a cena e projeta-se admiravelmente em relação aos outros personagens.
De qualquer modo, foi difícil, para mim, ver o Daniel Craig e não deixar de pensar no "007".

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

AS MULHERES DO 6º ANDAR

Assisti a uma comédia francesa muito simpática, com um bom ritmo e divertida: "As mulheres do 6º andar", de Philippe Le Guay. Os protagonistas são Fabrice Luchini e Sandrine Kimberlain, marido e esposa no longa. Há um conflito social e econômico que permeia a narrativa, ambientada na Paris dos Anos 60. As mulheres do 6º andar são espanholas, trabalhando em Paris como domésticas.
Elas simplesmente afetam a vida do casal francês de modo cabal, com seu linguajar franco, sua atitude politizada - há referências à ditadura franquista várias vezes -, e seu modo afetuoso de se relacionar. Uma delas, a mais jovem e linda, passa a ser a 'empregada' do tal casal.
Viva a diferença de classes!

Logo sairá em DVD. Recomendo!

SOBRE O "DAMA DE FERRO"

Assisti também ao "A dama de ferro", de Phyllida Lloyd, no Rio de Janeiro. Olha, pessoal, conheci o pai de minha filha, portenho, e mais dois argentinos, recém-saídos do front da Guerra das Malvinas, em 1983. Ouvi muitas histórias contadas por eles e, parece-me, que a imagem da Margaret Tatcher, que o longa tenta vender, não fecha com os fatos históricos.
O filme inicia-se com a 'dama de ferro' mergulhada em sua demência, hoje intitulada, tecnicamente, de "Alzheimer". Certamente, isso causou um desconforto para os filhos e netos da ex-Primeira Ministra da Grã-Bretanha. O caso com a posse das Ilhas Falklands, ou Malvinas para os 'hermanos', continua atual na iminência dos 30 anos do conflito armado. O príncipe esteve por lá, logo após seu casamento, e isso chamou a atenção da opinião pública mundial.
Argentinos e britânicos detestaram o filme e o "The Telegraph" foi o tablóide inglês que mais detonou o longa, que concorre ao Oscar de melhor filme e Meryl Streep busca uma estatueta, de Melhor Atriz, concorrendo pela 17ª vez.
A atuação da atriz é memorável, mas o longa tem problemas e agrava um litígio entre os dois países. Afora isso, ela foi homenageada no Berlinale 2012 com um Urso Honorário. Bem merecido!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

COM O CINEMA EM DIA (2)

No próximo comentário, falarei dos outros longas a que assisti aqui no RJ: "As mulheres do 6º andar", de Philippe Le Guay, e ao "A Dama de Ferro", de Phylida Lloyd.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

"A SEPARAÇÃO, DE ASGHAR FARHADI (2011)

O filme iraniano de Asghar Farhadi, que levou o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e o Urso de Ouro no Berlinale de 2011, pode levar os diletantes a imaginarem um longa sobre as minúcias de uma separação, no espectro da cultura persa. Nada disso! Através do longa, temos os dilemas que o Corão impõe a uma sociedade, marcada pelo espelhamento da vida consumista do Ocidente, das TVs por assinatura e da alienação diante da questão nuclear, simplesmente porque os cidadãos que têm posses não assistem às TVS estatais.
Pouco encontrei de densidade psicológica na construção do papel da esposa da trama, meio inócua, que quer ir embora do Irã, obtém seu visto, mas o marido nega-se a partir com ela por conta de ter um pai com Alzheimer, sob sua tutela, em estágio avançado. Assim, o fato de ela desejar sair do país determina o pedido de divórcio, ao qual o marido é refratário, mas não quer, ao mesmo tempo, impedi-la de viajar. A esposa vai embora do apartamento do casal e segue para a casa de seus pais; no entanto, a filha (Sarina Farhadi, filha do próprio diretor e talentosa iniciante), permanece junto ao pai e testemunha uma fatalidade que ocorre na vida familiar.
A rigor, o estopim da trama é o fato de que o marido contrata uma mulher de meia idade para ser a cuidadora de seu pai doente, mas as leis do Corão não permitem que ela o veja nu e, mais ainda, que trabalhe no apartamento de patrões, em cujo lar a esposa não está presente.
Colocadas essas duas questões, o filme trata muito mais de impasses de ordem religiosa e moral, dinamizando um enfrentamento ético de um marido/uma esposa, separados por diferenças e conflitos pessoais, além de uma posição unívoca, visivelmente contra os excessos da Revolução Islâmica.
De outro lado, um outro casal, o da 'cuidadora', que fora acusada de manter o senhor doente amarrado pelo pulso em sua cama, por conta de uma saída do apartamento em caráter de emergência.
O fato de a 'cuidadora' estar grávida e seu marido não estar ciente de que trabalha no apartamento do casal separado gera um problema moral entre o mesmo, além de desencadear o episódio da perda do bebê, inicialmente alegada como resultado de um empurrão do patrão/pai do senhor doente, ao descobrir o episódio do cativeiro. No desenlace da trama, descobre-se que a 'cuidadora' mentiu, ao afirmar na Justiça que perdeu o bebê na queda da escada. O bebê já não se mexia mais, quando ocorreu o incidente. Na verdade, com a iminência de um valor monetário que poderia livrar o marido da 'cuidadora' de credores, ela manteve sua versão.
Diante do Corão, jamais uma mulher devota mentiria frente a familiares e credores. Portanto, a farsa se desfaz e o filme termina em suspense, sem resolução, quando a filha do casal separado é convocada pelo Juiz da Vara da Família a revelar com quem gostaria de viver: pai ou mãe.
A menina fora três vezes coagida a falar o que o pai desejava; portanto, a filha sofre um mesmo tipo de coação, que as mulheres sofrem na cultura islâmica, desde sempre.
Assistam e comentem!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

EM DIA COM O CINEMA!

Neste verão, iniciei a minha peregrinação ao cinema na metade de novembro, quando do lançamento doe"A pele que habito", do Almodóvar. Detestei o filme, em que pese a crítica elogiosa de Marcus Mello, editor e colaborador da revista de cinema "Teorema", neste último exemplar, completando seus dez anos de edição. Tive a impressão de estar assistindo a um filme de Hithcock misturado com o bem menos brilhante Brian de Palma, na linha de "Dublê de corpo"!
Depois, fui acompanhando a safra do pré-Natal e assisti ao "A árvore do amor", um filme chinês do Zhang Yimou, ambientado durante a Revolução Cultural. Outro longa, desta vez australiano, de Bruce Beresford, de 2009, que também trata da China moísta, revela um pobre bailarino chinês, durante o regime maoísta, proveniente do meio rural, que sai do país para integrar-se como solista à Companhia do Houston Balé, nos EUA. Aí, as desventuras do bailarino iniciam-se quando o governo chinês obriga-o a retornar ao país. Fui à sessão de "Inquietos", o último longa do admirável Gus van Saint. É um libelo de amor à adolescência, sua delicadeza e também violência! Lindo o filme! Após, assisti ao último longa do francês Leclerc, o delicioso "Todos os nomes do amor", sobre uma militante que convencia seus amantes de direita a passarem para a esquerda, através de sexo.
Outro francês, o 'L'Apollonide', de Bertrand Bonello, sobre um cabaré de Paris, durante a Belle Epoque, deixou muito a desejar, porque tratou da prostituição de modo superficial e sem densidade psicológica de suas personagens. Por fim, assisti aos "Os Imortais", em 3D, e que os amigos cinéfilos me perdoem, para checar a tecnologia nas cenas de batalha. A mitologia grega foi assassinada, porque o roteirista misturou Hipérion com o Minotauro.
Assisti também ao "O espião que sabia demais", de Thomas Alfredson. O filme é difícil e percebi que 12 pessoas retiram-se da sala, ao longo da sessão, no Arteplex em POA, o que denota que o longa exige massa encefálica e atenção. Gary Oldman está excepcional em sua atuação e espero que ele leve um Oscar para sua casa! O filme é baseado em um romance sobre dupla espionagem, ambientado na época da Guerra Fria.
Para encerrar, assisti hoje à noite, aqui em Santa Cruz, com meus parceiros de cinema, ao segundo filme do Sherlock Holmes. Ele inicia-se desinteressante e sem ritmo, mas da metade para o final há um plus, que o torna apetitoso.
É isso! Aceito comentários!
Abraço a todos!

sábado, 31 de dezembro de 2011

A PRECOCE MORTE DE DANIEL PIZA

Oi, amigos!

Li hoje na WEB e no Face que o Daniel Piza morreu de AVC ontem à noite, em uma cidadezinha do interior de MG, onde passava as festas de final de ano com a família.
Eu o lia desde o início de sua carreira, naqueles anos que era colunista da Folha de São Paulo. Depois, seguiu percurso no Estadão, jornal no qual o meu próprio falecido pai trabalhou durante muitos anos, inclusive no Jornal da Tarde.
Fiquei chocada e triste, pois ele teve um AVC e não se salvou!
Lembro-me de tantas das suas crônicas, de seus comentários inteligentes sobre futebol, mas especialmente da biografia magistral que escreveu de Machado de Assis.
Minhas condolências à família que fica e ao jornalismo brasileiro enlutado, que perdeu um jornalista brilhante e responsável, além de um intelctual de estirpe.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

DE FÉRIAS NO RIO DE JANEIRO

Olá, amigos!

Estou de férias no RJ.
Vou deixar para postar comentários na primeira semana de janeiro de 2012, quando comentarei o primeiro volume das conferências de Foucault no Collège de France (1982-1983), especilamente o conceito de veridicção filosófica.

Abraço a todos e um ano repleto de realizações!

sábado, 3 de dezembro de 2011

PRÊMIO A NICANOR PARRA

Sexta, dia 1º de dezembro, o Prêmio Cervantes 2011, a mais importante honraria concedida à produção literária em Língua Espanhola, foi outorgada a Nicanor Parra, grande poeta chileno.
Parabéns a todos os poetas chilenos e à láurea concedida a Parra.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

SOBRE A AUTOEXPOSIÇÃO NA FILOSOFIA, NA LITERATURA E NAS REDES SOCIAIS

Lendo os "Ensaios de Amor", de Alain de Botton, ocorreu-me refletir se o que ele narra em primeira pessoa, efetivamente, é a sua vida, parte de sua vida ou alguns elementos autobiográficos tratados como ficção.
Com a 'pulga atrás da orelha', li no Caderno de Cultura da Zero Hora de sábado passado, o artigo mensal do Fisher (docente de Literatura Brasileira da UFRGS). A reflexão que ele faz é iniciada pela autoexposição nas redes sociais e, após, ele migra para o campo literário.
O fato é que o que me intriga é que o Alain de Botton é um filósofo, comprometido com o mundo da vida, com a Filosofia aplicada 'à vida', a ponto de ter fundado uma escola em Londres denominada de Escola da Vida. Filósofos autoexpõem-se, sim, prova é o 'Discurso do Método', de Descartes, escrito inclusive, de modo sui generis, em primeira pessoa, algo extraordinário para sua época. Todavia, temos de nos lembrar que ele era avesso à erudição livresca de seus pares; portanto, contava com o fato de que, na primeira pessoa, comentando detalhes de sua rotina, conseguiria fazer com os que possuíam um livre exercício racional o compreendessem.
Nietzsche, dois séculos após, vai desfilar no campo filosófico com o seu "por que sou tão sagaz", no "Ecce Homo", por exemplo, uma das pérolas de sua escrita autobiográfica.
Na Literatura, Fisher toma como modelo exemplar o livro premiado de Cristóvão Tezza, "O Filho Eterno", em que em que dá um tratamento ficcional à descrição dos elementos autobiográficos. Fisher, assim, vai denominar esse fenômeno de "autoficcção" literária, algo ainda muito novo, que não vi tocado nas páginas dos cronistas e teóricos auriverdes.
Nas redes sociais, não é preciso comentar, né? Penso que todos os que mantêm, com um certo esforço e parcimônia, seus posts em blogs, Twitter e Facebook sabem que é preciso ter bom senso: 'filtrar' é o que mais se faz nesse segmento.
Estou cada vez mais com menos 'amigos' no Facebook, porque minha praia não é colecionar 'amigos', mas, sim, ser capaz de regozijar-me com comentários consistentes, sejam apenas informativos, poéticos ou filosóficos, fora o fato de que também aprecio postar e ler os comentários depois.
Meu critério de descarte agora é 'emissão de bobagens", reiteradamente. Rolou bobagem, tchau!
Cuidado, tá! Hahahahah

domingo, 27 de novembro de 2011

100 ANOS DO SUICÍDIO DE LAFARGUE

Não saiu nada na imprensa! Lamentável! 26 de novembro de 2011 é o dia em que Paul Lafargue, autor do formidável "Direito à Preguiça", e sua esposa Laura Marx, filho do Karl, se suicidaram em Paris.
Tentamos publicar algo, eu e Rafael, na ZH, mas não deu em nada.

Abraço a todos!

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

200 ANOS DO SUICÍDIO DE VON KLEIST

No Brasil, quase que passou em branco, mas na Alemanha, desde fevereiro, quando estive lá, os alemães já celebravam a efeméride dos dois séculos de morte de Heinrich von Kleist. O poeta e dramaturgo, bem como sua amada, suicidaram-se às margens do Lago Kleiner Wannsee, pertinho de Berlin.
Há, em toda a Alemanha, montagens e leituras de peças teatrais de Kleist, que constituem as comemorações do bicentenário de morte do dramaturgo.
Recomendo aos meus alunos a leitura do texto "Teatro de marionetes".
No sábado, outra efeméride: 100 anos de morte de Paul Lafargue e sua esposa, filha de Marx, Laura. Aguardem!

domingo, 13 de novembro de 2011

2011: ANO DO CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE EMIL CIORAN

Parece mentira, mas passou quase que despercebido o aniversário de 100 anos de nascimento do filósofo romeno Emil Cioran (1911-1995) no Brasil. Entendo que sua obra é quase desconhecida no país, não há traduções esparsas que a introduzissem, como uma totalidade, na inteligentsia nacional, mas, ao menos, saiu uma coletânea de pesquisadores e docentes universitários para celebrar a efeméride.
Trata-se do volume, publicado pela Sulina, de Porto Alegre, e organizado pelo Prof. Deyve Redyson, da Universidade Federal da Paraíba, em uma iniciativa louvável. Cioran é um continuador contemporâneo da obra metafísica de Schopenhauer e de Nietzsche, mais contundente e radical ainda, eu diria, em uma sociedade de bestialidade e autoajuda, de perda de sentido, de individualismo exacerbado e de males avassaladores como a depressão, escreve não por autoterapia, mas para se manter vivo e apaziguar seus demônios.
Trágico, fez de sua existência um testemunho vivo do inferno que pode ser a vida, com obras que, em Português, foram traduzidas como "Do inconveniente de se ter nascido" ou "Nos altos (ou cumes) do desespero".
Vale a pena conferir!
Abraço a todos!

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

MAIS UMA BABAQUICE DO FACEBOOK

Li, hoje, em um blog de um porta amigo que as pessoas começaram nesta semana a divulgarem algo, em suas páginas, referente a viver em um outro lugar. Eu deletei a minha página, por questões pessoais, que não vêm ao caso, mas foi pertinente e em tempo, pelo jeito.
Li depois comentários sobre amigos que adotaram o "Vou morar tanto tempo em_____" ou que respondem à babaquice como "Parabéns" ou "Muito massa", para alguém que, é notório, não teria condições de viver fora do país.
Olha, esta foi demais para o meu gosto!

É quase final de ano e o tempo urge!

Comentem, please! Abraço a todos!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

A CAMPANHA CONTRA A VIOLÊNCIA INFANTIL NO FACEBOOK: FALSIDADE OU ALTERIDADE?

Desde o início do mês, observei que vários de meus amigos no Facebook começaram a retirar suas fotos de seus avatares e substituí-las por um personagem do Cartoon, de desenhos animados, em seus lugares. Isso deixou-me intrigada, porque ainda não sabia a que se devia.

Indaguei alguns de meus alunos, amigos e até minha filha. Qual não foi a minha surpresa, quase todos sinalizaram que era por conta do Dia da Criança, a ser comemorado no Brasil no mesmo dia do feriado religioso de Nossa Senhora Aparecida.

Fui atrás e li tudo o que encontrei em links dos grandes jornais brasileiros. A troca de fotos pessoais dos avatares por personagens de desenhos animados é mundial e faz parte de uma campanha contra a pedofilia e todas as formas de violência contra as crianças. Muito bem! Todavia, não encontrei o nome do mentor ou sequer da ONG ou da instituição que teria deflagrado a campanha no Facebook e no Twitter.

Isso denota, mais uma vez, o caráter mimético das redes sociais. Em outras palavras, as pessoas copiam, deliberadamente, o que as outras fazem, além dos recursos que utilizam, sem ao menos estarem informadas do que está por detrás de determinada expressão ou comportamento virtual.

Fico muito preocupada com isso e, para polemizar, escrevi em minha página do FB que eu considerava esta mudança de fotos por personagens algo falso e que, ademais, eu estaria cansada da ignorância generalizada. Levei pau, é claro! A maior parte de amigos, alunos e ex-alunos, pasmem, argumentou que era bonitinho, que era um resgate do espírito infantil e que tudo aquilo estava ocorrendo em função do Dia da Criança, em 12 de outubro.

Se a campanha é mundial e iniciou-se no exterior, o Dia da Criança em outros países, se existe, certamente é comemorado em um outro dia do ano. Assim, o argumento do povoamento do FB com carinhas do Cartoon, em função do tal dia, não procederia fora do Brasil.

Vou providenciar algo no FB, de modo forjado, para avaliar a aderência e a rapidez da mudança do comportamento dos usuários, com o slogan de uma suposta campanha, assim: “I-mito”, em referência burlesca ao “Ipad” e ao “Ipod”. Vamos ver no que vai dar...

domingo, 2 de outubro de 2011

AUSÊNCIA DO EGO

(Do livro One Taste, de Ken Wilber)

Tradução de Ari Raynsford

Justamente porque o ego, a alma e o Eu (Self) podem estar presentes ao mesmo tempo, não será difícil entender o sentido verdadeiro de “ausência do ego”[1] – expressão que tem causado imensa confusão. Ausência do ego não significa a ausência de um eu (self) funcional (o que seria próprio de um psicótico e não de um sábio); significa que não estamos mais exclusivamente identificados com aquele eu.

Um dos muitos motivos de não sabermos lidar com a noção de “ausência do ego” é que desejamos que nossos “sábios sem ego” satisfaçam às nossas fantasias relativas a “santidade” ou “espiritualidade”, o que, habitualmente, significa que essas pessoas estejam mortas do pescoço para baixo, livres das vontades ou desejos da carne, eternamente sorridentes. Desejamos que esses santos não passem por todas as coisas que nos incomodam – dinheiro, comida, sexo, relacionamentos, desejos. “Sábios sem ego” estão “acima de tudo isso” – assim desejamos. Queremos cabeças que falem. Acreditamos que a religião bastará para livrá-los de todos os instintos básicos, de todas as formas de relacionamento, considerando a religião, não como orientação para viver a vida com entusiasmo, mas, sim, como guia para evitá-la, reprimi-la, negá-la, fugir dela.

Em outras palavras, o homem típico espera que o sábio espiritual seja “menos que uma pessoa”, de alguma forma liberto dos impulsos confusos, difusos, complexos, pulsantes, compulsivos, que guiam a maior parte dos seres humanos. Esperamos que nossos sábios sejam a ausência de tudo o que nos impulsiona. Queremos que não sejam sequer tocados por todas as coisas que nos atemorizam, que nos confundem, que nos atormentam, que nos atordoam. É a essa ausência, a essa falta, a esse “menos que uma pessoa” que, frequentemente, chamamos “sem ego”.

ntretanto, “sem ego” não significa “menos que uma pessoa”; significa “mais que uma pessoa”. Não pessoa menos, mas pessoa mais – isto é, todas as qualidades normais da pessoa mais algumas transpessoais. Pensemos nos grandes iogues, santos e sábios – de Moisés a Cristo, a Padmasambhava. Não foram desfibrados maneirosos, mas dinâmicos e instigantes – desde o episódio dos vendilhões do Templo até a imposição de novos rumos a nações inteiras. Lidaram com o mundo em seus próprios termos, não em termos de uma piedade melosa; muitos deles provocaram revoluções sociais significativas, que se estenderam por milhares de anos. E assim fizeram, não porque tivessem evitado as dimensões físicas, emocionais e mentais da humanidade, e o ego, que é o veículo de todas elas, mas porque as assumiram com tal garra e intensidade que sacudiram as próprias fundações do mundo. Indiscutivelmente, estavam também intimamente ligados com a alma (o psiquismo mais profundo) e o espírito (o Eu informe) – fonte última de sua força – mas expressaram essa força e tiraram dela resultados concretos, exatamente porque assumiram, decididamente, as dimensões menores através das quais ela poderia expressar-se de modo a ser sentida por todas as pessoas.

Esses grandes mobilizadores e agentes de mudança não foram egos pequenos; foram, na mais completa acepção do termo, grandes egos, justamente porque o ego (veículo funcional do domínio da mente) pode existir e de fato existe com a alma (veículo do sutil) e o Eu (veículo do causal). Na mesma medida em que esses grandes mestres mobilizaram o domínio da mente, eles mobilizaram o próprio ego, porque o ego é o veículo desse reino. Entretanto, não se identificavam meramente com seu ego (isso seria narcisismo); simplesmente perceberam seu ego conectado a uma fonte Kósmica[2] radiante. Os grandes iogues, santos e sábios conseguiram tanto, exatamente porque não foram tímidos bajuladores, mas grandes egos ligados ao seu Eu superior, animados pelo puro Atman (o puro Eu – eu[3]) que é um com Brahman; abriram a boca e o mundo estremeceu, caiu de joelhos e pôde ver face a face o Deus radioso.

Santa Teresa não foi uma grande contemplativa? Sim, e Santa Teresa foi a única mulher que reformou uma tradição monástica inteira (pensemos nisso). Gautama Buda sacudiu a Índia nos seus fundamentos. Rumi, Plotino, Bodhidharma, Lady Tsogyal, Lao Tsé, Platão, o Baal Shem Tov – estes homens e mulheres deram início a revoluções no mundo que duraram centenas, às vezes milhares de anos – coisa que nem Marx, nem Lenin, nem Locke, nem Jefferson, poderiam afirmar ter conseguido. E não agiram assim porque estivessem mortos do pescoço para baixo. Não, eles eram fantasticamente, divinamente grandes egos, ligados profundamente ao psíquico, que estava diretamente ligado a Deus.

Existe certa verdade na noção do transcender o ego: não significa destruir o ego, mas, sim, conectá-lo a alguma coisa maior. Como afirma Nagarjuna[4], no mundo relativo, atman[5] é real; no absoluto nem atman nem anatman[6] são reais. Assim, em nenhum caso annatta[7] corresponde a uma descrição correta da realidade. O pequeno ego não se evapora; permanece como o centro funcional da atividade no domínio convencional. Como eu disse, perder esse ego significa tornar-se um psicótico, não um sábio.

“Transcender o ego”, significa, pois, em verdade, transcender mas incluir o ego num envolvimento mais profundo e mais elevado, primeiro na alma ou psiquismo mais profundo, depois na Testemunha ou Eu superior e, então, após a absorção nos níveis precedentes, envolver-se, incluir-se e abraçar-se na radiância do Um Sabor.[8] E isto não significa, portanto, “livrar-se” do pequeno ego, mas, ao contrário, habitar nele plenamente, vivê-lo com entusiasmo, usá-lo como veículo necessário, através do qual as grandes verdades podem ser transmitidas. Alma e espírito incluem o corpo, as emoções e a mente; não os eliminam.

Grosseiramente, podemos dizer que o ego não é uma obstrução ao Espírito, mas uma radiosa manifestação do Espírito. Todas as Formas não são senão o Vazio, inclusive a forma do próprio ego. Não é necessário livrar-se do ego, mas, simplesmente, vivê-lo com certa intensidade. Quando a identificação transborda do ego no Kosmos em geral, o ego descobre que o Atman individual é, de fato, da mesma espécie de Brahman. O Eu superior não é, em verdade, um pequeno ego, e, assim, no caso de estarmos presos ao nosso pequeno ego, a morte e a transcendência são necessárias. Os narcisistas são, simplesmente, pessoas cujos egos não são ainda suficientemente grandes para abraçar o Kosmos inteiro e, para compensar, tentam tornar-se o próprio centro do Kosmos.

Não queremos que nossos sábios tenham grandes egos; sequer desejamos que exibam qualquer característica evidente. Sempre que um sábio se mostra humano – a respeito de dinheiro, comida, sexo, relacionamentos – sentimo-nos chocados, porque estamos planejando fugir inteiramente da vida, e o sábio que vive a vida nos ofende. Queremos estar fora, queremos ascender, queremos escapar, e o sábio que assume a vida com prazer, vive-a totalmente, pega cada onda da vida e surfa nela até o fim – nos perturba e nos assusta intensamente, profundamente, porque significa que nós, também, deveríamos assumir a vida com prazer, em todos os níveis, e não simplesmente fugir dela numa nuvem etérea, luminosa. Não queremos que nossos sábios tenham corpo, ego, impulsos, vitalidade, sexo, dinheiro, relacionamentos ou vida, porque essas são coisas que habitualmente nos torturam e queremos vê-las longe de nós. Não queremos surfar as ondas da vida, queremos que as ondas desapareçam. Queremos uma espiritualidade feita de fumaça.

O sábio completo, o sábio não-dual está aqui para mostrar-nos o contrário. Geralmente conhecidos como “tântricos”, estes sábios insistem em transcender a vida, vivendo-a. Insistem em procurar libertação no envolvimento, encontrando o nirvana no meio do samsara[9], encontrando a liberação total pela completa imersão. Passam com consciência pelos nove círculos do inferno, certos de que em nenhum outro lugar encontrarão os nove círculos do céu. Nada lhes é estranho porque nada existe que não seja Um Sabor.

Na verdade, o segredo consiste em estar inteiramente à vontade no corpo e com seus desejos, com a mente e suas idéias, com o espírito e sua luz. Assumi-los inteiramente, plenamente, simultaneamente, uma vez que todos são igualmente manifestações do Um e Único Sabor. Vivenciar a paixão e vê-la funcionar; penetrar nas idéias e acompanhar seu brilho; ser absorvido pelo Espírito e despertar para a glória que o tempo esqueceu de nomear. Corpo, mente e espírito, totalmente contidos, igualmente contidos, na consciência eterna que é a essência de todo o espetáculo.

Na quietude da noite, a Deusa sussurra. Na luminosidade do dia, Deus amado brada. A vida pulsa, a mente imagina, as emoções ondulam, os pensamentos vagam. O que são todas estas coisas senão movimentos sem fim do Um Sabor, eternamente jogando com suas próprias manifestações, sussurrando mansamente a quem quiser ouvir: isto não é você mesmo? Quando o trovão ruge, você não ouve o seu Eu? Quando irrompe o raio, você não vê o seu Eu? Quando as nuvens deslizam mansamente no céu, não é o seu próprio Ser ilimitado que está acenando para você?

(texto de Wilber enviado por Sambodh Naseeb, o nome em sânscrito de meu aluno Nathaniel Piva)

[1] No original egolessness. (N. T.)

[2] Kósmica – de Kosmos. Wilber reapresenta esta palavra em seu livro Sex, Ecology, Spirituality com a seguinte observação: “Os Pitagóricos introduziram a palavra Kosmos que, normalmente, traduzimos como ‘cosmos’. Mas o significado original de Kosmos era a natureza de padrões ou de processos de todos os domínios da existência, da matéria para a matemática para o divino, e não simplesmente o universo físico, que é o significado usual das palavras ‘cosmos’ e ‘universo’ hoje... O Kosmos contém o cosmos (ou fisiosfera), bio (ou biosfera), noo (ou noosfera) e teo (teosfera ou domínio divino)...” (N. T.)

[3] Sri Ramana Maharshi frequentemente refere-se ao Self pelo nome “Eu – eu”, uma vez que o Self é a autêntica Testemunha do eu. (N. T.)

[4] Filósofo budista do Sec. II D.C., criador do Escola Madhyamika. (N. T.)

[5] No Advaita Vedanta, atman é o princípio interior de todos os seres, idêntico a Brahman, o Ser Universal que se desdobra em infinitas individualidades, as quais aparecem e desaparecem no plano dos fenômenos (ou maya), sob o ciclo do samsara (reencarnações), que, por sua vez, é efeito do karma (ação e reação). A identidade Atman/Brahman é expressa nos Upanishads na famosa expressão Tat Tvam Asi - Vós sois Isso. (N. T.)

[6] No Budismo, anatman é a negação de qualquer substrato último ou permanente no Universo. (N. T.)

[7] A polaridade atman/anatman. (N. T.)

[8] No original, One Taste – o estado de visão não-dual ou consciência da unidade. (N. T.)

[9] O ciclo contínuo de nascimento e morte. (N. T.)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

VIAGEM A BH E A OURO PRETO

Voltei, amigos! Estive em um seminário nacional de extensão, no qual meu artigo, com minha ex-bolsista de extensão, foi aprovado. Apresentamos nossos resultados das histórias de vida de apenadas do Presídio Regional de SCS. Foi muito interessante e houve vários comentários e perguntas da plateia.
Depois do seminário, no sábado, eu e Rafael estivemos em Ouro Preto. Eu já estive lá duas vezes, mas desta vez foi diferente por eu estar com o meu namorado, futuro historiador. Além do clima romântico da cidadezinha, que já conta com 311 anos de fundação, foi importante ouvir os comentários do Rafael sobre Tiradentes e a Inconfidência Mineira.
Por acaso, fomos parar em uma mina de ouro desativada, de 293 anos, com um guia local. Foi uma caminhada rápida, por uma brecha em uma caverna, explorada pelos negros mineiros, que eram trazidos como escravos para o trabalho extrativista de Ouro Preto. Eles sabiam como encontrar ouro, junto ao quartzo, pela salivação de pequenas amostras de terra das paredes da caverna. Duravam de cinco a sete anos; depois, morriam com os pulmões petrificados.
Tristes as histórias das 'minas gerais', que animalizavam homens africanos para encher os cofres da Coroa Portuguesa.
Não falei do Tiradentes, mas, para constar, ele era o menos posicionado do grupo, social e economicamente, tirado para 'bode expiatório' entre os burgueses inconfidentes. Acabou como mártir, porque a República precisava de um; como traidor, porque a Coroa Portuguesa necessitava de um, que sofresse as consequências da pena.
É isso! Abraço a todos!

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O DESFAZER-SE DO AMOR



O amor é um animal
desprevenido, ressentido e precipitado:
uma teia que se desfia pouco a pouco...
que quer se esquecer daquilo que machuca, que machucou,
sem perceber que o que machuca/machucou é o que salva o animal!

- Guardemos silêncio, amigos, para que possamos ouvi-lo, tragicamente,
desfazer-se!

Rô Candeloro - em 12 de setembro de 2011, às 19h, depois de as 'torres' caíram!

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

RÉQUIEM PARA OS DEZ ANOS DAS TORRES GÊMEAS

Em 2001, estive nos EUA pela primeira vez, para acompanhar a Prof. Marília Ramos, amiga pessoal e, na época, minha colega na UNISC, na fase final de sua tese de doutorado em Gerontologia, na Purdue University, em Lafayette, Indiana. Antes de encontrar-me com ela, planejei ficar uma semana em NY, no meu aniversário de 40 anos.

Passei com uma outra amiga, que me acompanhava neste trecho, dias aprazíveis de calor, caminhando muito pelas avenidas retas de Manhattan, visitando museus, centros de cultura e livrarias, o Central Park e as ruas do Soho e do Village. Em duas oportunidades, chegamos ao Finantial Center de metrô e saímos pela estação do World Trade Center, acessando um shopping Center, antes de atingir a rua.

Minha esperança era a de que, desembarcando nessa estação, eu conseguisse comprar os ingressos que eu desejava para um espetáculo da Broadway, que também eram vendidos no mezzanino de uma das torres do WTC. Todavia, as filas para compra eram enormes e isso me desmobilizou para o teatro.

Dali do centro, fomos para o Brooklyn, bairro que concentra estúdios, ateliês e galerias. Fiz fotos da Brooklyn Bridge com uma câmera de rolo. Tenho ainda as fotos reveladas que segurei nas mãos, atônita, ao acompanhar as primeiras imagens da cobertura da TV americana, quando a primeira torre havia sido alvejada por um avião.

Estive lá exatamente dois meses antes da tragédia, em julho de 2001, resultante do ataque da Al-Qaeda às torres gêmeas do WTC, que as pulverizou, exterminando 3000 seres humanos e reiteirando o adágio de Hobbes: homo homini lúpus (“o homem é o lobo do homem”). Neste final semana, comentários islamofóbicos serão enunciados no planeta, as teorias conspiratórias continuarão sendo debatidas, os resultados das investigações do atentado continuarão sendo questionadas e a dor de milhões será, novamente, devassada.

Fukuyama errou! Obama está aí, perdendo pontos nas estatísticas, mas com uma certa vantagem pela morte de Osama Bin Laden e o consequente desmantelamento da rede terrorista Al-Qaeda. Menos ufanismo e alienação é o que eu espero nesta efeméride.

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