terça-feira, 13 de março de 2012

SOBRE O FILME ‘SHAME’, DE STEVE MCQUEENN (2011)


Freud explicou em sua obra que as necessidades do ser humano e do animal são de natureza biológica. Assim, algumas pessoas estabelecem formas peculiares, e até mesmo patológicas, de satisfação da necessidade sexual. Por isso, algumas perversidades podem ser catalogadas nesse campo, como o fetichismo, em que o objeto de prazer é inanimado, ou seja, é simplesmente uma coisa, um corpo. O prazer aí, em geral, não é de mão dupla e só goza o sujeito com a desordem sexual. Foi isso que encontrei no longa do diretor e artista plástico Steve Mcqueen, “Shame”, estrelado pelo ator de origem irlandesa, Michael Fassbender, conhecido do telão por papéis pequenos e inexpressivos até então.

Brandon é o protagonista do longa. Ele tem, aproximadamente, 30 anos, vive só em NY e é um executivo - não se descobre ao longo da narrativa de que segmento, nem se sabe nada de seu passado ou de sua compleição psicológica. Ele masturba-se em horário útil e, mal chega em em seu apartamento, abre seu notebook, acessa sites de pornografia, ao som de um tema das "Variações de Goldberg", de Bach. Os diálogos são escassos e o próprio roteiro, escrito pelo diretor Steve Mcqueen, com a parceria de Abi Morgan (da série inglesa “The Hour” e, mais recentemente, do “The Iron Lady”, que outorgou a Meryl Streep o terceiro Oscar de Melhor Atriz, em 2012) não revela dicas sobre seus conflitos internos. Não obstante o fato de que o filme sobre a dama de ferro tenha problemas, inclusive de ordem política, o roteiro de “Shame” é muito interessante, justamente por não fazer flashbacks do passado de Brandon e não subsidiar o expectador com lugares-comuns para justificar moralmente a patologia do personagem, vivendo na selva da grande megalópolis: New York.

Li as entrevistas tanto do diretor quanto do ator nos jornais The Guardian e na revista “Positif”, no dossier do mês de dezembro, dedicado ao lançamento de “Shame” na Europa. Não encontrei nenhum comentário profundo sobre a psicologia dos personagens, que é sempre o que mais me interessa e chama a minha atenção no cinema de Arte e/ou Independente.

A rigor, a entrada da personagem de Carey Mulligan, irmã de Brandon, a Sissy, da metade do filme em diante, quebra a rotina do sexaholic e funciona como um jogo de espelhamento, que fornece algumas pistas para se compreender a matriz emocional que os irmana. Ela é cantora, bebe, joga-se nos braços do patrão (casado, interpretado por James Badge Dale) de Brandon em 20 minutos e vive uma vida sem rumo. Em uma cena, em que ela convida o irmão para ouvi-la cantar, em um charmoso restaurante, cuja vista de NY é deslumbrante, percebe-se, a partir do comentário de seu patrão (de Brandon, que foi junto), que ela possui “marcas” em seu antebraço. Isso já desvela a fragilidade de seu modo de existir e o apoio que ela almeja de parte de seu único irmão.

Nessa cena, ouve-se, na versão integral, a canção New York, New York, imortalizada por Frank Sinatra e Liza Minelli. O personagem de Michael Fassbender chora – e claro, parte da plateia de expectadores da sala onde eu me encontrava também, em sua maioria, casais gays. Belíssima a interpretação lenta e murmurada de Carey Mulligan, que, não raras vezes, lembrava os trejeitos de Marilyn Monroe.

O caráter epifânico da tensão familiar, entre os dois irmãos, que se desenrola ao final do longa – e que não descreverei aqui -, ilumina a tragédia da existência nauseante das grandes cidades, da liberdade sem direcionamento, da grana gasta de modo supérfluo, do sexo desenfreado que povoa o imaginário dos sujeitos que o praticam e da ausência de uma moral prescritiva.

“Shame” não desperta a vergonha de cada um de nós. Ao contrário: que venham mais filmes dessa índole, que excitem os expectadores e nos provoquem à autorreflexão! "Se está melhorando, siga em frente" é o sentido do que diz um cartaz que aparece de modo reincidente nas cenas do metrô. Assim, para encerrar, o protagonista passa por uma ruptura, de ordem emocional, mas retoma sua vida monocromática e morna.

2 comentários:

  1. Li, adorei, li entrevista do diretor na Isto É, vi os trailers e clips no IMDB, e vou ter que ver o filme nesta semana, pois amei! Com certeza teu comentário tá melhor que de muito críticos, pois aliás, os críticos andam deixando muito a desejar...

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  2. Obrigada, Ewe! Vou deixar para assistir ao documentário "Pina" contigo, tá? Combinaremos o dia. Um beijo!

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