terça-feira, 25 de setembro de 2012

SÃO PAULO, NO DOMINGÃO, 23 DE SETEMBRO (ÚLTIMA PARTE)

No domingo de manhã, como desisti de visitar a retrospectiva da Lygia Clark, na pinacoteca do Itaú Cultural na Paulista, a 30ª Bienal de Arte de São Paulo e a 'panorâmica' da obra de Adriana Varejão, no MAM, ambas no Parque do Ibirapuera, então, decidi visitar em uma hora a Pinacoteca do Estado de SP, como faço em todas as vezes que vou a São Paulo. As três exposições que não pude conferir desta vez, eu as visitarei em novembro, porque decidi voltar  a SP, pela quinta vez no ano. Todas estarão em cartaz até dezembro e ainda terei o prazer enorme de visitar uma retrospectiva das gravuras de Osvaldo Goeldi, na Pinacoteca, a partir desta semana. Cheguei lá às 11h e saí de lá às 12h10. Meu voo de volta a Porto Alegre sairia às 16h, em Guarulhos. Daí, eu não podia vacilar com os horários... Visitei apenas, dentro da Pinacoteca, a exposição do artista plástico Willys de Castro, um neoconcretista mineiro, falecido em 1988, muito bem-cotado no mercado de arte. Uma peça sua foi arrematada por mais de 150 mil reais há pouco tempo atrás. Fui checar a doação que seu companheiro fez, o também artista plástico Hércules Barsotti (falecido em 2010, aos 96 anos), ao acervo da Pinacoteca do Estado de SP. Uma doação expressiva de estudos e documentos de Willys.

 Comentarei, mais adiante, o valor das obras de Beatriz Milhazes, hoje com 52 anos, e de Adriana Varejão, com apenas 47 anos, no mercado de arte, que é um tema que tenho acompanhado bem de perto.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

SÃO PAULO, DIA 22 DE SETEMBRO, SEGUNDA PARTE

Segunda parte da viagem a Sampa (hoje, meu blog atingiu 12 mil acessos aos textos! Obrigada, amigos e leitores que eu não conheço!)

No sábado, após um dia de chuva, vento e frio, o tempo melhorou, mas a temperatura caiu para 14 graus à noite. Deixei de lado a 'panorâmica' da obra de Adriana Varejão, que stá no MAM, e a própria 30ª edição da Bienal de Arte de SP, simplesmente porque resolvi que voltarei pela quinta vez no ano à capital paulista, para visitá-las com mais calma. Viajarei no dia 6 de novembro, uma terça. Então, no sábado, dia 22 de setembro, início da Primavera, havia um sol meio anêmico. Fui para a fila do Centro Cultural Banco do Brasil. Já estavam lá, à minha espera, a dupla Lucy e João, amigos de Porto Alegre. Ficamos conversando por mais de 60 minutos, aguardando a entrada na exposição itinerante intitulada "Impressionismo: Paris e a modernidade" (com obras-primas do Museu D'Orsay, de Paris), até 7 de outubro de 2012. Revi algumas telas das quais ainda me lembrava, quando estive nesse museu pela primeira vez, eu diria que o meu segundo preferido, depois do Museu Rodin. Havia centenas de pessoas circulando pelos quatro andares do CCBB de São Paulo. Uma loucura geral! Fiz várias fotos dos ambientes externos, do frontispício da exposição e das filas coordenadas pelas equipes do centro... Não tenho como colocá-las nesta página. Deixei meu carregador no RJ, em julho. Daí, pela terceira vez, o Maiquel, baby, vai descarregá-las para mim, de mais esta viagem, lá no dia 15 de outubro. Aguardem as fotos!! Aguardem! Voltando ao Impressionismo, desde que essa escola rompeu com a tendência pictórica, então em vigência, e com a ideia de mimetizar a realidade, tudo mudou na Arte. Devemos essa superação aos esforços estéticos de Monet, que, junto a outros pintores, passou a usar a luz natural em suas leituras da figura ou da paisagem. Estavam lá no CCBB a famosa tela "Le Bassin aux nymphéas: harmonie verte", de Claude Monet, de 1899; "Paysannes bretonnes", de Paul Gauguin, de 1894; e "Nature morte à la soupière", de  Paul Cézanne, de, aproximadamente, 1877, por exemplo. Emocionante e comovente visitar uma exposição de alto nível, com a curadoria-geral  do Presidente dos Museus D'Orsay e do de l'Orangerie, Guy Cogeval. Além disso, testemunhar tantas centenas de pessoas em filas, esperando para um momento de fruição estética leva-nos a crer que a educação no Brasil está melhorando e desenvolvendo um olhar estético nos cidadãos, que não se resume a Carnaval e Futebol! We hope so!

SÃO PAULO, SEXTA, DIA 21 DE SETEMBRO (1ª PARTE)

Olá, amigos! Como avisei, postarei aqui meus comentários sobre o que visitei em Sampa com amigos gaúchos. Aliás, desta vez, eu estava acompanhada de vários gaúchos: Lucy Demari e seu namorado João; Sheila Boesel e seu marido Marcos; o próprio Evandro Rohden, quem me hospedou em Sampa desta vez (minha quarta viagem à capital paulista em 2012), mais a poeta Tuca Rosa, natural de Capão da Canoa, sem falar em um outro amigo do Evandro, o Ricardo, também gaúcho.
Na sexta, iniciamos (eu, Lucy e João) a jornada pelas exposições, abaixo de chuva, vento e frio, selecionando, em primeiro ligar,  a de Michelangelo Merisi, conhecido por Caravaggio. A pequena mostra leva o título de "Caravaggio e seus seguidores", no MASP, até 30 de setembro de 2012. A idealizadora da mostra é Rossella Vodret, a maior especialista em Caravaggio da Itália. Fiz algumas considerações iniciais aos meus amigos sobre a vida turbulenta de Caravaggio, sua hybris, seus descomedimentos por várias cidades italianas, em pleno início do século XVII, até ter de abandonar de vez Roma. Ele não apenas brigava: ele feria outros e se autoferia nas brigas. Assim, acabou perdendo sua vida aos 38 anos. Simplesmente um gênio esse homem, que inaugura o Barraco, após os 'frufrus' dos maneiristas. A técnica do chiaroscuro põe a cena ou o retrato em primeiro plano, com um fundo escuro, e joga um jato de luz sobre um outro objeto da composição pictórica. Isso mexe com a dimensão sensorial de cada espectador; a força é enorme! Não é à toa que a segunda parte da exposição revela a produção de seus seguidores, que eram muitos, pintores de certa expressão na Itália, conhecidos como caravaggescos! Impressionante a cabeça da Medusa, a Medusa Murtola, de 1597, de um colecionador particular, totalmente envolta em um vidro blindado, semelhante ao que fica defronte à tela "A Monalisa", de Leonardo da Vinci, no Museu do Louvre. A imagem parece, inicialmente, que pretende aterrorizar quem a espreita; no entanto, imagina-se o terror que a entidade deva ter sentido ao ver sua própria imagem, mimetizada, no escudo de Perseu. Nesse mesmo dia, à tarde, fomos à Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, tomar um café. No início da noite, lá pelas 20h, fui a um sarau poético na Casa das Rosas, na Avenida Paulista. Lá estava o Evandro, aguardando-me. Saímos fugidos de lá. Sarau da quarta idade? Socorro! Valeu para conhecer a tal Casa das Rosas, que é um casario antigo em uma área verde linda, em plena Paulista! Mais tarde, às 22h, fomos todos jantar em uma cantina típica italiana, no Bixiga, a Esperanza, que introduziu em São Paulo, em 1958, as receitas de pizza Marguerita e de pão de linguiça. Estávamos em oito pessoas e, junto aos gaúchos, dois paulistanos: a Berna, amiga da Lucy, e o Ricardo Camarotto, ilustrador da Folha de São Paulo. É ele quem ilustra, todas as terças, os textos do filósofo Luís Felipe Pondé (que eu, particularmente, não aprecio). Rimos muito! Foi terapêutico! Foi demais!

(a continuação segue no texto postado antes deste!)

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

SÃO PAULO

Amigos e leitores, aguardem meus comentários após o feriadão gaúcho de 20 de setembro. Estarei em SP e visitarei as seguintes exposições:

Exposição na Casa de Lina Bo Bardi, no Morumbi, com a curadoria de Hans U. Obrist;
Coleção de obras impressionistas do Museu D' Orsay, de Paris, no CCBB;
Obras de Caravaggio, no MASP;
"Morphosis", de Thom Mayne, no Instituto Tomie Ohtake.
Obras da coleção do Vaticano na "Oca", dentro do Parque do Ibirapuera.

Além disso, irei ao "Jazz nos fundos", uma famosa casa paulista de jazz, inclusive apresentando convidados internacionais; a uma peça teatral, "Júlia", de Strindberg, a uma peça infantil, na qual meu amigo gaúcho Evandro Rohden é ator; e, por fim, a um sarau poético na Casa das Rosas, na Avenida Paulista.

Espero que seja possível realizar tudo o que planejei. Estarão comigo em Sampa, além do próprio Evandro, que me hospedará, Tania Fleig, Lucy Demari e seu namorado João, mais sua amiga paulistana Berna, que os hospedará, sem falar no poeta e tradutor Leo Gonçalves,  vivente de SP, com o qual tomarei um café, ao menos.

Abraços e todos e bom feriadão!



segunda-feira, 17 de setembro de 2012

SHOW DO CRIOLO NO OPINIÃO, EM PORTO ALEGRE, E VIAGEM A CURITIBA

(Texto revisado! Deixei passar uns errinhos de digitação na versão preliminar! Agora, está bem!)

Neste final de semana, tive a rara oportunidade de estar em Porto Alegre, em plena sexta à noite, na companhia de um vocalista de banda, para desfrutar do primeiro show do cantor Criolo na capital gaúcha, no Opinião. Eu o ouço desde o verão e já sabia as letras de suas canções de cor. A casa estava lotada e a vibe era maravilhosa, porque todos os presentes cantavam as letras das canções do Criolo também, fossem elas samba, rap, hip-hop ou bolero. O show não foi longo e o cara mostrou-se o mais carismático do cenário atual da música brasileira, muito politizado, levando a galera a aplaudi-lo inúmeras vezes, ao final de seus enunciados, além do fato de que, vale frisar, a pegada de sua música é impressionante. Acompanhado de seis bons músicos, seu mise-en-scène também merece destaque, uma vez que, vestindo uma bata esvoaçante branca, dançava, rebolava e recebia no palco, de modo acolhedor, vários dos fãs, que estavam na parte da frente da plateia. No final do show, havia três tipos de camisetas do Criolo, os dois CDs e outros souvenirs, bem ao estilo da produção independente! Valeu a pena, valeu o calor partilhado com a plateia, valeu a ceva gelada do final com o meu bro e valeu o gasto com o valor do ingresso. Para quem quiser conferir a íntegra de suas oito faixas, do CD "Nó da Orelha", já o descobri na bancada de CDs da Livraria Cultura de Porto Alegre.

No sábado, voei para Curitiba, cidade na qual tenho amigos antigos e novos. Reunimo-nos todos no Shadow Bar, reserva da Lucimeri Bridi, à noite. Lá apareceram para me rever o Ade, mestrando em Literatura de Língua Inglesa na UFPR, além de poeta e tradutor, mais o Gui, professor de Literatura de Língua Latina na UFPR, também poeta e tradutor. Os dois administram o blog "Escamandro", que veicula preciosidades em traduções coletivadas.
 Abraço a todos os meus amigos!

terça-feira, 11 de setembro de 2012

'MUTTER COURAGE UND IHRE KINDER' (1938 - B. BRECHT) NO THEATRO SÃO PEDRO, DE PORTO ALEGRE, NA NOITE DE 8 DE SETEMBRO DE 2012

Passei uma tarde de sábado, em Porto Alegre, feito uma hedonista - como sempre! Fui tomar o meu café, comprei vários livros na Livraria Cultura, DVDs e CDs, ao todo, seis presentes para amigos queridos (Gilson Klemz, Luciani Voght, Elstor Petry-Loseiret, Julia Schnaiders e Rafael Engel), todos de aniversário: quatro atrasados e dois nats futuros! Não gosto de dar  presentes por obrigação, mas ofertar algo especial que esteja em consonância com aquele amigo que o recebe. Comprei "Der Sandmann", do ETA Hoffmann para mim, mais o "Leben ist Werden", do Hesse, no ano de seus 50 anos de falecimento. Encontrei um romance do Hesse para o Gilson, meu professor de Alemão, e sua esposa Luciani. DVD e CD de interpretações de composições de Villa-Lobos para o Elstor, DVD do 'Prodigy na Alemanha' para o Rafa e um Kamasutra para a Júlia. Para mim, encontrei um CD importado com uma seleção de Satie variada, com Pascal Roge ao piano. Depois, fomos assistir ao "Os Intocáveis" ("Les Intouchables", de 2011), de Eric Toledano e Olivier Nakache. Não vou comentar aqui o longa francês. Passarei, de imediato, às minhas impressões da peça "Mutter Courage und ihre Kinder", de Bertold Brecht, texto concebido em 1938, um ano antes do início da Segunda Grande Guerra, e ambientado durante a Guerra dos Trinta Anos, na Europa. Cheguei cedo ao Theatro São Pedro, porque eu teria de retirar o meu ingresso com a equipe do 'Porto Alegre em Cena', uma vez que o mesmo foi comprado pelo site do Ingresso Rápido. Cheguei cedo demais, antes de a equipe se instalar no saguão do TSP. Todavia, cheguei no momento em que os atores do grupo "Berliner Ensemble", fundado em Berlin por B. Brecht, em 1949, estavam ali, rindo e montando um pequeno espaço para a venda de posters, programas da peça e camisetas do grupo. Lá fui eu com o meu Alemão pré-básico. Cumprimentei-os e perguntei o preço das camisetas. Parei aí. Bloqueei! Minutos após, comecei a falar em Inglês e foi um papo muito bacana. Contei a eles que conheci Berlin em 2011 e os pontos que visitei, que estudava Alemão e que voltaria para lá em 2013. Um dos atores foi muito simpático, falou bastante em Berlin, perguntou-me se eu morava em Porto Alegre, trocamos e-mails e ele me deu uns materiais do grupo. Comprei uma camiseta preta do "Berliner Ensemble", com o slogan em vermelho. As filas foram se formando no saguão e eu tinha ingresso de camarote, na lateral direita do palco, no segundo andar; bem-localizado o assento. A peça iniciou-se com uns minutos de atraso, lá pelas 20h10, e eu sabia que haveria três horas de espetáculo pela frente, com um intervalo de 15 minutos. Primeiro ato, Mãe Coragem aparece no palco, empurrando seu carroção de toldo branco, ao lado de seus três filhos. Segundo ato, Mãe Coragem negocia com o cozinheiro do Comandante do regimento militar a venda de uma ave, uma galinha branca. Ouvia-se tudo em Alemão e a tradução em Português era projetada, simultaneamente, na parte superior do arco, acima do palco do TSP. Muito bom! Legendas perfeitas, sem erros morfossintáticos, tudo de alto nível! Foi  assim:

In den Jahren 1625 und 1626 zieht Mutter Courage im tross der schwedischen heere durch Polen. Vor der festung Wallhof trifft sieihren sohn wieder. - Glücklicher verkauf eines Kapauns und grosse tage des kühnen sohnes.

Daneben die Küche. Kanondendonner. Der Koch streitet sich mit Mutter Courage, die einen Kapaun verkaufen will.

Meu professor de Alemão trouxe-me o texto de Brecht e o segundo ato para lermos juntos na aula da semana passada. É a cena em que Mãe Coragem tenta negociar a venda de uma galinha ao cozinheiro do comandante do QG. São protestantes lutando contra católicos, em pleno século XVII. Ouve-se, ao fundo, sons de bombardeio e de tiros de canhão. Eu esperava que o Berliner Ensemble desse um tratamento mais contemporâneo ao texto de Brecht, situando a batalha em um outro período histórico e, quiça, em outro país. Não foi o que ocorreu! A apresentação foi clássica e fidedigna ao texto original, não obstante alguns artifícios tecnológicos utilizados na cenografia. As cenas são, segundo o texto de Brecht (contribuição de Elstor Petry-Losereit, meu amigo de Hamburg, Alemanha, que muito tem contribuído com os meus comentários), as seguintes:


1a. Cena
Primavera em 1624 . Mae Coragem, sua carroca e seus tres filhos. Dois rapazes e uma menina moca, seguem  um regimento. Sao detidos por um Oficial e seu Ajudante, eles querem contratar os rapazes como soldados para um proximo combate na Polonia. Mae Coragem nao está de acordo, entoa uma cancao e nela apresenta-se como negociante de grande perícia. Mostra seus documentos e conta que seus filhos foram gerados por homens diversos, durante sua jornada pelos países em guerra. O Oficial a distrae mostrando interesse na sua mercadoria, ela nao nota os sinais da filha que é muda. O Ajudante desaparece com seu filho mais velho chamado Eilif.

2a. Cena
Mae Coagem está negociando o preço de um frango com o cozinheiro do regimento e ouve o Comandante louvando seu filho Eilif que com perícia roubou gado dos camponeses. A mae assustada e preocupada, dá um tapa na cara do filho. O espectador paraleamente pode ver a cena na cozinha e na sala do Comandante.

3a. Cena
Passados tres anos, o segundo filho de M.C. Schweizerkas é Quartel-Mestre. Era assim o responsável pela caixa do regimento. M.C. encontra-se com Yvette Pottier a prostituta do regimento, que lhe conta de sua vida. (cancao da confraternizacao) Em seguida, o cozinheiro e o pároco-militar discutem sobre a situacao política. A conversa é interrompida por tiros e o som de tambores. Um ataque inimigo. No entrevero M.C. procura salvar seus filhos, esfrega cinza na cara da filha para esconder sua beleza. Pede ao filho jogar fora a caixa com o dinheiro, ajuda o pároco a se esconder. Às pressas tira a bandeira do regimento de sua carroca. O rapaz quer salvar a caixa com o dinheiro e é descoberto por soldados poloneses que o prendem e o torturam. O pároco entoa uma cancao “Paixao de Cristo” , visando ao sofrimento do pobre Schweizerkas. M. C. procura vender seus bens para poder regatar seu filho, mas a negociaçao é prolongada demais e o filho é executado. O morto é apresentado  a M.C. que afirma nao conhece-lo para salvar sua própria vida.

4a. Cena
M.C. está indignada e quer pedir uma indenizacao pelos estragos que os soldados causaram em sua carroça à procura da caixa com o dinheiro do regimento. Ela canta a cancao da “Grande Capitulacao” para dar ênfase à profunda resignaçao dos dois partidos religiosos que de ambos os lados só perderam. O refrao da cançao: “o homem pensa: Deus guia” (der Mensch denkt: Gott lenkt) demonstra o distanciamento da religiao, da ideologia de guerra.

5a. Cena
Passaram-se dois anos. Neste tempo,  M.C. e sua filha Kattrin cruzaram parte dos territórios da Polonia, da Baviera e da Italia. As duas fazem parada num vilarejo totalmente destruído. M.C. oferece cachaca aos poucos moradores que sobreviveram. Nisto aparece o pároco que pede tiras de linho, para fazer curativos nos feridos. De início M.C. se nega, mas finalmente entrega as tiras. Kattrin arriscando sua vida, salva um bebê de dentro de uma casa que está prestes a desabar.

6a. Cena
É 1632, a vivandeira e sua filha acampam às portas da cidade de Ingolstadt. Kattrin é mandada à cidade para comprar nova mercadoria. O pároco procura  intimidade, mas M.C. se recusa. A jovem retorna das compras com um ferimento horrível no rosto,; foi assaltada, mas nao entregou a mercadoria. M.C. está decepcionada e perdeu a esperança de um dia poder casar a filha. Qual o homem que vai querer uma muda de rosto desfigurado? E  amaldiçoa a guerra.

7a. Cena
A antítese do final da sexta cena segue imediatamente com o início da setima cena. Com a frase: Eu nao deixo que vocês me ponham bicho na guerra (ich lass mir von euch den Krieg nicht madig machen) M.C. está satisfeita com a relativa riqueza angariada, graças à guerra. Entoa uma cançao que conta de sua vida como vivandeira. E seguem de um lugar ao outro com o regimento; junto na carroça também vai o pároco.
8a. Cena

O rei da Suécia, Gustavo Adolfo,  é ferido no campo de batalha e morre.  Ao longe ouve-sem os sinos. Em seguida espalha-se a notícia da paz. O pároco novamente veste sua batina. M.C. em conversa com o cozinheiro do regimento conta que agora está completamente arruinada, pois o pároco a tinha convencido de comprar mercadoria em demasia que agora no tempo de paz perderam seu valor. O pároco briga com o cozinheiro, pois tem medo de perder a companhia da vivandeira que tinha lhe proporcionado uma boa vida. Ela amaldiçoa a paz. Yvette que há cinco anos é viúva de um oficial, transformou-se numa matrona; acompanha M.C. à cidade onde querem vender às pressas a mercadoria antes que esteja totalmente desvalorizada.
Durante a ausencia de M.C.,  soldados chegam com Eilif, que recebeu uma última oportunidade de se despedir de sua mae. Ele tinha continuado a assaltar e a matar, afirmando que nao sabia que era tempo de paz. Ele é executado antes da mae retornar ao acampamento. Ela nao vendeu sua mercadoria, pois na cidade soube  que em breve a guerra continuaria. O cozinheiro nao lhe contou da execucao do filho. Segue a viagem com ela, no lugar do pároco.

9a. Cena
É outono de 1634 e a guerra já dura dezesseis anos; os Estados alemaes perderam a metade de sua populaçao e estao completamente devastados. M.C. junto com a filha e o cozinheiro mendigam para poder sobreviver. O cozinheiro soube que sua mae foi vítima da colera e que tinha herdado uma pequena bodega. Ele que está cansado desta vida inquieta anima M.C. a ir junto com ele. Ela de início está entusiasmada, mas quando soube que deveria ir só, sem a filha, resoluta coloca-a junto com as tralhas na carroça e segue viagem sem o cozinheiro. A carroça , a filha e a guerra sao sua vida.

10a. Cena
M.C. continua seguindo o regimento. Os soldados estao desmoralizados, emagrecidos, o que sobrou dos uniformes sao apenas farrapos. Passam por um casebre, de dentro ouvem uma voz cantando, louvando a segurança e a felicidade de ter um telhado sobra a cabeça.  Mae e filha param, ouvem a cancao até o fim e seguem em silencio.

11a. Cena
Janeiro de 1636, M.C. acampa na cercania de Halle, no patio de um camponês. Ela afasta-se do lugar à procura de mercadoria. Um oficial e dois soldados  das tropas imperiais invadem a propriedade e querem obrigar o camponês  a dizer onde podem entrar na cidade despercebidos. Kattrin ouve as ameacas, sente o perigo, agarra um tambor, sobe no telhado da casa e o bate com veemencia. Os soldados tentam impedir a jovem, mas sem exito; um dos soldados atira e a fere mortalmente. A valente açao de Kattrin custou-lhe a vida, mas os habitantes da cidade alertados puderam se salvar.

12a. Cena
Na manha seguinte, M.C. volta com as mercadorias  que conseguiu. Encontra a filha e custa a acreditar que ela está morta. O camponês recebe uma quantia de dinheiro para sepultar o corpo de Kattrin. M.C. segue só, em sua carroça, junta-se às tropas suecas. Canta a terceira estrofe da cancao da 1a. cena, na esperança de que, pelo menos, Eilif  vivo.


domingo, 26 de agosto de 2012

BERLINER ENSEMBLE, DE BERTOLD BRECHT, NO 19º 'PORTO ALEGRE EM CENA' DE 2012

(hoje alcançando mais de 11,2 mil acessos aos meus posts!)

Lembrei-me agora de meus amigos Elstor e Rainer, que vivem em Hamburg: como seria bom se eles pudessem me acompanhar à apresentação da peça "Mãe Coragem e seus Irmãos", no Theatro São Pedro, no dia 8 de setembro. Anotei em minha agenda que hoje, dia 26 de agosto, os ingressos seriam vendidos pela WEB a partir das 8h, pelo site do Ingresso Rápido. Quase esqueci-me disso, mas, por volta das 13h15, consegui comprar o penúltimo ingresso para o camarote do segundo andar do Theatro São Pedro, de Porto Alegre (foram vendidos 12 mil ingressos para os espetáculos do Porto Alegre em Cena deste ano até o dia de hoje!). Estou contente com isso! Essa peça é muito famosa! Eu vi uma montagem em São Paulo, há muitos anos atrás, e estou ávida para assisti-la em setembro, agora realizada pelo grupo teatral remanescente de Brecht, a Berliner Ensemble, fundada em 1949. A peça em questão foi escrita em 1938, quase que às vésperas da explosão da Segunda Guerra Mundial. No texto, a anti-heroína Ana Fierling, apelidada de 'mãe coragem',  passa o início da guerra empurrando seu carroção, vendendo roupas, bebidas e comida aos soldados para poder sustentar seus três filhos. O período histórico é o da Guerra dos 30 Anos, que ocorre entre 1618 e 1648, na Europa. Logo depois, Ana fica apenas com a filha, Kattrin, que é muda, uma vez que os filhos homens são recrutados. Ruth Escobar produziu essa peça, na década de 60, com Lélia Abramo no papel de "Mãe Coragem", e seu marido, Alberto D'Aversa, na direção. Sérgio Ferrara também a montou em São Paulo, em 2002, com Maria Alice Vergueiro no papel principal e adaptação de Alberto Guzik. O saudoso ator, tradutor e diretor Fernando Peixoto, que faleceu neste ano em Porto Alegre, e que tive a honra e a alegria de conhecer nos idos de 80, quando eu era aluna da UFRGS, época em que prestigiava com afinco o teatro e a produção cinematográfica locais, foi ligado ao Teatro Oficina de SP e participou como ator das montagens de "Galileu Galileu" e "Na selva das cidades", ambas de Brecht, com direção de Zé Celso Martinez Corrêa. Depois disso, Fernando sai do Teatro Oficina.  Antes das montagens, Fernando Peixoto e Zé Celso assistiram juntos à atuação do grupo Berliner Ensemble, em Berlin, e voltaram ao Brasil cheios de ideias para montarem versões do teatro épico de Brecht. Vou conferi-lo em 8 de setembro, com o TSP lotado. Comentarei as minhas impressões depois, por aqui. Boa semana a todos!

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

COISAS QUE AINDA ME SURPREENDEM: POLÍTICA E ARBITRARIEDADE!

Na segunda à noite, dia 20 de agosto de 2012, cheguei rapidamente em casa, vinda da universidade. Eu havia terminado de ministrar uma aula sobre a religião Jaina, na Índia, e o sentido profundo que os jainistas concedem ao termo em sânscrito "maya", ilusão. Ao final da aula, solicitei aos meus alunos do curso de Relações Internacionais que fizessem uma reflexão e escrevessem como a sabedoria jaina, de um modo geral, a hindu, permeou alguns relevantes episódios históricos, inclusive, da política internacional. O mais notório, para mim, foi a assinatura do tratado de não-agressão entre União Soviética e Alemanha, antes do irromper da Segunda Guerra, além do golpe que Hitler deu na Polônia. A vida fenomênica, esta vida terrena em que vivemos e sofremos, é a expressão do "véu de Maya". Schopenhauer já sabia muito bem disso no primeiro quartel do século XIX, na Alemanha. 'Maya' é o que vivemos em relação a muitas pessoas, quando imaginamos que elas aprenderão conosco, em um lapso de tempo, ou que nossos exemplos, mais que palavras, serão um paradigma para as suas existências. Retomando, minha pressa, na segunda à noite, devia-se ao fato de que eu queria ouvir e ver o Diogo Mainardi, no "Roda Viva" da TV Cultura, ao vivo. Apreciei suas ácidas reflexões, remontando à época de sua coluna na revista "Veja" (quando eu ainda lia esse veículo!), que lhe renderam muitos desafetos e ações judiciais. Apadrinhado por Ivan Lessa, na verdade, falecido neste ano em Londres, lembrou-me as falas despudoradas e a atitude conservadora de Paulo Francis, que completaria 80 anos em 2 de setembro, se tivesse mantido uma vida saudável. Quando Francis faleceu, ele ainda assinava uma coluna semanal no 'Estadão' e em um outro jornal, do qual não me recordo agora. Ouvi algumas das maledicências resgatadas pelo Mainardi e a descrição do que foi a malograda vinda de Gore Vidal ao Brasil, em 1987, também recentemente falecido,  repleta de amadorismos. O jornalista contou alguns episódios, sobre as ações judiciais impetradas contra si, comentou a mudança da família para Veneza e falou no filho Tito, portador de necessidades especiais. O livro sobre o caso, intitulado "A queda",  já foi lançado no Brasil. O que me surpreendeu foi que, de posse de uma atitude de descaso com a política nacional, e seus séquitos, incrédulo em relação à esquerda e à direita no cenário brasileiro e com o desfecho do julgamento dos réus do "mensalão", desvelou uma postura doce e humanista, considerando a vivência com seu filho Tito, portador de paralisia cerebral, decorrente de erro médico. Quanto às arbitrariedades, que eu gostaria de comentar, há alguns dias ocorreram a declaração formal de concessão de asilo político a Julian Assange, confinado na Embaixada Geral do Equador, em Londres, a pena de dois anos para as três integrantes da banda punk russa "Pussy Riot" e a migração de todos os perfis do Facebook para o formato "Timeline". Primeiramente, o presidente de um governo democrático sulamericano, do Equador, concede asilo político ao fundador do Wikileaks, que se encontra nas dependências da Embaixada Geral do Equador, localizada em Londres. O governo britânico já ameaçou invadir área, que, a rigor, está protegida pelos tratados internacionais como zona imune a qualquer tipo de ação arbitrária de parte do governo que a abriga geopoliticamente. Assange não pode ser extraditado, para os  EUA, porque pode morrer, todos sabem disso, em função de ter protagonizado o vazamento de documentos ultrassecretos. Basta ler um excerto do relatório da Anistia Internacional do ano passado, reportando-se às ações contra os direitos humanos em solo americano, para se entender que as coisas por lá não andam bem já há muito tempo. Se algo ocorrer com Assange, certamente haverá uma enorme represália em rede, de parte de países democráticos contra o Reino Unido. Vamos ver o que vai rolar até o final do mês de agosto. Em relação à pena que as integrantes da banda "Pussy Riot" receberam, em 17 de agosto último, após cinco meses de prisão, por conta de sua manifestação musical anárquica no altar da grande Catedral da Igreja Ortodoxa em Moscou, contra Vladimir Putin, ocorrida em 21 de fevereiro deste ano, não há mais muito o que dizer. É óbvio que houve muitas manifestações na Rússia, das quais sequer ouvimos falar, naquele mês, uma vez que o patriarca ortodoxo de Moscou e da Rússia pediu votos para Putin, às vésperas das eleições, em março deste ano. Um escândalo! Assim, a pena divulgada pelo tribunal russo não condiz com a ação das garotas punk e o resultado fala muito mais do governo de Putin, e a falta de liberdade de expressão no país, que propriamente da banda, que alçou  muito mais que 15 minutos de sucesso na mídia internacional e nas redes sociais. O 'casamento' entre Estado e Igreja na Rússia está rendendo rica matéria-prima para os analistas de política internacional. Por fim, o sistema operacional do Facebook, na quinta passada, dia 16 de agosto, transformou, automaticamente, meu perfil (e acredito que mais alguns milhares), dispondo-o de um modo diferenciado graficamente, com textos entrecortados à direita e à esquerda, com meus dados sumários no cabeçalho superior e um papel de parede, também na margem superior, no qual eu deveria lançar uma foto ou uma ilustração. Acredito que, pelo texto do box automático, gerado pelo sistema, quando da transformação, até o final de agosto, todos os milhões de perfis terão o mesmo fim. Para registrar a minha indignação, pela ação arbitrária da administração do Facebook, que não concedeu aos seus usuários a chance de ainda permanecerem com o lay-out antigo, gostaria apenas de descrever como me senti, vítima de uma violência desse tipo: se eu fosse de origem judaica, como vários amigos queridos que possuo, eu diria que me acordei na quinta-feira e constatei que minha loja, no distrito comercial de Berlin, havia sido destruída - e uma estrela amarela reluzia na parede externa de meu patrimônio; ou que me acordei de manhã, na quinta-feira, e um enorme muro, de aproximadamente três metros de altura, passara a existir a uma quadra do edifício de meus pais, na RDA, no ano em que eu nasci: 1961.  Obrigada pela atenção, meus amigos, alunos e ex-alunos!

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

DICIONÁRIO À LA FLAUBERT

Lendo a maravilhosa fortuna crítica do inglês James Wood sobre a obra de Paul Auster (no blog do Instituto Moreira Salles), hoje, talvez,  um dos maiores escritores norteamericanos (não concordo com alguns de meus amigos escritores/tradutores de Curitiba, que afirmam que o pole position é Thomas Pynchon!), deparei-me, depois de muitos anos, com a referência ao dicionário que Flaubert escreveu, com um humor irretocável, sobre as ideias "prontas" ou "feitas", que eram pedra-de-toque da sociedade burguesa do século XIX na qual viveu. Há várias traduções em língua Portuguesa. A mais atual que conheço saiu em 2007, pela Estação Liberdade, do RJ. O dicionário estava reservado para a segunda parte da obra inacabada intitulada Bouvard e Pécuchet. Lembrei-me deles, porque esses personagens tratam-se de escreventes ou copistas, que sonhavam em poder ter tempo e renda suficientes para dedicar-se à vida intelectual e ao conhecimento do próprio mundo - não às cópias de obras. É um sonho com o exercício não-mimético, porque a mímese escraviza deveras um professor! Um deles até recebe uma herança, em determinado momento da narrativa, não me recordo em decorrência de que, mas resolvem se mudar da cidade grande para o meio rural. Longe de mim pensar em mudar para o meio rural (eu morreria de inanição! Eu já sofro estando no interior do Estado!). Reportei-me a eles na medida em que também sonho em ler e estudar uma série de obras, que separei em julho, quando de minhas férias de inverno, mas, naturalmente, só pude ler apenas quatro textos, em uns poucos dias, porque tive de me ater às leituras para as disciplinas da universidade - com um olho na sala de aula. Todos os dias, olho para alguns livros, detidamente, que também me namoram! Olham-me de soslaio, caem no chão de modo inexplicável ou amontoam-se com minha agenda e meus esquemas de aula, que, confesso, tenho até receio de presenciar uma cópula, bem ao gosto do real maravilhoso! Preciso urgentemente de um ajudante, como Flaubert possuía, que possa organizar com humor e criatividade os meus escritos filosóficos e poéticos, sem pretensão alguma de publicá-los. Quem vai herdá-los é a minha filha, a Mirelle, já ela mesma, com seu nome afrancesado, um indicativo de meu Amor à literatura e ao cinema de língua francesa, que eu comecei a estudar com meus 14 anos. Segundo o próprio Flaubert, podemos brincar com os clichês - que abundam neste texto em sua homenagem -, mas devemos matá-los e enterrá-los depois. O convívio com os clichês exige perseverança, humildade e, sobretudo, tolerância. O que pode ser mais clichê que dar uma aula de Filosofia e tentar debater com os alunos algum tema relevante e atual, ancorado em um texto filosófico? Há uns meses atrás, comentando um episódio histórico em aula, perguntei à minha turma quem era de família de confissão luterana. Um de meus alunos, muito interessado na discussão, levantou a mão e perguntou-me "se minha pergunta tinha a ver com Luther King" (sic). Bem, engoli seco, respondi que não, não dei maiores explicações e continuei a minha aula. O problema foi a melancolia  pós-aula que me acometeu! Esse caso não se enquadraria no dicionário de ideias "prontas" ou "feitas" de Flaubert, mas eu poderia começar a anotar as 'pérolas' que são brandidas em minhas aulas e, além de catalogá-las, contextualizá-las e comentá-las criticamente. Quem sabe tenha até um certo apelo comercial?

terça-feira, 31 de julho de 2012

SOBRE O "FAUSTO", DE MURNAU

Este pequeno comentário é do Elstor L. Petry, amigo querido de Hamburg, Alemanha, e uma pessoa muito culta. Resolvi copiar-e-colar o texto do email que recebi hoje dele, 31 de julho de 2012.



"Fausto", filme mudo de Murnau.
Friedrich Wilhelm Murnau nasceu em 28 de dezembro de 1888 em Bielefeld, na Renânia do Norte – Westfalia,  e faleceu em 11 de marco de 1931 em Santa Bárbara, nos Estados Unidos.
“Fausto”  (Faust eine Deutsche Volkssage, 1926)  foi seu último filme feito na Alemanha. Tem sua base nas obras de Marlowe, Goethe e no folclore alemão. As legendas foram escritas por Gerhart Hauptmann, já na época um renomado poeta.
O filme foi lançado quando o expressionismo alemão já se encontrava em declínio. Uma superprodução da U.F.A – Berlin, com expectativas de grande sucesso, com um enorme investimento financeiro. Foi na Alemanha, lamentavelmente, um grande fracasso, ignorado pela crítica e pelo público.  O devido valor ao filme e homenagem a Murnau foram dados somente depois da 2ª Grande Guerra.
Ele foi pioneiro na contenção imóvel da câmara, surtindo efeitos especiais, criando um clima místico, notabilizado pela estilização dos cenários, dramatização e movimentos dos personagens colocados em cena. A iluminação, a decoração, o jogo dos atores, o jogo de linhas e formas colocavam peso ao drama e aos personagens. A arquitetura do vilarejo, onde tudo acontece, com seus telhados pontudos, lado a lado para economizar o espaço do terreno. No interior delas os ambientes pequenos, apurando a claustrofobia, angustiante frustração dos personagens, profetizando a epidemia de peste negra que está ante as portas. O horror acompanha a narrativa. Encontramos elementos  do expressionismo nas cenas de ruas que exprimem angústias, as feiras que simbolizam o caos da Alemanha pós-1ª Grande Guerra, as escadas são símbolo da ânsia de se desenvolver espiritualmente e materialmente. Tanto o Fausto de Goethe como o de Murnau espelham a burguesia que surgiu com a Revolução Industrial, a decadência da aristocracia, conscientização de valores como a educação dos filhos, uma boa situação financeira e a honra pessoal.

A MORTE DE CHRIS MARKER

Texto retirado do blog "Modo de usar & Co", de 30 de julho de 2012:


SEGUNDA-FEIRA, 30 DE JULHO DE 2012


Chris Marker (1921 - 2012)



Morreu hoje o cineasta, poeta e escritor francês Chris Marker. Nascido Christian François Bouche-Villeneuve a 29 de julho de 1921, começou sua carreira na década de 40, publicando artigos e poemas na imprensa francesa. No final da década, seu único romance é lançado, Le Cœur Net (Paris: Editions du Seuil, 1949). Seu primeiro filme viria em 1952, intitulado Olympia 52, filmado nos Jogos de Inverno daquele ano em Helsinki. Tornou-se mundialmente conhecido em 1962, com o filme La Jetée, que por sua vez inspiraria Terry Gilliam em seu 12 Monkeys (1995). Assim como Arthur Lipsett, já discutido aqui, o trabalho de Chris Marker é de grande interesse para o debate poético, não apenas por seus métodos compositivos no campo visual, como por sua requintada arte textual. Mostramos abaixo três importantes filmes de Chris Marker: Les Statues meurent aussi (com Alain Resnais, de 1953), em seu original francês com legendas em português; La Jetée(1962), com legendas em inglês; e o belo Sans Soleil, de 1983. Todos na íntegra.







segunda-feira, 30 de julho de 2012

PASSEIOS FINAIS E UM COMENTÁRIO SOBRE O ÚLTIMO LONGA DE LUC BESSON NO BRASIL

Fui passear hoje de manhã pela Praça Tiradentes, Gabinete Real Português de Leitura, Centro Cultural Hélio Oiticica e aproveitei para comer um 'pastel de Belém', um dos doces portugueses que mais aprecio, na Confeitaria Colombo, fundada em 1894. No início da semana, quando cheguei ao RJ, estive na confeitaria mais antiga da cidade, a Cavé, fundada em 1869, que teve à frente, até 1922, a família de Charles Cavé. À tarde, fui assistir ao sexto filme da semana carioca, uma maratona cinematográfica. Fiquei entre "Minha irmã" e "Além da liberdade", ambos em cartaz em Porto Alegre há duas semanas. Deixei-os para o fim e fiz um sorteio. Venceu o "Além da Liberdade", de Luc Besson. Fiquei, inicialmente, admirada pelo fato de ser o Besson o diretor de uma cinebiografia deste porte. Assisti, na década de 90, a cinco longas do diretor francês, como "Nikita, criada para matar", "Imensidão azul", "O quinto elemento", "Subway" e "Joana D'Arc", não sei se nesta ordem cronológica. Li sobre o filme e o enfoque que faz da ditadura sangrenta em Myanmar, ou Birmânia, que dura décadas, além de, em especial, destacar o papel importante da ativista Suu Kyi, que foi laureada com o Nobel da Paz em 1991, o que lhe rendeu visibilidade e proteção diante de sua condição de presa domiciliar pelo governo militar do país. Assisti com bastante atenção ao filme, mas não aguentei o tom excessivamente trágico da narrativa. Fiz parte da Anistia Internacional/Seção Brasil durante quase uma década, de 1991 a 2000. Portanto, acompanhei de perto, pela imprensa e pelos boletins da AI, a situação em Myanmar. Suu Kyi, personagem vivido pela atriz Michelle Yeoh (conhecida pelo longa "O Tigre e o Dragão", de 2000), no final dos 90 virara garota-propaganda dessa entidade internacional e o longa não revela esse fato, que foi determinante para que o governo militar afrouxasse em relação a algumas medidas concernentes ao partido que Kyi fundara com os líderes da resistência, à sua prisão domiciliar (que foi rigorosa durante os três primeiros anos) e às suas manifestações públicas no país. Em 2003, líderes da Anistia Internacional puderam entrar na Birmânia com visto oficial do governo militar e somente neste ano, em junho de 2012, Kyi pôde sair do país novamente, em viagem à Europa, cumprindo uma agenda iniciada em Genebra, na OIT, passando por Oslo, na sede do Prêmio Nobel, que, há 21 anos atrás, lhe outorgara o Nobel da Paz, sem condições de recebê-lo pessoalmente na época. Quem o fez foram seu marido e seus dois filhos, todos britânicos. Em Dublin, a Anistia Internacional concedeu-lhe um prêmio por sua luta pacifista em Myanmar, entregue pelas mãos de Bono Vox. Antes disso, em maio deste ano, ela assumiu, finalmente, uma cadeira no Parlamento birmanês. Em 2007, todos vimos fotos na imprensa e imagens nos noticiários da TV sobre a 'Revolução de Açafrão', iniciada por um monge, pelo término da violência no país, que acabou violentamente reprimida pelas forças militares. Assim, o que quero destacar é que não vi nesse filme os elementos políticos propriamente ditos das alianças que foram engendradas no país e que deram força à voz de Suu Kyi. Na verdade, o filme ilumina demasidamente a relação afetiva de Kyi com o marido escocês, docente da Universidade de Oxford na área de História do Tibet e da Birmânia, o que minimiza a força desta militante dos Direitos Humanos poderosa e invencível, hoje aos 66 anos. De qualquer modo, é válido conferi-lo para que se possa conhecer melhor os costumes e os aspectos dolorosos que colocaram esse país na mídia tantas vezes.
É isso! Encerrada a semana cultural no RJ! Agora, a volta ao trabalho conclama-me! Abraços a todos os meus amigos e leitores deste blog!

domingo, 29 de julho de 2012

SOBRE O LONGA "ELLES", COM JULIETTE BINOCHE

O filme "Elles", produção franco-polaco-germânica, da diretora polonesa Malgorzata Szumowska, que estreiou no RJ na metade de julho, tem como brilho a atriz francesa Juliette Binoche. Costumo assistir a tudo que Binoche faz no cinema, mesmo que o filme não seja lá muito original. No "Elles", Binoche é jornalista burguesa da Revista "Elle", que está em franco diálogo com garotas jovens, que se prostituem em Paris para levantar grana fácil, quando o filme se inicia. Uma delas é uma polonesa, há pouco na capital, que se joga na vida sem culpa. A outra, francesa legítima, parece que rende mais em suas confidências à jornalista, ao menos apontando suas diferenças com os pais, as contradições de sua vida dupla e os conflitos com o namorado, que não imagina o que ela faz nos momentos em que afirma que está trabalhando em um fast food. Não fossem apenas duas as meninas focadas nas entrevistas, talvez o roteiro do filme pudesse trazer mais substância e profundidade ao tema da prostituição. Também não se viu nada sobre o passado da polonesa e os conflitos morais, que poderiam ter surgido no processo de gravação das entrevistas. O longa tem um bom ritmo, mas, na verdade, o principal tema, também superficialmente desvelado, é a tensão que o aprofundamento da vida sexual das entrevistadas causa do cotidiano da jornalista, no convívio com o marido e seus dois filhos e o quanto uma devassa emocional vai, lentamente, corroendo aquela, iluminando sua vida tradicional e sem maiores emoções. Fui assistir a esse longa hoje, meu quinto filme no RJ, com a Dany Horta, que também o apreciou. Amanhã, assistirei ao último  dos selecionados, espero, e o comentarei aqui. Antes do filme "Elles", fomos ao Museu do Índio e à Fundação Casa de Rio Barbosa, ambos no Botafogo, onde também se encontram as principais salas de cinema de arte do RJ, providas pelo SESC. Até mais, amigos!

sábado, 28 de julho de 2012

ANTONY GORMLEY E GIACOMETTI NO RJ, TEATRO E LANÇAMENTOS NO CINEMA

(hoje meu blog completou dez mil acessos aos meus textos postados!)

Os homens de bronze de Gormley estão no RJ!!!  Hoje, o "O Globo"  publicou uma reportagem sobre a silhueta de um homem nu no topo do Edifício Cândido Mendes, defronte ao Centro Cultural Banco do Brasil, do RJ, onde a exposição, que visitei em maio em SP (confira meu comentário crítico neste blog, com quase 300 acessos), entrará aqui em cartaz em dez dias. O homem nu faz parte de uma instalação intitulada "Event Horizon", que também colocará no chão e em arranha-céus da Cidade Maravilhosa 30 homens no total, em tamanho natural e em plástico. Marcello Dantas, curador da exposição de Gormley no CCBB do RJ, já avisou o Corpo de Bombeiros do RJ, e outras divisões, que as chamadas recebidas sobre supostos 'suicidas' em prédios, no entorno do CCBB, fazem parte da estratégia de Gormley de surpreender a população - e a reação ocorreu em todas as grandes cidades do mundo pela qual a exposição "Sttil Being - Corpos Presentes" foi exibida! Também estive, pela segunda vez, visitando as peças e telas de Giacometti, agora expostas por sua fundação no Museu de Arte Moderna - MAM, no Aterro do Flamengo, do RJ. Há alguns anos eu não visitava o MAM. A última vez foi por ocasião de uma mostra das instalações de Hélio Oiticica, os Parangolés. As esculturas de Giacometti ficaram divinas nos amplos espaços das salas do MAM e uma emoção estética distinta invadiu-me quando cheguei lá, bem maior que a emoção que senti dentro da Pinacoteca do Estado de SP, em maio. Esta itinerância de grandes exposições entre SP e RJ é um alívio e um bálsamo para quem aprecia Arte, porque não podendo visitá-las em uma capital, pode-se, na outra. Na quinta à noite, fui ao teatro na companhia amorosa de minha amiga gaúcha, Daniele Horta, a Dany, que há alguns meses decidiu viver no RJ (decisão muito acertada e apoiada por mim!). Assistimos ao espetáculo "O Outro Van Gogh", com direção de Paulo de Moraes, um monólogo, a rigor, interpretado por Fernando Eiras, no auge de sua carreira teatral, que reproduz as cartas trocadas entre Theo e Vincent Van Gogh. Fiz a revisão dos originais dessas cartas, que saíram pela LePM, de Porto Alegre, há mais de 20 anos. Assim, eu tinha familiaridade com o tom e a atmosfera das missivas. Em um pequeno teatro do Botafogo, o Poeira, ao lado de outro, o Poeirinha, investimento de Marieta Severo e Andreia Beltrão, pudemos acompanhar 60 minutos de uma intensa interpretação dramática, com recursos interessantes, como a projeção de imagens no chão do espaço cênico - e não em uma tela ou na parede de fundo tradicionais! Muito legal! Por fim, tenho de comentar aqui mais dois longas, que entraram em cartaz ontem no circuito de cinemas do RJ - e que eu não poderia ir embora sem conferi-los: "O Moinho e a Cruz" ("The Mill and the Cross"), do polonês Lech Majewski, com base em uma tela de Pieter Brughel, o Velho ("Ascent to Calvary - 'Ascensão ao Calvário', de 1564, que se encontra no Kunthistorisches Museum in Vienna); e "Aqui é o meu lugar", do diretor italiano Paolo Sorrentino, inspirado no lay-out de Robert Smith, do 'The Cure', e com a trilha concebida por, nada mais, nada menos, que David Byrne, ex-Talking Heads e grande produtor musical. O primeiro, de menos de 90 minutos, é um legítimo passeio por uma seção museológica de telas flamengas. O filme é impressionante na reprodução da atmosfera do século XVI, das cores, da imagética, das texturas dos figurinos e da granulação das paisagens, sobretudo, da moral católica espanhola tiranicamente imposta a Flandres  - e a outras cidades dos Países Baixos. A violência contra a população de uma aldeia flamenga contrasta com a beleza da Natureza, dos perfis humanos, da luta pela sobrevivência no meio rural e da plasticidade que o personagem  de Hutger Hauer, na pele do pintor Pieter Brughel, o Velho (imortalizado como o caçador de 'replicantes', no filme "Blade Runner", de Ridley Scott, da década de 80) dá às suas leituras estéticas do cotidiano de sua aldeia, de seu folclore, dos movimentos das pás de um moinho e de uma passagem da via crucis, cenas flagradas pelo olhar atento de um grande pintor medieval. Há poucas falas no longa e algumas são de parte do narrador, mas, em meu ponto de vista, totalmente dispensáveis no espetáculo para os olhos e os ouvidos, que é "O Moinho e a Cruz"! Por fim, o quarto filme assistido na semana foi o "This Must be the Place" ("Aqui é o meu lugar"), título homônimo de uma canção dos Talking Heads, banda dos 80 que eu sempre apreciei e ainda a ouço, de vez em quando! O ex-cantor pop, protagonista do longa de Sorrentino, é o maravilhoso, na falta de um adjetivo mais adequado à sua interpretação, Sean Penn. Sem maiores comentários! Como não li nada antes de assisti-los, mas li duas críticas em casa, hoje à noite, no movies after, percebi que os comentadores revelam aos leitores  o 'elemento surpresa' desse filme. Eu não o farei e, por isso, termino aqui o meu toque, que não se trata de um comentário. Assistam a esse longa, porque o roteiro, a interpretação de Sean Penn e, em especial, a música de Byrne - fora uma 'pontinha' que o mesmo faz no filme -, constituem uma apetitosa escolha para aqueles que apreciam o cinema de Arte, constatando suas intertextualidades com os trabalhos de Win Winders e dos irmãos Cohen!

sexta-feira, 27 de julho de 2012

MÚSICA DE PRIMEIRA DA GALERA DO RIO DE JANEIRO

Continuo no RJ. Como sempre leio o JB online e, sempre que posso, compro "O Globo" impresso; assim, posso dizer que me sinto bem-informada acerca da produção musical carioca. Em 2009, o Qinho lançou seu primeiro CD, "Candura", pelo selo Bolacha Discos. Hoje comprei seu segundo álbum, "O Tempo Soa", produzido e distribuído pelo selo Oi Música, com ilustres participações como a da Mart'nália. Falando nela, seu novo álbum, "Tente Compreender", não é de samba, não, é de música alternativa. O Moska comentou em seu show no Teatro Net, na quarta à noite, que o CD dela está lindo e que teve a produção de Djavan. Nele figura uma bela canção do Moska, na primeira faixa, a "Namora Comigo". Vale a pena conferi-lo! Também comprei, finalmente, o segundo CD do Criolo, ex-Criolo Louco, que a galera daqui adora, o "Nó na Orelha", de 2011. É meio complicado encontrar esses caras aqui (imaginem no Sul!)! Tive de passar por várias lojas de CDs, já que a Modern Sound não existe mais em Copa. Que perda para todos que apreciam boa música - e uma loja à altura! Por fim, fui atrás do tal Cícero, que zoou muito pelo Facebook, até virar celebridade no Botafogo - e na cidade toda. Em tempo recorde, cem mil cópias de seu CD, "Canções de Apartamento", foram baixadas pela WEB. Daí, ele virou pop, mudou-se para um apartamento maior, vai cantar no Circo Voador no sábado e, lamento, é impossível de encontrar seu álbum para compra. Para terminar, ainda indico os últimos álbuns da Céu e da Adriana Calcanhoto. Fica meu toque! Abração a todos da Cidade Maravilhosa, aos 30 graus em julho!

quarta-feira, 25 de julho de 2012

A VERSÃO DE "FAUSTO", DE GOETHE, PELA LENTE DE SOKUROV

Estou no Rio de Janeiro de férias!!!! É a terceira vez no ano que venho para cá, agora Cidade Patrimônio Universal da Humanidade, decretada pela UNESCO na semana retrasada! Belíssima cidade, mesmo no inverno, com céu nublado, mas temperatura elevada para a estação. Já fui ao cinema, claro, hoje à tarde! Selecionei em primeiro lugar o que mais eu desejava conferir: "Fausto" (2011), de Aleksandr Sokurov, o grande diretor russo, que arrebatou o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 2011, mais conhecido no Brasil pelo longa "A arca russa". O "Fausto" é forte, sombrio e perturbador - falado em Alemão! Esse filme encerra a chamada tetralogia sobre a ilusão do poder, iniciada por Sokurov com "Moloch", de 1999, sobre  Hitler; "Taurus", de 2000, sobre Lênin; e "O Sol", de 2005, sobre Hirohito, o imperador japonês envolvido no episódio da Segunda Grande Guerra. Tive a oportunidade de assistir em DVD aos primeiro e terceiro filmes da tetralogia. O segundo, sobre Lênin, não o encontrei ainda para compra. Conheço três versões do mito medieval de Fausto: O poema épico de Goethe, em duas partes; os monólogos que constituem o "Fausto", de Fernando Pessoa; e o romance "Dr. Fausto", de Thomas Mann, dedicado ao compositor dodecafônico Arnold Schoenberg. O que mais se afasta da essência do escrito anônimo de 1587, intitulado "Faust", é a obra de Pessoa. É interessante conhecer a natureza das versões literárias para compreender a construção do roteiro do filme de Sokurov, que se inspirou diretamente nos dois volumes de Goethe. O roteiro foi escrito por Aleksandr Sokurov, Marina Koreneva e Yuri Arabov. A trilha do longa foi assinada por Andrei Sigle, colaborador em outros longas de Sukorov. O perturbador dessa versão faústica é Mefistófeles ser transformado em um bizarro 'clown', não obstante nos remeter à versão expressionista de Murnau, datada da década de 20. Amanhã, dia 25 de julho, visitarei a exposição de ilustrações de Salvador Dalí para a "Divina Comédia", de Dante Alighieri, na Caixa Cultural; irei pela segunda vez visitar as telas e esculturas de Giacometti, agora instaladas no MAM, de Assis Chateaubriand; e, à noite, com ingresso já comprado, irei ao show de Paulinho Moska, feliz e bem-vinda casualidade nestes dias quentes de inverno em que me encontro na Cidade Maravilhosa! Acompanhem, amigos, os próximos posts. Abraço carinhoso!


terça-feira, 17 de julho de 2012

AUTOFICÇÃO E 'SECOND SELF' EM "O MAPA E O TERRITÓRIO", DE MICHEL HOUELLEBECQ

Terminei de ler há pouco a novela "O Mapa e o Território", de Michel Thomas, mais conhecido no mundo literário por seu pseudônimo, Michel Houellebecq, premiado com o Prêmio Goncourt na França, em 2010. Não pude aguardar para comentar as minhas impressões. Desde que fui presenteada, em abril de 2009, com o romance "Partículas Elementares", do mesmo autor, no qual o personagem principal também é batizado Michel, pesquisador das Ciências Naturais, incapaz de administrar sua vida sensível, no sentido platônico, fiquei intrigada com a narrativa ficcional desse autor francês. Fui atrás, então, do romance "Plataforma", publicado pouco antes do 11 de setembro de 2001. Nessa época, dois meses antes da data fatídica, estive em NY e fui a várias livrarias, checando o que  figurava na lista dos best sellers de lá. Era o início da era "Harry Potter" e entre corujas e livros de bruxaria cheguei a ver o tal Houellebecq, mas não me chamou a atenção naquele momento. O mesmo Michel de "Partículas Elementares", entediado com sua vida e cético com o mundo dos homens faz um composé com o personagem principal de "O Mapa e o Território", Jed Martin, fotógrafo e artista plástico, que nos arremessa no universo do comércio da Arte, do ti-ti-ti dos críticos e jornalistas e da luta de foice dos galeristas. Ambos, Michel e Jed passeiam pelos supermercados em uma espécie de inércia de traço depressivo, que denota o desencantamento do mundo, o arrefecimento das relações intersubjetivas e o patológico magnetismo pelos produtos de consumo imediato dos personagens. Em que pese o tom ácido dos críticos em relação à obra de Houellebecq, e sua acusação de erigir uma teia ficcional insuflada pelo parti pris, a ponto de ser taxado por alguns de misógino, antissemita, reacionário e discriminatório, de um modo geral, o tipo de choque que os três romances que li me causaram assemelha-se ao produzido pela obra de Céline, particularmente, pelo cáustico "Viagem ao fim da noite", de 1932. Há certas passagens clássicas de "O Mapa e o Território" que afastam o livro da purgação de "Viagem..." e o aproximam dos "Ensaios", de Michel de Montaigne, outro Michel, sinalizando a dúvida e a atmosfera cética como o leitmotiv da criação literária de Houellebecq. Esses dois 'Michel' nasceram no mês de fevereiro e têm vários pontos em comum no sentido de retratarem com rigor e cor a natureza humana. Pode parecer bizantino de minha parte querer implicar com a crítica literária do mainstream, todavia tem fundamento retroceder ao século XVI para encontrar base argumentativa em uma tradição literária fundada por Montaigne, como os conselhos, as ponderações e o olhar humanista. Há uma passagem que me deixou pensativa, à página 164, de "O Mapa e o Território", que vale resgatar aqui. Jed conversa com o 'duplo', o próprio Houellebecq, que está sendo contratado para escrever o texto estético do catálogo da próxima exposição dali a alguns meses. Ao mesmo tempo, Jed o convence de permitir que seu retrato a óleo conste na mostra, além de ser um presente irrecusável - do artista  para o escritor. Ao final do livro, o leitor fica sabendo que essa tela chegou ao recorde de 750 mil euros. Então, a passagem é a seguinte: "(...) O que é curioso, fique sabendo (...) de um retratista se espera que enfatize a singularidade do modelo, o que faz dele um ser humano único. E é o que faço, em certo sentido, mas, de outro ponto de vista, tenho a impressão de que as pessoas se parecem muito mais do que se diz por aí, sobretudo quando faço as junções, os maxilares, tenho a impressão de repetir os motivos de um quebra-cabeça" (...). Por fim, após comprar mais de 150 guias da editora Michelin,  nosso herói concebe uma exposição a partir das ampliações de mapas e com fotos de satélite imprime os territórios sobre as esquadrias dos mesmos. Genial esta ideia para quem é escritor e não artista visual, plástico ou fotógrafo. Há um trecho em que Jed afirma que os territórios são mais importantes que os mapas. O que ele quis dizer com isso? Parece-me uma posição mais metafísica que estética! A minúcia da descrição das obras fez-me passear no vernissage com os convidados da imprensa e do mercado de arte, esbarrar em Jed, meio gauche e egoesclerosado, apreciando suas próprias fotografias, e projetar em mim o que teria sido uma fruição estética da obra ou do artista, que, na verdade, despediu-se da existência  à qual  "nunca aderira totalmente" (p. 396). Se o personagem Jed não fosse depressivo e apático - mas tivesse o perfil e a garra de um Weiwei, o artista chinês que concebeu o Ninho de Pássaros das Olimpíadas de Pequim e que, mesmo em prisão domiciliar, denuncia os abusos do Governo chinês e prepara uma belíssima instalação no Hyde Park para as Olimpíadas de Londres, que se iniciam em 25 de julho -, o final do livro teria sido bem outro!

segunda-feira, 16 de julho de 2012

ARTE E CULTURA: MÚSICA E CINEMA EM PORTO ALEGRE

Estive em Porto Alegre neste final de semana, de 13 a 15 de julho de 2012. Cheguei na sexta à tarde. À noite, estava agendada a ida ao Café Fon Fon, do Luizinho Santos e da Beth Krieger. Cheguei cedo porque eu havia reservado duas mesas com 12 lugares ao todo. Era o aniversário da Ewelin Canizares e havia um forte motivo para ela sair de casa com a família. Alguns amigos meus também apareceram e felicitaram-me pelo meu aniversário no dia 5. Estávamos ali em três cancerianos, incluindo o Zé Eckert, que havia aniversariado em 1º de julho. Ganhei vários mimos, destacando o segundo CD da banda do Luizinho Santos. Já o ouvi aqui em casa. Samba-jazz seria a categoria mais adequada para a criação musical dele. Muito bom!
Após o show do quarteto do Café Fon Fon, fomos para o Dhomba ouvir duas bandas de hardcore. Uma delas era a excelente Campbell Trio, que abriu o show da Dead Fish, no Opinião, há uns 15 dias atrás. Era o Dia Mundial do Rock e o ingrediente não podia faltar.
No sábado, assisti a dois longas: "On the Road/Na estrada" (2012), de Walter Salles, e "Para Roma, com amor", de Woody Allen (2012). O primeiro decepcionou-me! Minha filha, sentada ao meu lado, fazia caretas, mas respeitosamente acompanhou-me até o final.  Observei que seis pessoas retiraram-se da sala quando passavam 60 minutos de exibição. Li o cult  "On the road", de Jack Kerouac, em tenra idade e não o reli nunca mais, tal o frisson paradigmático que a leitura me causou. Li outras obras dos 'beats' no início dos 80 e, por isso, esperava mais desse longa, que possui, todavia, belas imagens de um 'road movie', e uma trilha condizente com o bebop  fundado no Harlem, em NY, por Charlie Parker e Dizzi Gillespie. O "bebop", como uma das vertentes do jazz, é uma onomatopeia, na verdade, que reproduzia o som metálico das marteladas dos trabalhadores nas ferrovias em construção. Quem quiser conhecer mais a fundo esse gênero e também saber um pouco da vida desses grandes músicos no período pós-crack da bolsa e pós-segunda guerra, deve assistir ao magistral documentário de Ken Burns, com 12 DVDs, que inclui duas mil fotos e 498 temas de jazz. Fantástico!
Há bons atores no "Na Estrada", com exceção, sinto comentar, de Kristen Stewart. Não assisti a nada que lembre a 'saga de Crepúsculo', mas não me desvencilhei do estigma que essa atriz carrega consigo. Prefiro, obviamente, a Kirsten Dunst e a nossa Alice Braga, que faz uma significativa ponta no filme. Quanto aos personagens masculinos, Garrett Hedlund (Dean) e Sam Riley (Sal, o próprio Kerouac), saíram-se bem: um como o dionisíaco e belo sedutor, Dean; o outro, aspirante a escritor, após ter perdido o pai, percorre sem rumo a Rota 66 com o amigo. Esse é Sal. Ainda participa do filme o ator  Viggo Mortensen, como Old Bull Lee, um cara solitário, que recebe os garotos em uma cena. Vale conferir, mas... eu avisei!
Sobre o longa do Woody Allen, o segundo da trilogia, dedicado a Roma, não o comentarei. Depois de ter lido a crônica puxa-saco da Martha Medeiros no "O Globo" de hoje, que deve ser o mesmo que figura na "ZH" dominical (que não leio), eu desisti. I gave up! O Allen já foi um dos grandes mestres do cinema, de quem recordo com carinho, quando o mesmo ainda fazia um cinema metafísico e singular, tendo em vista sua condição judaica. Hoje, seu cinema é histriônico e bom para os olhos apenas! Quem quiser rir ou rever lugarejos visitados em Roma, que vá!

sábado, 7 de julho de 2012

SOBRE O AMOR, A AMIZADE E OUTRAS FILIGRANAS

(Alcançando hoje 9 mil acessos aos meus textos do blog!)

"De todos os defeitos de caráter, a meu ver, o pior deles é a avareza ou usura. É o único que, verdadeiramente, me dá nojo!" (Alma Welt)

Lísias, no diálogo homônimo de Platão, comenta, em determinado momento da discussão sobre o amor, que "não se deve prestar favores a quem se ama". Eu já havia lido algo semelhante em outro diálogo platônico, mas, devo admitir, que não conhecia o texto "Lísias", que procurei e encontrei para o Fabiano Felten, que está com sua dissertação de mestrado em andamento e necessitado dessa obra para suas reflexões. Sou uma pessoa de bom coração e generosa, embora cética e agnóstica, mas não aprendi com meus relacionamentos anteriores e não aprendo, não consigo aprender mesmo. Continuo me doando, colaborando, amparando, correndo atrás e não meço esforços para ajudar meus amigos e a quem amo. O problema são as decepções subsequentes de parte dos que não nos valorizam, dos que usurpam o nosso nome, dos que não têm moral conosco, que se lixam para a vida alheia. Fiz 51 anos nesta semana e tive muitas alegrias com os meus verdadeiros amigos, os que estão próximos e os distantes. Laços de amizade e laços de Amor, em meu entendimento, construídos reciprocamente, têm uma representação semelhante a uma casa de joão-de-barro, cuja construção testemunho há três meses no alpendre de minha janela do quarto: o macho e a fêmea, juntos, sempre juntos, trabalham sem cessar, mas é preciso que haja chuva e condições metereológicas favoráveis para que eles possam deslocar terra molhada para o projeto de lar. Um relacionamento desafortunado é aquele de uma só via, unilateral, em que apenas um se doa, um só cultiva, um só cuida e apenas um antevê o futuro. Isso pode ocorrer em relações amorosas e de amizade, porque o Amor é um só e ele encarna entre amigos e entre amantes. A forma de modulá-lo e a produção de linguagem que cada caso exige fica por conta dos agentes envolvidos. Sou uma Amiga, com maiúscula, que fala em Amor e que age com Amor. Nesta semana, ouvi de vários de meus amigos mais antigos que eles me amam. Do mesmo modo, respondi-lhes com a mesma matéria-prima e, mais uma vez, confirmei que também lhes dedico Amor: validação de afetos! Pode parecer piegas este meu texto de hoje; todavia, é preciso que se produza linguagem sobre isso e que ela  mesma exorcize as mágoas e decepções que trazemos dentro de nós, para que novas pessoas sejam abençoadas pela nossa existência - única e insubstituível! Nada externo a nós pode nos ajudar, nada externo pode amenizar a violência de nossa tristeza e desesperança, senão o fizermos por nós mesmos, com uma força interna sublime e ancestral. Homo homini lupus, aquele que é o meu Lobo, que é o teu também, quem sabe, que aprenda a ser melhor pessoa, a cultivar amigos verdadeiros e a doar-se também! 

terça-feira, 3 de julho de 2012

"PARIS: A FESTA CONTINUOU", LIVRO DE ALAN RIDING, PUBLICADO NO BRASIL EM 2012

(texto revisado)
Terminei em junho a leitura do livro de Alan Riding, jornalista inglês, filho de brasileiros, mas residente em Paris. O Diário Regional de Santa Cruz do Sul publicou uma entrevista com o autor na semana passada. Pelo título, que faz alusão à obra de Hemingway, Paris é uma festa, não se tem muita certeza do conteúdo do texto. Todavia, através do subtítulo, "a vida cultural durante a ocupação nazista, 1940-44" já se antevê que há resultados de pesquisa documental e de entrevistas acerca de que vida cultural era possível desenvolver e desfrutar durante a permanência dos nazistas na França, quando da vigência do Estatuto Judaico, promulgado em outubro de 1940, que proibia que judeus trabalhassem na indústria cinematográfica, por exemplo. O livro contém uma tese, a de que a maior parte dos intelectuais e artistas, que alegaram, após a libertação de Paris, participar da Resistência Francesa, a rigor, não participaram do movimento, sequer das operações de salvamento, de sabotagem e de espionagem. Lendo o livro de Riding, um apaixonado pelo período da ocupação de Paris, fiquei enojada com a posição antissemita de artistas e escritores renomados mundialmente. O historiador Philippe Ariès, na época simpatizante do Action Française, um dos bizarros grupos fascistas da França, teria dito ao colega de área Jean-Louis Crémieux-Brillac, ligado a um grupo de esquerda da Sorbonne, que ele era "capaz de identificar um judeu pelo cheiro!". O fundamentalismo e o antissemitismo é que têm um cheiro fétido, em meu entendimento. Lamentável o comentário de Ariès. Céline, médico e escritor, autor dos maravilhosos livros Viagem ao fim da noite e Morte a crédito, que povoaram a minha juventude de imagens sórdidas, era, sim, discaradamente, um colaboracionista, transformando sua voz em "uma metralhadora antissemita" (p. 35) assim que retornou de uma viagem à União Soviética em 1936. Foi aí que ele aderiu ao fascismo. André Gide reagiu com incredulidade ao ler os panfletos que Céline começou a publicar na França, de caráter altamente discriminatório. O mesmo Gide também descreveu a perseguição aos estrangeiros como um "espetáculo estarrecedor, assinalando que o comportamento da França era imoral" (p. 45). Heinrich Mann, o irmão de Thomas Mann, judeus alemães, foi enviado para o campo de concentração francês Le Vernet, conhecido como o mais violento de todos, no qual os prisioneiros passavam fome e eram tratados de modo bárbaro. Koestler, em suas memórias, descreveu os tormentos passados em Le Vernet, em um livro intitulado Escória da terra. André Malraux foi ferido e capturado, mas conseguiu escapar dos alemães. Louis Aragon recebeu quatro medalhas por bravura e também escapou de ser capturado pelos alemães. A Luftwaffe conquistou a supremacia no espaço aéreo e Saint-Exupéry perdeu vários pilotos de sua esquadrilha. A ocupação de Paris ocorreu silenciosamente e a capital perdeu 60% de sua população. O chefe de Estado francês Pétain dirigiu-se à nação pelo rádio e sugeriu que a derrota francesa, contra a Alemanha, era culpa dos próprios franceses, que foram negligentes. Daí, instalou seu governo em Vichy, uma estância termal no centro da França, nomeou Laval como seu vice e abdicou do lema "Liberdade, igualdade e fraternidade" para adotar a cruzada fascista "Trabalho, família e pátria" (p. 67). Hitler, em sua única visita à cidade-luz, em 23 de junho de 1940, encontrou uma capital vazia. Encantou-se com a Ópera de Paris e por três horas passeou, acompanhado de Albert Speer, seu principal arquiteto, e de Arno Brecker, seu escultor favorito, por uma Paris vazia e silenciosa. Também visitou a Catedral de Notre-Dame, o Panthéon e a tumba de Napoleão em Les Invalides. Há, enfim, passagens muito interessantes no livro de Riding sobre o sequestro de obras de arte da França e sobre seu salvamento e saída de território francês, por força do trabalho bem-articulado da Resistência Francesa. Por fim, a parte da obra que mais me cativou foi quando Alan Riding começa a descrever as restrições ao trabalho dos judeus na França ocupada, especialmente em Paris,  no segmento do cinema. O poeta Jacques Prévert teria alertado um ex-produtor de um estúdio cinematográfico de Berlin, enviado pelo Partido Nazista a Paris, Alfred Greven, que sua causa era perdida porque "não se pode filmar sem eles (os judeus). Veja Hollywood!" (p. 227). Os judeus representavam cerca de nove mil trabalhadores na indústria cinematográfica dos 60 mil envolvidos na época. Greven acabou contratando um roteirista judeu, de sobrenome Dreyfus, para escrever roteiros para quatro filmes de sua empresa, a Continental Films, que produziu onze longas em 1941 (p. 229). Pensando em meus antigos amigos judeus, amizades bem antigas travadas em Porto Alegre, tenho a certeza de que eu não teria a formação intelectual que tenho não fossem os textos, os comentários literários, as indicações de filmes e as idas a concertos com meus amigos de origem judaica. Seu universo cultural fez diferença em minha vida. Leiam o livro e regozijem-se! Um bom presente para o  Dia do Amigo ou Dia dos Pais.

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