Depois de me encontrar com a minha mãe, que completa hoje seus 80 anos, de lucidez e alegria, fiz um tour pelas melhores livrarias do RJ. Eu já havia ido às livrarias Folhas Secas e Prefácio, que ficam no Centro e no Botafogo, respectivamente. Depois, iniciando pela 1º de Março, fui à Leonardo Da Vinci, na Av. Rio Branco, 185, subsolo. Não há nada igual em termos de livraria de arte e humanidades no Brasil. O Mário, um funcionário muito gente fina, procurou tudo o que eu precisava no sistema, deu-me valores, taxas de importação e, ainda por cima, entrou na Estante Virtual para checar o que eu encontraria na cena dos sebos cariocas. Além disso, deu-me os mapas atualizados dos sebos e livrarias do Centro do RJ e da Zona Sul. Depois, fui ao sebo Berinjela, também no mesmo subsolo da galeria Marquês do Herval, no mesmo endereço. Encontrei lá duas preciosidades em DVD: "Para sempre Mozart", de J.-L. Godard, e "Os donos da noite", de James Gray. Esse último é presente para o meu querido amigo e interlocutor, o Fabiano Felten, uma das pessoas mais brilhantes que conheci em minha vida, com rasgos de erudição mesmo! Eu não tinha muita grana para gastar desta vez, mas consegui comprar um mimo para cada amigo íntimo e para minha filha - como sempre. Meu lema é 'comer pouco para ir ao cinema e comprar mimos aos amigos'! Hahaha Que dia magnífico! De quebra, fui à Arlequin, mas não encontrei os dois CDs de jazz que eu tanto queria. Terminei na Livraria Travessa para um café. Eram 16h35, o tempo estava fechado e ventava bastante. Eu estava na Cinelândia, dirigindo-me à estação de metrô, mas fui barrada. Um homem havia, uns 15 minutos antes, se jogado no trilho do metrô. Isso causou a maior confusão na Av. Rio Branco. Sentei-me e refleti. Fui a uma parada de ônibus e aguardei qualquer um que fosse para a Zona Sul. A meta era sair daquela balbúrdia. Que coisa! Isso daria um roteiro de um longa! Por fim, assisti ao quinto longa, o último dos irmãos Tavianni, "César deve morrer", inspirado no texto "Júlio César", de Shakeapeare! Mais uma obra de arte! Um abraço a todos os meus leitores! Obrigada por acompanharem meus passos pela Cidade Maravilhosa! Abaixo, fachada da vitrina do sebo Berinjela e da fachada da Leonardo Da Vinci.
segunda-feira, 8 de abril de 2013
domingo, 7 de abril de 2013
TEATRO NO RJ E ACESSIBILIDADE
Fui-me encontrar com amigos agora à noite, que são naturais de Santa Cruz do Sul, mas vivem no RJ há mais de uma década. A Lara Pozzobon é conhecida no Brasil por ser a produtora do festival de e para os portadores de necessidades especiais, o "Assim Vivemos". Já assisti a algumas produções de três festivais, em SP e em Santa Cruz do Sul. Dati, sua irmã, especializou-se em audiodescrição. Já testemunhei seu trabalho, audiodescrevendo cenas de cinema para cegos. Muito interessante e inclusivo! Hoje, ganhei um convite das meninas para assistir a uma peça, que está em cartaz no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, centro do RJ. O Fernando, irmão delas e meu amigo há muitos anos, foi quem descreveu as cenas teatrais de um musical intitulado "Revista do Ano: o Olimpo Carioca", um esquete bem-humorado, politizado e cheio de coreografias. Retirei um fone de ouvido para mim, porque seria a única forma de compreender como o trabalho é feito para incluir cegos no teatro. Simultaneamente, eu acompanhava a intérprete de Libras, que estava próxima a mim, dando os indicativos para parte da plateia de surdos. Eu não conhecia nada igual até então, ainda mais no segmento do teatro. O Projeto de Acessibilidade, com recursos da Petrobras, operou durante um ano no Teatro Carlos Gomes, interpretando peças as mais diversas para o público com deficiência visual, duas vezes ao mês.
COISAS MIÚDAS DA VIDA DO CARIOCA E CINEMA
Cheguei ao Rio de Janeiro e fui direto ao cinema, não à praia. Amanhã cedo, irei dar um beijo no mar, no posto 9, em Ipanema, mas fui primeiro aos cinemas do Botafogo. Assisti ao quarto longa, mais um francês, claro, o último do François Ozon, "Dentro da casa". Tive de me sentar em um bar depois e abrir meu diário de viagens para anotar algumas observações. Detesto viver no interior, meus amigos o sabem. Quando venho ao RJ, ou vou a SP, parece que meus sentidos se aguçam! Passo sozinha uma boa parte do dia, mas todas as pessoas falam comigo, é impressionante: é o cara da recepção do hostel, alguém que esbarra em mim no café, o senhor da banca de jornais, o atendente do bar, o garçon do restaurante árabe, uma moça de Manaus, que, na rua, me pediu uma informação e acabei levando-a aonde ela queria. Quanta vida intensa (e monótona) há por aí... O que me compraz é que os cinemas estão tão cheios quanto as praias. Isso me encanta no RJ! Eles estão lá, o carinha de 18 anos, universitário, e a senhora de 75 anos, que chega de táxi e sai com dificuldades para comprar seu ingresso para o tal filme da 'garrafa no mar de Gaza', ou um que tem no título a palavra 'casa', ou um outro sobre uma visitante francesa, ou sobre uma moça de nome "Therèse". O cinema francês é o único que, além de me tocar esteticamente, ensina-me sobre a vida, sinaliza algumas soluções não pensadas ainda e, especialmente, sobre a 'physis' desta existência, que não passa de um véu (ou uma burca completa!). Eu, certamente, espero morrer depois de ir ao cinema - e tem de ser um francês! Comentarei os filmes quando eu voltar para casa. Amanhã, minha mãe fará 80 anos. Vim por causa dela! Considero um grande acontecimento chegar lúcida e cheia de energia aos 80, após tantas perdas e mazelas.
sábado, 6 de abril de 2013
RJ: CINEMA E ARTE!
Cheguei no Rio de Janeiro! Estou hospedada no Vila Carioca Hostel (segunda foto), no bairro que eu mais curto, que é o Botafogo. Só tem estrangeiros aqui e eu já falei em Inglês e em Italiano. Fica a uma quadra do portão da Fundação Casa de Rui Barbosa, instituição que conheci há muito tempo,com minha irmã que vive no RJ há 32 anos. Já assisti a três longas, que irei comentar quando eu estiver em casa na quinta, dia 11, porque preciso da ficha técnica deles. Fui conhecer o MAR (primeira foto, que mostra bem o entorno ainda em obras), o novo museu aberto há 36 dias, Museu de Arte do Rio, mas foi uma bad trip: filas longas e cheio de cariocas sem educação. Terei de voltar em uma terça de manhã, sem visitação de escolas e rede municipal. A vista é magnífica do terraço, mas quero comentar as coleções de arte que lá encontrei, de colecionadores que eu desconhecia, e sobre as curadorias das salas. Passei em outros pontos, mas não havia nada em exposição que eu já não tivesse visitado antes. em SP. Aproveitei e, após comer uma empada de camarão na Colombo e um pastel de Belém na Cavé, fui ao Theatro Municipal. Comprei meu ingresso para a ópera "Tristão e Isolda", de Wagner, em seus 200 anos de nascimento, que acontecerá dia 24 de agosto, um sábado. Aguardem meus próximos post, amigos!
sexta-feira, 5 de abril de 2013
RIO DE JANEIRO: JAZZ E ARTE
De manhã, embarcarei para o RJ. Vou me encontrar com amigos queridos só no sábado à noite e rever minha mãe, na segunda, que completará 80 anos nesse dia. Hoje mesmo, sexta, irei ouvir um jazz na Rua do Ouvidor. O jazz está sendo revitalizado na capital carioca. Vou lá conferir! Depois, à noite, iniciarei a maratona dos filmes nas salas do Botafogo. No sábado de manhã, estou louca para visitar o museu novo: o MAR, Museu de Arte do Rio, que fica no porto, no final da Rio Branco. Aguardem meus posts e fotos, porque tenho uma câmera nova e potente! Abraço amigos e leitores!
domingo, 24 de março de 2013
PRÓXIMOS POSTS
(Meu blog alcançou 18 mil acessos aos meus posts. Obrigada pelo prestígio, amigos e leitores!)
Falta ainda eu escrever meu comentário sobre o filme 'Anna Karenina', de Joe Wright (2012), assistido na semana retrasada em Porto Alegre. Aguardem, amigos e leitores, que irei ao RJ na próxima semana conhecer o novo museu da área portuária, o MAR, o Museu de Arte do Rio de Janeiro; também assistirei ao show de covers do Tim Maia, com o Thiago Abravanel, e a peça "Jacinta", com a Andrea Beltrão, em seu próprio teatro no Botafogo, o Poeira, com a direção de Aderbal Freire Filho. Depois, no outro mês, irei a SP para um show no pub Jazz nos Fundos, em Pinheiros, irei conhecer a Biblioteca de Mindlin, inaugurada nesta semana, dentro das dependências da USP, e ainda assistirei a um concerto na Sala São Paulo e à ópera "A volta do parafuso", de Benjamin Briten, nos seus 100 anos de nascimento, no Theatro São Pedro, de Sampa, na Barra Funda. Para terminar, assistirei a uma peça infanto-juvenil, muito elogiada, de Débora Dubois, "Lampião e Lancelot", que alia o clássico ao cordel!
Falta ainda eu escrever meu comentário sobre o filme 'Anna Karenina', de Joe Wright (2012), assistido na semana retrasada em Porto Alegre. Aguardem, amigos e leitores, que irei ao RJ na próxima semana conhecer o novo museu da área portuária, o MAR, o Museu de Arte do Rio de Janeiro; também assistirei ao show de covers do Tim Maia, com o Thiago Abravanel, e a peça "Jacinta", com a Andrea Beltrão, em seu próprio teatro no Botafogo, o Poeira, com a direção de Aderbal Freire Filho. Depois, no outro mês, irei a SP para um show no pub Jazz nos Fundos, em Pinheiros, irei conhecer a Biblioteca de Mindlin, inaugurada nesta semana, dentro das dependências da USP, e ainda assistirei a um concerto na Sala São Paulo e à ópera "A volta do parafuso", de Benjamin Briten, nos seus 100 anos de nascimento, no Theatro São Pedro, de Sampa, na Barra Funda. Para terminar, assistirei a uma peça infanto-juvenil, muito elogiada, de Débora Dubois, "Lampião e Lancelot", que alia o clássico ao cordel!
sexta-feira, 22 de março de 2013
FILME ALEMÃO 'BARBARA', DE CHRISTIAN PETZOLD (2012)
No final de semana passado, assisti também a um segundo filme alemão, "Barbara", de Christian Petzold, que já havia sido exibido na Mostra de Cinema Alemão, em SP e no Guion, em Porto Alegre, em 2012. Meu professor de Alemão, o Gilson Klemz, já havia me chamado a atenção para esse longa. Então, fui conferi-lo em função de que a narrativa é ambientada na ex-Alemanha Oriental e a ação se passa em um pequeno hospital no interior do país, para o qual a protagonista Barbara foi enviada (ela vivia em Berlim Oriental), cumprindo pena, como cirurgiã-pediatra. A protagonista é vigiada pela 'inteligência' do governo comunista, em seus extertores da agonia, porque se passa em 1980. Funcionários infiltram-se no dia a dia dos camaradas e 'promissores dissidentes'. O filme é frio, cru e provoca uma certa ansiedade no espectador, no crescendo que vai dimensionando o contexto histórico-político, que todos acompanharam pela imprensa, à época. Barbara está aguardando para fugir com seu namorado, um executivo que tem permissão para ir e vir. No entanto, ao mesmo tempo, o filme explora com mais delicadeza a relação que a mesma vai construindo com o médico responsável pela clínica, que supervisiona seu trabalho. Sua espera constante, em sair da Alemanha Oriental, contrasta com um outro tipo de espera, de parte de seu colega de trabalho, que lhe concede afeto e sobre ela alimenta expectativas. O final é consequência natural de seu grau de consciência acerca do futuro daquela condição de vida, daquela Alemanha fadada ao infortúnio. O roteiro é muito bem-articulado e há um talentoso resgate da decadência e do clima de opressão e coerção sobre os cidadãos. Estive em Berlim e o primeiro museu que eu quis visitar foi o do Comunismo, para compreender mais profundamente o que por lá se passou, depois de já ter visitado o Museu do Comunismo, em Praga. Recomendo a visita a esses dois museus. Há legendas em Inglês e em Espanhol.
segunda-feira, 18 de março de 2013
DOCUMENTÁRIO DE HERZOG SOBRE A CAVERNA COM OS MAIS ANTIGOS DESENHOS RUPESTRES DO PLANETA
Assisti a três longas neste finde, em Porto Alegre (escreverei sobre o longa alemão "Barbara" e sobre a versão do "Anna Karenina" a seguir). Vou começar meus comentários pelo documentário do cineasta alemão Werner Herzog, "A caverna dos sonhos esquecidos" (2010), a que tentei assistir no Berlinale de 2011, mas não consegui ingresso. Depois, o documentário também foi atração na Mostra de SP de 2011, mas não pude ir. De Herzog, assisti a uma boa parte de seus filmes: Aguirre, Fitzcarraldo, O enigma de Kaspar Hauser, Stroszeck, Nosferatu, Coração de cristal, Woyzeck, Onde sonham as formigas verdes, No coração da montanha e Cobra Verde. Há mais uns dez longas dirigidos por ele que não chegaram ao Brasil ou eu os perdi mesmo em circuito comercial. Então, finalmente, em uma sessão lotada no Itaú Cinemas no sábado, às 11h, em 3D, pude conferir o documentário sobre a famosa Caverna de Chauvet (nome de família de um dos cientistas), no Sul da França/Bélgica, na região montanhosa de Ardennes, onde três pesquisadores encontraram uma caverna enorme, cuja entrada principal havia sido lacrada, há 20 mil anos atrás, por um deslizamento. Dentro dela, puderam registrar e escanear os mais lindos e antigos desenhos rupestres produzidos por uma mão humana, ou várias, há 32 mil anos. Herzog fez o que pôde, em consonância com a autorização que lhe fora conferida pelo Ministério da Cultura da França. Apenas um pequeno grupo de cientistas pode entrar na caverna, descoberta em 1994, que já tem uma porta blindada e dois guardas permanentes. Pelo que Herzog comenta no filme (que ele próprio narra) já estão pensando em fazer uma réplica a alguns quilômetros dali e estimular a visitação de turistas. Réplica? Absurdo! Eu não gastaria minha grana nisso. Também comentou algo que eu desconhecia, que a Caverna de Lascaux foi fechada, definitivamente, em função da respiração humana concentrada em demasia, no ecossistema da caverna, o que estaria provocando mofo nas pinturas rupestres. Não tenho notícias da Caverna de Altamira, na Espanha. Esse é o fim das cavernas? Não vou morrer sem conhecer uma coleção de desenhos rupestres, ao vivo. Mesmo que os nossos expoentes - encontrados por Niède Guidon, à frente de uma missão franco-brasileira, que, desde a década de 70, vinha tentando mapear desenhos rupestres do homem americano - sejam mais jovens, hoje mesmo, pela manhã, já fiz contato com uma agência de turismo do Piauí para que me levem da capital Teresina até a área do Parque Nacional da Serra da Capivara. Pretendo, no feriadão de 20 de setembro, conhecer os desenhos de São Raimundo Nonato. Quem vem junto?
OS ÚLTIMOS CDS DE PAT METHENY E ESPERANZA SPALDING, ALÉM DE UM CD DE VIJAY IYER
Estou aqui degustando um Carmenère e saboreando as minhas compras de hoje na Livraria Cultura de Porto Alegre! Quando se trata de Pat Metheny, sou suspeita. Fui ao RJ, pela primeira vez, em julho de 1980, na companhia de uma amiga. Conheci um carioca, que era amigo de Milton Nascimento, e conhecia muito a música que se fazia na época, nacional e internacional. Tudo o que o cara me indicou, saí à procura. Ele comentou comigo sobre um tal Pat Metheny. Não deu outra: comprei lá no RJ mesmo meu primeiro vinil do Pat, "New Chautauqua", álbum de 1979, terceiro de sua carreira de guitarrista. Não o tenho mais, apenas outros dois em CD. Pat tocava, então, com Bob Moses e Jaco Pastorius. Mais tarde, com Lyle Davis, Danny Gotlieb e Eberhard. Tenho um CD de Charlie Haden, em que o mesmo dialoga com a guita de Pat, o belo e melancólico álbum "Beyond the Missouri Sky", que o meu querido amigo Francisco Marshall me presenteou no idos de meu aniversário em 1995. Eu o considero precioso! Também tenho um Pat com quarteto (Burton, Corea, Haynes e Holland), o álbum "Like Minds". O "Unity Band", comprado hoje, que arrebatou um Grammy em 2012, tem Chris Potter (saxofonista tenor, brilhante fusionista, que acaba de lançar uma suíte inspirada na "Odisseia", de Homero, o álbum "The Sirens", que estou à cata!), Antonio Sanchez e Ben Williams na retaguarda instrumental. Divino, mas isso é muito pessoal! Da Esperanza Spalding, que comecei a ouvir no final de 2011, comprei o "Radio Music Society", seu último álbum. Considero-o irregular e recomendo os temas em que se ouve um guitarrista jovem, de quase 30 anos, e muito virtuoso: Ricardo Vogt, natural de Santa Cruz do Sul, no Brasil há alguns dias, gravando seu primeiro álbum solo. Só para se ter uma ideia, na semana passada, o Milton Nascimento gravou uma faixa com ele, participando de seu CD. Vamos aguardar! Ele já se foi, mas voltará logo. Nesta semana, a banda de Esperanza Spalding excursiona pela Indonésia! Sobre o Vijay Iyer, pianista, para quem não o conhece ainda, não encontrei seu último álbum em Porto Alegre, o "Accelerando", mas comprei o "Reimagining", porque o sax alto é representado pelo maravilhoso Rudresh Mahanthappa. Com os instrumentistas Stephan Crump no baixo e Marcus Gilmore na batera, Iyer, americano de origem indiana, é um dos pianiastas de jazz mais versáteis e de estirpe inovadora na cena jazzística contemporânea. Vale a pena procurar no You Tube e checar se vocês apreciam sua música, sejam composições originais ou covers. No segmento da música erudita, comprei o último CD de Antonio Meneses, o violoncelista que mais aprecio. Já fui atrás dele, inclusive, no Festival de Música Erudita em São José dos Campos/SP, em julho de 2005. O CD de Meneses traz duas interpretações de concertos para violoncelo, de Gál e de Elgar. Não o ouvi ainda. Isso vai ficar para amanhã à noite, após a labuta diária! Boa-noite!
domingo, 17 de março de 2013
CINEMA E MÚSICA EM PORTO ALEGRE!
Amigos e leitores, estou retornando a Santa Cruz do Sul daqui a pouco. Escreverei mais tarde, degustando um Carmenère, já em casa, um comentário sobre os três longas a que assisti, sobre a festa regada a jazz a que fui ontem à noite (que vai deixar alguns músicos, meus bros, com inveja!) e sobre os CDs de jazz contemporâneo que comprei na Cultura hoje à tarde. Aguardem! Tem coisa boa pela frente, porque tive uma fruição estética quando assisti ao "A caverna dos sonhos esquecidos", o documentário do Herzog sobre a caverna em Ardènnes, no Sul da França, em que encontraram, em 1994, os desenhos rupestres mais antigos do planeta: 32 amil anos A.P. (antes do presente)!!!!!!!!!!!!! Depois, assistimos à sexta versão para o cinema de "Anna Karenina", baseado na obra de Tolstoi, e, por fim, mais um filme alemão, que, aos poucos, já começo a compreender ouvindo a língua falada, o "Barbara", sobre a ex-Berlin Oriental. Isso me traz lembranças de minha viagem à Alemanha em 2011 e a tentativa frustrada de assistir ao documentário do Herzog no 'Berlinale' desse mesmo ano (P.S. Não consegui conferir o "A hora mais escura", de Kahtryn Bigelow. O longa foi banido mesmo do circuito, porque está em um único cinema, longe e em horários inadequados. Lamentável mesmo!).
Danke! Bis bald!
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segunda-feira, 11 de março de 2013
CINEMA EM PORTO ALEGRE, NO FINDE DE 16 E 17 MARÇO
Assistirei ao longa "A hora mais escura" (2012), de Kathryn Bigelow, que levou metade de um Oscar (sic) pelo áudio de seu filme, com a Mi e a Beca, no sábado à tarde. Depois, ao filme alemão "Barbara" (2012), de Christian Petzold. No finalzinho da tarde, café na Cultura, como sempre! À noite, jantinha com os bros! No domingo pela manhã, café no Brique com a Sandra. Depois, visita à Fundação Iberê Camargo para ver a exposição do sul-africano William Kentridge! À tardinha, assistirei ao "Anna Karenina" (2012), de Joe Wright, no Guion, com a Ewelin. Tudo de bom! O finde promete!
quinta-feira, 7 de março de 2013
MÚSICA DA MELHOR: TRIBUTO AO TOM WAECHTER
Hoje, seis de março de 2013, cheguei mais tarde, porque dei aula na UNISC à noite, mas fui ao tributo que os músicos de Santa Cruz do Sul fizeram ao amigo Tom Waechter, falecido há duas semanas. O mentor da homenagem póstuma e jam foi o guitarrista, internacionalmente conhecido, Ricardinho Vogt. Atualmente, ele excursiona com o grupo de Esperanza. Ela e Ricardinho conheceram-se quando estudavam na Berkeley, nos EUA. Ela iniciou sua carreira e ele passou a tocar guitarra em sua banda. Amanhã, Ricardinho vai tocar com o Milton Nascimento, que fará uma participação especial no primeiro CD do garoto. Sendo natural de SCS, Ricardinho pôde reencontrar nesta noite um grande número de músicos, que tocaram e cantaram suas composições realizadas com o Tom Waechter. Tom, que bela homenagem! Namaste, meu bro!
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
OSCAR 2013: PALHAÇADA!
(Meu blog alcançou os 17011 acessos aos meus comentários!)
Nunca mais assisto à entrega do Oscar. Fui dormir tarde, acordei-me hoje com sono e ainda indignada com o prêmio de melhor atriz outorgado à Jennifer Lawrence! Fui assistir ao "O lado bom da vida", no qual ela atua, que é um filme cheio de clichês. Fiquei com pena de ver o Robert De Niro em um personagem tão estereotipado e insuficiente para ele! Emmanuelle Riva, do longa de Haneke, o "Amor", do alto de seus 86 anos, completados ontem mesmo, no dia na entrega, ficou a ver navios. O filme "A hora mais escura", sobre a captura de Bin Laden, da diretora Katrhyn Bigelow, recebeu "meio Oscar". Sem comentários. Quanta injustiça! (Leiam meus comentários a alguns filmes que concorreram ao Oscar 2013, abaixo!)
Nunca mais assisto à entrega do Oscar. Fui dormir tarde, acordei-me hoje com sono e ainda indignada com o prêmio de melhor atriz outorgado à Jennifer Lawrence! Fui assistir ao "O lado bom da vida", no qual ela atua, que é um filme cheio de clichês. Fiquei com pena de ver o Robert De Niro em um personagem tão estereotipado e insuficiente para ele! Emmanuelle Riva, do longa de Haneke, o "Amor", do alto de seus 86 anos, completados ontem mesmo, no dia na entrega, ficou a ver navios. O filme "A hora mais escura", sobre a captura de Bin Laden, da diretora Katrhyn Bigelow, recebeu "meio Oscar". Sem comentários. Quanta injustiça! (Leiam meus comentários a alguns filmes que concorreram ao Oscar 2013, abaixo!)
sábado, 16 de fevereiro de 2013
SOBRE O FILME 'AMOUR", DE MICHAEL HANEKE
Como não li nada sobre o último longa de Haneke, o "Amour", de 2012, para privilegiar as minhas observações e impressões estéticas, sem me influenciar por ninguém, coloquei o Piano Concerto n. 2 de Schubert para rememorar a atmosfera do filme, associada às minhas anotações, uma vez que a personagem de Emanuelle Riva, hoje com 85 anos, é uma professora de piano, que, ao longo da narrativa, apresenta um quadro de isquemia cerebral, subsequente paralisia em um dos lados do corpo e, depois, a clássica desorganização mental da pior doença degenerativa de que se tem notícias: o Alzheimer.
Tratada apenas por seu marido, inicialmente, personagem do também ator francês Jean-Louis Trintignant, do alto de seus mais de 80 anos, da metade do filme até o final, há uma, depois duas enfermeiras, revezando nos cuidados da esposa. Curiosamente, eu não imaginei que veria, em uma breve ponta, o famoso pianista francês Alexandre Tharaud na pele de um ex-aluno da professora de piano, em uma rápida visita a Paris e ao seu apartamento.
Há pouco tempo, li na revista 'Bravo', de dezembro de 2012, que Tharaud reuniu uma tropa de amigos músicos e gravou o álbum "Le Boeuf sur le Toit - Swinging Paris", um projeto seu de resgatar os famosos temas de foxtrote, que davam vida à cena cultural de Paris na década de 20. O pianista interpreta, de verdade, um tema no piano de cauda da professora, a pedido dela, a "Bagatelle, op. 126", de Beethoven. É possível encontrar várias interpretações no YouTube, para quem quiser conhecer. No decorrer do longa, ouve-se também dois dos "Impromptu", de Schubert, op. 90.
Dos filmes a que assisti de M. Haneke, além do incensado e premiado "A fita branca" ("The White Ribbon", 2009), uma fábula sobre o germe do nazismo, ele também dirigiu o "A professora de piano", de 2001, justamente com a estrondosa Isabelle Huppert, em um filme perturbador e over. Da mesma forma que Juliette Binoche já fez mais de um longa com Haneke, Isabelle Huppert volta a atuar nesse "Amour", como a filha do casal de idosos, que aparece várias vezes no apartamento, em crises de choro, decorrentes do estado débil de sua mãe.
Isabelle Huppert também deixou saudades, interpretando Madame Bovary, com o título homônimo sob a direção de Claude Chabrol, de 1991. Também a vi em um longa, com base em um sequestro real (comentei aqui no blog) nas Filipinas por parte de um grupo fundamentalista, em 2001. A direção é de Brillante Mendoza e o título é "Em nome de Deus" (2011).
Voltando ao "Amour", está mais que certo para mim que Haneke estudou Filosofia, da mesma forma que Terrence Malick. Ambos conhecem a obra de Heidegger profundamente, as ideias de finitude, de cuidado, de um eu-diante-da-morte. A personagem de Riva é profunda e excessiva, por conta da rápida evolução da doença. Ela precisa de atendimento em um hospital, mas pede ao marido que prometa a ela que não sairá mais do apartamento. Ele tenta, heroicamente, diante de todas as suas próprias limitações físicas cuidar dela. Ela recusa-se a ouvir o CD de Alexandre Tharaud, que o mesmo lhes envia de presente pelo correio. Ela recusa-se a comer...
No embate magistral entre os dois grandes atores e o modo como encaram a velhice e a morte iminente, várias pessoas saíram da sala de cinema na qual eu estava, no conjunto de salas de cinemas Itaú do Bourbon Country, em Porto Alegre. Esse crescendo de um filme europeu, com uma belíssima trilha, lento, construído basicamente a partir da atmosfera melancólica daquele casal, interrompida pela ajuda do zelador do prédio, da filha/marido e uma única vez por uma visita, o pianista francês, que já mencionei, deve gerar uma grande aflição em alguns espectadores.
Sempre minha atenção volta-se para a retirada de 'turistas de cinema'. Chamados pelo apelo dos prêmios, do diretor ou do elenco, até se dispõem a assistir a um anti-blockbuster, mas não têm cacife intelectual para suportar o ritmo, o andamento, a profundidade... Uma pena mesmo, falando como docente/educadora!
O amor resiste ou não resiste à putrefação cadavérica em vida? Por amor se suporta, por amor se antecipa a morte de alguém amado? Eis a questão que Haneke aborda, provocando seus restritos fruidores a uma reflexão e a um posicionamento. A Morte também passeia pela Arcádia e, como corolário, Amor e Morte também coabitam o mesmo templo!
Assistam a esse filme, amigos e leitores; além de precioso do ponto de vista estético e filosófico, ele é pedagógico!
Tratada apenas por seu marido, inicialmente, personagem do também ator francês Jean-Louis Trintignant, do alto de seus mais de 80 anos, da metade do filme até o final, há uma, depois duas enfermeiras, revezando nos cuidados da esposa. Curiosamente, eu não imaginei que veria, em uma breve ponta, o famoso pianista francês Alexandre Tharaud na pele de um ex-aluno da professora de piano, em uma rápida visita a Paris e ao seu apartamento.
Há pouco tempo, li na revista 'Bravo', de dezembro de 2012, que Tharaud reuniu uma tropa de amigos músicos e gravou o álbum "Le Boeuf sur le Toit - Swinging Paris", um projeto seu de resgatar os famosos temas de foxtrote, que davam vida à cena cultural de Paris na década de 20. O pianista interpreta, de verdade, um tema no piano de cauda da professora, a pedido dela, a "Bagatelle, op. 126", de Beethoven. É possível encontrar várias interpretações no YouTube, para quem quiser conhecer. No decorrer do longa, ouve-se também dois dos "Impromptu", de Schubert, op. 90.
Dos filmes a que assisti de M. Haneke, além do incensado e premiado "A fita branca" ("The White Ribbon", 2009), uma fábula sobre o germe do nazismo, ele também dirigiu o "A professora de piano", de 2001, justamente com a estrondosa Isabelle Huppert, em um filme perturbador e over. Da mesma forma que Juliette Binoche já fez mais de um longa com Haneke, Isabelle Huppert volta a atuar nesse "Amour", como a filha do casal de idosos, que aparece várias vezes no apartamento, em crises de choro, decorrentes do estado débil de sua mãe.
Isabelle Huppert também deixou saudades, interpretando Madame Bovary, com o título homônimo sob a direção de Claude Chabrol, de 1991. Também a vi em um longa, com base em um sequestro real (comentei aqui no blog) nas Filipinas por parte de um grupo fundamentalista, em 2001. A direção é de Brillante Mendoza e o título é "Em nome de Deus" (2011).
Voltando ao "Amour", está mais que certo para mim que Haneke estudou Filosofia, da mesma forma que Terrence Malick. Ambos conhecem a obra de Heidegger profundamente, as ideias de finitude, de cuidado, de um eu-diante-da-morte. A personagem de Riva é profunda e excessiva, por conta da rápida evolução da doença. Ela precisa de atendimento em um hospital, mas pede ao marido que prometa a ela que não sairá mais do apartamento. Ele tenta, heroicamente, diante de todas as suas próprias limitações físicas cuidar dela. Ela recusa-se a ouvir o CD de Alexandre Tharaud, que o mesmo lhes envia de presente pelo correio. Ela recusa-se a comer...
No embate magistral entre os dois grandes atores e o modo como encaram a velhice e a morte iminente, várias pessoas saíram da sala de cinema na qual eu estava, no conjunto de salas de cinemas Itaú do Bourbon Country, em Porto Alegre. Esse crescendo de um filme europeu, com uma belíssima trilha, lento, construído basicamente a partir da atmosfera melancólica daquele casal, interrompida pela ajuda do zelador do prédio, da filha/marido e uma única vez por uma visita, o pianista francês, que já mencionei, deve gerar uma grande aflição em alguns espectadores.
Sempre minha atenção volta-se para a retirada de 'turistas de cinema'. Chamados pelo apelo dos prêmios, do diretor ou do elenco, até se dispõem a assistir a um anti-blockbuster, mas não têm cacife intelectual para suportar o ritmo, o andamento, a profundidade... Uma pena mesmo, falando como docente/educadora!
O amor resiste ou não resiste à putrefação cadavérica em vida? Por amor se suporta, por amor se antecipa a morte de alguém amado? Eis a questão que Haneke aborda, provocando seus restritos fruidores a uma reflexão e a um posicionamento. A Morte também passeia pela Arcádia e, como corolário, Amor e Morte também coabitam o mesmo templo!
Assistam a esse filme, amigos e leitores; além de precioso do ponto de vista estético e filosófico, ele é pedagógico!
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
'O SOM AO REDOR", FILME NACIONAL PREMIADO!
Comentei nos posts anteriores dois dos sete filmes a que assisti em Porto Alegre, de 7 a 11 de fevereiro ("Lincoln" e "Django"). Agora, vou comentar as minhas impressões do filme nacional a que fui conferir, "O som ao redor", do pernambucano Kleber Mendonça Filho, lembrando que não leio nada antes de assisti-lo/os; somente verifico os dados da ficha técnica dos filmes e de eventuais prêmios que os mesmos tenham recebido em mostras e festivais. Esse longa destacou-se como o melhor filme dos Festivais de Cinema de Gramado e do Rio, em 2012. Eu não sabia quem era o Kleber Mendonça Filho, até descobrir que esse era o seu primeiro longa. O roteiro de "O som ao redor" é do próprio diretor. Ao iniciar-se o filme, percebe-se, com magnitude, os sons e ruídos dos locais em primeiro plano. Não sei que tecnologia a equipe utilizou, mas é de impressionar o áudio e o cuidado na captação dos detalhes do entorno. Há uma espécie de uma 'dialética sonora': ora o foco é o topos do primeiro plano; ora é o entorno. Não é casuístico, mas faz parte do projeto estético da concepção do filme. Fora esse aspecto mais técnico, que dá força ao próprio título, a tipologia de personagens é, genuinamente, nordestina. Não conheço o Nordeste, apenas uma capital do Norte, embora eu já tenha viajado bastante para fora do Brasil. Não é propriamente negligência; é apenas falta de vontade de ir para o Nordeste, em função dos valores exorbitantes dos voos para lá e de sua rede hoteleira. O fato é que, não conhecendo o Nordeste, passei um bom tempo tentando identificar a cidade na qual a narrativa se ambientava. Embora eu soubesse que Mendonça Filho é pernambucano, sei lá, a cidade do filme poderia ser João Pessoa ou Fortaleza. Era o Recife, todavia, e parece que a zona mais abastada da capital, em função do nível dos condomínios, dos múltiplos empregados, dos carros que circulavam e da segurança local. São algumas histórias que se entrecruzam, que dão substância ao universo ficcional. O personagem mais velho e rico é dono de engenho, acredito que herdeiro de engenho. Sua família, filhos e netos, ainda vivem das lembranças da abastança de seu passado. Há uma cena em que o neto vai com uma nova namorada visitar o avô, que ora está na casa da fazenda, ora se encontra no bairro do Recife, em seu apartamento que mais parece um bunker. Nessa cena, o neto mostra uma ruína para a namorada, um prédio decadente de um antigo cinema, em um povoado. Um antigo povoado que possuía um cinema? A degradação do edifício é a representação da própria decadência de um tipo de economia, baseada na lavoura da cana de açúcar, que prosperou muito e gerou riqueza no Nordeste, aviltando o 'olho grande' dos estrangeiros, especialmente os holandeses. Com o ciclo do ouro nas Minas Gerais, a produção de açúcar começou a perder fôlego no mercado, sem falar na maquinaria toda que era importada e cara. A cana de açúcar, hoje, está mais direcionada à geração de combustível, não ao açúcar. Além dos sons incidentais, há uma personagem, mãe de família, que não consegue dormir por conta do cachorro do vizinho, que late e uiva todas as noites. O nível de estresse dessa mulher pode ser medido pelos baseados que ela fuma, não raras vezes, e os compra, inclusive, de um vendedor de bombas d'água fake. Na mesma rua, reside, em um elitizado condomínio, o tal senhor de engenho, dono de quase todos os imóveis ali naquela quadra. Na metade do filme, novos seguranças 'avulsos' aparecem do nada e passam a arregimentar os moradores, para que paguem um determinado valor para a manutenção da segurança permanente de todos. Eles montam uma espécie de QG em uma esquina e fazem a guarda, dia e noite, aos moldes de uma milícia. Eles têm a aparência de "jagunços", um perfil bem estereotipado que, certamente, fazia parte do imaginário do diretor. Não sei quem são os atores e atrizes. Nunca os vi atuar. De qualquer modo, são convincentes e engendram uma certa desconfiança no espectador mais atento. O final do longa é surpreendente! Vale a pena conferir mais um expoente do cinema nacional premiado no exterior e nas mostras de cinema nacionais. Fiquei admirada com o filme! O cinema brasileiro é, para mim, motivo de orgulho, sem querer ser piegas ou ufanista. Entretanto, é uma pequena parcela da população que lhe dá audiência e dela faz fervor!
"LINCOLN", DE STEVEN SPIELBERG
No post anterior (abaixo), comentei o longa de Q. Tarantino, o "Django livre" (2012), e estabeleci uma interconexão entre os dois roteiros. O primeiro transforma o lendário Django em um negro, escravo livre no Sul dos EUA. O tema de fundo é a escravidão negra. No segundo longa, "Lincoln" (2012), de Steven Spielberg, com o soberbo Daniel Day-Lewis ("Meu pé esquerdo" e "Sangue negro") no papel principal, o tema de fundo é também a escravidão negra, associada às contradições entre o Norte industrializado e o Sul agrário; indo mais além, retrata a constituição dos Estados Confederados, que se rebelaram contra a União e protagonizaram a Guerra de Secessão nos EUA, entre 1861 e 1865, ano em que, já em seu segundo mandato, Lincoln é assassinado. O filme é bastante intimista e desenha um presidente sensível, envergonhado com a escravidão no Sul, de posse de uma escuta fina ao ouvir as queixas de soldados e cabos negros, no front da Guerra Civil e, sobretudo, habilidoso nas manobras políticas para obter os votos suficientes à aprovação e sanção da Emenda Constitucional 13, que emancipava os negros no país (havia quatro milhões deles na época). Notei que várias pessoas se retiraram da sala, ao longo da projeção, especialmente jovens. Para aquele que desconhece a História dos EUA e o problema da escravidão negra, o filme pode ser mesmo enfadonho, ainda que o brilho da atuação de Daniel Day-Lewis, Sally Field e Tommy Lee Jones seja inatacável. Uma vez, quando Gore Vidal ainda era vivo, ele concedeu uma entrevista em sua casa no litoral de Salerno, Itália, e comentou com um jornalista, não me recordo quem, que o presidente norteamericano Hoover, no poder durante a Grande Depressão, iniciada com a crise na agricultura dos EUA e com o crack na bolsa de valores de Chicago, em 1929, deixara escapar que o que faltava para o país naquele momento era um grande poeta. Lincoln teve, no período em que governou, negociando o fim da escravidão negra e a rendição dos estados confederados sulistas, que mantinham suas forças contra o contingente militar da União, um grande escritor como representante da voz da América, talvez o maior deles em língua inglesa, com sua força poética: "Leaves of Grass" (Folhas da relva), de Walt Whitman, publicado em 1855. Passados 158 anos do lançamento desse livro de poemas em prosa, em um momento pré-Guerra Civil norteamericana, dei-me conta de que não houve, no longa de Spielberg, um resgate do monumento literário de Whitman, o que teria sido um ganho para o roteiro. Também nada sobre o livro abolicionista "A cabana do Pai Tomás", de Harriet Stowe, publicado entre 1851 e 1852. A seguir, deixo aos leitores uma tradução de um poema de Whitman para o Português, do poeta e tradutor Adriano Scandolara, de Curitiba, meu amigo querido, publicado no blog literário "Escamandro":
Escuto a América a cantar
Escuto a América a cantar, as várias canções que escuto;
O cantar dos mecânicos – cada um com sua canção, como deve ser, forte e contente;
O carpinteiro cantando a sua, enquanto mede a tábua ou viga,
O pedreiro cantando a sua, enquanto se prepara para o trabalho ou termina o trabalho;
O barqueiro cantando o que pertence a ele em seu barco – o assistente cantando no deque do navio a vapor;
O sapateiro cantando sentado em seu banco – o chapeleiro cantando de pé;
O cantar do lenhador – o jovem lavrador, em seu rumo pela manhã, ou no intervalo do almoço, ou ao por-do-sol;
O delicioso cantar da mãe – ou da jovem esposa ao trabalho – ou da menina costurando ou lavando – cada uma cantando o que lhe pertence, e a ninguém mais;
O dia, ao que pertence ao dia – De noite, o grupo de jovens, robustos, amigáveis,
Cantando, de bocas abertas, suas fortes melodiosas canções.
I Hear America Singing
I hear America singing, the varied carols I hear;
Those of mechanics—each one singing his, as it should be, blithe and strong;
The carpenter singing his, as he measures his plank or beam,
The mason singing his, as he makes ready for work, or leaves off work;
The boatman singing what belongs to him in his boat—the deckhand singing on the steamboat deck;
The shoemaker singing as he sits on his bench—the hatter singing as he stands;
The wood-cutter’s song—the ploughboy’s, on his way in the morning, or at the noon intermission, or at sundown;
The delicious singing of the mother—or of the young wife at work—or of the girl sewing or washing—Each singing what belongs to her, and to none else;
The day what belongs to the day—At night, the party of young fellows, robust, friendly,
Singing, with open mouths, their strong melodious songs.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
CINEMA EM PORTO ALEGRE: "DJANGO LIVRE", DE Q. TARANTINO
Chegando a 16300 leituras de meus posts neste blog, o que me deixa satisfeita, vou dar prioridade ao "Django livre" (preferiria o título "Django desacorrentado"), de Quentin Tarantino, dos sete longas a que assisti em Porto Alegre entre os dias 8 e 11 de fevereiro, porque entrará em cartaz em Santa Cruz do Sul na sexta, dia 15 de fevereiro. Não leio comentários críticos de espécie alguma quando assisto a um longa, a não ser os dados técnicos do mesmo, para não me influenciar, até porque aprecio postar o meu próprio comentário, a partir de minha percepção bem particular, visão de mundo e experiências estéticas. Li apenas um pequeno comentário exagerado do Juremir Machado da Silva, em sua página do Facebook, elogiando o filme como "o melhor filme de todos os tempos". Não concordo com isso, mas, de qualquer forma, ele é bom, cínico e violento. Há que se assistir a esse longa com cuidado, porque transformar o lendário Django em um negro liberto e 'caçador de cabeças' pode parecer agressivo para os afrodescendentes, antropólogos, sociólogos, historiadores e outras pessoas sensíveis ao problema da escravidão. Assisti com o meu falecido pai, que era fanático pelo gênero western, a uma das versões de Django, com o Franco Nero. Era meio 'pastelão' e lembro-me que o detestei. Nem vou procurar agora dados sobre essa versão porque, na verdade, o que me interessa no "Django Unchained" (2012), de Quentin Tarantino, são muito mais alguns pontos-chave nos quais ele toca em seu filme, que propriamente questionar por que o Django dele é um negro, porque, enquanto liberto, se torna um 'caçador de cabeças' e por que retorna a um grande latifúndio do Sul para salvar da escravidão sua esposa, que aprendera Alemão com uma antiga proprietária e goza de certa fama por isso. Tampouco sei se o ator austríaco Christoph Waltz já é um 'ícone' da cinematografia de Tarantino, mas não pude deixar de relembrar a cena inicial de "Bastardos inglórios", de 2009, em que o mesmo encarna um oficial da SS. Lá está o Waltz também no preâmbulo de "Django Livre", em um carroção, apresentando-se como cirurgião-dentista por onde passa. Nesse momento, aparece o ator Jamie Foxx, na pele de um escravo. Só o reconheci em função de seu personagem em "O solista", de 2009, em que contracena com Robert Downey Jr. Já Waltz - estrela de "Bastardos inglórios" ("Sacanas sem lei", em Portugal. Vocês sabiam desse título?), que lhe valeu vários prêmios de Melhor Ator Coadjuvante em 2010 (Globo de Ouro, Oscar e Bafta), além de Melhor Ator em Cannes, um ano antes -, também protagonizou "Água para elefantes" e "Deus da carnificina", ambos de 2011, que já comentei neste blog. As contradições entre o Norte industrializado e capitalista nos EUA e o Sul altamente agrário, legitimador da escravidão, poderiam me levar agora a comentar o longa "Lincoln" (2012), de Steven Spielberg, porque os roteiros dos dois estão entrelaçados. "Django livre" inicia-se bem antes da Guerra da Secessão (1861-1865). Ele se passa no Sul latifundiário e Leonardo Dicaprio dá vida a um senhor de escravos vaidoso, abastado e violento. Há uma cena em que, após um jantar em sua propriedade, os personagens de Waltz e Foxx, já parceiros como 'caçadores de cabeças/prêmios', o latifundiário abre um baú e retira um crânio de um antigo escravo, que havia servido seu avô e pai - já falecidos. Ele demonstra, argumentativamente, que, de acordo com o formato do crânio, havia ali a predeterminação de um padrão de comportamento e julga que o encontraria no crânio de qualquer outro negro, certamente no da esposa de Django e no do próprio também. A Frenologia, fundada por Franz Joseph Gall (1758-1828) relacionava, então, a forma e dimensão do crânio com o comportamento. {Quem acompanhou a campanha de Serra em SP, no ano passado, ficou assombrado quando comentou que implementaria um programa 'preventivo' no estado para identificar potenciais criminosos, junto à Fase e outras instituições, com base no argumento dessa "ciência". Sorte dos paulistas, e de todos nós, que o Serra não vingou! É, no mínimo, bizarro e apavorante o discurso comprometedor de um político dessa projeção}. Com base na Frenologia, Cesare Lombroso (1835-1909) legitimou a classificação de criminosos, a partir de características somáticas. Em se tratando da escravidão, pano-de-fundo de "Django livre", o tráfico de escravos foi proibido em 1815. O contrabando de escravos perpetuou-se até 1860, um ano antes da Guerra da Secessão, que durou cinco anos, e acabou por emancipar, pelas mãos de Lincoln, quatro milhões de escravos nos EUA (500 mil já eram livres). (Faltou, em meu entender, um personagem batizado de Thomas no longa de Tarantino, que faria uma remissão direta ao livro da grande abolicionista Harriet E. Stowe, publicado bem depois do período que o filme retrata, somente em 1852, com o título de "A cabana do pai Tomás"). Uma curiosidade: o próprio Tarantino aparece em uma ponta, nada raro, ao final, como um feroz gangster, que acaba morto, o que provoca a sua total dissolução, porque carregava naquele instante dinamites. Nesse ponto do filme, fiquei pensando na crítica velada que Tarantino faz à democracia estadunidense, à sua política de ocupação do Iraque e do Afeganistão, perdurando por anos, e à sua luta pelo desarmamento dos cidadãos, que Obama vem, timidamente, tentando operacionalizar em seu segundo mandato. O filme é uma barbárie (o final faria inveja à matança da "Odisseia", de Homero), ou bárbaro, se preferirem, com uma bela trilha sonora ao fundo, mixada por negros do rap e do hip-hop, ao invés dos clássicos de faroeste. Ama o Django, de Tarantino, ou o odeia, mas não percas de vista a História, o genocídio que ocorreu em todos os países que adotaram a vergonhosa escravidão negra como fundamento econômico e alimentaram, ao longo de gerações e gerações, o preconceito, a discriminação e a violência. Sem a anacrônica interpretação whig para fazer a leitura do "Django livre", de Tarantino, OK? Obrigada pela atenção! (próximos comentários, acima deste post, no blog: "Lincoln", "Amor", "O som ao redor" e "Tudo o que desejamos", nesta ordem. Não consegui assistir ao documentário sobre o Jorge Mautner e ao filme alemão "Bárbara", que não entrou em cartaz, conforme anunciei no post abaixo deste).
sábado, 2 de fevereiro de 2013
PRÓXIMOS FILMES EM PORTO ALEGRE
(Hoje, meu blog atingiu 16 mil leituras aos meus posts!)
Os próximos longas sobre os quais escreverei em meu blog, a que serão assistidos em Porto Alegre, de 7 a 10 de fevereiro são: "O som ao redor" (nacional e premiado), em primeiro lugar, e, em segundo, o documentário sobre o Mautner, "Jorge Mautner, o filho do holocausto". Em seguida, e nesta ordem, "Amour", "Django Livre", "Lincoln", "Barbara", "Os miseráveis" e o que está quase saindo de cartaz "Tudo o que desejamos". Vamos lá, amigos de Porto Alegre, quem vai a que sessão comigo? Rebeca Ferreira Andreolla e Nândria Oliveira?
Os próximos longas sobre os quais escreverei em meu blog, a que serão assistidos em Porto Alegre, de 7 a 10 de fevereiro são: "O som ao redor" (nacional e premiado), em primeiro lugar, e, em segundo, o documentário sobre o Mautner, "Jorge Mautner, o filho do holocausto". Em seguida, e nesta ordem, "Amour", "Django Livre", "Lincoln", "Barbara", "Os miseráveis" e o que está quase saindo de cartaz "Tudo o que desejamos". Vamos lá, amigos de Porto Alegre, quem vai a que sessão comigo? Rebeca Ferreira Andreolla e Nândria Oliveira?
domingo, 20 de janeiro de 2013
CINEMA EM PORTO ALEGRE: "ELEFANTE BRANCO", DE PABLO TRAPERO (PARTE FINAL)
Por fim, assisti com uma amiga ao longa espanhol/argentino de Pablo Trapero, "Elefante Branco" (2012). Além de Ricardo Darín, no papel de um padre progressista, vivendo junto à comunidade de Villa Virgen, em Buenos Aires, o próprio Trapero é um cineasta interessante, o que me atraiu para o filme. Já assisti de sua safra ao "Leonera" (2008) e ao "Abutres" (2010). O contundente longa de Trapero aborda a vivência de três padres, ligados à Diocese da capital portenha, em uma das favelas mais periculosas da capital, em que há uma disputa entre dois grupos do narcotráfico. Percebe-se, no percurso da narrativa, a corrupção que assola os policiais, que entram na comunidade para buscas e enfrentamentos. Padre Julian é vivido por Darín, Padre Nicolás, um belga, por Jérémie Renier, e a assistente social da comunidade por Martina Guzmán. Inclusive há um envolvimento afetivo entre Nicolás e Luciana, o que faz com que o filme fique com um ritmo mais tenso. Conheci uma favela, apenas sua entrada, em 2008, quando fui a Estación de Autobus, no Retiro, e vi aquela imensa comunidade instalada defronte à entrada principal da mesma. Um antigo amigo que não vejo há anos, cientista político, falou-me desta favela, a Villa 31, e me contou sobre os bolivianos, que vêm para Buenos Aires à procura de melhores condições de trabalho e vida, e acabam ali, na 31. Há um milhão e meio de bolivianos em Buenos Aires e quatro cartéis na Cidade Autônoma de Buenos Aires. Os cartéis são comandados pelos dominicanos, paraguaios, peruanos e bolivianos. Fora de Buenos Aires, estão os mexicanos e os colombianos. A favela na qual as locações do filme ocorreram é chamada de Villa Virgen. Não consegui descobrir se Villa Virgen e Villa 31 são a mesma. A referência ao "elefante blanco" é por conta de um grande prédio branco, cuja construção está inacabada, na qual deveria funcionar um hospital para a comunidade. É aí nesta área pobre, de extremas desigualdades sociais e constante violência e morte que o longa se passa. Como a Argentina é produtora e exportadora de cocaína, além de importar a pasta base, não haveria como não encontrarmos o crime organizado e os 'comandos' nas favelas de Buenos Aires. Sobre o que acontece com os padres e seu envolvimento com as disputas internas, assistam ao filme. Valeu a atenção!
MAIS CINEMA EM PORTO ALEGRE: "A FILHA DO PAI", DE DANIEL AUTEUIL
(2ª parte)
Ainda no final de semana em Porto Alegre, assisti na companhia de amigos, especialmente a Rebeca e a Camila, ao longa francês "A filha do Pai", com direção do grande e carismático ator Daniel Auteuil, cujo roteiro foi adaptado do romance homônimo de Marcel Pagnol. Como eu havia assistido aos filmes em que ele atua, "A vingança de Manon" e "Jean de Florette", ambos dirigidos por Claude Berri, quem foi conferir a estreia de Auteuil na direção já estava relativamente familiarizado com o leitmotiv da ficção de Pagnol. O pai da trama, um poceiro viúvo, trabalhando decente e duramente no Sul da França para manter cinco filhas, é vivido pelo próprio diretor. Sua filha mais velha, a personagem que desafia as severas convenções sociais e morais da época, é a atriz e modelo catalã conhecida pelo quarto filme da série "Piratas do Caribe", Àstrid Bergès-Frisbey, e em filmes para a TV francesa que não chegaram até nós. Eu queria mesmo conferir a direção de Daniel Auteuil em sua estreia. Demorei para assisti-lo por incompatibilidade nos horários das sessões desse longa com os meus em Porto Alegre. A personagem Patricia Amoretti, filha do poceiro vivido por Auteuil, envolve-se com um rapaz da aldeia mais velho, rico e piloto da Aeronáutica francesa, à beira da eclosão da guerra. Considerei o envolvimento entre ambos muito rápido e logo a menina já aparece grávida em cena. É aí que os holofotes se desviam para o pai, menos para a filha que vive o drama de ser solteira, pobre, de estar grávida e de ser o arrimo da família. O pai é obsessivo pela autodeclaração permanente de que é pobre, porém honesto, de que é pobre, porém honrado, de que é pobre, porém um pai amoroso. Ele manda a filha embora para não servir de exemplo às quatro irmãs mais novas; a mesma vai viver com sua tia paterna, que já havia passado pela mesma situação quando jovem. Passados os noves meses e talvez mais uns três, o pai visita a filha na propriedade da irmã. Vê-se um lindo bebê em um cesto, batizado de André, e o avô, naquele momento, altera a sua conduta para com a filha e a sua posição sobre o caso. Leva-a de volta para sua casa, juntamente com o neto. Desde então, sofre assédio dos avós paternos do bebê, que estavam convictos de que seu filho, o pai da criança, havia morrido no front. O jogo antitético do bem e do mal, do pobre e do rico, do honrado e do desonrado fica mais forte nas falas das personagens, nesta terceira parte do longa. A avó paterna é interpretada pela grande atriz francesa, Sabine Azéma, esposa e antiga parceira dos projetos de Alain Resnais. A avó é a vilã da narrativa que sabota o contato de seu filho, quando vai para a guerra, com a menina pobre com a qual ele se envolveu. Tão-logo os pais recebem um comunicado oficial de que o filho militar havia morrido em combate, tentam se aproximar do neta, sob a custódia do poceiro. Em um dos encontros de aproximação entre as famílias, o piloto reaparece e pede a filha do poceiro em casamento, além de assumir de imediato o filho. O poceiro agradece por reaver a honra da família. Um belo filme, com uma história de amor idealizada, porém, a que se ter cuidado para não internalizar aqueles valores, daquela sociedade, daquele período histórico e social, como 'corretos'. Também interpretar o contexto do filme de modo anacrônico, à la interpretação whig, não vai nos ajudar a compreender melhor a trama.
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