sábado, 7 de julho de 2012

SOBRE O AMOR, A AMIZADE E OUTRAS FILIGRANAS

(Alcançando hoje 9 mil acessos aos meus textos do blog!)

"De todos os defeitos de caráter, a meu ver, o pior deles é a avareza ou usura. É o único que, verdadeiramente, me dá nojo!" (Alma Welt)

Lísias, no diálogo homônimo de Platão, comenta, em determinado momento da discussão sobre o amor, que "não se deve prestar favores a quem se ama". Eu já havia lido algo semelhante em outro diálogo platônico, mas, devo admitir, que não conhecia o texto "Lísias", que procurei e encontrei para o Fabiano Felten, que está com sua dissertação de mestrado em andamento e necessitado dessa obra para suas reflexões. Sou uma pessoa de bom coração e generosa, embora cética e agnóstica, mas não aprendi com meus relacionamentos anteriores e não aprendo, não consigo aprender mesmo. Continuo me doando, colaborando, amparando, correndo atrás e não meço esforços para ajudar meus amigos e a quem amo. O problema são as decepções subsequentes de parte dos que não nos valorizam, dos que usurpam o nosso nome, dos que não têm moral conosco, que se lixam para a vida alheia. Fiz 51 anos nesta semana e tive muitas alegrias com os meus verdadeiros amigos, os que estão próximos e os distantes. Laços de amizade e laços de Amor, em meu entendimento, construídos reciprocamente, têm uma representação semelhante a uma casa de joão-de-barro, cuja construção testemunho há três meses no alpendre de minha janela do quarto: o macho e a fêmea, juntos, sempre juntos, trabalham sem cessar, mas é preciso que haja chuva e condições metereológicas favoráveis para que eles possam deslocar terra molhada para o projeto de lar. Um relacionamento desafortunado é aquele de uma só via, unilateral, em que apenas um se doa, um só cultiva, um só cuida e apenas um antevê o futuro. Isso pode ocorrer em relações amorosas e de amizade, porque o Amor é um só e ele encarna entre amigos e entre amantes. A forma de modulá-lo e a produção de linguagem que cada caso exige fica por conta dos agentes envolvidos. Sou uma Amiga, com maiúscula, que fala em Amor e que age com Amor. Nesta semana, ouvi de vários de meus amigos mais antigos que eles me amam. Do mesmo modo, respondi-lhes com a mesma matéria-prima e, mais uma vez, confirmei que também lhes dedico Amor: validação de afetos! Pode parecer piegas este meu texto de hoje; todavia, é preciso que se produza linguagem sobre isso e que ela  mesma exorcize as mágoas e decepções que trazemos dentro de nós, para que novas pessoas sejam abençoadas pela nossa existência - única e insubstituível! Nada externo a nós pode nos ajudar, nada externo pode amenizar a violência de nossa tristeza e desesperança, senão o fizermos por nós mesmos, com uma força interna sublime e ancestral. Homo homini lupus, aquele que é o meu Lobo, que é o teu também, quem sabe, que aprenda a ser melhor pessoa, a cultivar amigos verdadeiros e a doar-se também! 

terça-feira, 3 de julho de 2012

"PARIS: A FESTA CONTINUOU", LIVRO DE ALAN RIDING, PUBLICADO NO BRASIL EM 2012

(texto revisado)
Terminei em junho a leitura do livro de Alan Riding, jornalista inglês, filho de brasileiros, mas residente em Paris. O Diário Regional de Santa Cruz do Sul publicou uma entrevista com o autor na semana passada. Pelo título, que faz alusão à obra de Hemingway, Paris é uma festa, não se tem muita certeza do conteúdo do texto. Todavia, através do subtítulo, "a vida cultural durante a ocupação nazista, 1940-44" já se antevê que há resultados de pesquisa documental e de entrevistas acerca de que vida cultural era possível desenvolver e desfrutar durante a permanência dos nazistas na França, quando da vigência do Estatuto Judaico, promulgado em outubro de 1940, que proibia que judeus trabalhassem na indústria cinematográfica, por exemplo. O livro contém uma tese, a de que a maior parte dos intelectuais e artistas, que alegaram, após a libertação de Paris, participar da Resistência Francesa, a rigor, não participaram do movimento, sequer das operações de salvamento, de sabotagem e de espionagem. Lendo o livro de Riding, um apaixonado pelo período da ocupação de Paris, fiquei enojada com a posição antissemita de artistas e escritores renomados mundialmente. O historiador Philippe Ariès, na época simpatizante do Action Française, um dos bizarros grupos fascistas da França, teria dito ao colega de área Jean-Louis Crémieux-Brillac, ligado a um grupo de esquerda da Sorbonne, que ele era "capaz de identificar um judeu pelo cheiro!". O fundamentalismo e o antissemitismo é que têm um cheiro fétido, em meu entendimento. Lamentável o comentário de Ariès. Céline, médico e escritor, autor dos maravilhosos livros Viagem ao fim da noite e Morte a crédito, que povoaram a minha juventude de imagens sórdidas, era, sim, discaradamente, um colaboracionista, transformando sua voz em "uma metralhadora antissemita" (p. 35) assim que retornou de uma viagem à União Soviética em 1936. Foi aí que ele aderiu ao fascismo. André Gide reagiu com incredulidade ao ler os panfletos que Céline começou a publicar na França, de caráter altamente discriminatório. O mesmo Gide também descreveu a perseguição aos estrangeiros como um "espetáculo estarrecedor, assinalando que o comportamento da França era imoral" (p. 45). Heinrich Mann, o irmão de Thomas Mann, judeus alemães, foi enviado para o campo de concentração francês Le Vernet, conhecido como o mais violento de todos, no qual os prisioneiros passavam fome e eram tratados de modo bárbaro. Koestler, em suas memórias, descreveu os tormentos passados em Le Vernet, em um livro intitulado Escória da terra. André Malraux foi ferido e capturado, mas conseguiu escapar dos alemães. Louis Aragon recebeu quatro medalhas por bravura e também escapou de ser capturado pelos alemães. A Luftwaffe conquistou a supremacia no espaço aéreo e Saint-Exupéry perdeu vários pilotos de sua esquadrilha. A ocupação de Paris ocorreu silenciosamente e a capital perdeu 60% de sua população. O chefe de Estado francês Pétain dirigiu-se à nação pelo rádio e sugeriu que a derrota francesa, contra a Alemanha, era culpa dos próprios franceses, que foram negligentes. Daí, instalou seu governo em Vichy, uma estância termal no centro da França, nomeou Laval como seu vice e abdicou do lema "Liberdade, igualdade e fraternidade" para adotar a cruzada fascista "Trabalho, família e pátria" (p. 67). Hitler, em sua única visita à cidade-luz, em 23 de junho de 1940, encontrou uma capital vazia. Encantou-se com a Ópera de Paris e por três horas passeou, acompanhado de Albert Speer, seu principal arquiteto, e de Arno Brecker, seu escultor favorito, por uma Paris vazia e silenciosa. Também visitou a Catedral de Notre-Dame, o Panthéon e a tumba de Napoleão em Les Invalides. Há, enfim, passagens muito interessantes no livro de Riding sobre o sequestro de obras de arte da França e sobre seu salvamento e saída de território francês, por força do trabalho bem-articulado da Resistência Francesa. Por fim, a parte da obra que mais me cativou foi quando Alan Riding começa a descrever as restrições ao trabalho dos judeus na França ocupada, especialmente em Paris,  no segmento do cinema. O poeta Jacques Prévert teria alertado um ex-produtor de um estúdio cinematográfico de Berlin, enviado pelo Partido Nazista a Paris, Alfred Greven, que sua causa era perdida porque "não se pode filmar sem eles (os judeus). Veja Hollywood!" (p. 227). Os judeus representavam cerca de nove mil trabalhadores na indústria cinematográfica dos 60 mil envolvidos na época. Greven acabou contratando um roteirista judeu, de sobrenome Dreyfus, para escrever roteiros para quatro filmes de sua empresa, a Continental Films, que produziu onze longas em 1941 (p. 229). Pensando em meus antigos amigos judeus, amizades bem antigas travadas em Porto Alegre, tenho a certeza de que eu não teria a formação intelectual que tenho não fossem os textos, os comentários literários, as indicações de filmes e as idas a concertos com meus amigos de origem judaica. Seu universo cultural fez diferença em minha vida. Leiam o livro e regozijem-se! Um bom presente para o  Dia do Amigo ou Dia dos Pais.

sábado, 30 de junho de 2012

POEMAS RECENTES - ENDGAME

Morte  não  é a  perda  da Vida.    O  morrer den-
 tro de nós, enquanto vivemos, é que é Morte! (Rô)


À ESPERA
                                                                            

Meu querer tem teu nome
Teu nome não prescrito em mim
Porção de ti que aplaca a minha fome
Vem me encontrar: um início depois do fim.

(Em casa – 25.05.12)

EPISTEMOLOGIA

Guardiã da Razão,
Minha Filosofia não sabe o que me indicar
Cala a boca da minha Dor,
Mas é a Memória quem desobedece
E o teu nome sempre me traz!

(Em casa – 26.05.12)

PAUSA
                                          

Seguro e confiante,
Volta a acolher-me!
- O tempo cingido em mim, à espera...

(Em casa - 29.05.12) 


MEIO SONETO DE MORTE

(...) 

Apaziguava  o meu sexo árido, que gritava pelo teu há muitos meses.
Não ouvia, nunca ouvia o meu triste nome
Ser enunciado pela tua boca 
nesses infindos meses.

Macero minha vida e o sofrimento que nela jaz
Ainda canto e toco ao violão o meu Fado funesto
Para este Amor ser soterrado 
e junto enterrar a fome voraz deste sofrimento.

(Em casa - 30.06.12)




MELANCHOLIA II

Galeno e Aristóteles
Dürer, Burton e Freud
Melancolia e gênio
Melancolia e mania
Bílis negra a atormentar-me
Obriga-me, pois, outra tornar-me
Freud, Burton e Dürer
- Quem vai salvar-me de minha ira?

(Em casa - 30.6.12)



segunda-feira, 25 de junho de 2012

"PROMETHEUS": UM FILME EQUIVOCADO, QUE MACULOU A MINHA NOITE!

Ontem, domingo, fui assistir, no cinema aqui de Santa Cruz do Sul, ao longa de Ridley Scott, ficção científica intitulada de "Prometheus", longínqua referência ao Prometeu, da mitologia clássica, que roubou o fogo de Zeus para presenteá-lo à natureza humana. Todavia, estamos, mesmo a contragosto, diante do gênero  ficção científica, no qual Scott colaborou para sofisticar, há mais de três décadas ("Alien", de 1979, e "Blade Runner", de 1982). Na verdade, não li crítica alguma, de modo sistemático, para não desistir da empreitada de assistir a essa ficção científica de Ridley Scott, mas, confesso, eu já sabia que a mesma estava sendo depredada pelos cinéfilos, ainda que contando com Michael Fassbender (de "Shame"), Noomi Rapace (da trilogia sueca "Millennium") e Logan Marshall-Green (de "O grande ataque"), além da bela Charlize Theron (de "Vidas que se cruzam").
O que me vem à mente hoje, já com um certo distanciamento do objeto, é: - Como um grande cineasta britânico produziu e dirigiu um longa tão irregular, repleto de equívocos e com graves problemas de roteiro? Ficamos indignados com a experiência, que não teve nada de estética, e conversamos uns bons 40 minutos em casa sobre os problemas que verificamos na trama, de ordem técnica e de roteiro. Os cenários inóspitos e as criaturas fisiológicas, também criadas pelo mesmo HR Giger, de "Alien", não salvam o longa-metragem do equívoco e provocam uma fulminante comparação com a inventividade do 'sétimo passageiro' e com a natureza lúdica dos replicantes de "Blade Runner", tendo em vista o   andróide pernóstico de "Prometheus", encarnado por Michael Fassbender, que se regozija por ressuscitar línguas mortas, por ter erudição e se confrontar com os doutores e pesquisadores da expedição paga por um bilionário senil, esperançoso em obter algumas respostas metafísicas e ter sua vida prolongada pelos supostos 'criadores', a quem todos procuram. 
Se fosse um 'remake' de "Alien", em 3D, certamente seria um filme melhor! Desculpa-me, Ridley Scott, mas o senhor, do alto de seus mais de 70 anos, 'saiu da casinha' desta vez! 

sábado, 23 de junho de 2012

"À ESPERA DE TURISTAS", LONGA ALEMÃO DE ROBERT THALHEIM

O segundo filme a que assisti (o primeiro foi o do Polanski, no comentário anterior a este!), na mesma tarde e na mesma sala do Bourbon Country, em 17 de junho, foi a produção anglo-polaco-germânica, "Am Ende kommem", do diretor Robert Thalheim.
O roteiro é muito interessante e deveria ser assistido e discutido por professores e acadêmicos das áreas da História e das Ciências Sociais, uma vez que trata de um período da história ocidental do século XX, que deixou trágicas cicatrizes na natureza humana. Sven (Alexander Fehling) é um cara de Berlin que está na idade de cumprir o serviço militar. Como na Alemanha é possível optar por trabalho comunitário, Sven candidata-se a uma vaga na cidadezinha de Oswiecin, a antiga Auschwitz, Sul da Polônia, para trabalhar no Hostel que fica localizado junto ao antigo campo de concentração da Alemanha nazista. Chegando lá, Sven, na verdade, tem de fazer o papel de tutor de um polonês  de quase 90 anos, Krzeminski (Ryszard Ronczewski), que vive no alojamento junto ao campo. Ele não é bem-acolhido pelo idoso, que apresenta dificuldades para caminhar, para se deslocar e para manter a sua rotina diária, tarefas desempenhadas ao longo de oito horas diárias pelo rapaz alemão. Além de Sven ser motivo de chacota e discriminação, por ser alemão, em um pub da cidade, logo em seus primeiros dias, ele se sente oprimido pelo idoso a quem tem de se submeter. Em uma tarde, acompanhando-o a uma palestra em outra localidade, Sven descobre que se trata de um judeu sobrevivente do campo de Auschwitz. A partir de alguns meses, a relação deles começa a se constituir e o idoso torna-se dependente das tarefas de Sven, especialmente para fazer sessões de fisioterapia,  bem como    passa a demonstrar um certo afeto pelo rapaz. Nesse ínterim, Sven envolve-se com uma jovem polonesa, que é guia turística na cidade, e passa a alugar um quarto em seu pequeno apartamento. O relacionamento do alemão, que partiria no final daquele ano de volta a Berlin, com Anya, que está em busca de uma vida melhor fora da Polônia, cria uma antítese entre os universos que os dois representam e o peso da História implicada em suas vidas. Além de uma narrativa que denota o quanto os mais antigos não conseguem falar sobre os horrores da Segunda Guerra, destacadamente sobre a 'solução final', os mais jovens parece que tentam se expressar sobre o tema e, de algum modo, exorcizar da memória e do imaginário o genocídio. Não havia apenas um campo de concentração denominado Auschwitz e o filme colabora, didaticamente, para que aprendamos mais sobre a dimensão geopolítica dos campos de extermínio do Sul da Polônia. Havia três campos: Auschwitz I - em que morreram, aproximadamente, 70 mil intelectuais poloneses e prisioneiros soviéticos; Auschwitz II /Birkenau - em que, aproximadamente, morreram um milhão de judeus e quase 20 mil ciganos; e Auschwitz III/Monowitz - campo de trabalho escravo para a empresa IG Farben. Os campos da Polônia eram controlados pela SS e comandados por Himmler. O filme de Robert Thalheim tem cenas justamente em Monowitz, cidadezinha próxima a Oswiecin, que o protagonista e a guia visitam de bicicleta. Ali seria construído por voluntários um pequeno memorial aos mortos nos campos, cuja cerimônia contaria com a presença e o discurso do judeu sobrevivente, o polonês Krzeminski. O fato é que tudo acontece em uma tarde chuvosa e Krzeminski mal começa a discursar e é cortado pela chefe do cerimonial, que não suporta mais, pelo que se supõe, ouvir falar sobre os horrores dos campos. O idoso polonês fica muito indignado e se sente preterido pela comunidade. Decide, então, ir embora e viver na casa de sua irmã. Sven também está se preparando para voltar à Alemanha, mas, dada a reflexão que sua experiência suscita, ele altera seus planos e o longa termina de uma forma surpreendente. É um bom filme, de menos de 90 minutos, propício para ser trabalhado em sala de aula com alunos de ensino médio e acadêmicos do ensino superior. Confiram em Porto Alegre!

"CARNAGE" OU "O DIA DA CARNIFICINA", DE ROMAN POLANSKI

Assisti a dois filmes no domingo, 17 de junho, em Porto Alegre. Tenho de comentá-los aqui, meus amigos.
O primeiro a que eu assisti, o último longa de Roman Polanski, de apenas 88 minutos, é "Carnage" ou "O Dia da Carnificina", texto da dramaturga francesa Yasmina Reza, já encenado em São Paulo em abril de 2011, com Júlia Lemmertz e parceiros de peso. Sala lotada, Arteplex 8, no Bourbon Country, e plateia meio eletrizada nos primeiros 30 minutos de espetáculo, espetáculo mesmo: em uma mesma arena, um suposto apartamento de classe média em NY, dois casais se digladiam por conta de um problema de troca de  violência entre seus filhos de 11 anos.
Misturar Christoph Waltz, o grande ator oscarizado da cena inicial de "Bastardos inglórios", de Quentin Tarantino, com a oscarizada Kate Winslet, inesquecível atuação em "O Leitor" (tento me esquecer dela em "Titanic"!), a maravilhosa  oscarizada Jodie Foster, que brilhou em tenra idade no "Táxi driver", de Martin Scorsese (1976), e o não menos brilhante John C. Reilly, que fez dobradinha com Tilda Swinton no recente "Precisamos falar sobre Kevin", é quase que covardia. Senti-me na Broadway, assistindo a um grande espetáculo teatral e não o desmereci por vê-lo em 35mm  em tela grande.
Lembrei-me de peças teatrais consagradas vertidas para o cinema como "Uncle Vanya", de Louis Malle, de 1994, ou mesmo de outros textos de Tchecov no teatro, como "A alma boa de Setsuan" ou "As três irmãs", montagens a que assisti no RJ e em SP com atores brasileiros de envergadura. Também pensei no "O Baile", do Scola, ou no "Dogville", do Lars von Trier, além do belo "Arca russa", do Sokurov, que, a rigor, é uma encenação.
Após a modulação do tom dos personagens, no debate sobre o episódio em que um garoto machucou o outro, em uma saída pelo Brooklyn, a natureza humana desvela-se, no teatro dentro do cinema, em uma espécie de estratégia que Shakespeare já utilizava no século XVI e que Lacan denomina de "play scene". 
A hipocrisia, a banalização da violência, a força do status social e do patrimônio financeiro, como moeda de barganha, alimentam a trama "in progress". A cena em que uma das esposas vomita sobre os livros de Arte da outra, que estavam dispostos sobre a mesa central do living, Bacon e Kokoschka atingidos, também deixou-me repugnada! 
Vou parar por aqui, porque é preciso saber parar no momento certo, quando se comenta cinema de arte.

terça-feira, 19 de junho de 2012

ÉTICA E SENTIMENTOS MORAIS

Encontro-me desde ontem em Santa Maria, confinada no Hotel Itaimbé, no V Colóquio Internacional de Ética e Ética Aplicada, do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Filosofia da UFSM, financiado pela CAPES, CNPq e FAPERGS.
Minha satisfação é imensa e a linguagem é insuficiente para expressar meu sentimento efusivo por ouvir abordagens com roupagens autorais de ex-colegas de faculdade, conhecidos meus de 30 anos atrás, de debates em salas de aula na UFRGS, ao nível de graduação e mestrado.
Ter a oportunidade inusitada de desapergar-se da rotina diária, dos compromissos muitas vezes repetitivos do ofício de professor, das tarefas burocratizantes, que domesticam as sinapses, para poder se entregar, sem pensar no soberano Tempo, ao desfrute de falas altamente técnicas, exegéticas e, não raras vezes, originais, sobre os sentimentos morais nas filosofias de Kant e Hume, é algo que gera muito prazer intelectual.
O problema colocado na obra de Kant sobre por que a razão deve se preocupar com a felicidade, ou se há na obra de Kant, na 'Fundamentação da Metafísica dos Costumes' uma dimensão correlata à Justiça, ou seja, a felicidade como direito e justiça, e não como prêmio, ou, ainda, a ideia de um "orgulho inativo" na obra de Hume, do orgulho, como uma paixão importante para a formação de uma identidade pessoal marcante, foram temas de diferentes momentos, de diferentes filósofos, que irmanaram a todos no dia de ontem e hoje.
A questão da Felicidade esteve tangenciando as falas da tarde de hoje, do ponto de vista da ética aristotélica, como realização da vida e a vida excelente, do ponto de vista estóico e do ponto de vista da moral da obrigação, via Kant.
É isso, quase que um estrebuchar após a tarde memorável de aprendizado e trocas. Que venham as comunicações na parte da noite.
Até mais! Postarei mais um comentário após esse colóquio!

quarta-feira, 6 de junho de 2012

AETATIS DIFFERENTIA


Aetatis Differentia

Quando mulheres maduras amam jovens homens
Um pouco de Deus nelas se instaura:
O presunçoso  milagre da vida
Contra a juventude engolfada,
A fertilidade extirpada

É uma brecha que se abre na escuridão
Uma luz tênue que inspira os anos,
Que passam como as aves que migram do hemisfério setentrional
Pelos céus, a cada estação, inexoravelmente,
Mas ninguém as usa para mensurar o que já foi

Quando homens mais jovens se rendem a mulheres maduras
Trazem um perfume de esperança
Que é pulverizado a cada conflito, a cada entropia,
Comprovando, mais uma vez, que a ligação é ilegítima,
Que a ligação de amor posta não celebra a vida

Vida que deveria trazer a lume o irracional, as pulsões, a dança das bacantes,
As turbas dionisíacas, a fúria latente, a obscuridade, o império secreto dos desejos, o lado sinistro da clandestinidade dos afetos,
O sêmen da loucura, o intercurso sexual, a primitividade dos atos,
A devastação da linguagem dita, o atropelo da linguagem interdita

Quando homens mais jovens amam mulheres maduras
Eles se regozijam com a conquista nobre,
Se enchem de orgulho pelo domínio,
Se refestelam pelos louros da fornicação
- Viram para o lado da parede e dormem o sono da tirania!

Tirania abusada por um tipo de racionalidade masculina,
Que se outorga o direito a desenfreadas realizações
De machucar, de vampirizar, de escravizar, de humilhar, de condenar...
De se pronunciar, sem ouvir com delicadeza, de sentenciar à morte
Sem direito a um tribunal decente e parcimonioso

Quando um homem mais jovem vislumbra, de soslaio, o espírito de uma mulher madura,
Não apenas seus seios, sua genitália, sua bunda,
Seus secretos odores,
Suas ações empreendedoras,
Seus gestos maternais,
Suas preocupações exageradas
Seus desatinos no dia-a-dia porque ama, porque enxerga mais longe, porque sente com as entranhas, porque prenuncia a dor, porque intui com instintividade animal,
Ele está fadado ao infortúnio

Ao infortúnio de sentir de modo arrebatado a dança da vida,
De participar de um  performance arquetípico
Que a  poucos é dado o roteiro
De perscrutar palavras ancestrais
De descer ao Hades e voltar ileso
De provar da carne, antropofagicamente

Quando o espírito lhe é revelado
Em um ritual mágico
Da palavra, quer distância
Da experiência, pede um passo
Da confidência,  tem alergia
Da loucura, basta-lhe a razão doce,  cálida e cínica.

O espírito de uma mulher mais velha só poderá ser vislumbrado,
Sagrado que é,
Por homens mais jovens que têm um pouco da natureza da Mulher:
Sabem que no mundo sensível, obtuso de aparências, tudo pode ser revertido,
Tudo pode ser alterado, tudo pode ser dominado!
- É preciso apenas Vontade!


                                                                Rô Candeloro 

quinta-feira, 31 de maio de 2012

POEMA DE GÜNTHER GRASS, "A VERGONHA DA EUROPA"

                                                 

                                       Europas Schande 

                                          Ein Gedicht von Günter Grass (2012)



Dem Chaos nah, weil dem Markt nicht gerecht,
bist fern Du dem Land, das die Wiege Dir lieh.
Was mit der Seele gesucht, gefunden Dir galt,
wird abgetan nun, unter Schrottwert taxiert.
Als Schuldner nackt an den Pranger gestellt, leidet ein Land,
dem Dank zu schulden Dir Redensart war.
Zur Armut verurteiltes Land, dessen Reichtum
gepflegt Museen schmückt: von Dir gehütete Beute.
Die mit der Waffen Gewalt das inselgesegnete Land
heimgesucht, trugen zur Uniform Hölderlin im Tornister.
Kaum noch geduldetes Land, dessen Obristen von Dir
einst als Bündnispartner geduldet wurden.
Rechtloses Land, dem der Rechthaber Macht
den Gürtel enger und enger schnallt.
Dir trotzend trägt Antigone Schwarz und landesweit
kleidet Trauer das Volk, dessen Gast Du gewesen.
Außer Landes jedoch hat dem Krösus verwandtes Gefolge
alles, was gülden glänzt gehortet in Deinen Tresoren.
Sauf endlich, sauf! schreien der Kommissare Claqueure,
doch zornig gibt Sokrates Dir den Becher randvoll zurück.
Verfluchen im Chor, was eigen Dir ist, werden die Götter,
deren Olymp zu enteignen Dein Wille verlangt.
Geistlos verkümmern wirst Du ohne das Land,
dessen Geist Dich, Europa, erdachte.



                                                    La Verguenza de Europa

Aunque próxima al caos, por no agradar al mercado,
lejos estás de la tierra que tu cuna fue.
Lo que con el alma buscaste y creíste encontrar
hoy lo desechas, peor que chatarra valorado.
Desnuda en la picota del deudor, sufre una nación a la que dar las gracias era antaño lo más natural.
País condenado a ser pobre, cuya riqueza
adorna cuidados museos: botín por ti vigilado.
Los que invadieron con armas esa tierra bendita de islas llevaban, con su uniforme, a Hölderlin en la mochila.
País tolerado ya apenas, a cuyos coroneles
toleraste un día en calidad de aliados.
País sin ley al que el poder, que siempre tiene razón, aprieta el cinturón más y más.
Desafiándote viste de negro Antígona, y en el país entero hoy lleva luto el pueblo cuyo huésped eras.
Pero, fuera de ese país, el cortejo de parientes de Creso ha acumulado en tus cámaras cuanto brillaba dorado.
¡Bebe de una vez, bebe! grita la clac de los comisarios, pero airado te devuelve Sócrates su copa a rebosar.
Maldecirán los dioses a coro lo que te pertenece, pero sin tu permiso no se podrá expropiar el Olimpo.
Sin ese país te marchitarás, Europa, privada del espíritu que un día te concibió.

                                                (Traducción de Miguel Sáenz, enquanto a minha não fica pronta)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

'TOPOS' E 'PARATAXIS' NA OBRA DE ANTONY GORMLEY, EM CARTAZ NO CCBB DE SÃO PAULO

Terminadas as leituras do comentário crítico do artista plástico Jurandy Valença, para a "Dasartes" de abril sobre a exposição "Corpos Presentes", de Gormley, e do livro recentemente lançado pela Civilização Brasileira, "Poesia e Filosofia" de Antônio Cícero, inspirei-me para escrever um texto um pouco mais estético em relação ao que observei e senti na primeira retrospectiva em solo brasileiro do artista britânico, Antony Gormley, agraciado com o famoso prêmio Turner em 1994.
Ao contrário da fruição estética que tive no sábado em São Paulo, quando da visita à exposição de   Giacometti, na Pinacoteca do Estado, o que me arrebatou, em relação à unidade da obra de Gormley, tanto as que vi em intervenções no solo e nos telhados de arranha-céus do Vale do Anhangabaú,  foi a quantidade de corpos, em tamanho natural, em várias posições (sentados, dependurados por cabos de aço no átrio do Centro Cultural Banco do Brasil de SP, de joelhos, escorados na parede, etc.) a partir de modelos humanos nus, escaneados digitalmente pela equipe do artista, transformados em gesso e, após, em bronze. A força política de tais corpos justapostos atinge em cheio um observador mais atento e preparado, no contrafluxo de comentários gerais que ouvi nas ruas do centro de SP, de transeuntes, e de pessoas que visitavam a expo no CCBB: "para que tanta estátua assim?" ou "o que ele quer com tanta escultura amontoada?", etc.
Recuperando esse conceito de justaposição, compreendido por Jurandy Valença como "parataxis" (do grego, arranjo de elementos, justaposição de partes), penso que o conjunto de 60 corpos espalhados pelo prédio do CCBB, mais os 30 dispostos em prédios e solo do centro de SP, perfazem uma unidade, não uma mera justaposição. Mais ainda, a obra de Gormley parece-me em consonância com o que há de mais atual na Filosofia Contemporânea, nos segmentos da Ética e da Filosofia Política. A ideia de Apel e Habermas de comunidade intersubjetiva, constituída de sujeitos epistêmicos com igual autoridade e competência, compartilhando suas decisões consensuais sobre os critérios de validez que a sociedade lhes impõe, foi o que me acometeu quando da reflexão acerca da exposição.
Não obstante a certeza de que o "topos" de sua criação plástica é o corpo, que não opera como um suporte para a obra-de-arte, mas é o próprio lugar configurado, o sentido de "parataxis", em meu entender, não se associa ao conjunto da obra escultural, porquanto é apenas justaposição de partes.
Gormley certamente tenta resgatar o 'observador excluído', à deriva desde o predomínio da tradição cartesiana, e no anseio de fazer uma leitura mais complexa de sua produção estética pode-se afirmar que cada corpo, disposto em grupo ou em um nicho solitário, traz a inscrição do todo, da unidade da obra, em uma espécie de um orquestramento hologramático.
Em que pese sua linguagem formal profundamente matemática, regozijei-me com sua poética, uma vez que, na Filosofia Contemporânea, aludindo novamente a Habermas, o filósofo é aquele que não indica mais um lugar proeminente no Mundo da Vida, mas é o "guardador do lugar" por excelência, aqui referido ao lugar que o próprio homem ocupa: o Homem.

terça-feira, 8 de maio de 2012

CINEMA E TEATRO EM PORTO ALEGRE

Estive em Porto Alegre nos últimos dois finais de semana! Além dos encontros com amigos, tive a oportunidade de assistir ao documentário sobre o Raul Seixas, de Lula Carvalho ("Raul Seixas: o início, o fim e o meio"). Persona irreverente, músico e compositor, influenciou várias gerações de artistas  no Brasil. O filme é afetivo e exalta o papel fundamental que a música de Raul teve junto à juventude que vivia, dolorosamente, os tempos duros da ditadura militar no Brasil. Ainda que o mesmo tenha dado muito espaço às preleções e percepções de Paulo Coelho, considero importante que a galera jovem, que pouco conhece o rock'n roll made in Brasil, confira-o.
Assisti depois ao filme que revela um episódio vivido por Marilyn Monroe em Londres ("Sete dias com Marilyn", de Simon Curtis), ao filmar com Sir Laurence Olivier a comédia romântica "O príncipe encantado".  O filme é mediano, mas a interpretação de Michelle Williams é interessante e convincente.Por fim, o terceiro longa foi magistral! trata-se do filme de Agnès Varda sobre ela mesma, sua vida e sua cinematografia. Assisti-o no Guion Center em uma sala lotada de gente educada e que, certamente, prestigia cinema de arte em Porto Alegre. O filme é belo e surreal em algumas cenas, o que, considerando o fato de que a poética de Varda conjuga elementos da vertente Surrealista no cinema, não oi de surpreender. Esse, sim, deve ser conferido por aqueles que prezam a sétima arte.


Quanto à virada teatral que vivi neste último final de semana, em Porto Alegre, quero apenas destacar que o último espetáculo do Terça Insana, ocorrido em duas noites no Teatro do Bourbon, 4 e 5 de maio, exigia um nível de informação econômico-política do público bem maior que seus esquetes anteriores. O grupo desfraldou seu posicionamento político, em vários dos quadros, de modo irreverente, fazendo jus à acidez que tornou o projeto Terça Insana conhecido pelo You Tube, muito mais pelos palcos. Carlinhos Canhoeira, Demóstenes Torres, Dilma, Serra e Lula não escaparam da conjugação humor e política.


No domingo, dia 6 de maio, acompanhei, no Theatro São Pedro, às 14h30, um debate muito interessante sobre a atualização do trágico no teatro brasileiro. Estavam lá o diretor Gabriel Vilella (também dirigiu o suntuoso espetáculo "Calígula", com Thiago Lacerda, em 2010, no TSP) , da tragédia "Hécuba", de Eurípedes, que  ocorreu às 18h no mesmo recinto, o diretor Aderbal Freire-Filho, do RJ, que estava atuando em uma peça do Palco Giratório do SESC em POA, Paulina Nólibos, docente de História Antiga, diretora teatral  e integrante do grupo Oi Nóis Aqui Traveiz, de POA, e, por último, Juliana Galdino, de SP.
Cada um deles atestou sua experiência sobre as traduções e as montagens de tragédias gregas. Tarde bacana! Depois, às 18h, iniciou-se a montagem de "Hécuba", a mãe de Heitor, ao final da guerra de Tróia, que viveu a dor de presenciar o sacrifício de sua filha aos deuses dos aqueus.  

terça-feira, 24 de abril de 2012

SOBRE O LONGA "XINGU"


Fui assistir com amigos, no sábado à noite, ao filme “Xingu”, de Cao Hamburger, há duas semanas em cartaz no circuito  de Porto Alegre. Meu amigo Fernando Oliveira, da reportagem do Diário Regional, de Santa Cruz do Sul, já o havia assistido na sexta à noite, embora com problemas na projeção. Ele o adjetivou de “pujante”!
Eu, de 'pungente', no sentido de crepúsculo, de declínio da população indígena no país. O longa tem uma poética própria, forjada pela bela fotografia associada a uma trilha sonora de sons rítmicos, que cortejam o expectador e o elevam a uma condição especial de quem está a processar uma verdadeira fruição estética. Esse longa fez sucesso no Festival de Cinema de Berlim, o Berlinale, neste ano, entre os frequentadores.
Além de desvelar todo o processo de enfrentamento de uma área desconhecida e nunca explorada pelo homem branco, o longa de Cao Hamburger, conhecido entre nós pela série televisiva “Castelo Rá-tim-bum” e por outro filme,  “O ano em que meus pais saíram de férias”, de 2006, disseca os bastidores do poder no Brasil, no período pré-ditadura e em seus anos duros a partir do golpe militar. Ainda assim, em 1961, há exatos 51 anos, o Parque Nacional do Xingu foi concebido pelos irmãos sertanistas Orlando e Cláudio Villas-Bôas, visando à preservação de uma área indígena em que dezenas de nações vivem até hoje e compartilham seu legado. Todas as nações indígenas constituem, hoje, menos de 10% da população, que já viveu em solo brasileiro!
Muito mais que belas imagens, “Xingu” apresenta o conflito ideológico de seus protagonistas contra um governo marcado por barganhas, sem falar no projeto megalômano que foi a Transamazônica, na década de 70. Em que pese os problemas e os infortúnios vividos pelos irmãos Villas-Bôas, sua atuação junto às comunidades indígenas do Xingu foi reconhecida, internacionalmente, quando indicados ao Prêmio Nobel da Paz.
Em terra em que há caicangues passando  fome pelas ruas, talvez seja um “programa de índio” assistir a um belo filme como esse, que nos obriga a todos a uma reflexão, considerando os últimos acontecimentos escandalosos no Curso de Medicina da UFRGS, que tem discriminado os “cotistas”, filhos dos mesmos caigangues, que também têm o direito universal ao conhecimento e à profissionalização.
As sessões ocorrem no Cine Santa Cruz às 19h10 e 21h10. Portanto, dá para curtir o chimas na praça ou o 'sertanojo' universitário no 'bobódromo' da cidade e, depois, prestigiar as salas de cinema que, muito mais que lazer, garantem cultura e produção de conhecimento!

sábado, 31 de março de 2012

A COMUNIDADE JUDAICA RECLAMA...

Li no Estadão que a comunidade judaica carioca, através da Federação Israelita do RJ, também se manifestou publicamente em função do uso da estrela de Davi no show de Waters.
O show realmente é fantástico! Os dois álbuns são executados com um intervalo de 25 minutos para o público, entre um e outro. Todavia, as imagens são muito misturadas e a estrela de Davi, a concha da Shell e outros ícones, que indicam a existência das grandes multinacionais no mercado capitalista, aparecem todas no mesmo 'saco' - e isso confunde os menos avisados.

terça-feira, 27 de março de 2012

THE WALL, DE ROGER WATERS

Já estive em um show do Pearl Jam, no Gigantinho, em novembro de 2006, e já assisti a dois shows do U2 pela TV, ao vivo. Ambos os vocalistas, Ed Vedder e Bono Vox, respectivamente, têm um contato direto com a plateia e são politizados. Todavia, nunca vi nada igual, em meus 34 anos de shows de rock ao vivo, uma manifestação tão expressiva pela liberdade com a de Waters e seu grupo.
Roger Waters concebeu a ópera-rock ‘The Wall’, de forte caráter autobiográfico, e Alan Parker a transformou em uma animação musical em 1982, enriquecidas pelas imagens psicodélicas de Gerald Scarfe. Assisti ao filme no cinema, na década de 80, inúmeras vezes, no antigo Bristol, que ficava na Avenida Osvaldo Aranha, em Porto Alegre. Ontem, tive a oportunidade única de assistir à ópera-rock, ao vivo, no Estádio Beira-Rio, em seus 30 anos de criação.
O muro branco de espuma, que montaram à esquerda e à direita do palco, recebia projeções digitalizadas e cores as mais variadas. Se o filme já era revolucionário para a década de 80, com seu imaginário psicodélico transposto para o universo da animação, imaginem um palco gigantesco com um muro metafórico, que se metamorfoseava a todo o momento, até sua queda final.
Roger Waters conseguiu ‘atualizar’ a sua ópera-rock, indo mais longe, e transformou sua crítica pungente contra as guerras, não apenas a Segunda Grande Guerra, que sepultou seu pai, Eric F. Waters, mas criticou, através da reprodução de fichas criminais, projetadas na tela central, em forma de um Sol, as imagens de vítimas das forças opressivas de Estado, como no Irã, no Iraque, no Afeganistão e, qual não foi minha surpresa, dedicou o show à memória de Jean Charles de Menezes, jovem brasileiro morto injustamente pela Polícia inglesa, em julho de 2005. Nós, brasileiros, tivemos de engolir, um tempo depois à morte de Jean, a condecoração de bravura e serviços prestados que a Rainha outorgou ao chefe da segurança inglesa que assassinou Jean.
A família do brasileiro foi lembrada, além de Waters ter cantado uma canção que falava em Jean Charles. Isso foi admirável, uma vez que tratou de um caso genuinamente brasileiro, que repercutiu em toda a imprensa internacional, sobre os abusos de poder e as práticas policiais nos países ricos. Além disso, construiu seu libelo pela volta do contingente militar norteamericano e de países aliados, que ainda se encontra no Iraque, no momento em que na tela apareceram os dizeres “Bring the Boys”, por vários minutos.
O apoteótico final da ópera-rock, após o bombardeio de imagens coloridas e de imagens documentais de massacres, guerras e genocídios, revelou a queda do muro. Os blocos de espuma foram sendo puxados para trás do palco, criando um efeito devastador na plateia. Finalmente, o muro da alienação fora derrubado!
É isso que eu espero, como filósofa e educadora, que a alienação seja minimizada, através da educação e da informação, provinda de fontes idôneas! Para mim, foi um misto de espetáculo, arrebatamento dos sentidos e uma profunda decepção, mais uma, com a falta de informação do pessoal jovem, que, certamente, mal sabia quem fora Jean Charles de Menezes. Além disso, a organização do show deve ter deixado a todos com uma ideia bem precisa do que serão os jogos da Copa em Porto Alegre: caos total!
Para encerrar, ficou uma dúvida: por que um “javali” inflável, como recurso visual, representando a sujeira do Capitalismo, se a referência que temos é de um porco doméstico, do filme “The Wall”? E outra questão mais complicada: a comunidade judaica de Porto Alegre, na segunda-feira pela manhã, já estava comentando sobre qual o uso que Roger Waters fez da Estrela de Davi, no contexto do show. Inúmeras vezes, a estrela apareceu associada às imagens da Segunda Guerra, mas também apareceu junto às inscrições, em Português, feitas no corpo do “javali” inflável, contra o Capitalismo, que percorreu parte do estádio pelo ar.
São questionamentos que deixo aqui para os cidadãos refletirem e também darem-se conta de que a música é um dos veículos estéticos mais poderosos da comunicação em massa e é extraordinário perceber o quanto ela pode influir e transformar, se utilizada para o Bem!

sábado, 24 de março de 2012

O DIONISÍACO "PINA", DE WIM WENDERS

Assistir ao documentário "Pina", de 2011, com a tecnologia 3D, que Wim Wenders dedicou à sua amiga pessoal, a coreógrafa Pina Bausch, falecida em 2009, é uma arrebatadora aventura sensorial e estética! Não vou entrar em detalhes neste comentário sobre a trilha, que desfila Louis Armstrong, várias performances de orquestras alemãs, Tchaikovsky etc. O longa é resultado de filmagens de três trabalhos distintos: Café Müller, Le Sacre du Printemps e Vollmond.
Na cena inicial, os bailarinos estão se movimentando por detrás de um fino véu. Com o efeito 3D, parece que o véu esvoaça sobre a plateia de espectadores e cria uma antítese entre aquilo que os espectadores, de óculos, podem enxergar, através do Véu de Maya, e aquilo que a dança é capaz de revelar, tendo como suporte o corpo.
Nos primeiros 15 minutos de filme, há uma menção ao grande bailarino da dança tradicional japonesa, o Butô, Kazuo Ohno, que faleceu em 1º de junho de 2010, no ano subsequente à morte de Pina.
Como esse elemento sutil, pode-se perscrutar a dimensão do universo de Pina, que traz como um de seus legados a tradição do Butô. No final de semana de 19 de março, esteve em Brasília Tadashi Endo (vive em Göttingen, na Alemanha, e foi aluno do mestre Kazuo Ohno), com um espetáculo intitulado "Ikiru - Réquiem para Pina Baush", em que a proposta do bailarino é de obter um máximo de tensão com um mínimo de movimentos.
É isso, em parte, o que encontramos no longa sobre a estética de Pina Bausch: pequenos padrões de movimentos repetitivos com uma estrondosa força dramatúrgica, pedra-de-toque do mosaico de cenas que Wim Wenders 'costurou', enquanto diretor e roteirista.
Nietzsche teria ficado estufefato com a ousadia de seus conterrâneos, em expressarem o caráter transformador da dança e seu trabalho de mimetizar pensamento e linguagem. Indo além, a música e a poesia não são nada separadas da dança, que, na obra de Nietzsche, é a expressão fundamental da estética dionisíaca.
Assim, tendo em vista tais elementos, é possível compreender o sentido da fala de uma das bailarinas em seu depoimento no longa, que reproduz um dos conselhos que Pina lhe dera, em um determinado momento: - Você tem de ser mais louca!
"Louca", dionisíaca ou submetida a uma certa hybris, um descomedimento, tomada de uma vertigem, é justamente a dimensão metafísica que perpassa várias das cenas coreográficas capturadas por Wenders.
Destaco o momento epifânico do longa quando os bailarinos estão em um cenário escuro, com uma grande rocha assentada à direita do enquadramento. De repente, um jato de água começa a verter do teto e um volume d'água, pelo chão, vai redimensionando a cena. Bailarinos atravessam o cenário quase que a nado; outros de pé encharcados dançam de um modo tenso, primitivo, tribal.
As bacantes de Pina, as bacantes do "Tanztheater" de Wuppertal ou as bacantes de Wim Wenders... Quando um artista entra em contato com as profundidades da criação de outro artista, e consegue desvelá-lo e transmutá-lo em uma outra expressão, é difícil de demarcar o que é território de um e de outro.
"Ikiru", em Japonês, quer dizer Vida. Que todos os que prezam a Vida pulsante e estetizante, mesmo sob o jugo do Véu de Maya, assistam ao "Pina"!


terça-feira, 20 de março de 2012

"DRIVE", LONGA DE NICOLAS WIDING REFN

"Drive" é um filme visceral. Lembrou-me o roteiro de "Crash - no limite" (2004), de Paul Haggis, e do grande "Taxi Driver", de 1976, longa de Martin Scorsese, que arrebatou a Palma de Ouro do Festival de Cannes. Hoje mesmo, dia 19 de março, li na imprensa um comentário curioso acerca da atuação de Albert Brooks, o mafioso de "Drive", que negocia com o piloto justiceiro, papel de Ryan Gosling, que lhe valeu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator. Brooks atuou tanto no longa de Scorsese quanto no longa de Refn. No entanto, no longa de 2011, do diretor Nicolas Widing Refn, que levou o prêmio de melhor direção em Cannes, o ator Albert Brooks parece que tem um momento elevado de dramartugia, que, inclusive, acabou por revigorar sua carreira, considerando os filmes menores que fez e alguns papéis cômicos, que é do que me recordo agora.
Tudo se passa em Los Angeles. Também recordei de uma preciosidade ambientada nessa cidade, que é o "Short Cuts - Cenas da Vida" (1993), de Robert Altman.


SOBRE OS MURAIS DE PORTINARI, 'GUERRA E PAZ'!

Estive neste finde em São Paulo, especialmente, para visitar quatro exposições. Fui ao Memorial da América Latina para ver, ao vivo, os enormes murais de Portinari, confeccionados durante alguns meses em 1955. Eles ficaram expostos no Teatro Municipal de São Paulo e depois seguiram, à época, para o prédio da ONU nos EUA.
Entrei no pavilhão. Havia muita gente com a cabeça para o alto, tentando acompanhar a riqueza pictórica e o emaranhado da composição figurativa e cromática. Não havia luz suficiente para as fotos e não se podia utilizar flash. Portanto, não postarei as fotos, que ficaram, obviamente, escuras. As imagens dos murais podem ser encontradas na WEB. Porém, havia uma outra parte da exposição, a que apresentava os estudos, as maquetes, o clipping de tudo o que saiu na imprensa escrita na época e os depoimentos de personalidades ilustres, quando os murais foram entregues.
Fiquei emocionada com essa mostra. Portinari foi, de verdade, o nosso Picasso, à la Guernica, porque o que concebeu é um libelo à liberdade e à paz, embora tenha representado pictoricamente a guerra.
Pesquisem na WEB e, quem sabe, viajem para Sampa!

sexta-feira, 16 de março de 2012

SÃO PAULO

Embarco amanhã bem cedo para Sampa. Quero visitar três exposições importantes na cidade: "Roma e seus imperadores" e a Coleção Pirelli de Fotografia, ambos no MASP. Depois, descerei de táxi até perto do Ibirapuera, na Cinemateca Brasileira, para checar as fotos de Marilyn Monroe.
Por fim, à noite, na companhia de um velho amigo gaúcho de Porto Alegre, que vive em São Paulo há quatros anos, Evandro Rohden, iremos à festa de Saint Patrick's Day, que os irlandeses comemoram no dia 17 de março. Iremos a um irish pub badalado, que fica na famosa Oscar Freire, o 'All Black'.
No domingo, visitarei os murais restaurados de Portinari, "Guerra e Paz", trazidos do prédio da ONU para o Brasil, em 2010. Eles estão expostos em uma das galerias do Memorial da América Latina. Depois, pretendo comer no tradicional restaurante grego do Bom Retiro, o "Acrópoles". Se ainda der tempo, irei ao MUBE, o Museu Brasileiro de Escultura, para conferir uma expo de fotografia internacional sobre São Paulo.
Estou quase terminando meu comentário crítico sobre o longa "Drive"!
Aguardem! Abraço, amigos!

terça-feira, 13 de março de 2012

SOBRE O FILME ‘SHAME’, DE STEVE MCQUEENN (2011)


Freud explicou em sua obra que as necessidades do ser humano e do animal são de natureza biológica. Assim, algumas pessoas estabelecem formas peculiares, e até mesmo patológicas, de satisfação da necessidade sexual. Por isso, algumas perversidades podem ser catalogadas nesse campo, como o fetichismo, em que o objeto de prazer é inanimado, ou seja, é simplesmente uma coisa, um corpo. O prazer aí, em geral, não é de mão dupla e só goza o sujeito com a desordem sexual. Foi isso que encontrei no longa do diretor e artista plástico Steve Mcqueen, “Shame”, estrelado pelo ator de origem irlandesa, Michael Fassbender, conhecido do telão por papéis pequenos e inexpressivos até então.

Brandon é o protagonista do longa. Ele tem, aproximadamente, 30 anos, vive só em NY e é um executivo - não se descobre ao longo da narrativa de que segmento, nem se sabe nada de seu passado ou de sua compleição psicológica. Ele masturba-se em horário útil e, mal chega em em seu apartamento, abre seu notebook, acessa sites de pornografia, ao som de um tema das "Variações de Goldberg", de Bach. Os diálogos são escassos e o próprio roteiro, escrito pelo diretor Steve Mcqueen, com a parceria de Abi Morgan (da série inglesa “The Hour” e, mais recentemente, do “The Iron Lady”, que outorgou a Meryl Streep o terceiro Oscar de Melhor Atriz, em 2012) não revela dicas sobre seus conflitos internos. Não obstante o fato de que o filme sobre a dama de ferro tenha problemas, inclusive de ordem política, o roteiro de “Shame” é muito interessante, justamente por não fazer flashbacks do passado de Brandon e não subsidiar o expectador com lugares-comuns para justificar moralmente a patologia do personagem, vivendo na selva da grande megalópolis: New York.

Li as entrevistas tanto do diretor quanto do ator nos jornais The Guardian e na revista “Positif”, no dossier do mês de dezembro, dedicado ao lançamento de “Shame” na Europa. Não encontrei nenhum comentário profundo sobre a psicologia dos personagens, que é sempre o que mais me interessa e chama a minha atenção no cinema de Arte e/ou Independente.

A rigor, a entrada da personagem de Carey Mulligan, irmã de Brandon, a Sissy, da metade do filme em diante, quebra a rotina do sexaholic e funciona como um jogo de espelhamento, que fornece algumas pistas para se compreender a matriz emocional que os irmana. Ela é cantora, bebe, joga-se nos braços do patrão (casado, interpretado por James Badge Dale) de Brandon em 20 minutos e vive uma vida sem rumo. Em uma cena, em que ela convida o irmão para ouvi-la cantar, em um charmoso restaurante, cuja vista de NY é deslumbrante, percebe-se, a partir do comentário de seu patrão (de Brandon, que foi junto), que ela possui “marcas” em seu antebraço. Isso já desvela a fragilidade de seu modo de existir e o apoio que ela almeja de parte de seu único irmão.

Nessa cena, ouve-se, na versão integral, a canção New York, New York, imortalizada por Frank Sinatra e Liza Minelli. O personagem de Michael Fassbender chora – e claro, parte da plateia de expectadores da sala onde eu me encontrava também, em sua maioria, casais gays. Belíssima a interpretação lenta e murmurada de Carey Mulligan, que, não raras vezes, lembrava os trejeitos de Marilyn Monroe.

O caráter epifânico da tensão familiar, entre os dois irmãos, que se desenrola ao final do longa – e que não descreverei aqui -, ilumina a tragédia da existência nauseante das grandes cidades, da liberdade sem direcionamento, da grana gasta de modo supérfluo, do sexo desenfreado que povoa o imaginário dos sujeitos que o praticam e da ausência de uma moral prescritiva.

“Shame” não desperta a vergonha de cada um de nós. Ao contrário: que venham mais filmes dessa índole, que excitem os expectadores e nos provoquem à autorreflexão! "Se está melhorando, siga em frente" é o sentido do que diz um cartaz que aparece de modo reincidente nas cenas do metrô. Assim, para encerrar, o protagonista passa por uma ruptura, de ordem emocional, mas retoma sua vida monocromática e morna.

segunda-feira, 12 de março de 2012

SOBRE O LONGA "A INVENÇÃO DE HUGO CABRET", DE MARTIN SCORSESE ("HUGO", EUA, 2011)

De trás para a frente, vou comentar em primeiro lugar o filme a que assisti hoje à tarde em Porto Alegre, "A invenção de Hugo Cabret", de Martin Scorsese, que concorreu ao Oscar 2012, dentre outros, de Melhor Diretor. Em minha modesta opinião, ele foi injustiçado por força de o longa "O artista", de Michel Hazanavicius, ter arrebatado os prêmios mais importantes, incluindo o de Melhor Direção.
"Hugo" é o título do livro do escritor Brian Selznick, adaptado para o cinema pelo roteirista John Logan, conhecido do público por filmes como "O último samurai", "O aviador", "O gladiador". Ele encontra-se, atualmente, trabalhando com o diretor Darren Aronofsky (Pi, Fonte da vida, Réquiem para um Sonho e Cisne Negro) sobre o episódio bíblico de Noé, que será vertido para o cinema.
Voltando ao livro-visual "Hugo", em suas quase 500 páginas há uma variedade de ilustrações, que lembram o universo pictórico de Escher. A narrativa passa-se na Paris dos Anos 30, dentro de uma estação de trem, porque é lá que o menino Hugo Cabret vive, órfão que é, escondido nas engrenagens de um enorme relógio de corda, sempre sobrevivendo através de pequenos roubos de comida e de constantes fugas do inspetor da estação férrea.
O filme não fica por menos, comparado ao livro: é brilhante na imagética e nos efeitos especiais. A trilha sonora é primorosa e ouve-se, reiteradamente, um piano ao fundo (três temas de Erick Satie), animando os passos do protagonista e de seu único amigo, um autômato, deixado de legado por seu pai, um relojoeiro, que ensina o ofício a Hugo, além de compartilhar com ele o fascínio pelos consertos e invenções.
Na parte final do longa, o "leitmotiv" desvela-se e entende-se a que veio o filme: a homenagem que a literatura/cinema prestam a uma dos pioneiros do "cine-magia", ou seja, da inserção do ilusionismo e dos primeiros efeitos especiais na Sétima Arte, através de seu mentor, o francês Georges Mèliés.
Muito poético e emocionante o desfilar de cenas dos filmes de Méliés recuperados pela iniciativa de alguns apaixonados pelo cinema e sua história, no desfecho do longa!

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